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ROSARIO VILLAJOS EM ENTREVISTA
ROSARIO VILLAJOS EM ENTREVISTA ROSARIO VILLAJOS EM ENTREVISTA



“Há mulheres que dizem que este livro devia ter um trigger warning” 



Há leitoras que, depois de lerem A Educação Física, regressam a episódios da adolescência que julgavam esquecidos. É esse confronto com a memória que Rosario Villajos encontra em diferentes gerações, numa história passada nos anos 90 que continua a encontrar ecos no presente. À Cultura FNAC, a autora fala sobre corpo, educação, violência e sobre a necessidade de levar esta conversa também aos homens. 

 


O QUE TENS DE SABER 


  • A Educação Física acompanha Catalina, uma adolescente de 16 anos, numa história sobre corpo, sexualidade, culpa e violência, passada na Espanha dos anos 90. 

  • Rosario Villajos nasceu em Córdova, em 1978. É autora de Ramona e La muela, entre outros livros. A Educação Física venceu o Prémio Biblioteca Breve em 2023. 

  • O livro foi apresentado em Portugal no festival literário Correntes d'Escritas, que tem casa na Póvoa de Varzim. 

 



 

Mandaram-me um texto de uma leitora que, ao ler o romance, regressou aos seus tempos de escola e a anos de sofrimento por não ter um corpo “bonito” ou desejável. Surpreende-te que o livro possa despertar memórias tão concretas e dolorosas? 

 

Era um pouco disso que se tratava. No início, pensei que era uma loucura escrever tudo isto. Pensava: “Vou fazer muito mal a muitas raparigas com este livro, mas também vou fazê-las recordar, para que, se tiverem filhas ou filhos, os eduquem de outra forma.” 

 

Estavas consciente de que o romance podia funcionar como um detonador de memórias reprimidas? 

 

Sim. Há pessoas que odeiam o livro por isso. 

 

A sério? 

 

Sim. Há mulheres que dizem que este livro devia ter um trigger warning, que isso devia estar escrito na contracapa. Algumas dizem que o deixaram a meio, que não conseguiam continuar a ler porque era demasiado forte. Claro que não sei o que aconteceu a cada rapariga, nem conheço a história de cada uma. A história principal da Catalina é totalmente ficcional, mas sei que aquilo aconteceu mil vezes. 

 

Situaste o romance nos anos 90, uma década em que também nasceste e na qual cresceram muitas das leitoras. O livro dialoga com uma experiência geracional? Pode funcionar como um espelho para essa geração? 


Sim. Quando decidi situar o romance nos anos 90, sabia que podia tê-lo situado noutra época. Mas escolhi os anos 90 também para mostrar que não evoluímos assim tanto. É esse o feedback que me têm dado as leitoras que mais leem este livro, muitas delas com pouco mais de 20 anos. 

 

Quando comecei a apresentá-lo, lembro-me de uma rapariga de 21 anos que me disse que se tinha emocionado muito porque tinha vivido coisas muito parecidas. Isso entristeceu-me, porque eu pensava que teríamos evoluído um bocadinho. Mas, em algumas zonas ou em algumas famílias, não evoluímos absolutamente nada. 

 

Se nos anos 90, em Espanha, o caso de Alcàsser, em que três jovens desapareceram e foram assassinadas, fazia parte dos medos com que uma geração cresceu, o que é que hoje ocupa esse lugar? 

 

Hoje há perigos relacionados com a inteligência artificial, com a partilha de imagens sem consentimento, com o facto de o corpo não corresponder a uma imagem estereotipada. Há todo um imaginário novo. Por exemplo, descobrir que a pessoa com quem estiveste casada te violou e permitiu que outros homens te violassem durante anos. Ou que existe um grupo no Telegram ou no WhatsApp com 70 mil portugueses e que algumas das fotografias partilhadas são das próprias mulheres desses homens, de pessoas com quem têm filhos. 

 

É esse o imaginário com que vivemos. Parece que a opinião de 70 mil desconhecidos sobre o corpo da tua mulher é mais importante do que a própria mulher, a pessoa que escolheste para partilhar a vida. É incrível. E isto aplica-se às mulheres, às irmãs, a toda a gente. Claro que este imaginário é aterrador. Ou estas histórias de pessoas que compram bonecas com aparência de meninas, como temos visto. Nós crescemos com uma consciência feminista muito maior, lemos muito e conhecemos muitas mulheres que nos inspiraram nos últimos anos. 

