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É quase inevitável perguntar: somos todos Animais Difíceis?
Sem dúvida. Os Animais Difíceis do título somos nós, os humanos. Tão contraditórios, tão paradoxais, tão capazes do mais grandioso como do mais obscuro e terrível. E, além disso, por força da nossa própria imaturidade, encontramo-nos hoje num momento da História que é único e extremamente perigoso. Veja-se: o Homo sapiens vive na Terra há cerca de 300 mil anos. É pouco tempo quando comparado com os dinossauros, mas é muito quando pensamos no que aconteceu entretanto. Desses 300 mil anos, nos últimos 80 colocámo-nos já por três vezes em risco de extinção enquanto espécie. Primeiro com as bombas atómicas, um perigo que continua a existir. Depois com o aquecimento global. E agora com a Inteligência Artificial. Em todos esses casos, num espaço de tempo tão curto, o risco surgiu sempre da má gestão da tecnologia, da nossa própria tecnologia.
Somos, portanto, estes Animais Difíceis que, por um lado, conseguem criar uma tecnologia poderosíssima e, por outro, não tiveram qualquer maturidade emocional desde os tempos das cavernas. Do ponto de vista emocional, creio que há muito pouca diferença entre o humano das cavernas e aquele que somos hoje. Somos, no fundo, como crianças a brincar com bombas.
Recorrer à ficção científica é uma forma de obrigar o leitor a encarar uma realidade que, de outra forma, preferiria ignorar?
Não se escreve ficção para dar lições, escreve-se para aprender. Os romances nascem do inconsciente e, no meu caso, esse inconsciente está profundamente inquieto. Estou comovida, preocupada, assustada com a situação em que nos encontramos e escrevo sobre isso para tentar perceber melhor o que nos está a acontecer. Mais do que alertar, tento aprender, em conjunto com os meus leitores, que raio estamos a fazer ao mundo, à vida, a nós próprios.
O que acontece com a ficção científica, e isso é muito interessante, é que muita gente tem preconceitos em relação ao género. Acreditam que fala de coisas estranhíssimas, desligadas da realidade, pouco emocionais, excessivamente intelectuais ou tecnológicas. É um erro enorme. A ficção científica oferece, na verdade, uma ferramenta metafórica extraordinária para aprofundar a realidade, o aqui e o agora. Acredito mesmo que os quatro romances da série da Bruna Husky — Lágrimas na Chuva, O Peso do Coração, Os Tempos do Ódio, Animais Difíceis — são os livros mais realistas que escrevi. E Animais Difíceis, sem dúvida, é de um realismo esmagador. Fala diretamente deste mundo, do presente.
Até que ponto o contexto político e social atual — marcado pelo extremismo, pela manipulação e pela desinformação — foi determinante na construção da narrativa?
Esta não é uma obra em que se possa dizer: isto refere-se exatamente a isto, ou esta personagem é exatamente aquela. Há quem me diga, por exemplo, que a presidente da região espanhola se parece com Isabel Díaz Ayuso, o que acho uma coincidência enorme. Ou que o presidente em funções dos Estados Unidos da Terra seria o Trump. A verdade é que não escrevi nenhuma dessas personagens a pensar em alguém concreto. Escrevi-as a partir de arquétipos. Se o livro for lido hoje, é natural que as pessoas vejam ali o Trump ou a Ayuso.
Ou na presidente da empresa Minerva o Musk?
Claro, evidentemente. Mas, se leres o livro noutra época, poderia ser a Margaret Thatcher ou outra figura qualquer. O que tento fazer, como te dizia, é compreender a realidade e, para isso, procurar os arquétipos que estão por baixo dela, perceber o que nos está a acontecer. E, naturalmente, o que está a acontecer no mundo é a matéria do romance.
Mas insisto: não porque eu esteja a olhar diretamente para isso, mas porque essas preocupações estão tão profundas no meu coração e na minha cabeça que emergem sozinhas do inconsciente. Não é um reflexo daquilo que observo, é um reflexo do inconsciente, do que se sente.
Ao transformar o ar limpo num bem tributável, o romance associa de forma clara a crise ambiental à desigualdade. Pode existir justiça ecológica desligada da justiça social?
Não, não é possível, claro que não. E, além disso, gosto muito que tragas esse ponto, porque é um exemplo perfeito daquilo que eu dizia antes sobre o que a ficção científica faz por via da deslocação. No mundo da Bruna Husky, de facto, as pessoas têm de pagar um imposto para viver numa zona limpa, como por exemplo Espanha, que é uma zona limpa. Mas isso é exatamente o que já acontece hoje, só que sem imposto declarado. É o mundo em que vivemos.
