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SUSANA AMARO VELHO EM ENTREVISTA
SUSANA AMARO VELHO EM ENTREVISTASUSANA AMARO VELHO EM ENTREVISTA



“As mulheres continuam a ser silenciadas na sua própria dor”



É a partir de um verso de António Ramos Rosa que Susana Amaro Velho encontrou o título para o seu novo romance, uma história sobre uma mulher que carrega consigo as marcas da violência e aquilo que dela permanece ao longo do tempo. Margarida regressa ao lugar que deixou para trás, mas há coisas de que não se consegue partir. Na conversa com a Cultura FNAC, a escritora fala sobre a origem desta personagem, a maternidade e o caminho que a levou até Sou Uma Multidão Minúscula.


 

O QUE TENS DE SABER






Sou Uma Multidão Minúscula parte de duas histórias de violência separadas por décadas, mas ligadas pela mesma mulher. Como nasceu esta história e, sobretudo, a vontade de contar estas duas fases da vida de Margarida?


Bom, a história surgiu porque, como diz Mario Vargas Llosa, que tanto admiro e nunca me cansarei de citar, utilizamos a literatura para transformar os nossos demónios em temas. Sempre tive muita dificuldade em ler, investigar e consumir conteúdos relacionados com o abuso infantil ou com qualquer tipo de violência sobre crianças. Era algo que me custava muito. Cheguei a desistir de inúmeras séries, filmes e livros por causa disso.


Desde o nascimento do meu último filho, não sei bem porquê, fiquei mais desperta para estes temas. Não no sentido de sentir uma curiosidade mórbida, mas de querer, de algum modo, acabar com este demónio, com este estigma. Comecei a ler mais sobre o assunto, não coisas sensacionalistas, obviamente, mas obras que tratassem a matéria com delicadeza. Queria perceber que tipos de abuso existem e que impacto têm na idade adulta. Até porque, estando a educar três crianças, acho muito importante compreender que traumas trazemos para a vida adulta e o que herdamos de geração em geração.


A Margarida foi-se, então, construindo a partir daquilo que lia, dos testemunhos que ouvia, dos documentários a que assistia e dos livros de não-ficção que consultava. E os dois tempos prendem-se, sobretudo, com o vazio legal que existia na década de 70 em Portugal. Queria muito trazer esses anos em que, por exemplo, a violência entre cônjuges ainda não era autonomizada como crime de maus-tratos. O Código Civil de 1966 estabelecia o homem como chefe de família. Era ele que fixava a residência, e a mulher não podia abandonar a casa sem consequências, nomeadamente em matéria de guarda dos filhos. Só em 1982 os maus-tratos entre cônjuges passaram a estar previstos como crime autónomo e, em 2000, a constituir um crime público.


Todas estas crianças e gerações que cresceram nesse vazio legal, numa época em que determinados atos nem sequer eram considerados crime, presenciaram muita coisa e silenciaram muita coisa. Isso acaba por se refletir mais tarde na vida adulta ou até por se repetir. É por isso que a Margarida surge primeiro aos 14 anos, na década de 70, como testemunha da violência dentro da casa onde cresce e, mais tarde, nos anos 90, acaba por presenciá-la de uma forma diferente, mas no seio da própria família.


Falaste da maternidade. Este é o teu primeiro livro com uma protagonista que tem filhos. Não é coincidência?


Não, não é coincidência. Acho que foi preciso um caminho de maturidade, de escuta e de atenção. Não quero generalizar nem dizer que quem não tem filhos não possa, obviamente, ter uma protagonista com descendência. Mas, para que eu pudesse sentir, de certo modo, estas dores, acho que era fundamental ter um filho e que essa vulnerabilidade, e até essa intimidade, fizessem parte do meu quotidiano.


Ter filhos que se expõem diariamente ao mundo e que estão vulneráveis perante ele é uma coisa absolutamente tenebrosa. E não podemos confundir estes receios com proteção excessiva. Tem de haver aqui um equilíbrio muito grande, que se constrói no dia a dia. Precisava desta protagonista que, por um lado, dá espaço, mas, por outro, se retrai porque tem medo, porque carrega aquela mágoa que cresceu com ela. Foi fundamental que este livro surgisse nesta fase da minha vida.





A maternidade altera a relação de Margarida com a violência que sofreu e com aquela que ameaça atingir a filha? É a maternidade que lhe dá força para enfrentar o passado ou torna tudo ainda mais difícil?