 

E os homens? Que referências têm? 

 

Não sei. Este livro devia ser lido pelos homens. Na verdade, escrevi-o também para eles. O que acontece é que, por uma questão de marketing, acabou por chegar sobretudo a quem mais lê. Mas o livro está construído de uma forma que também pode ser muito atrativa para os homens, até pela dimensão de thriller, porque não sabes o que lhes vai acontecer. Mas, na realidade, estou a contar outra coisa. Estou a dizer que eles também deviam acordar um pouco e perceber que somos seres humanos. 

 



 

Achas que este livro também devia chegar aos nossos irmãos e amigos, e não ficar sobretudo entre mulheres? 

 

Sei que, nas escolas em Espanha, o livro está a ser bastante lido porque saiu a edição de bolso, mais acessível, e porque alguns professores o recomendaram depois de o lerem e dizerem: “Isto é muito útil.” Mas é verdade que não o leem na íntegra. Usam apenas alguns fragmentos, porque os miúdos leem outras coisas ou porque, quando somos adolescentes, vemos o mundo de outra maneira. Não nos damos conta do que temos diante de nós. Só mais tarde percebemos certas coisas. 

 

Por isso acho que, a partir de determinada idade, as pessoas compreendem melhor o livro ou conseguem lidar melhor com ele. O feedback feminino, tanto de pessoas de 20 como de 30 anos, é muito bom. Já o feedback masculino dessas idades é aterrador, porque estão na defensiva. É muito difícil de compreender. Acho que os jovens de hoje, portugueses ou espanhóis, tanto faz, sentem-se intimidados pelas mulheres. E, por isso, colocam-nas no lugar de uma inimiga. Isso é muito complicado. 

 

Como é que chegámos até aqui? 

 

Não sei. É como quando perguntas a alguém, no meio de uma discussão: "Tens medo de mim?" E o teu companheiro, um homem, diz que não. E tu respondes: "Pois devias ter, porque eu estou completamente alterada." Mas eles não têm medo e nós temos. E agora, com tudo o que está a acontecer, as raparigas não sabem que têm esse poder, que também se podem defender, que também podem partir a boca a alguém, mas não o fazem porque não fomos educadas para isso. Nunca fomos. Eles, pelo contrário, sentem-se muito atacados com este tema. Com a questão do "vocês acusam-nos", do "not all men". "Not all men, but always men." 

 

A disciplina física e a violência simbólica sobre o corpo feminino parecem estar muito ligadas no livro. Como dialogam entre si? 

 

Acho que nos mantêm sempre muito entretidas com a questão física para que não estejamos a pensar noutra coisa. Seja através da moda, seja através de... Agora temos a internet, que tem mil milhões de filtros. Acho que há pessoas que nem sequer chegam a compreender o próprio corpo ou o que lhes está a acontecer. 

 

Antes falava-te de nos defendermos com os punhos, mas também pensava em algumas discussões que tive com homens, com chefes, com professores. Eu pensava: “Com uma frase, aniquilo-os.” E não o fiz. Pela mesma razão: não fui educada para isso. 

 

Fui educada para os proteger, para que nada lhes aconteça, para que o ego e a autoestima deles estejam sempre nas alturas. Enquanto eles não têm qualquer problema em não demonstrar entusiasmo por ti, em nunca dizer nada bonito, exceto quando querem conseguir alguma coisa. Claro que, felizmente, nem todos são assim. Eu não estaria a viver com um homem se o fossem. Mas a educação de que partimos é essa. E estamos o tempo todo a fazer de professoras deles: “Olha, isto incomoda-me”, “olha, isto...” Estamos sempre a explicar-lhes o que nos incomoda, enquanto eles estão sempre na defensiva. E, se eles percebessem, estariam muito melhor sem estar sempre na defensiva. 

 

Não sei. Fala-se muito de empowerment. Eu sou contra isso. Acho que, em vez de nos empoderarmos a nós próprias, eles deviam perder poder. 

 

Empowerment tornou-se uma palavra que o marketing usa para vender coisas. Mas o empowerment não se vende. 

