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BENJAMIM EM ENTREVISTA
NEWSLETTER 69 - 12 SET - BENJAMIM EM ENTREVISTANEWSLETTER 69 - 12 SET - BENJAMIM EM ENTREVISTA



“Não há outra coisa. Num mundo tão polarizado, aquilo que nos vai aproximar é o amor” 

 


Para Benjamim, o amor dá trabalho. A ideia atravessa Crónicas do Monte Zeus, um disco de canções que o leva de volta a um registo mais direto, depois da experiência de As Berlengas. Pela primeira vez, partilha a produção com João Correia e rodeia-se de músicos e amigos para fazer um disco onde as pessoas estão tão presentes como as canções. À Cultura FNAC, fala sobre esse regresso. 

 


O QUE TENS DE SABER: 

 

  • Depois do universo mais instrumental e exploratório de As Berlengas, o músico regressa à escrita de canções com uma abordagem mais direta, centrada na letra, na melodia e em arranjos mais depurados. 

  • O novo disco cruza relações, desgaste, ansiedade e resistência com uma ideia de amor enquanto trabalho diário de construção e permanência. Produzido por Benjamim e João Correia, foi gravado em fita, com os músicos a tocar juntos, e conta com a participação de Lena d’Água – e não só! 

 



 

O título Crónicas do Monte Zeus sugere uma espécie de lugar próprio. Que lugar é este que construíste neste novo disco? Guia-nos por ele. 

 

É um disco de canções, são oito canções. É um disco curto, ao contrário do meu anterior, que era demasiado longo de propósito. Este quis que fosse um álbum muito curto. E também é o meu regresso às canções, porque o disco anterior tinha poucas canções, mas era um disco muito instrumental, muito exploratório do ponto de vista sónico, quase um disco de produtor. Aqui volto a assumir o meu papel de escritor de canções. E é o meu disco mais direto de sempre. 

 

Chama-se Crónicas porque são canções que surgem em períodos diferentes, mas em que encontro uma espécie de ponto comum. Ao contrário do outro disco, que tinha um conceito um bocado psicadélico, uma história e uma narrativa por trás, mesmo que não fossem muito óbvias para quem estava a ouvir, havia uma espécie de mapa que guiava o disco. Neste, as canções foram surgindo em momentos diferentes e acabam por ajudar a contar uma história que, se calhar, é só a história dos últimos anos. É um bocado um ponto de situação. 

 

Da tua história? Da nossa história? 

 

A minha história, obviamente. É um disco muito autobiográfico, ao mesmo tempo que vive muito naquilo que nos rodeia, no presente, no nosso contexto. É um disco que surge de dúvidas, muitas dúvidas sobre o presente, sobre a ideia de trabalho, que está muito presente na temática do disco. Em algumas canções, quem ouvir o disco depois irá compreender. Mas há também esta ideia de que vivemos num mundo alucinante de música feita por Inteligência Artificial (IA), por exemplo. E eu aqui quis voltar ao lápis. Quis que fosse o disco mais do lápis e do papel. 

 

Foi assim o processo de gravação? 

 

Foi. Gravámos em fita a base da maior parte das canções. São músicos a tocar numa sala, ao mesmo tempo, e depois há músicos que vêm em coros e outros instrumentistas que vêm contribuir. A ideia foi usar o mínimo de tecnologia. Usando muita tecnologia, obviamente, porque uma gravação de um álbum exige muita tecnologia, mas tentando que a tecnologia não fosse um filtro das canções. O que interessa são as canções. A letra, a melodia, os arranjos, que são mais simples, têm muito menos tralha e menos instrumentos e teclados do que nos outros discos. De certa forma, é um bocado voltar às origens na ideia de fazer canções. 

 

Talvez por isso tenha ouvido algo dos tempos de Walter Benjamin?... 

 

Talvez, sim. 

 

É disco de passado, presente ou futuro?  

