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O QUE TENS DE SABER
Inês Pedrosa estreou-se na literatura em 1991, com Mais Ninguém Tem, seguindo-se, no ano seguinte, A Instrução dos Amantes. Desde então, publicou quase três dezenas de títulos.
É também jornalista, tradutora literária e editora. Dirigiu a Casa Fernando Pessoa entre 2008 e 2014 e, em 2017, fundou a Sibila Publicações, onde tem recuperado obras esquecidas e publicado novas autoras.
Recebeu o Prémio Máxima de Literatura em 1998, por Nas Tuas Mãos, e em 2011, por Os Íntimos. Em 2025, foi distinguida com o Prémio Literário Guerra Junqueiro Lusofonia.

Falemos de 35 anos de vida literária. O que dirias à Inês das primeiras leituras e das primeiras palavras?
É muito fácil dizer o que se diria quando já não se pode ter dito, não é? Acho que os conselhos não servem de muito. Tenho agora uma filha jovem e posso, às vezes, dar-lhos, mas cada pessoa tem de fazer a sua própria experiência. O que diria a essa Inês é: concentra-te mais naquilo que queres mesmo fazer. Mas sei que é um conselho inútil, até porque comecei a escrever ficção, primeiro um livro infantil e depois um primeiro romance, quando tinha uma vida muito turbulenta e agitada no jornalismo. Na altura, o jornalismo estava em crescimento; agora está, infelizmente, em recessão.
Comecei por trabalhar em jornais, até porque não pensei que ia ser escritora e viver da escrita, embora esse fosse o meu objetivo. Tive a sorte de trabalhar em projetos jornalísticos muito entusiasmantes. O primeiro, também com dificuldades económicas, foi o Jornal de Letras. Lá, aprendi imenso e conheci muito da literatura portuguesa, dos escritores, o que foi muito útil para mim. Mas era um jornal onde tínhamos de fazer tudo e, nessa altura, os jornais ainda eram artesanais e montados à mão. Depois trabalhei n'O Independente, um jornal que queria concorrer com o Expresso, com meia dúzia de miúdos, que era o que éramos.
Tinha uma vida muito dedicada ao jornalismo. Ainda hoje tenho, com muita honra, a mesma carteira profissional de jornalista. Mas isso deu-me uma certa dispersão e hoje talvez me soubesse organizar e estruturar melhor o trabalho. Não trabalharia tanto, não dormiria literalmente em cima da mesa do jornal. Se calhar, não o podia ter feito de outra maneira... Acho que as coisas acabam por ser o que têm de ser. E, se é verdade que senti uma dificuldade, enquanto escrevia A Instrução dos Amantes, em encontrar sossego mental e paz para o escrever, o livro se calhar beneficiou dessa energia, porque também temos uma energia quando somos muito jovens.
Comecei muitíssimo jovem no jornalismo, aos 20 anos. Ainda estava a trabalhar e a estudar e acabei o curso já a trabalhar a tempo inteiro.
Hoje, o que sinto é que o tempo é cada vez mais importante. E não é ter tempo para escrever, é ter tempo para não escrever também. Muitas vezes leio livros de autores contemporâneos e sinto que beneficiariam com uma paragem. Não sinto isso nos autores do século XIX, por exemplo. Nota-se, muitas vezes, a pressa em que os escritores vivem. Não o digo para terem mais páginas; às vezes, até para terem menos, mas para as pessoas pensarem no que estão a escrever antes de o escrever.
Exigências também do mercado editorial...
Exato. Mas esse é um conselho que eu não precisaria de dar à Inês do passado. A certa altura, tive propostas de editores para receber, por exemplo, uma avença, por causa do peso do mercado editorial. Quando os meus livros começaram a correr muito bem, economicamente falando, em particular o Fazes-me Falta, que foi um grande best-seller, o editor propôs-me, já que tinha muitos direitos de autor para me pagar, receber uma avença em vez desse dinheiro todo. Seria uma avença que ficaria para sempre, até escrever o meu próximo livro.
E eu sei, por experiência de outros escritores, que quem aceitou isso teve depois uma pressão enorme para fazer um livro no tempo X. Assim que esse dinheiro está a acabar, porque as editoras querem ganhar mais, começa a haver uma pressão muito grande. "Já passaram seis meses, já passou um ano..." Há uma pressão enorme para publicar todos os anos, ou até mais do que um livro por ano.