Acho que é um misto de ambos. Logo nas primeiras páginas, a Margarida é uma mulher absolutamente banal, absorvida pela procura de uma vida confortável para os filhos. Está sempre envolvida na rotina dos três trabalhos e na preocupação de sustentar a casa, porque é viúva. Essa necessidade de cuidar deles e de os sustentar é, ao mesmo tempo, aquilo que a move e um peso. Quem nunca desejou o bem-estar do seu lar, estar com os filhos, viver em comunidade e ser feliz e, ao mesmo tempo, ter a possibilidade de sair, fugir e estar sozinha? Acho que a maternidade tem muito este lado esquizofrénico.


É verdade que a divisão das tarefas em casa está a mudar e que os homens estão mais envolvidos, mas há ainda muitas responsabilidades que continuam a recair sobre as mulheres. E é difícil conciliar a vida profissional com este papel que não tem pausas: o de ser mãe. Ao mesmo tempo, preocupa-me ver estas novas gerações, com grupos de miúdos cada vez mais conservadores, o que me deixa com pouca esperança. Ainda há pouco tempo, li um artigo que dizia que, quando um filho está doente na escola, em 80% dos casos ligam primeiro à mãe. É o primeiro número que aparece nos contactos. E não é por acaso. Crescemos muito com este padrão, com a ideia de que a mãe ocupa sempre o primeiro lugar, o lugar de cuidadora. E, se isso é fantástico na maior parte do tempo, noutras ocasiões é absolutamente intenso. Precisamos de uma pausa.


A certa altura, lemos: "A violência nunca termina, apenas muda de forma". Referes-te sobretudo às marcas que deixa em quem a sofreu ou também à forma como pode perpetuar-se e ser exercida sobre os outros?


Acho que a ambas. Alguém que cresce no seio de uma família desestruturada, testemunha e, muitas vezes, vítima das mais diferentes formas de violência, acaba por carregar esse peso para o resto da vida. E tem também de encontrar forma de contrariar essa herança, muitas vezes sem forças ou sem vontade para o fazer. Passa a vida a tentar fazer as pazes com o passado e, muitas vezes, a desculpabilizar os familiares envolvidos nesses traumas de infância, até porque continuam a fazer parte do seu dia a dia.


Acredito que a violência muda de forma e, por vezes, até de protagonista. Mas deixa marcas profundas, que influenciam a forma como encaramos a vida e nos relacionamos com os outros, a confiança que depositamos neles e a desconfiança que sentimos. É impossível que tudo isso não tenha consequências no futuro.


Quando Margarida regressa ao lugar que tinha decidido abandonar, reencontra também a pessoa que era naquela altura. Até que ponto podemos realmente deixar para trás um lugar ou uma experiência que nos marcou?


Acho que a Margarida nunca abandonou verdadeiramente aquele lugar. Enquanto estamos presos a um trauma e às dores de que somos herdeiros, a violência é apenas um veículo. Continuamos ali, nessa roda, e a Margarida, apesar de cheia de sonhos e de ser muitas vezes moralista, como ela própria dizia, nunca se libertou verdadeiramente da mágoa e da dor que sentia em relação à mãe. Também nunca teve um pai que, de certo modo, a salvasse. Há aquela ideia infantil de que as meninas serão salvas, a dada altura, pelo pai, por um homem, pelo príncipe encantado. É uma velha ideia que nos vendem.


Mas ela nunca teve essa figura. Pelo contrário, testemunhava diariamente os abusos dos homens, numa sociedade patriarcal. Por isso, a Margarida permanece sempre ligada àquele passado, ao qual se vê obrigada não propriamente a regressar, mas a mergulhar novamente. É por isso que, a dada altura, diz: "Não importa, não importa, nós não comandamos o nosso destino, ele vai sempre encontrar-nos".


Repara que nunca quis deixar ninguém confortável com este livro. Quero que cause desconforto. Apesar de não haver um vilão isolado nem propriamente uma heroína, há toda uma aldeia que sabe e não faz nada. É o conceito de segredo público. Há uma série de mães, há também pais, há todo um conjunto de pessoas e de situações, até de objetos, que testemunham o que acontece e nada fazem. A ideia é, precisamente, gerar desconforto no leitor. Quero que, a dada altura, se questione e repense a forma como encara o papel da mulher, sobretudo nos anos 70, mas também nos anos 90.


É fácil perguntarmos: "Porque é que não foi embora? Porque é que não fugiu com o filho?" Mas não é assim tão simples. Tendemos a ver aqui um papel submisso da mulher, mas a realidade é mais complexa. Muitas vezes, não era submissão, era incapacidade. E este regresso à dor, este mergulhar novamente no passado quando a Margarida se torna mãe, serve precisamente para gerar esse desconforto, essa sensação de repetição, de continuar a girar na roda do rato.