 

É um disco de presente, porque foi feito agora, não é? Do futuro, o futuro o dirá. Eu quis que fosse um bocado intemporal. Quis voltar a agarrar uma guitarra e que o disco fosse um microfone na guitarra, com recursos muito minimalistas, que é um bocado aquilo que eu tinha quando comecei a tocar. Voltar a entusiasmar-me pela ideia da canção, da música em si, e não tanto naquilo que está à volta. Hoje em dia, também, se ligarmos o rádio, acho que os artifícios muitas vezes estão à frente de tudo o resto. Eu quis que o disco fosse diferente nesse sentido, na ideia de que não vai soar, provavelmente, àquilo que vai tocar antes, até pela forma como foi gravado e pela maneira como foi feito. 

 

Lancei quatro discos antes deste, mais os discos de Walter Benjamin e das bandas que tive, e discos que produzi, e cansei-me um bocado desse processo. À medida que uma pessoa tenta reinventar-se, vai inventando mais tralha, se calhar: mais som, mais barulho, mais artifícios para distrair. E aqui eu quis mesmo que as canções não fossem para distrair, que fosse tudo aquilo que lá está, que tem só a ver com a canção. Acho que em Walter Benjamin, o disco que provavelmente estás a referir, que será o disco que lancei em 2012, tinha isso, no sentido em que eram canções de um escritor de canções. Eu sou a mesma pessoa, no fundo. Todos os projetos musicais que tenho tido ao longo dos anos vêm formar aquilo que sou hoje em dia. 

 

E sim, eu quis que houvesse também uma quebra muito grande, um contraste muito grande entre o meu último disco, que é supereléctrico, em que a voz está superprocessada, e, de repente, a minha voz não está nada processada, estou a cantar diretamente para o microfone, as outras vozes são de outras pessoas, há muito poucos truques. 

 

E é um disco onde te sentes mais livre? 

 

Sim, tenho-me sentido livre em todos os discos. Sinto-me livre e sinto-me sempre preso, porque acabamos por ficar presos um bocadinho à ideia de que existe uma liberdade inicial de começar a imaginar e a sonhar, se calhar como uma casa. E depois, de repente, temos de acertar as nossas ideias com os cantos da casa, com o sítio onde está a porta e o armário. Este armário vai ter de caber aqui em algum lado. Existe depois o constrangimento da execução, que faz parte e que cria bastante ansiedade, devo dizer. 

 




 

Este disco é editado mais ou menos dois anos depois de As Berlengas. Hoje tens mais ou menos pressa em fazer canções? 

 

As Berlengas, lá está, não eram propriamente canções. Foi um período que passei em que estava mesmo farto de canções e do formato de canção e tinha produzido muitas coisas. E estava mesmo com muita saudade de escrever canções. 

 

Tenho pressa. Tenho urgência para que as canções saiam, mas, ao mesmo tempo, sou uma pessoa que escreve muito lentamente. Demoro muito tempo a escrever canções. Talvez por isso é que estava farto de canções antes, porque, realmente, as canções... Não faço exercícios de estilo ou retórica. Não vou escrever uma canção sobre o caracol ou outra coisa qualquer que esteja na janela. Se estou à procura de uma canção, ando à procura de algo que vai sair daqui dentro, que tem muito suor, que tem algum sangue, se calhar. Mas, ao mesmo tempo, os músicos vivem sempre a própria economia do trabalho. Sou músico, a minha profissão é ser músico. Sou um operário, exatamente. A primeira canção chama-se "Amor Operário". É sobre o trabalho, sobre onde é que estou na minha carreira. Tenho de lançar um disco, tenho de fazer canções. Não sou capaz de fazer canções. O que é que é escrever canções num mundo que parece estar permanentemente a desabar à nossa volta? E, ao mesmo tempo, como oferecer esperança? 

 

As canções são um sítio de esperança e um sítio onde vou para acalmar essa ansiedade. É uma pescadinha de rabo na boca. Uma pessoa está com pressa para lançar canções, ao mesmo tempo que as canções servem para nos desacelerar, para vivermos dentro daquele universo e mergulharmos dentro dele. Requer tempo. Fazer um disco requer imenso tempo. Mas, ao mesmo tempo, também tenho imensa vontade de partilhar as canções com as pessoas e de voltar a ter o entusiasmo de acabar uma sessão de estúdio com amigos meus, passarmos um dia inteiro a gravar uma canção e pensar: eu adorava lançar isto amanhã e mostrar às pessoas. 