Pode-se publicar seis livros por ano e ser-se genial, como era o Camilo Castelo Branco. Mas suspeito que ele tinha uma industriazinha, da qual a Ana Plácido fazia parte, e que ela escrevia metade dos livros com ele. Só viviam para aquilo, não tinham outras atividades. Iam escrevendo em folhetim, para jornais, e depois aprimoravam o produto final, porque os romances, no século XIX, nasciam muitas vezes nas páginas dos jornais, como folhetins. Hoje em dia há uma pressão diferente, porque há uma pressão para se escrever sobre a atualidade ou sobre temas contemporâneos.
Acho que toda a literatura sempre falou de identidade. Todos nós nos perguntamos o que andamos a fazer neste mundo e o que é que nos faz viver, não é? Isso tudo tem a ver com a identidade. A questão identitária, hoje... Vejo a contracapa de um livro e é sempre fulano à procura da sua identidade. É claro que a identidade também não é composta por uma só matéria, mas por muitas coisas. Porque é que não vemos nas contracapas dos livros a luta de classes? Já não existe?
Recentemente, li um romance do Alves Redol, Barranco de Cegos, que é um romance espetacular e ainda muito atual, porque cada vez mais existe uma classe muito rica a mandar cada vez mais, a ter cada vez mais dinheiro, e uma classe média cada vez mais empobrecida.
Isto é uma realidade do mundo. Mas só se fala da questão da identidade de género, da etnia, de tudo e mais alguma coisa, sem perceber que todas essas identidades, que hoje são reconhecidas, e bem, e que ainda não têm o reconhecimento igualitário que deviam ter em relação ao homem branco que possui as rédeas da humanidade, são atravessadas pela questão central do poder económico: quem o tem, quem manda nos outros e quem explora os outros.
Há várias formas de feudalismo que se renovaram. Pensámos, a certa altura, que íamos viver numa sociedade burguesa e tendencialmente mais igualitária, em que a classe média se generalizaria. E o que vemos é o contrário.
Estava agora a pensar na Trilogia da Terra, do Itamar Vieira Júnior, que acho que congrega todos esses temas. São livros que poderiam enquadrar-se no neorrealismo.
Sim, claro. E o neorrealismo merece ser recuperado. Todos os ismos, literariamente falando, foram atirados um bocadinho para o canto. Depois do chamado pós-modernismo, em que cada um escreve o que quer, hoje acha-se quase feio pertencer a um grupo, a uma escola. Os neorrealistas faziam gala disso e diziam: somos neorrealistas. De certa maneira, hoje tudo é permitido e há uma elasticidade no uso da língua que é fantástica.
O que é que se pode dizer das Novas Cartas Portuguesas enquanto estilo literário? É uma obra que renovou completamente a língua portuguesa e a literatura portuguesa, mas não tem nome. Misturou ensaio, ficção, poesia, várias formas de escrita e de usar a língua, todas as expressões literárias possíveis: a epistolografia, a narração... É um exemplo máximo de que, hoje em dia, existe uma capacidade de inovação extraordinária que pode não ter nome.
Mas isso não significa que um escritor, por ter pertencido ou pertencer a uma escola literária, tenha menos valor. Dentro das escolas literárias há o bom, o mau, o péssimo.
Acho que hoje não se valoriza o suficiente o facto de o romance ter nascido como um instrumento de democratização do mundo. Desde Dom Quixote que o romance dá voz a quem não tinha voz até então. É, portanto, um instrumento democrático, não um instrumento de reforço do individualismo.

Não consideras que também fizeste escola, sobretudo entre uma nova geração de escritoras? Penso no que Helena Magalhães escreveu, depois de te ver partilhar o seu livro mais recente, Atos de Desobediência...
Claro que essa confissão da Helena me comoveu, até porque li, com muito gosto, o livro dela. Acho que é um livro que agita, que ela escreve muito bem e que tem coisas para dizer.
Na verdade, não tenho noção do tempo que passa. Só me lembro de que as pessoas à minha frente são de outras gerações quando mo lembram. Não me lembro de ter 63 anos, quase 64, porque me sinto a mesma pessoa que era aos 20. E sinto-me realmente muito parecida, mais do que aos 20, até aos 13 e aos 15.