O maior cemitério clandestino de lixo eletrónico do mundo fica no Gana. É como um inferno, um dos infernos da Terra. É clandestino, é ilegal enviar para lá equipamento eletrónico antigo, mas isso acontece na mesma. Setenta por cento dos telemóveis da União Europeia acabam nesse cemitério ilegal. Ou seja, lá devem estar telemóveis teus, meus. É um lugar tão contaminado que organizações não-governamentais analisaram o sangue de recém-nascidos e encontraram metais pesados. É um sítio horrível, como outros sítios horríveis no Cazaquistão ou em zonas chinesas hiperindustrializadas. E quem vive nesses lugares são apenas os pobres. Isto já está a acontecer. Não é preciso pagar imposto. É mais do que um reflexo da realidade. E, de facto, não vamos conseguir construir um mundo ecologicamente menos perigoso para todos se não construirmos um mundo social e ecologicamente mais justo. Isso é absolutamente claro.
Entre o mundo de Animais Difíceis e o “tecnofeudalismo” descrito por Yanis Varoufakis há pontos de contacto evidentes. A ficção científica consegue captar melhor este novo equilíbrio de poder do que a análise económica tradicional?
A ficção científica tem essa capacidade, como te dizia, de aprofundar a realidade com uma finura extraordinária. Neste momento, as mudanças tecnológicas são vertiginosas e arrastam transformações estruturais e sociais profundas. Nesse contexto, a ficção científica está quase a tornar-se literatura de costumes. O meu primeiro livro da Bruna Husky saiu em 2011 e, desde então, não imaginas a quantidade de coisas que se concretizaram.
Como o apagão ibérico, em Os Tempos do Ódio?
Mas muitas outras. Constantemente. As coisas estão sempre a cumprir-se. Por isso, o mundo da minha Bruna Husky não é um mundo distópico. Não é um mundo pior do que este. Diria até que este mundo é pior do que o mundo da Bruna Husky. No mundo da Bruna Husky houve alguns avanços. O sexismo praticamente desapareceu. O racismo foi deslocado para os tecno-humanos. Ainda assim, houve mudanças. Os animais estão muito mais protegidos, os poucos que restam.
Enfim, não acho que seja um mundo pior. Mas é um mundo onde estão presentes todas as tendências que já vemos hoje. Há uma especialista exatamente neste tema de que falas, uma italiana, que é absolutamente impressionante. Ela acabou de escrever um artigo muito longo, perturbador e importantíssimo, sobre a forma como está a ocorrer um golpe de Estado mundial silencioso por parte das megatecnológicas. Porque tanto os Estados Unidos como a União Europeia estão a entregar áreas essenciais, de primeira linha na defesa e na segurança das nossas sociedades, à gestão destas grandes empresas tecnológicas. Empresas dirigidas por pessoas com posições fascistas, que não acreditam na democracia.
Quando falo das áreas mais importantes, refiro-me à defesa, à saúde, à educação, às comunicações. Tudo isso está a ser gerido por este grupo reduzidíssimo de pessoas. É arrepiante. E é um dos perigos evidentes da Inteligência Artificial. Um dos mais evidentes. Esse, por exemplo, não está ainda refletido no romance, porque se foi desenvolvendo depois. Vivemos a uma velocidade brutal. As mudanças são constantes, diárias. A Inteligência Artificial é uma tecnologia incomparável com qualquer outra. Tem um poder imenso. Nunca, em toda a história da humanidade, houve uma transformação tecnológica desta dimensão. É quase como magia. Se conseguíssemos controlá-la, evitar que aprofundasse ainda mais as desigualdades, introduzir nela razão, ética, humanidade e uma gestão política adequada, poderia representar um salto extraordinário para a humanidade. Mas, se não o fizermos, pode tornar-se a causa da extinção da própria humanidade.
Não sou só eu que o digo. Dizem-no figuras centrais nesta área. Uma delas é Geoffrey Hinton, prémio Nobel da Física em 2024, precisamente por ser um dos pais da Inteligência Artificial. Em 2023, saiu da Google para poder afirmar publicamente que não seremos capazes de controlar a superinteligência e que essa superinteligência pode levar à extinção da espécie humana. Portanto, não é uma opinião isolada.
Que paralelos te interessava traçar, ao trazer Filippo Tommaso Marinetti para o centro do romance, entre o imaginário futurista do século XX e a tecnologia que hoje molda o poder e a sociedade?
