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SIRI HUSTVEDT EM ENTREVISTA
NEWSLETTER 66- 13 JUN 2026- 1- SIRI HUSTVEDT EM ENTREVISTANEWSLETTER 66- 13 JUN 2026- 1- SIRI HUSTVEDT EM ENTREVISTA

“O que me faz falta é o Paul e a Siri”. O que perdemos quando perdemos um “e”

 

Após a morte de Paul Auster, Siri Hustvedt escreveu o seu livro mais íntimo. Em Fantasmas, a autora cruza memórias, cartas, filosofia e reflexão sobre o luto para explorar não apenas a perda do marido, mas também a ausência da vida construída entre duas pessoas ao longo de mais de quatro décadas.

 


O QUE TENS DE SABER:

 

  • Fantasmas é o livro mais pessoal de Siri Hustvedt, escrito após a morte de Paul Auster, em 2024.

  • A obra reúne memórias, entradas de diário, correspondência e excertos de Cartas a Miles, o último projeto literário inacabado de Paul Auster, dedicado ao neto.

  • Entre o livro de memórias e o ensaio filosófico, Fantasmas reflete sobre o amor, o luto, a identidade e a forma como continuamos a viver com aqueles que já morreram.

 


Começaste a escrever este livro, Fantasmas, depois da morte de Paul Auster. A escrita ajudou a compreender a dor, ou foi, inicialmente, uma forma de sobreviver a ela?

 

Julgo que ambas. Creio que precisei de estar ativa, e precisei de escrever. Esta era a única coisa sobre a qual conseguia escrever, naquele momento. Soube imediatamente que daria um livro. Tinha o formato em mente, o título, mesmo antes de começar a escrever.

 

Quando é que percebeste que as cartas ao vosso neto, Miles, e-mails e outros documentos precisavam de fazer parte da estrutura do livro?

 

Foi uma questão de ritmo. Eu sabia qual devia ser o ritmo do livro e queria que o leitor se habituasse a ele desde o início. Havia uma determinada cadência que eu procurava. Ao usar blocos de prosa, em vez de parágrafos convencionais, o leitor pode fazer uma pausa, respirar e avançar para a ideia seguinte. A forma faz parte integrante do livro.

 

Alguma vez sentiste que a escrita se tornou uma forma de continuar a conversar com o Paul?

 

Sem dúvida. Creio que tudo isto nasceu também de um desejo profundo de o trazer de volta, de alguma forma.

 

Como é que decidiste o que deveria permanecer na esfera privada e o que podias partilhar com os leitores?

 

Este é um livro sobre revelar e não revelar. Nem tudo sobre a nossa vida está no livro, como é óbvio, mas tudo o que decidi contar, contei de forma absoluta, franca e honesta. O livro vive disso, dessa honestidade e intimidade. As coisas que não quis contar não estão no livro.

 

 

Escrever sobre um marido é uma coisa; escrever sobre um marido cuja obra marcou tantos leitores é outra. Alguma vez deste por ti a negociar entre a memória que tens de Paul e as muitas versões dele que existem no imaginário público?

 

Só quando escrevo na terceira e na primeira pessoa. Lido com o assunto da fama muito diretamente, numa das partes do livro. Mas a pessoa sobre a qual escrevo, a pessoa que predomina, é o meu Paul. Olho para o Paul na terceira pessoa, para aquilo que ele representa. Mas isso não tem que ver com o nosso casamento.

 

Um dos temas centrais do livro parece ser a transformação do “eu” após a perda de um “nós” construído ao longo de décadas. Até que ponto tinhas consciência dessa temática enquanto escrevias?

 

Tenho trabalhado filosoficamente nesta ideia há muitos anos. Encontramos exemplos dela em várias disciplinas, até na física, com a questão do emaranhamento quântico: duas partículas ligadas por uma relação que não se reduz a nenhuma delas isoladamente. Mas também na biologia e, claro, na psicanálise, onde a transferência acontece precisamente nesse espaço intermédio.

 

É o “entre” de Martin Buber, um tema sobre o qual escrevo há anos. Por isso, quando cheguei ao conceito do “e”, senti-me muito orgulhosa, porque pensei que toda a gente o iria compreender. Não é necessário todo um enquadramento filosófico para o perceber. Podemos citar Maurice Merleau-Ponty — e eu faço-o, através da ideia de intercorporeidade —, mas a questão é simples: não se trata de uma pessoa nem da outra.

 

Aquilo que toma forma entre duas pessoas é uma terceira coisa. É algo distinto. Foi isso que quis dizer. O que me faz falta não é apenas Paul, o homem. O que me faz falta é o Paul e a Siri, a Siri e o Paul. Faz-me falta esse “e” que construímos ao longo dos anos e que foi mudando com o tempo. É disso que sinto falta.

 

Como é que a dor alterou a forma como te recordas dele?

 

Quando me recordo dele, vêm-me à cabeça muitas memórias. Ri-me enquanto escrevia o livro; há lá algumas coisas engraçadas. Mas isso não apaga a felicidade que tivemos. Sinto falta do imediatismo do homem vivo que me surpreendeu e que me interessou. É pior viver sem ele, mas não tenho escolha. Quero viver. Interessa-me viver. Quero viver e trabalhar. Tenho a minha filha, o meu genro e o meu neto.

 

As cartas inacabadas de Paul ao vosso neto, Miles, estão entre as partes mais tocantes do livro. O que é que elas revelam sobre ele que os seus leitores poderão não saber?