O livro fala de abuso, mas também do silêncio.


Fala muito de silêncio porque, no fundo, as mulheres eram e continuam a ser silenciadas na sua própria dor. E o livro também é sobre isso. Esta herança é, também, uma herança de silêncios.






Tens regressado, de livro para livro, aos ambientes rurais e às relações familiares. O que continuas a encontrar nesses universos que te leva a explorá-los na tua escrita?


Leio muito sobre as relações familiares, sobre a forma como nos interligamos e vamos desenhando a nossa vida à volta dos outros, como as nossas próprias raízes se entrelaçam com as de quem nos rodeia. Interessam-me sobretudo estas relações humanas, em meios mais pequenos ou mais fechados. Não gosto de romantizar a aldeia. Acho que também é muito sinónimo de abandono.


Claro que não falo da minha aldeia, que fica aqui às portas da capital, é vizinha de Lisboa e já nem sequer se enquadra no verdadeiro conceito de aldeia. Mas, se mergulharmos no interior do país, encontramos essa romantização da vida na aldeia e, ao mesmo tempo, muito abandono. E esse abandono traz consigo uma necessidade permanente de afeto e de comunidade. Gosto de levar isso para os livros. Quando falo dos vizinhos que tudo sabem, falo também daqueles que ajudam, dessa corrente de força que tantas vezes existe nas pequenas comunidades.


Na história da Margarida, há um grupo de mulheres que acabam por se tornar companheiras umas das outras e por se apoiar à medida que a narrativa avança. Acho que estes são os temas sobre os quais gosto de escrever, porque também são aqueles sobre os quais gosto de ler. E esta escrita, tão ligada à intimidade e às relações humanas, também me faz crescer enquanto pessoa. Demoro-me a olhar para o outro, a tentar compreendê-lo, e acho que isso faz falta à sociedade em geral: essa capacidade de parar, olhar e escutar o outro.


A Margarida existe? Ou há muitas Margaridas por aí?


São várias, sim. Há alguns pormenores que fui buscar a histórias verídicas, porque li muito sobre o tema, consultei relatórios sobre violência doméstica e abuso infantil. Quis ter uma base de trabalho bem estruturada antes de começar a escrever. Normalmente, trabalho assim: leio muito sobre o tema, tanto ficção como não-ficção, e vejo muitos documentários, procurando toda a informação que tenho à disposição. Às vezes, passo seis meses concentrada apenas nessa fase. Só depois de ter toda essa informação organizada na cabeça, e muitas vezes também em cadernos, é que me lanço à escrita e à estrutura da narrativa.


Os meus temas acabam por andar sempre à volta das mesmas causas e questões. Acho que o que mais importa ao leitor é a forma como lhe entrego a narrativa: como a estruturo, se há uma voz ou várias, se temos diferentes perspetivas ou apenas uma. É esse o jogo que considero mais aliciante na escrita. Depois de definirmos, mais ou menos, a forma como vamos trabalhar a protagonista, é natural que ela vá buscar pequenos pormenores a histórias que ouvimos ou até a pessoas que conhecemos. Mas, durante a escrita, estamos a fazer ficção, claro. Gosto sempre que os leitores não se prendam demasiado à história real e procurem antes a história da personagem. Acho que é muito mais interessante.


Quiseste que o leitor se sentisse próximo da Margarida ou, pelo contrário, que mantivesse alguma distância para poder questionar as suas escolhas?


Quero sempre que o leitor se sinta próximo não só da Margarida, mas de todas as personagens. É por isso que também gosto muito de trabalhar as personagens secundárias. Muito mesmo. E muitas vezes elas partem de duas ou três notinhas e depois acabam por desenvolver-se muito. Até é engraçado porque acabo por conhecê-las no processo de escrita. Parece que se estão a apresentar e vem um ou outro detalhe em que eu não tinha pensado e acaba por fazer sentido. Acho que esta proximidade, esta identificação, é fundamental para que o leitor se sinta muitas vezes representado. Não com todas elas necessariamente, mas essa representação é muito importante para que a história toque mais intimamente quem a lê.


O final pode surpreender. Sem querer revelar mais do que isto, o que é que os leitores já te disseram sobre ele?


Por acaso, já recebi imenso feedback. Nem estava à espera de que tanta gente lesse o livro logo na primeira semana. Não sei se é por a capa ser muito bonita, mas já ouvi várias vezes esse comentário. Recebi até uma mensagem que dizia: "Passei à frente de outros livros". E pensei: que bom, que maravilha. Sei o que é ter listas gigantes de livros para ler, por isso, passar à frente da pilha é muito bom.