Não acho que aos 15 sejamos crianças, nem aos 13. Acho que há a infância, depois a pré-adolescência e a adolescência, que é muito marcante, às vezes mais do que a infância. Falamos muito da infância, mas a adolescência é o momento das primeiras escolhas individuais, que marcam o nosso caminho.
Olho para mim e vejo sempre aquela pessoa, com aqueles ideais. Ainda por cima, mudei muito pouco de ideais. Tive a sorte de crescer já depois do 25 de Abril e de ser acompanhada, no meu crescimento, por um Capitão de Abril, um amigo do meu pai que era uma espécie de pai alternativo para mim.
Tive também a sorte de conseguir manter uma certa candura. Quando crescemos, tornamo-nos um bocadinho amargos, porque temos experiências e desilusões e tendemos a tornar-nos demasiado autocríticos, sarcásticos, cínicos connosco próprios.
Uma coisa de que me apercebi, quando estava a escrever o meu primeiro romance, foi que era um romance sobre o fim da inocência. Porque eu sentia-me a ficar adulta e não queria ficar adulta.
Foi editado em 1992. Os anos 90 são de fim da inocência, o pós-Revolução...
E coincidiram com a minha entrada na idade adulta. Trabalhava há muitos anos, mas tinha casa, dinheiro, impostos para pagar, preocupações de adultos. Queria reter essa adolescência, que era também a adolescência do país.
Acho que nos anos 90 houve esperança, por causa da revolução e do fim dos muros. Mas o dinheiro passou a reinar sobre tudo. Os yuppies eram muito deprimentes... N'O Independente, sentia-se muito esse efeito yuppie. Havia um lado lírico e um lado muito yuppie. Muito dinheiro, fama... Onde é que isso leva? Quis preservar a inocência. Não se escreve sem preservar a inocência.
Lembro-me de que, há uns anos, estava num café e vieram umas meninas de 15 anos com uma edição de A Instrução dos Amantes. Ficaram a olhar para mim, perguntaram-me se eu era eu. Queriam que eu assinasse os livros e diziam que eu estava a escrever sobre elas. E isto foi 15 ou 20 anos depois de o livro ter saído.
Ainda bem, porque eu não queria escrever sobre uma adolescência. Há referências vagas ao tempo, mas não queria que ficasse apenas como uma coisa sobre os anos 70, o pós-25 de Abril. Queria refletir, de uma forma um bocadinho mais abrangente, sobre o que é essa entrada na suposta maturidade.
Aliás, o significado de "maturidade" é uma interrogação que mantenho sempre. Acho muita graça à ideia que as pessoas têm do que significa ser-se maduro e do que é uma obra madura. O Mozart fez grandes coisas ainda criança... Quando é que ele foi maduro? Será que alguma vez o foi? Por outro lado, era um músico muito maduro e tinha uma vida de miúdo mimado.
O que sinto é: ainda bem que consigo influenciar alguém de alguma maneira, no sentido de escrever livros que tenham sido importantes para as pessoas que os leem, para pensarem sobre elas, sobre a vida, sobre o mundo. Vejo que isso acontece e fico contente. Claro que, para isso acontecer, também há quem deteste...
Ser consensual é difícil.
É muito aborrecido. Acho que se pode gostar de um autor, admitir que é bom, e perceber que não é da nossa família. O Jorge Luis Borges, que é indiscutivelmente um grande autor, não é da minha família. Nunca será o meu escritor de cabeceira, embora tenha um conto que adoro e uma frase que repito muitas vezes: "Quando somos novos somos barrocos por timidez".
Cito-o, mas não é uma companhia da minha vida, como são o Virgílio Ferreira, a Agustina Bessa-Luís, o Guimarães Rosa, o Tolstói ou a Virginia Woolf. Posso reconhecer que um escritor não é da minha família e, ainda assim, que é um grande escritor.
Também posso dizer que há grandes escritores que escrevem coisas muito enervantes. O Céline, que era um escritor fascista, é um grande escritor, mas, como era próximo do nazismo e do fascismo, não me interessa. É como reconhecer que a Leni Riefenstahl era uma grande cineasta. Não me interessa mergulhar na obra dela, porque me interessa manter-me longe de tudo o que é a glorificação da ditadura e do terror. Interessa-me combater isso. Posso reconhecer-lhe valor estético, mas combatê-lo ideologicamente.