 

Este é um disco de amor. Porquê? 

 

O amor dá muito trabalho, como diz a canção. Acho que é o que nós mais precisamos hoje em dia. É o amor. É aquilo que nos vai salvar enquanto humanidade. Não há outra coisa. Num mundo tão polarizado, aquilo que nos vai aproximar obrigatoriamente é o amor, a empatia. 

 

Ao mesmo tempo, escrevo sobre isto mas, na minha vida pessoal, também é isso que procuro. Nestes últimos anos aconteceram várias coisas na minha vida que nem sei se interessa muito estar a falar sobre elas, porque quero que o disco tenha uma dimensão universal. Aquela é a minha história, mas, ao mesmo tempo, quero contar uma história que tenha uma dimensão universal. Quero trazer uma ideia cá para fora. Não estou a falar sobre as minhas férias. É uma ideia mais universal daquilo que estou a sentir e sei que muitas pessoas também o estão a sentir, seja a procura do amor, seja o desamor, seja a solidão. Quis muito claramente que, quando falasse de amor, fosse direto. Há muitas vezes a expressão amor, há a expressão amar, e eu quis que fosse assim, sem estar sempre a criar uma grande metáfora à volta. 

 

Quis que, quando falasse de amor, fosse direto. Porque estamos a precisar, o mundo está a precisar de amor. Seja o amor entre duas pessoas, o amor romântico, seja o amor à amizade, à proximidade, de sentirmos amor pelos outros... 

 

Empatia. 

 

Também é uma forma de amor. 

 

Foi com bastante amor que Hugo van der Ding escreveu um texto que acompanha o lançamento do disco. Como é que se dá esse encontro? 

 

Foi muito natural, porque o Hugo é meu amigo e comecei a trabalhar com ele. Muitas vezes convidam-me para ir tocar num espetáculo que ele faz ao vivo, que lá vamos todos morrer. Agora também vou fazer um espetáculo com ele, um novo podcast que tem, com o Tiago Ribeiro. É uma pessoa por quem tenho o maior respeito intelectual, a maior admiração enquanto artista, enquanto criador, enquanto amigo, enquanto pensador. Sou um fã de todo o output criativo dele. Acho que é a pessoa, em Portugal, que mais... Eu não sei como é que aquela pessoa, aquele homem, tem capacidade para tanto. 

 

E dono de uma belíssima gargalhada. 

 

Pareceu-me muito natural pedir-lhe para escrever sobre o disco. Acho que era uma pessoa com quem podia estar intimamente a mostrar músicas inacabadas. Porque, quando ele pediu para escrever sobre o disco, basicamente não tinha canções fechadas. 

Tive uma conversa com ele sobre a ideia do disco e é engraçado porque isso ajudou-me. Muitas coisas que ele me disse, se calhar, ajudaram-me a acabar as canções. 

 

Portanto, mesmo este processo tem esta ideia do trabalho muito humano: em vez de estar a fazer prompts ou a tentar ir à procura de output numa IA, procurar esse output na opinião das pessoas, no que as pessoas dizem, e perder uma tarde numa conversa com essa pessoa. 

 

No fundo, não foi sempre assim que vivemos em sociedade? 

 

Foi sempre assim, mas sinto que cada vez menos. Muitas vezes é muito prático. Se estás a gravar com uma banda, por exemplo, gravo a bateria em casa, mando as pistas... Uma coisa que fiz muita questão foi que, neste disco, toda a gente tivesse de vir aqui ao estúdio. Temos de falar, temos de nos encontrar, bebemos um café, uma cerveja, gravamos, rimos, mudamos coisas. Esse diálogo aconteceu com o Hugo e aconteceu com todos os músicos, com todas as pessoas que estiveram envolvidas nisto. 

 

E quem são? 