 

Creio que expõem verdadeiramente o Paul, a sua ternura, a sua enorme capacidade de amar. E o facto de que ele tinha tendência para idealizar as pessoas que amava, incluindo a sua esposa e a sua filha, e mais tarde o Spencer. Mas não o pôde fazer com o Miles. Havia alturas em que o Paul roçava o sentimental, e isso é algo que se percebe nessas cartas.

 

Um dos aspetos surpreendentes do livro é o ter espaço para o humor. Porque é que era importante não deixar a dor tornar-se no único foco desta narrativa?

 

Porque queria retratar o nosso casamento. Houve muitos momentos de riso. Ele está a morrer: que poderei eu dizer-lhe? Divertimo-nos muito. É isso. Sinto falta dessa diversão. Quer dizer, ainda me divirto. Nunca perdi o meu sentido de humor, e espero que nunca o perca. Porque o humor é uma forma de distanciamento. O mesmo acontece com a representação. Crias uma obra de arte a partir de algo, certo? E a partir de ti, mas é uma representação, e implica uma certa distância. A palavra na página não encarna a pessoa, é um sinal dela, uma representação.

 

Descreves como sentiste a presença de Paul após o funeral. Enquanto alguém tão interessada na psicologia, o que achas desse tipo de experiências, emocionalmente reais mas difíceis de explicar racionalmente?

 

Podemos tentar explicá-las. Creio que a questão é tanto filosófica como neurológica, mais do que propriamente psicológica. A explicação neurológica presente no livro parte de um facto simples: vivi com um homem durante 43 anos e, nessa casa, durante 30 anos. De um dia para o outro, ele desaparece. Tenho perfeita consciência de que essa pessoa morreu. Não há qualquer dúvida sobre isso. Mas aquilo a que Merleau-Ponty chama o “corpo habitual” — esse corpo que age de forma maioritariamente inconsciente, guiado pelos hábitos e pelas rotinas — entra em choque perante a ausência.

 

O sistema nervoso é extremamente sensível à privação. E eu falo dos sonhos no livro. O que acontece quando deixam de existir estímulos vindos do exterior? O cérebro produz sonhos. Se colocarmos alguém num tanque de privação sensorial, ao fim de cerca de quinze minutos essa pessoa começa a alucinar. Não incluí este exemplo no livro, mas todos temos pontos cegos na visão. Deveríamos vê-los, mas não os vemos, porque o cérebro preenche automaticamente essas lacunas. A privação desencadeia este movimento criativo de preencher o vazio, de completar o que falta. Creio que as “presenças” são isso.

 

 

Paul Auster queria tornar-se num fantasma. Depois de escreveres Fantasmas, achas que ele o conseguiu?

 

Acho que ajudou. Ele deixou os seus livros. Enquanto houver leitores a lê-lo, continuará a ser uma espécie de fantasma no mundo — e isso parece-me uma ideia muito bonita. Mas este livro também ajuda a projetar o seu fantasma no mundo.

 

O que gostarias que os leitores que nunca passaram por uma perda destas retirassem deste livro?

 

Que todos morremos. Que o preço a pagar pelo amor é a dor, às vezes profunda. Mas isso não faz com que amar não valha a pena. Julgo que essa é uma das mensagens do livro. Amar vale absolutamente a pena. Vale a pena amar profundamente, plenamente, e não desistir desse amor. Mas, sim, se amarmos profundamente, durante muito tempo e de forma plena, então o luto também será difícil. Faz parte do preço que pagamos por ter amado.

 

Então, que discussões esperas que o livro alimente sobre o luto?

 

Creio que não se fala muito sobre os aspetos psicológicos do luto. A maioria dos livros de memórias sobre o luto não incluem a pessoa falecida, focam-se apenas na que faz o luto. Isso soa-me estranho; em quase todas, a pessoa que morreu é pouco abordada. Sabe-se que a pessoa era amada, mas já não está entre nós. Falar, escrever, pensar sobre a morte e o luto é muito importante.

 

O título, Fantasmas, evoca a ausência, mas o livro conta com uma enorme presença. Estavas mais interessada naquilo que a morte leva ou no que resta?

 

Creio que, neste tipo de experiências, a ausência acaba sempre por se transformar numa presença, mesmo deixando de lado a explicação neurológica. Depois da morte, a pessoa continua presente de alguma forma. O problema é que a relação se torna numa espécie de amor não correspondido — não no passado, mas no presente. E, precisamente por não poder ser correspondido, o morto permanece presente, embora não da forma que desejaríamos. Não através do corpo vivo, na sua totalidade, mas através das memórias, dos hábitos partilhados e dos gestos quotidianos que construímos com essa pessoa. Mesmo nos gestos mais banais que partilhávamos com o outro, a sua presença continua a fazer-se sentir. O desafio passa por nos adaptarmos a essas mudanças e à ausência que elas revelam.

 

Pode a literatura prolongar o diálogo para lá da morte?

 

Conversamos com fantasmas a toda a hora. Qualquer leitor dedicado fala constantemente com os mortos, porque a maioria dos autores já morreu. Os mortos falam com os vivos através da literatura. Tenho 71 anos. Já li tantos livros, e há tantos que me são tão importantes.

 

Como por exemplo?

 

Podemos começar pela literatura grega, por contos de fadas, por onde quisermos. Já li milhares de livros, e a maioria é da autoria de pessoas mortas.

 

Por falar em livros, o que estás a ler?

 

Estive a ler, ainda hoje, um livro de William Connolly intitulado Aspirational Fascism, muito relevante para o meu país. É muito bom.

 

Por Rita Sousa Vieira

 

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