E sentes que, hoje, ainda conseguimos reconhecer valor numa obra e, ao mesmo tempo, afastarmo-nos do autor com quem não concordamos?
Não, hoje em dia temos a mania de ser tolerantes com tudo e de achar que tudo é igual. Temos um bocado essa mania de fazer equivalências. Faço muita questão de dizer: a democracia ou a igualdade de direitos não são iguais a não ter direitos.
As culturas não são relativas. O tipo de mentalidade alegadamente islâmica, porque há vários tipos de Islão, que se pratica no Afeganistão não é defensável. Não é "a cultura deles": é uma cultura que está a praticar um genocídio em metade da população.
Eu não relativizo as culturas e não me interessa se a democracia foi inventada em França, se é eurocêntrica ou não. Os direitos iguais para homens e mulheres são um bem da humanidade, onde quer que tenham nascido.
Há um suposto pensamento ecuménico que diz: tudo tem o seu valor, e quem somos nós para criticar outras culturas? Não. Eu sou mulher, tenho pele e ossos, e sei que as mulheres do Afeganistão também têm pele e ossos, sentimentos, coração, e sentem dor se forem espancadas, como eu sentiria. Tenho a maior empatia por essas mulheres e sei que estão a ser maltratadas. Acho inacreditável que a ONU ache que isso não é com ela, ou permita que continue a existir.
Qualquer coisa está muito errada no mundo quando fechamos os olhos ao sofrimento da humanidade porque acontece numa zona geográfica que tem um poder particular. Admite-se que esse poder esteja em fóruns, no mundo, como se fosse normal que, num país, as mulheres não possam ir à escola ou ter tratamento médico.
Não admito que seja igual ter direitos ou não ter direitos. Acho que as pessoas têm o direito de escolher a vida que querem, pelo que os Estados religiosos não podem impedir quem não é religioso de não ter religião.
Queria, com a minha questão, pegar mais pelo distanciamento entre obra e autor.
Gosto muito do Caravaggio. Foi um assassino, matou pessoas. Gosto na mesma da pintura dele. Não foi meu contemporâneo e só soube disso depois de gostar da sua pintura.
Na literatura é mais fácil. Dei o exemplo de Céline, que defendia claramente o regime fascista e, de facto, não me interessa. Sei que pensava dessa forma. Tentei. Houve uma altura em que era mais ecuménica. Diziam-me que ele era ótimo, fui ler Viagem ao Fim da Noite. Li metade. Preferi ler A Grande Viagem, de Jorge Semprún, um escritor que admiro extraordinariamente e que hoje está muito pouco publicado. Era um jovem comunista e conseguiu sobreviver aos campos de concentração. Deram-lhe o trabalho burocrático de fazer as listas dos que iam morrer, uma coisa que marca uma vida inteira.
Esse livro narra a sua viagem de comboio, de três dias e três noites, naqueles comboios animalescos onde transportavam as pessoas para os campos de concentração. É um romance extraordinário e muito pouco falado. E é muito bem escrito. Tenebroso, mas muito bem escrito. A Viagem ao Fim da Noite, para mim, é isso. Comecei a lê-lo e disse: não.
Ainda não li os neorrealistas todos. Não li Dostoiévski todo. Tenho essa opção, digamos, ideológica. Como o tempo é curto, interessa-me aprofundar. Podem dizer-me que só quero confirmar o que já sei; eu já sei o suficiente sobre o fascismo para saber que não quero ter nada a ver com aquilo. Não quero ler propaganda fascista.
Tinha muito essa conversa com o Baptista-Bastos, que gostava muito de vários escritores fascistas e dizia que, esteticamente, tínhamos de os apreciar. E eu respondia-lhe que a vida é curta... Não procuro confirmação no que leio dentro do espectro não totalitário. Há muitas opiniões diferentes sobre todos os assuntos e isso interessa-me. Não tenho uma solução que resulte no mundo; sei que a questão do hipercapitalismo, de cada vez menos pessoas terem mais poder e de haver gente menos formada a tê-lo, não resulta.

Voltemos à Inês Pedrosa. Estes 35 anos de produção literária começam com o livro infantil Mais Ninguém Tem, em 1991, seguindo-se A Instrução dos Amantes, de 1992. Escreveste os dois ao mesmo tempo? Qual foi a ordem?