 

Para já, uma pessoa muito importante é o João Correia, que no meio é conhecido como Joca, que é o meu baterista, que também toca em Tape Junk e que toca com imensa gente — com o Palma, Bruno Pernadas, etc. Ele produziu este disco comigo pela primeira vez e foi muito importante na produção do disco. Depois, o Nuno Lucas, que tocou baixo. O António Vasconcelos Dias fez coros e toca comigo ao vivo. A Raquel Pimpão também costuma tocar comigo ao vivo. O Manuel Pinheiro toca percussões. O Zé Soares, que é um super saxofonista e um grande amigo meu, gravou vários saxofones no disco e fez uns arranjos lindos. O Bruno Pernadas, que é um grande amigo meu e que gravou o álbum do Walter Benjamin, chegou a gravar guitarras num tema e aqui voltou a gravar uma guitarra nos "Dias do Nada". A Mariana Ricardo, com quem também tenho tocado ao longo dos anos. A Rita Cortezão, a Margarida Campelo, a Inês Sousa, o Afonso Cabral, o Tipo, o Velhote do Carmo...  

 

Duas pessoas muito engraçadas e improváveis, um casal que conheci no Alentejo. Estava a acabar o meu disco. Acabar um disco é uma fase de muita pressão, porque tens de acabar de misturar o disco, tomar as decisões finais, fazer os edits finais, garantir que os takes são aqueles, regravar vozes... Tinha uma música em que, basicamente, deitei a letra toda fora. A melodia do verso e do refrão ficou, mas até à última hora tive de acabar a canção. Tive de reescrever a canção num dia. Fui para o Alentejo, depois de ter estado no estúdio muitos meses, e instalei-me lá só com o computador e o mínimo de equipamento possível para poder acabar o disco. Tinha de gravar os coros desta música e conheci um casal. Ele é espanhol e ela é portuguesa. Estavam a viver em Inglaterra e foram viver para o Alvito, para o Alentejo. Eles têm vozes incríveis e liguei-lhes: "Acham que podiam vir cá às seis e gravar alguns coros?", que eu já ouvi a Maria... E, portanto, também esse lado informal e aventureiro do disco, de ser num momento... Aquilo é impossível de acontecer de outra maneira. Convidei-os para virem cantar e foi lindo. Foi uma sessão em que eles limparam a canção na boa. 

 

E que música é essa? 

 

Chama-se "Viver, Viver e Amar". É a penúltima canção do disco. Era uma canção que estava mais instalada. Não sei se me esqueci de alguém, espero que não. 

 


 


 

Como é para o produtor ser produzido? 

 

É difícil, mas é bom também. Sou completamente OCD, não é? Portanto, todos os detalhes... Estive sempre com o Joca e ele também é OCD. Somos os dois e já trabalhámos muitas vezes juntos. Já existe uma dinâmica de trabalho, uma confiança plena, uma tolerância um ao outro nas discussões. Porque há discussões. Há frustração, há desencontros e há encontros. E há muita tensão.  

 

Isso é muito importante para mim, mais do que enquanto produtor, enquanto artista. Não era o ‘eu’ produtor que precisava de um produtor. Era o ‘eu’ artista que precisava de um produtor que não pode ser a mesma pessoa. Ou que não devia ser a mesma pessoa. Aliás, essa é a definição de um produtor. É alguém que está de fora. Muitas vezes tive de produzir os meus discos porque não havia sequer budget para fazer um disco. Portanto, tive de me safar e fazer. Mas foi bom, claro que foi bom. Foi questionar as coisas que fazia, mudar de método, ir para um hotel durante dois dias só para resolver letras e escrever, e ainda encontrar-me com ele lá. Não estarmos no estúdio, sabe? Uma coisa que fizemos pela primeira vez. Foi: uau, isto realmente funciona. Estarmos no bar do hotel à uma da manhã, com um caderno. A olhar para o mar. Foi bom. 

 

Deixa-me só dar aqui um passo atrás na conversa porque, sim, esquecemo-nos de uma pessoa: Lena d'Água

 

Sim, a Lena d'Água. Que faz um dueto comigo. É o único dueto do disco. Aliás, é o único dueto... Não. O meu primeiro disco tem um dueto com o A.P. Braga. A Lena, obviamente, com quem tenho uma história muito longa também... Tinha uma canção que se chama "O Fim da Greve" e faltava-lhe alguma coisa. Estava a falar com o Joca e ele disse que devia fazer isto com a Lena. E eu, claro, ‘bora. Convidei-a e ela aceitou logo. Mas tenho uma relação com ela. Trabalhei com ela num disco, Desalmadamente, fui um dos produtores. Toquei na banda dela durante bastantes anos, ao piano. 