Porque acredito que tudo é continuidade. A vida é continuidade. Noutros livros da Bruna Husky também recuo a situações que vêm até do século XV. Não surgimos do nada, como cogumelos mágicos. E chamou-me muito a atenção perceber até que ponto as manifestações e a ideologia futurista eram extraordinariamente semelhantes ao discurso que hoje, cem anos depois, os defensores mais cegos da Inteligência Artificial estão a fazer. É exatamente o mesmo discurso. E convém não esquecer que os futuristas acabaram integrados no fascismo. E os mais ferozes defensores atuais da Inteligência Artificial são também antidemocratas e fascistas. É impressionante. Verdadeiramente impressionante.
A personagem de Bruna Husky acompanha-te há quase duas décadas. Como foi colocar-lhe um ponto final? Como é que lidas com despedidas?
Custou-me, de verdade. Fiquei triste. Muito triste. Mas ajudou-me um amigo que, quando lhe disse isso, respondeu: “Mas podes sempre escrever um dia um livro de contos passado no mundo da Bruna Husky.” Foi como se me abrissem uma pequena janela. Quem sabe, talvez um dia escreva contos protagonizados por ela, ou pelo Giannis, o arquivista, ou até pelo Bartolo [cão].
A verdade é que, quando comecei a escrever os livros da Bruna Husky, não fazia ideia de quantos iriam ser. O que queria era criar um mundo próprio, com personagens estáveis, um mundo ao qual pudesse regressar sempre que quisesse. Construir esse universo, porque creio que todos os romancistas aspiram a isso: criar um mundo... É maravilhoso.
Foi uma viagem extraordinária. E quando comecei a pensar neste quarto romance também não sabia que seria o último. Mas, à medida que a história se foi formando na minha cabeça, percebi rapidamente que teria de ser o último, porque este livro tem, ao contrário dos anteriores, uma dupla vertente dramática.
Coloco a pobre Bruna Husky em duas frentes de combate. Por um lado, como em todos os romances, há o mistério da investigação policial, o caso que ela tem de resolver. E, neste livro, é o mais tenso e o mais duro dos quatro, porque remete para um problema real do nosso mundo, um problema crítico da sociedade atual. Mas há ainda uma segunda frente, outro campo de batalha, que é a necessidade de se adaptar a um novo corpo.
Um conflito interior.
Um conflito interior brutal. Porque a Bruna Husky, no romance anterior, Os Tempos do Ódio, é envenenada e quase morre. Para sobreviver, oferecem-lhe participar numa experiência que consiste em transferir toda a sua memória, a sua perceção sensorial, tudo, para o corpo de outro tecno-humano, outro clone. Antes, ela era uma replicante de combate, media dois metros, era atlética. E passa a habitar o corpo de uma replicante de cálculo, uma figura frágil, pequena, sem força. O esforço gigantesco que tem de fazer para voltar a reconhecer-se, para saber quem é dentro daquele corpo, é profundamente trágico.
Este romance fala muito de identidade. Sempre foi um tema que me interessou, mas nunca o tinha explorado tão a fundo como aqui. A identidade é um dos grandes temas do ser humano e, hoje, é um dos grandes temas do nosso tempo, porque as pessoas estão profundamente perdidas. Somos animais sociais e a nossa identidade constrói-se a partir do olhar dos outros.
O livro fala também das disforias. Há uma cena no início que me dói particularmente, quando ela se corta nos músculos, incapaz de suportar o que lhe está a acontecer. Fala ainda do envelhecimento. Envelhecer é, de certa forma, sentir que um corpo mais frágil se apodera de nós.
Sinceramente, acho que este é o melhor dos quatro. Tem mais densidade, mais profundidade. Percebi rapidamente que não conseguiria escrever outro romance da Bruna Husky tão forte como este. E pensei: para fazer um pior, fico por aqui. Para mim, é um dos finais mais consoladores que já escrevi. Apesar de ser um livro muito escuro, o final é luminoso. Não sei bem como cheguei lá, mas escrever este romance ajudou-me muito. E espero que tenha ajudado também a Bruna Husky.
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No conflito interior da personagem surge também a consciência de um tempo limitado. Acreditas que saber exatamente quanto tempo nos resta alteraria a forma como vivemos?
Sem dúvida. Seria impossível não mudar.
Para melhor ou para pior?
O pior da pena de morte não é a morte em si, porque quando morres tudo acaba. O verdadeiramente terrível é saber quando vais morrer. A imensa maioria dos seres humanos vive como se fosse eterna, completamente esquecida da morte, com exceção de um pequeno grupo de neuróticos, como o Woody Allen e como eu, que pensamos na morte o tempo todo. E é por isso que os meus livros estão tão marcados pela morte, pela passagem do tempo e pelo que o tempo nos faz e nos desfaz. Porque viver é desfazermo-nos no tempo.