 

Não sei se alguma vez na minha vida vou deixar de me preocupar com estar bonita ou não. Veio cá uma fotógrafa há pouco. Como só dormi quatro horas e passei muito mal esta noite, disse-lhe que era melhor não me fotografar. Pensei: "Hoje não estou num bom dia." Não sei se alguma vez vou deixar de me preocupar com isso. Fiz este livro, esta é a minha contribuição para que o mundo possa mudar um bocadinho. Pelo menos, tentei pôr a questão em cima da mesa. Mas a mim ninguém me educou. Vou educando-me a mim própria à medida que as coisas vão surgindo. Mas, se ninguém educar os homens, pouco importa o quanto eu me eduque. 

 

 



 

Neste livro, a figura da mãe representa a forma como a violência simbólica passa de geração em geração? 

 

Totalmente. Ainda há muitas mães assim. 

 

Falas dos medos que herdamos das nossas mães, de como a culpa passa de geração em geração. Como é que se quebra esse ciclo? 

 

Não faço ideia. Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Se soubesse, estaríamos as duas a beber um shot. Em vez disso, estou aqui a fazer isto. Não sei, não faço ideia de como mudar isso. 

 

E, em algum momento, Marta, enquanto mãe, tenta proteger a filha, Catalina? 

 

Sempre. Tudo o que ela faz, até a cinta que lhe põe, na realidade não é para ela ficar magra. É para ficar anestesiada caso alguém lhe toque. Para impedir que um homem lhe possa pôr as mãos ali. Mas pensa: o que terá acontecido àquela mãe para ela fazer aquilo? 

 

É uma história que não é contada. Não sei. É complicado. É difícil quebrar esse ciclo. 

Eu quebrei o meu. Não tenho filhos nem filhas porque uma das razões foi pensar: "Vou transmitir-lhes a minha merda e não quero." Tenho amigos e amigas que têm filhos, vejo-os crescer e vejo como repetem as mesmas coisas que os pais faziam, por mais que se tenham preparado para não o fazer. Está lá e não conseguem evitá-lo. 

 

Pensei: "Bom, pelo menos a minha parte está feita." Não tenho filhos e também não estou numa idade em que saiba se quero tê-los. Mas, mesmo sem ter filhos, há momentos em que penso: "Estou a ouvir a minha mãe." São pequenas coisas. Dou por mim a repetir comportamentos da minha mãe, e isso faz-me pensar bastante no que aconteceria se alguma vez tivesse filhos. 

 

Escrever este romance foi uma forma de reparação ou de confronto? 

 

De reparação. Totalmente. De me abraçar. Porque penso: "Porra, se tivéssemos tido, talvez, se muitas raparigas tivessem tido uma infância como a dos rapazes, talvez não tivéssemos passado por todas as coisas por que passámos." 

 

No meu caso, vivi em muitas cidades, passei por muitas coisas que não vale a pena contar. Mas penso: "Tenho de perceber porque fiz todas estas coisas." Porque, se há alguma coisa de que me arrependo na vida, é de não ter desfrutado mais do meu corpo tal como ele era. E refiro-me a fazer o pino, a praticar desporto, a não sei quê, e a ter tido tanto medo do meu corpo. E daquilo que lhe podiam fazer. 

 

E, nesta ideia de reparação, o que eu gostava sobretudo era que o livro chegasse a mais homens, se possível da minha idade, que terão filhas adolescentes, para que as compreendam, para que saibam aquilo por que estão a passar, as mudanças que estão a viver. Basta olharem um pouco para a publicidade que nos rodeia para perceberem como se pode transformar uma rapariga perfeitamente normal numa rapariga que se corta e se automutila porque não suporta o corpo que tem. 

 

Apesar dessas coincidências, dizes que o livro não é autoficção. Onde colocas a fronteira entre a tua experiência e a ficção? 

 

Este livro não é autoficção. É ficção absoluta. A história da Catalina não é uma história que eu tenha vivido, mas sei que a Catalina representa muitas raparigas. Eu sou a Catalina no sentido em que sei como ela se sentia, o que era não se sentir verdadeiramente uma rapariga, pensar: "Sou uma rapariga porque sou uma rapariga"... Por exemplo, quando era pequena e a minha mãe me dizia: "O teu irmão é um rapaz e tu és uma rapariga", como eu era mais velha, pensava: "Ah, pronto, em breve vou ser um rapaz, não faz mal." 