 

O que é que a Lena trouxe à tua forma de fazer música? 

 

Há uma influência. Sou um fã da Lena há muitos anos. Ela sabe isto. A maneira como nos conhecemos foi muito engraçada. Quando lancei o meu primeiro disco, no Facebook havia uma coisa para dizer as tuas influências. Eu tinha o Duo Ouro Negro e a Lena d'Água. Ela ouviu uma canção minha que é inspirada nela. Há um beat na canção que é um tributo ao Sempre que o Amor Me Quiser, com uma batida parecida, que é uma coisa muito icónica. Ela ouviu essa canção na Antena 3 e mandou-me uma mensagem no Facebook a dizer: "Olha, adorei a tua canção. Vim a ouvir no carro, no meu Volkswagen Polo." A minha carrinha é uma Volkswagen Golf, passo a publicidade.  

 

Mesmo esta coincidência da marca no carro foi engraçada... Foi ao Facebook, viu que eu a tinha citado como influência e obviamente ficou feliz. E depois fez-me um mapa astral. Desde aí somos amigos. Fizemos muita coisa juntos, fazemos muito trabalho, do qual me orgulho muito. Adoro tocar com ela ao vivo. Acho que é uma das grandes intérpretes deste país. Tem uma voz magnífica, canções lindas, trabalhou sempre com grandes compositores. Tenho o maior respeito pela carreira. Portanto, ter a Lena d'Água não é um convite só de "vamos arranjar alguém para fazer um dueto neste disco". Existe uma história com a Lena, há muitos anos. Foi tão natural fazer isto, passar uma tarde com ela no estúdio e gravar. 

 

Vou partilhar contigo: antes de chegar à música com a Lena d'Água, eu já a sentia neste disco. Fez-me todo o sentido quando a ouvi a cantar. 

 

Mas por causa do Desalmadamente? Ela é uma grande influência.  

 

Não só da Lena, senti também de outros músicos. 

 

Há citações. Há uma citação a Jorge Palma, nesta canção d’"O Fim da Greve". Existe Sérgio Godinho.  


Acho que não vais levar a mal se eu disser outros músicos. O Samuel Úria, por exemplo. O Tiago Guillul, todo o universo da FlorCaveira. Talvez, pelos coros, me traga essa sonoridade à memória. 

 

Muito Úria. Toquei no giro da FlorCaveira quando foi no Sudoeste. Fiz uma versão do Tiago Guillul quando ele lançou o 4. Toquei com o João Coração e ajudei-o, fiz alguns arranjos para algumas canções. Portanto... Com o Fachada. 

 

Também o B Fachada, sim. 

 

Isso tudo faz sentido. Faz parte do ADN da minha música. Todos os meus amigos. Podes ouvir o Pernadas também. Ele está lá a tocar. Por acaso, perguntei ao Fachada se ele não queria fazer uns coros e ele disse que estava a fazer um disco novo. Não posso dizer isso... Spoiler! Mas não queria ouvir música. Portanto, não fez. 

 

Perguntava logo de início se este era um disco de passado, presente ou futuro por isto mesmo. Talvez seja pela razão que explicaste, por esse regresso ao formato de canção, à canção direta...  

 

Estás a ouvir isso tudo. Todas as pessoas que citaste são influências para mim. Portanto, elas estão lá. Acho que toda a gente com quem trabalhei está um bocadinho presente. 


Com uma ou duas exceções... Estou a brincar, está presente, claro que sim. Todos os músicos que são os meus pares, todos com quem trabalhei. Porque trabalhei com esses todos que citaste. Só não trabalhei com o Sérgio Godinho, nem com o Jorge Palma, nem com o Zeca Afonso, que também está presente — e esteve sempre — nos meus discos. 

