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“A grande literatura não é um decalque da realidade”: fé, incerteza e ficção
Depois do êxito da biografia de Maria Teresa Horta, Patrícia Reis regressa ao romance para fazer o que diz ser indispensável: escrever ficção para entender o mundo. Recusa a autoficção e o julgamento fácil, e constrói personagens imperfeitas, desconfortáveis, atravessadas pela vertigem contemporânea e pela dificuldade em escutar. Entre a fé que vacila e as certezas que se desfazem, escolhe a dúvida como território, e desafia o leitor a fazer o mesmo.
O QUE TENS DE SABER:
Em O lugar da Incerteza o palco é Lisboa; o cenário principal, um consultório de psiquiatria.
Patrícia Reis é jornalista, editora e curadora da multipremiada revista Egoísta e coapresentadora do podcast Um Género de Conversa.
Já escreveu as biografias de Vasco Santana, de Maria Antónia Palla (em coautoria com esta jornalista) e de Simone de Oliveira. Assina a biografia da escritora, poetisa e feminista Maria Teresa Horta, A Desobediente, que lhe valeu, em 2024, o Prémio Livro do Ano Bertrand.
A última vez que falámos foi a propósito do lançamento de A Desobediente – Biografia de Maria Teresa Horta, que já vai na 8ª edição e recebeu o Prémio Livro do Ano Bertrand 2024. Esperavas o sucesso que teve?
Não, não esperava. Creio que houve também um conjunto de circunstâncias felizes. Assinalavam-se os 50 anos do 25 de Abril e a Maria Teresa Horta estava viva, ao contrário das outras duas Marias. Ela era guardiã de um determinado movimento e de uma forma muito própria de entender a literatura. O prémio é atribuído pelos livreiros, e isso nunca esquecerei. Fala-se pouco da importância dos livreiros, mas o seu papel é absolutamente fundamental. Fiquei muito contente, claro, mas foi inesperado.
Este livro trouxe-te novos leitores ou mudou a forma como és lida?
Sinceramente, não sei responder a isso. Sei que o livro chegou a muitas pessoas que, de outra maneira, se calhar não estariam atentas à minha escrita e que isto pode ser agora um novo caminho. E se o for, eu fico obviamente contente. Mas também sei de uma coisa que importa dizer: uma biografia não é um romance. As pessoas, se calhar, estão hoje mais despertas para as biografias. Houve uma altura em que as biografias não tinham grande mercado. Hoje têm, ainda bem que têm. E a biografia é espreitar pelo buraco da fechadura. Com um ângulo que, a determinada altura, é interrompido, mas é espreitar pelo buraco da fechadura. E nós vivemos neste mundo em que espreitar pelo buraco da fechadura é um modo diário das nossas vidas.
Um romance não é uma identificação imediata através de acontecimentos que podemos reconhecer, é uma outra proposta. É um outro fogo, é uma outra proposta. E assenta nesta coisa tremenda que é a imaginação. Se os leitores valorizam mais ou valorizam menos, eu não sei dizer. Sei que tive leitores que me disseram que nunca me tinham lido e que, agora, me iam ler. Se se alegraram com essa decisão, ou se se entristeceram, não sei dizer. Mas espero que se tenham alegrado.
Nessa conversa para a Cultura FNAC, fechaste a porta às biografias. Confesso que fiquei com receio de que essa decisão pudesse estender-se à ficção.
Era quase.
O que é que mudou?
O que mudou foi eu ter percebido que realmente eu não me consigo entender e não consigo entender o mundo sem escrever. Eu preciso de escrever para processar. Ou seja, eu não tenho aqueles clichés que os escritores, muitos escritores, nacionais e internacionais, já repetiram à exaustão. Eu, porventura, também já o terei feito. A literatura como terapia, como salvação, como espaço de reconhecimento. O outro como autodesenvolvimento. Essa treta toda é válida e tem a sua razão de ser. É por isso que os clichés são os clichés.