O final é desconfortável. E, como disse há pouco, nunca quis deixar o leitor confortável, porque acho que este final lhe coloca uma decisão nas mãos, o que é sempre muito dúbio. Há quem não goste de finais abertos, quem prefira que tudo fique resolvido quando chega à última página. Mas, neste caso, era muito importante deixar o leitor perante uma escolha. Tem de perceber se é herdeiro ou não destas formas de violência, e só conseguirá fazê-lo quando chegar à última página e perceber que, mais uma vez, há uma interrupção do ciclo. E ficamos ou não em silêncio? É um pouco esta a dúvida: contamos ou não contamos? De que forma é que este intervalo de 30 anos, que separa os dois momentos da ação, permite ao leitor colocar-se no lugar de alguém e interpretar aquela forma de violência? Era fundamental que assim fosse. A casa não podia ficar arrumada. Não podia deixar a Margarida numa cozinha a fazer o jantar, com o mesmo sentimento de indefinição e de paz podre. Se defendo que este é um livro sobre aquilo que se transmite entre gerações, então há uma geração que vem antes e outra que vem depois.


Acho que o final está a mexer com os leitores, a deixá-los inquietos e, muitas vezes, chocados. Não era de todo essa a minha intenção, mas já me disseram que ficaram assim. Ao mesmo tempo, reconhecem que é o final justo para este livro. É muito interessante porque passamos anos a escrever uma história que, até certo momento, é só nossa. E já me aconteceu, por diversas vezes, em conversas com leitores, descobrir coisas sobre os meus livros que eu própria não sabia. Acho isso muito enriquecedor. É fantástico perceber as diferentes leituras que as pessoas fazem.


Por falar na capa, alguns leitores acham que és tu naquela foto.


Mas não sou. Quando comecei a procurar uma capa, queria algo um pouco diferente daquelas com que tinha trabalhado até agora, porque acho que este livro também é diferente dos anteriores. Gosto sempre de me reinventar a cada história, mas este é um livro mais literário, com mais referências literárias, uma estrutura e um ritmo diferentes. Por isso, queria também marcar uma rutura com aquilo que tinha feito até aqui. Queria uma capa diferente, com uma fotografia como nunca tinha tido. Numa busca desenfreada por imagens, descobri esta. Depois de percorrer tantas páginas e passar tantas horas à procura, fiquei imediatamente vidrada na imagem. Pensei: "Caramba, isto é a Margarida. Isto é a Margarida."


A capa enquadra-se muito bem na história. Alguns leitores já me disseram que gostam ainda mais dela depois de lerem o livro, porque percebem como os dois se cruzam. Acho que ficou um trabalho espetacular. Estou muito orgulhosa desta capa, acho que está muito bonita.


Dedicas o livro à Avô Lurdes. Que importância teve ela na tua escrita?


Esta Avó Lourdes é uma avó herdada, que ganhei por parte do meu marido. Quando comecei a namorar com o meu marido, há 14 anos, a Avó Lourdes, que na altura teria 74 ou 75 anos e morreu aos 90, fez renascer em mim aquele conceito de casa da avó. Oferecia-me sempre qualquer coisa que fosse dela, uma travessa, uma garrafa para eu pôr na mesa. Era aquela avó que ligava e contava histórias. Algumas das histórias deste livro foram-me contadas por ela, porque era um ser humano extraordinário, com imensas histórias para partilhar. Falava, falava, falava, falava. Às vezes, até tinha dificuldade em acompanhá-la, e eu falo muito!


Era também uma leitora ávida dos meus livros. Ainda foi à apresentação de Descansos, leu esse livro e acompanhou todos os anteriores, desde o primeiro, cuja publicação ainda testemunhou. Às vezes, lia-os mais do que uma vez. Ligava-me e dizia: "Olha, filha, acabei de ler outra vez o Bairro das Cruzes. Ai, pá, parece que o estou a ler pela primeira vez e sinto-me tão bem."


Era realmente uma pessoa muito especial. Perdemo-la em 2025. Eu estava a escrever este livro na altura e, no dia em que fechámos a primeira prova, sabia perfeitamente a quem o tinha de dedicar. Nem sequer foi uma questão. A dedicatória foi imediatamente para a Avó Lourdes.


O título do livro, tal como os dos capítulos, é retirado de versos de António Ramos Rosa. Porque é que escolheste trabalhar com a poesia dele e de que forma é que esses versos dialogam com a história que querias contar?