 

Acho que a música tem isso. Tem esta coisa. Acho que é a única arte... O cinema também, o cinema também tem isso, mas pintores... Quando se contam artistas plásticos, não costumam estar a pintar numa tela juntos. Os músicos tocam ao mesmo tempo. Nós escrevemos canções e tocamos canções uns dos outros, cantamos nas canções uns dos outros e vamos aprendendo os acordes. Portanto, tudo isso vai fazendo parte. Uma argamassa que vai fazendo, também, aquilo que é a música portuguesa hoje em dia. E, ao mesmo tempo, obviamente, tendo uma visão original sobre a música.  

 

Não estou a dizer que é uma colagem. 

 

Sim, mas isso faz parte. E mesmo em alguns discos samplei cenas de músicas portuguesas. E lá está, existem citações dentro das canções. "Os cambiantes do sabor". Usei essa expressão numa canção. É uma expressão do Jorge Palma. Podia ter posto entre aspas - não pus. Quis apoderar-me da expressão. Mas obviamente que é uma citação. 

 

Mas isso faz-se na música, como na literatura. Há pouco tempo, falava com a Patrícia Reis, que no novo livro usou uma personagem da Lídia Jorge

 

Isso é lindo. 

 

Se a música não consegue mudar o mundo, como às vezes se diz, o que é que ainda pode mudar? 

 

O que é que pode mudar o mundo? Somos nós. Nós é que podemos mudar o mundo. Fazendo coisas. 

 

Tenho uma visão muito pragmática sobre o mundo. Sou uma pessoa muito proativa, acho eu. Sou muito preguiçoso, também, mas sou muito proativo ao mesmo tempo. Acho que fazendo coisas: criando ligações, tocando, fazendo música nova, perdendo mesmo tempo a fazer música nova. Acho que nós temos a obrigação, por exemplo, de não estar só a pedir atenção para a cultura. Acho que nós realmente temos de a fazer. Temos uma parte muito ativa naquilo que é a cultura. As pessoas não vão só apoiar a cultura porque é cultura, porque fica bem. A cultura tem de servir. 

 

Aliás, há uma entrevista do Vítor Rua esta semana no PÚBLICO que deixou algumas pessoas irritadas. Ele dizia que não comprava nenhum disco de música portuguesa. Dá como exemplo todos os discos de música estrangeira que são realmente obras-primas e diz, a gozar, porque é que havia de comprar o Rua do Carmo dos UHF se tinha o [Iánnis] Xenákis ou os Pink Floyd, ou o que quer que seja. Obviamente que existem muitas razões para se comprar Rua do Carmo. Tenho Rua do Carmo em vinil. Mas também acho que uma das coisas que ele diz faz muito sentido: nós temos de ser melhores e temos de trabalhar mesmo muito.  

 

Ser músico é muito difícil. Ser artista é muito difícil. Mas também é muito difícil na Inglaterra, nos Estados Unidos e na Alemanha. Não se ganha muito dinheiro. Perde-se muito dinheiro, muitas vezes. E uma pessoa tem de realmente arranjar muita arquitetura e dar muitas voltas para conseguir financiar os seus projetos ou fazer com que a coisa resulte. Mas, acima de tudo, temos de investir muito, os músicos, em estar muito focados na nossa arte e também, ao mesmo tempo, não deixar que aquilo que está de lado e todas as ansiedades que o mundo nos traz nos ocupem por completo. A arte tem esta função. 

 

Deixei de partilhar histórias das notícias e do genocídio aqui, porque também sinto que o nosso papel é que as pessoas tenham um espaço seguro para a mente poder viajar e não estar sempre preso a panfletos, por exemplo, mas preso a ideias, porque estamos a falar do amor. Para mim é muito mais interessante a ideia do amor e a ideia de levar uma mensagem, por um lado, do que estar sempre a bombardear as pessoas com factos, porque isso nem sequer é o nosso trabalho. É o trabalho dos jornalistas, é o trabalho da imprensa, é o trabalho dos políticos, é o trabalho das organizações. O nosso trabalho é outro: é a arte que fazemos. E essa arte é transformadora, essa arte pode ter uma mensagem política e tem ideias, e tem de ter. 