Escrever ficção exige uma exploração emocional muito maior do que uma biografia. Uma biografia exige muito trabalho. Um trabalho insano. É um trabalho duplicado. Precisas de estabelecer algumas fronteiras, para mais se a biografada é tua amiga e está viva. A ficção é um outro território. É um território de reflexão tua. Tu estás a escrever para ti. Isso é muito interessante e é também muito importante. Aquelas pessoas que se sentam para escrever um romance, já a pensar que o Zezinho da padaria vai ler ou que a CEO da grande financeira vai ler, terão o seu método e a sua estratégia, mas eu não consigo encontrar grande simpatia pelo processo.
Eu escrevo, antes de mais, para me entender. E para poder calçar os sapatos de outras personagens, imaginá-las, fugir como o diabo da cruz do decalque da realidade, que a mim não me interessa nada. A mim não me interessa nada a autoficção. Devo, aliás, dizer que acho a autoficção um território de algum tédio. Eu sei, está na moda. A Annie Ernaux ganhou o Nobel, e está tudo certo. Mas, amigos, a grande literatura não é um decalque da realidade. Claro que todos nós fazemos autoficção no nosso dia, construímos narrativas sobre a nossa existência e os nossos acontecimentos. Claro que sim. Mas a literatura não é isso, na minha opinião. Portanto, o que descobri com a biografia da Maria Teresa é que precisava do espaço da ficção para me entender.
Nunca tinhas sentido isso antes?
Não. Assim como uma necessidade, nunca tinha sentido. Desde pequenina que escrevo. A escrita sempre fez parte do meu dia-a-dia. E às tantas, depois de Da Meia-Noite às Seis, mergulhei inteiramente na vida e obra da Maria Teresa. Foi muito tempo em que a ficção ficou de lado. Quando comecei este livro, comecei com uma certa alegria. Sabes? De… vamos ver para onde é que isto vai.
Não é assim que devem começar todos os livros?
Com uma alegria? Os meus geralmente começam com uma tristeza qualquer, não com uma alegria. Mas a alegria que o livro me deu foi pensar como é que eu posso construir um conjunto de personagens que refletem esta vida contemporânea, esta vertigem em que estamos, esta violência terrível das redes sociais, da polarização do discurso... Desta ideia de que a verdade já não é verdade. Já não existe a verdade. Existem várias verdades. E, consoante a hora do dia, a verdade é amarela ou é verde ou é cor-de-rosa.
Como é que podemos refletir sobre isso? Estamos todos aqui à beira do abismo. Todas as personagens deste livro são personagens que estão neste lugar da incerteza.
É normal que não tenha sentido empatia por nenhuma delas?
São todas mais ou menos odiosas. Eu percebo. Agora, a pergunta é: o que é que retiraste então do livro?
Retiro sobretudo a ideia de que perdemos o espaço da dúvida e da escuta. O livro é um retrato dos nossos dias.
Era sobre isso que eu queria refletir: está na altura de parar e reconhecer que a nossa humanidade está a perder, a uma velocidade imensa. Porque nós estamos com uma total incapacidade em ouvir o outro. Uma total incapacidade de assumir os nossos erros. De dizer simplesmente isto: não sei.
Diverti-me a criar estas personagens precisamente porque não estava apaixonada por nenhuma delas e porque não é autoficção. Era uma forma de refletir sobre aquilo que é o nosso tempo, que é aquilo que eu acho que a literatura propõe. Se, como diz a Lídia Jorge, o escritor é o cronista do seu tempo, então importa pensar onde estamos e por que vivemos assim.
Pensando bem, não antipatizei com o José Pedro.
O José Pedro é a minha personagem preferida. É quase inexistente, mais do que secundária, mas é a voz do bom senso. É o único. Nem o padre tem essa voz, porque vive naquele território que é a grande pergunta da teologia: como acreditar quando não há um sinal de Deus? Como pode a fé ser tão disponível, tão incondicional, se agora estou doente, se agora estou a morrer, se fui uma boa pessoa a vida inteira, se calei o que não devia ter calado? Como é que agora vou ver Deus? Se calhar não vou.