As novelas da Bruna Husky têm muito de mim. É a personagem com quem mais me identifico, de todas as que criei. Precisamente porque ela sabe quando vai morrer e, por isso, não se pode esquecer de que é mortal. É exatamente o que me acontece a mim. Eu não sei quando vou morrer, mas não consigo esquecer-me de que sou mortal. Ela faz essa contagem decrescente constante. Diz para si própria: três anos, sete meses e dois dias. No dia seguinte, três anos, sete meses e um dia. Vai descontando o tempo que lhe resta até à morte. E, no entanto, neste romance faço algo diferente: pela primeira vez, depois de quatro livros a contar, ela deixa de contar. Dou-lhe um final mais sereno.
Há também uma forte proximidade entre a forma como ela pensa — e escreve — e a tua voz. Essa sobreposição foi deliberada?
Neste romance isso tornou-se quase cómico. Os meus amigos, quando começaram a lê-lo, vieram ter comigo a rir-se e disseram-me: “Está bem, sempre disseste que a Bruna Husky se parecia contigo, mas agora fizeste-a igualzinha.” Até lhe dei a minha altura. Há um momento em que a Bruna Husky diz que mede 1,62 metros, que é exatamente a minha altura. Podia ter escolhido outra, mas não, pus a minha. E ainda por cima pus a Bruna Husky a escrever. Ou seja, devorei a Bruna Husky. Engoli-a completamente sem me dar conta.
Escreveste este livro na tua casa de Cascais?
Grande parte, sim.
Daí a introdução de Clau Pinheiro, apresentada como “a combativa presidente da região portuguesa”?
Cascais e Portugal são uma parte muito importante, e especialmente bela, da minha vida. Esteja eu lá ou aqui. Agora estou em Madrid, mas estou cheia de saudades de Cascais. Estive lá em janeiro e apetecia-me imenso voltar já amanhã, mas não posso.
Que esperança, se é que existe, deixa entrever Animais Difíceis?
A esperança de que ainda podemos agir. Como te dizia antes, esta tecnologia é absolutamente poderosa e, sim, ainda a podemos controlar. Ainda nos podemos pôr de acordo. E isso poderia melhorar imenso as nossas vidas. Já aconteceu noutras alturas da História. A humanidade conseguiu chegar a consensos sobre outros avanços tecnológicos, como a clonagem. Concordámos em não permitir a clonagem humana e isso não foi problemático.
O problema da Inteligência Artificial é que a promessa de poder e de dinheiro que oferece é incomparável. O que está em jogo são as avarezas mais selvagens das elites do poder mundial. Mas podemos agir. É preciso reconhecer o problema, falar sobre ele, unir forças. É possível fazê-lo. A questão é começar.
Se a Inteligência Artificial já alterou profundamente a escrita e o acesso à informação, é inevitável que venha também a mudar a forma como lemos?
A Inteligência Artificial muda a forma como somos. E nem sequer estou a falar apenas do plano coletivo. Em breve vão existir, porque já estão a ser desenvolvidas, implementações neurológicas, ligações diretas entre o cérebro e os computadores. Essas implementações neurológicas vão tornar algumas pessoas muito mais inteligentes — não mais sábias, atenção, porque a maturidade emocional continua a ser zero. Falo apenas de capacidade de processamento de dados. E só os ricos, os que puderem pagar, terão acesso a isso. Se não controlarmos isto antes de acontecer, criaremos uma casta de superinteligentes.
Mas, sendo a leitura um ato profundamente humano, ligado à empatia e à imaginação, achas que a Inteligência Artificial poderá algum dia substituir essa experiência?
Se as pessoas se ligarem dessa forma, terão uma relação completamente diferente com o mundo. Não apenas com a leitura, mas com tudo. A leitura, neste momento, é uma das nossas armas. Como disseste, há estudos, por exemplo em Itália, que mostram que quem lê mais, sobretudo romances, tem níveis mais elevados de empatia e maior consciência do seu próprio bem-estar. A leitura ajuda-nos. É uma ferramenta contra este mundo de psicopatas em que vivemos.
O que estás a ler?
Fico sempre completamente em branco quando me perguntam isso. Estou a reler um romance de uma amiga, a sua segunda obra. Digo reler porque li o manuscrito, mas, entretanto, o livro mudou muito. Acaba de ser publicado em Espanha. Chama-se Mañana seguiré viva, de Marta Pérez-Carbonell, uma escritora espanhola de 43 anos, absolutamente extraordinária. Muito, muito boa.
Por Rita Sousa Vieira