 

Portanto, acho que aquilo que podemos fazer é concentrarmo-nos, ao mesmo tempo, em tentar fazer o melhor à nossa volta. Nós podemos mudar o mundo com amor, à volta, quando temos empatia com as pessoas que estão à nossa volta, tentando ter uma atitude positiva em relação à nossa vida, ao trabalho, à nossa relação com os outros. Se formos fazendo o nosso trabalho e estivermos concentrados nisso, acho que vamos contribuir positivamente para que o mundo mude um bocado. Porque agora estamos a ser bombardeados por algoritmos e bots e por uma maneira de comunicar que é absolutamente alucinante. Se calhar, temos de olhar um bocadinho para baixo ou para o lado, para aquilo que está aqui ao nosso lado, e comunicar de maneira diferente com essas pessoas. Começarmos também a não aceitar certas formas de comunicação e certos discursos e conseguirmos ir construindo uma sociedade mais positiva, no fundo, porque vivemos a nossa vida. 

 

Nós estamos aqui um bocadinho, só. Estamos a tomar conta do que está aqui, da nossa terra. Mesmo o pessoal que tem grandes terrenos, os terrenos vão ser de outra pessoa qualquer dia, porque as pessoas vão morrer e, portanto, estamos a guardar aquilo para os outros, para os netos, para os bisnetos, para os filhos, para os nossos amigos, para os filhos dos nossos amigos. Portanto, acho que é só tentando sermos melhores todos os dias. É, basicamente, melhorar até morrer, não é? É o que a minha canção diz. É esta ansiedade de: ok, temos de estar sempre... Sim, é verdade, temos de tentar. Ao mesmo tempo, também temos de ter algum tempo para descansar. 

 

O que é que achas que a atual geração de músicos portugueses está a fazer melhor do que a tua? 

 

Comunicar melhor, provavelmente. Isso, sem dúvida. Os músicos, à medida que as gerações vão avançando, vão sendo melhores, porque tens mais músicos a tocar bem. Aliás, o Flak, que é guitarrista de Rádio Macau e que é um grande amigo meu, está sempre a dizer: "A vossa geração é muito melhor, há muito mais malta a tocar melhor." O que é verdade. E agora também olho para uma geração dez anos abaixo da minha e sinto que há mais miúdos a tocar bem. Portanto, isto está a fazer melhor. Também é uma geração mais informada. 

 

O ensino da música, hoje em dia, não é a mesma coisa que era nos anos 90, por exemplo, ou no início dos anos 2000. Hoje, consegues saber como é que se gravou um disco na América. Na altura, nós ficávamos no quarto a tentar gravar, havia obviamente revistas de gravação, mas hoje, no YouTube, aprendes a velejar, aprendes tudo, se quiseres. Isto  faz com que haja uma geração inteira de músicos muito capazes. Vês isto ao vivo: cantam melhor, tocam melhor, no geral. 

 

Para terminar, o que é que estás a ouvir? 

 

Estive a ouvir muito o meu disco, o que é muito triste porque, quando uma pessoa está a acabar um disco, acaba por passar muito tempo a ouvir-se e a desligar. Deixa-me ver o que é que tenho estado a ouvir... Este ano fui a alguns festivais ouvir algumas coisas novas.  

 

Há um lado que é: estamos constantemente a ser bombardeados com música nova todos os dias e o tempo para conseguir consumir tudo tem sido muito pouco. Ainda para mais quando, no teu dia a dia, das 09h00 às 19h00, estás sempre a ouvir música que ainda não saiu. Podia falar da Rita Cortezão, mas produzi o disco dela, portanto não quero dizer... É uma menina que é uma escritora de canções incrível, que tem um talento... Ela faz parte do futuro. 

 

Tenho ouvido bandas antigas. Tenho ouvido o novo disco dos Lambchop, que acabou de sair e que teve uma alta crítica na Pitchfork... 

 

Por Rita Sousa Vieira 

 

*Edição a partir da entrevista-vídeo que pode ser vista no YouTube da FNAC. 

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