Há uma personagem da Lídia Jorge neste livro. Pediste-lhe autorização?
Disse-lhe que a ia roubar. Foram esses os termos. Liguei-lhe e disse: Lídia, posso roubar o teu Osvaldo Campos [Combateremos a Sombra]? E ela disse: claro. Acho incrível que a personagem tenha uma continuidade, uma outra vida. E nós roubamos muitas vezes personagens uns aos outros. Eu já roubei personagens da Inês Pedrosa. A Tereza roubou uma personagem à Hélia Correia para As Luzes de Leonor. Estas trocas e baldrocas entre nós acontecem. Umas vezes mais assumidas, outras menos; esta é completamente assumida. Porque os psiquiatras fascinam-me totalmente. Os psiquiatras e os padres, para mim, são figuras fascinantes.
Essas personagens – o António, o psiquiatra, e o Eduardo, o padre – são inspiradas em pessoas que conheces?
Conheço muitos psicólogos e muitos padres. Há um psiquiatra que consultei, digamos assim, porque gosto deste trabalho de campo. E também há um padre que consultei. Mas, lá está, são consultas. Não são decalques daquilo que me contaram. Porque isso não me interessa, nem serve o meu propósito. E estas duas figuras... Achei que o António, o psiquiatra, precisava de ter uma figura tutelar. O Osvaldo Campos poderia ser. Porque no Combateremos a Sombra, a determinada altura, o Osvaldo Campos é designado como o prostituto de Deus. E essa ideia colava muito bem com a ligação que ele ia ter com o Eduardo, o padre. Portanto, achei que funcionaria. E a Lídia acatou com facilidade. Foi um roubo fácil.
O encontro entre fé e ciência surge através destas duas figuras. É um conflito inevitável ou uma convivência possível?
Acho que é uma convivência possível. Fiz o mestrado em Ciência das Religiões e tenho um fascínio por este tema, tenho e nunca deixarei de ter. E a religião é o quê? A religião é um batido de... É um bocadinho de psicologia, um bocadinho de história, um bocadinho de política.
Também não se chega à ciência sem tu interrogares aquilo que não compreendes. E, nessa medida, também tens de ter fé. Portanto, não acho que sejam incompatíveis, de todo. E acho que o padre e o psiquiatra... Acho que o padre tem um impacto maior no psiquiatra do que o contrário. Porque o psiquiatra não teria nunca entrado naquele registo, quase de amizade e disponibilidade. Porque ele não tem pachorra. Ele é psiquiatra, mas não tem pachorra para as pessoas. Não tem pachorra para as pessoas que estão, como estamos todos nós, na permanente queixa e não na promoção do seu potencial. Estamos todos assim. Todos.
E, de repente, o padre permite-lhe ter ali um território quase de ternura, que é aquilo que o desarma. Porque ele não lida muito bem, não faz muito bem a gestão das emoções. Portanto, ele resguarda-se nesta ideia de “eu sei como é que as pessoas funcionam, conheço os templates todos do comportamento das pessoas”. O padre troca-lhe ali um bocado às voltas. Não lhe troca totalmente, porque as pessoas não mudam totalmente ou tão rápido. Repara, os padres são os primeiros psicólogos do mundo. Como é que a escuta sobrevive ao teu próprio ego? Como é que o teu ego sobrevive à escuta do outro? E onde é que o teu ego interfere na escuta do outro?
A violência que atravessa o livro não é excecional, é quotidiana. Normalizámos essa violência? Sentes que seja transversal a todas as gerações?
Entre os mais novos é uma realidade, e é mais preocupante. Porque, se tu tens 55 anos, como eu, já viveste de outra maneira. Eu já vivi sem Internet e sem telemóvel. Um miúdo com 20 anos, hoje, não sabe o que é isso. Não sabe o que é não ter motores de busca. Um rapaz com 20 anos, hoje, o seu primeiro contacto com a sexualidade foi através de pornografia que viu online — o que não é a melhor maneira de começar a tua sexualidade em circunstância alguma.