 

Por isso, tive esses sentimentos quando era muito pequena. Mas a mim não me aconteceu aquilo que aconteceu à Catalina. Sei que aconteceu a muitas outras pessoas. 

 

É, de alguma maneira, uma conversa com o teu eu adolescente? 

 

Claro. É uma forma de a abraçar e de lhe dizer: "A culpa não é tua." Nunca foi. 

 

Reler o passado a partir do presente muda o peso do que se viveu? 

 

Não. Acho simplesmente que percebemos melhor o que aconteceu, porque, quando o estamos a viver, é traumático e depois não voltamos a falar sobre isso. A maioria das mulheres que leem este livro, como aquela leitora de que te falei, que disse que devia ter um trigger warning, nunca parou para pensar no que lhes aconteceu. Porque é traumático, é nojento, é humilhante. É como pertencer a uma classe social muito mais baixa, em que não tens direito a queixar-te. "Aconteceu-te tudo isto? Bom, tens de seguir em frente." 

 

Como vês os debates culturais, em Espanha e em Portugal, em torno da educação sexual nas escolas? 

 

Há muitos municípios em Espanha que a proíbem. Pais a dizerem: “Não, os meus filhos não.” 

 

O problema são os pais? 

 

Claro que sim, são os pais. Estava a pensar numa mulher que conheço, que se dedicava a falar de sexualidade e feminismo e que me disse: "Deixei de ir às escolas." 

 

Dizia que sentia que era como voltar a passar pela escola uma segunda vez. Sentia que eram os rapazes, e não as raparigas, que lhe faziam bullying. As raparigas estavam atentas, mas os rapazes riam-se, não queriam saber de nada. Se não querem aprender, não aprendem. E esse é o grande problema. Não, não tenho a solução. A sério que não. Se a tivesse, partilhava-a para acabar de uma vez com toda a violência que existe no mundo, porque tenho a sensação de que tudo parte daí. 

 

Não sei. Na mitologia, culpa-se muito as mulheres. "Foi a Hera que fez isto", "foi a Atena que fez aquilo." Não, desculpem, a verdade é outra. E, quando existe um problema com um homem, é complicado, porque o problema acaba por ser da mãe. 

 

Quando reduzem este romance a um romance feminista, como respondes? 

 

Eu sou feminista. O romance não sei. Acho que o romance é um romance, e pronto. E não interessa em que século o leias, porque é verdade que provavelmente a forma de escrever vai mudar, sobretudo por causa da inteligência artificial, mas a história que estou a contar, infelizmente, não vai passar de moda. Pelo menos, não nos próximos anos. 

 

O que gostarias que as leitoras mais jovens encontrassem nesta história? 


Uma desculpa para criarem uma comunidade de mulheres. Não importa que te isoles, no fim, a guerra acaba sempre por te encontrar. Gostava que repensassem a forma como se veem antes de aceitarem comentários que as magoam ou coisas que não gostam de fazer quando estão com rapazes. Que ajudassem outras raparigas e, sobretudo, que percebessem a importância da amizade entre mulheres. Durante muitos anos, isso foi proibido. Éramos vistas como coscuvilheiras. "Estão para aí a coscuvilhar, não são amigas." Acho que isso está a mudar. 

 

E o que gostarias que as mães encontrassem no livro? 

 

Consolo. Que não é assim tão importante que a filha apareça nua por causa de uma imagem criada por inteligência artificial. O importante é que isso não afete a filha. É isso que lhes diria. O corpo feminino é um corpo nu. Não faz mal. 

 

O que estás a ler neste momento? 

 

Estou a ler Instrucción de Novicias, que acho que também vai sair em Portugal, e estou a gostar imenso. É de duas raparigas, Ana Garriga e Carmen Urbita, que têm um podcast que se tornou bastante conhecido no universo de língua espanhola. É sobre a forma como as freiras dos séculos XVI e XVII podem ajudar-nos a olhar para o futuro e para o presente de outra maneira. É espetacular. 

 

Por Rita Sousa Vieira 


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