O verso já existia em mim muito antes de esta história sequer ser imaginada. Leio muita poesia e tenho várias antologias, mas há uma de António Ramos Rosa, mais recente, que tenho sempre na mesa de cabeceira, com uma série de versos sublinhados a que gosto de voltar. Muitas vezes, de manhã, a primeira coisa que faço é acordar e ler um poema ao acaso, ou relê-lo, porque já li o livro todo várias vezes. Sempre achei esse verso, "Sou Uma Multidão Minúscula", de uma beleza incalculável, porque consegue juntar dois conceitos opostos: a multidão e o minúsculo. Acho que é uma metáfora interior belíssima, porque todos nós somos, de certo modo, uma multidão.


Carregamos o peso de todas as histórias, de todas as decisões e de todas as pessoas que vieram antes de nós e que virão depois. Numa história em que a protagonista é, sobretudo, atravessada pelas histórias de quem a rodeia e tem de tomar decisões não de forma isolada, mas ouvindo sempre todas estas vozes, achei que fazia todo o sentido usar esse verso como título. Até porque ela é uma pequena multidão. É o tempo que não tem, os trabalhos em que se desdobra, os dois filhos de quem tem de cuidar sozinha e, ao mesmo tempo, a miúda cuja mãe nunca lhe disse quem era o pai, a miúda que cresce ao lado de um rapaz numa quinta com uma madrinha. Ela é a sua própria multidão. Esta ideia sempre me fascinou: aquilo que vamos recebendo uns dos outros ao longo da vida e que carregamos connosco. Por isso, acho que é um título muito bonito e profundamente adequado a esta história.


Os títulos das outras partes são também versos que, de algum modo, já tinha sublinhado ou assinalado. Abria o livro e encontrava um verso para cada uma delas. Nunca demorei muito a escolhê-los. Tanto que, quando entreguei a primeira prova, tivemos de pedir autorização aos herdeiros de António Ramos Rosa para os utilizar. Disse imediatamente à minha editora: "Por favor, isto tem de avançar assim, porque, se não for assim, prefiro não publicar este livro." Estes versos também fazem parte da história e têm de estar aqui. De outra forma, não faria sentido.


Como recebeste a notícia de que Rosa Montero tinha escrito uma nota para a contracapa? Foste tu que lhe enviaste o manuscrito ou chegou até ela de outra forma?


Sim, fui eu. Conheci a Rosa Montero e venero o trabalho dela. Admiro-a muito. Para mim, é uma das escritoras vivas mais interessantes e inteligentes de ler, porque não só tem uma prosa belíssima como, muitas vezes, dou por mim a reler as primeiras páginas dos seus livros. Abrimos um livro dela, lemos a primeira página e ficamos imediatamente vidrados. E penso: "Como é que é possível?" Às vezes, leio duas ou três vezes a mesma página, porque acho que ela é inteligentíssima na forma como estrutura as histórias e as narrativas.


Tinha, portanto, esta admiração e o sonho de um dia ter coragem para lhe pedir que lesse um livro meu. Já lhe tinha oferecido Descansos. Ela estava a lê-lo devagarinho, porque lê em português, mas com alguma lentidão. Depois, pedi-lhe que lesse este livro. E ela foi de uma generosidade extraordinária. Disse-me logo que ia tentar fazer alguma coisa e que teria muito gosto em ajudar.


Ver na capa de um livro uma cinta com um blurb da Rosa Montero é uma conquista. Acho que, mesmo que este livro não vendesse nada e não chegasse a lado nenhum, só este gesto e a possibilidade de utilizar os versos de António Ramos Rosa, com a autorização dos seus herdeiros, já teriam feito tudo valer a pena.


O que é que estás a ler?


Neste momento, estou a ler um livro de Domenico Starnone, um autor italiano de quem já tinha lido Laços, há uns anos, e de que gostei muito. Agora, estou a ler Vida mortal e imortal da rapariga de Milão, que é narrado por um menino fascinado pela rapariga que vive na varanda em frente à sua. Estou a gostar imenso. Gosto muito destas narrativas em que os narradores são crianças. Há uma beleza na ingenuidade, uma forma de olhar para o mundo um bocadinho mais pura e mais limpa. Mesmo quando o contexto não é o mais feliz, há sempre qualquer coisa de belo na tristeza. Gosto muito destas histórias que colocam as crianças em primeiro plano.


Também gostei muito de Laços, que aborda uma situação de infidelidade. Starnone tem um sentido de humor muito próprio, muito napolitano, é um autor riquíssimo.


Por Rita Sousa Vieira

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