Eu acho que hoje os miúdos estão num desalento muito grande. O país… O país? Nem é o país. O planeta está a falhar. As notícias são todas más. Não há espaço nenhum para um discurso positivo. Não há espaço nenhum para uma construção de futuro. Estes miúdos com 20 anos, que estão agora na faculdade, não vão sair de casa dos pais antes dos 30 e tal. Esta geração não vai superar os pais em termos de conquistas materiais, por exemplo.
Voltando às tuas personagens. Estivemos aqui a julgá-las, ou eu estive aqui a julgá-las, mas o livro não faz isso.
Não.
Porquê?
Porque neste momento tu vives numa sociedade que julga tudo a toda a hora. E toda a gente pode ser juiz. É incrível. Juiz e carrasco. Vivemos num mundo dos juízes e dos carrascos. Eu não tenho estudos para julgar toda a gente. Não tenho estudos, não tenho informação, não tenho literacia, não tenho experiência. Eu não julguei deliberadamente. Julguem vocês. O leitor que julgue. Eu não.
O Lugar da Incerteza coloca a fé em crise. Essa crise é apenas literária ou também biográfica?
Não, não. Essa crise é diária.
Mas é tua?
É um processo de... sim, vale a pena. Não, não vale a pena. Sim, vamos conseguir. Não, não vamos conseguir. Acho que a questão da fé pode estar relacionada com muito mais coisas do que apenas com a ideia da religião institucionalizada. O meu questionamento de fé... Às vezes é na humanidade, às vezes é em mim própria. Ter dúvidas é muito melhor do que ter certezas.
Lisboa aparece menos como cidade e mais como estado de espírito. É uma cidade que acompanha ou que abandona as personagens?
É uma cidade que mastiga as personagens, não é? Lisboa é uma cidade em tensão, e eu só percebi isso quando deixei de viver nela. Agora vivo numa aldeia com 317 pessoas. Toda a gente sabe da minha vida, eu sei da vida de toda a gente. Está ótimo. Mas, se precisar seja do que for, tenho com quem contar. Em Lisboa há pessoas que vivem nos mesmos edifícios anos e anos e nem sequer se relacionam, não sabem quem são os seus vizinhos.
Optaste por um final em aberto. É um convite ao leitor para permanecer na incerteza?
Eu não acho que seja um convite para o leitor permanecer na incerteza. Um leitor pode exercitar a sua imaginação e criar cenários alternativos àqueles que o António, o psiquiatra, cria para cada um deles. E decidir que o futuro daquelas personagens é outra coisa. Que aprenderam alguma coisa ou que não aprenderam. Por aí. Acho que o final é um final contemporâneo. Um final coincidente com o resto do livro, que é: passou-se isto tudo e, no fim, a vida continua.
A tua nova editora, Sofia Fraga, é neta do Urbano Tavares Rodrigues, de quem foste amiga. A literatura também se faz destes reencontros?Como foi a passagem para esta nova fase e o encontro com a editora?
Quero acreditar que o Urbano, onde estiver, está sentadinho a olhar cá para baixo e a dizer: olha que engraçado. Olha que engraçado, este encontro. Eu estou muito contente. Gosto muito da Sofia. Ela foi muito importante, sobretudo na consolidação das personagens ditas principais. Do padre e do psiquiatra. Puxou por mim. E puxou, e puxou... Não descansou enquanto não dei tudo o que tinha para dar. Esse processo de poder bater bolas com alguém, picar os miolos de alguém e perceber qual é a perceção que a outra pessoa tem daquela personagem que estás a criar foi muito gratificante. Eu estou muito grata. E acho que o caminho faz-se caminhando. E nós às vezes precisamos de mudar de casa para poder olhar noutra perspetiva. Ter outros tipos de janela.
O que é que estás a ler?
Estou a ler o Horas Azuis, da Bruna Dantas Lobato, uma autora brasileira inacreditável. Queria continuar com autores brasileiros, depois de ter lido o Jeferson Tenório e a Mariana Salomão Carrara.
Por Rita Sousa Vieira
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