O Mais Ninguém Tem foi um livro que tinha escrito à mão, com desenhos do meu amigo Jorge Colombo, para oferecer à minha afilhada. Mas dava-me bastante com o Nelson de Matos, editor da Dom Quixote, porque circulávamos nos mesmos meios. Ele viu o livro, viu as ilustrações do Jorge e disse: "Que coisa tão bonita, quero publicá-lo". Depois surgiu a ideia de criar uma coleção infantil, convidando outras pessoas.
Eu já estava a escrever A Instrução dos Amantes, mas não o tinha dito a ninguém. O Nelson de Matos, que era um editor muito arguto, disse-me que, quando acabasse o meu primeiro romance, gostaria muito de o publicar. Perguntei-lhe: "Como é que sabe que estou a escrever um romance?" Respondeu que era editor e sabia "farejar"... E que a minha escrita, no jornal, era a escrita de uma ficcionista.
Eu era um bocadinho criticada no jornal por querer fazer literatura com tudo. Acho que o jornalismo pode e deve ser boa literatura, porque é uma outra forma de literatura. A crónica também faz parte da literatura e, para mim, a reportagem também. Lembro-me, por exemplo, do Fernando Assis Pacheco, que era um grande poeta, mas também um grande jornalista. Tem reportagens inesquecíveis que, para mim, são peças literárias. Acho que uma coisa não impede a outra.
Fiquei tão contente com aquela esperança, com aquela fé no meu trabalho, que cheguei a casa e decidi: agora não tenho mais fins de semana. Acabei o livro mais cedo do que o previsto por causa desse estímulo. Já o tinha começado, interrompido, recomeçado, porque um romance exige que se mergulhe bastante a tempo inteiro, para não se perder o aroma das personagens nem o ambiente, o outro mundo que é paralelo ao nosso.
Pensei, na única coisa calculista que me ajudou a acabar o livro, que, se o publicasse aos 29 anos, haveria mais tolerância do que se fosse uma balzaquiana de 30 anos, já uma mulher e não uma jovem. Haveria uma bondade.
Houve quem gostasse muito do livro, mas também tive críticas más. Aliás, os jornalistas são péssimos pós-jornalistas. Agora são menos péssimos, porque há mais jornalistas que assumiram a poesia ou a ficção. Na altura, não havia muitos, e os poucos que havia eram um bocadinho jornalistas-escritores. Diziam-me, com desdém, que era jornalista e ia publicar ficção, como o sapateiro que quer tocar rabecão. Como se o Gabriel García Márquez não tivesse sido jornalista, o Saramago, o Cardoso Pires, o Hemingway...
Quando uma pessoa pensa no que vai fazer, regra geral vai para professor. Devo dizer que isso nunca me ocorreu. Como fui criada no pós-25 de Abril, com os alunos a atirarem tomates e ovos aos professores...
Uma das coisas lindas do 25 de Abril foi ter democratizado o ensino, que era para muito poucos. Havia muitos entraves a que os filhos dos pobres fossem para o ensino secundário. A minha mãe, que estudou no colégio de Odivelas, era filha de um sargento; não tinha direito a completar o liceu, só a fazer o curso de Economia Doméstica. Só as filhas dos capitães é que seguiam para o liceu. Como ela pertencia ao quadro de honra, houve uma guerra da parte do pai para que pudesse continuar os estudos.
Era assim que estava estruturado o ensino. Para o democratizar, entraram muitos professores, muitos jovens e, como tudo era de facto permitido, houve uma fase em que era preciso ser-se um herói para enfrentar uma turma. Foi isso que me levou ao jornalismo, que tinha aparecido como possibilidade de estudo superior, em 1979, na Universidade Nova.
Mas sempre com a ideia de querer escrever, e consegui-o, porque o jornalismo de redação fixa me abandonou, as revistas e os jornais começaram a ter problemas... Fiquei desempregada do jornalismo e pude dedicar-me, a tempo inteiro e de forma progressiva, à ficção.
A crise no jornalismo não é de agora.
Não. Em 1995, deixei de ter a revista Marie Claire, que dirigia. Não porque fosse inviável, mas porque o administrador português foi acusado pela administração francesa de gestão fraudulenta. Houve um processo em tribunal complicado... Nessa altura, pensei: há tantos jornais que, com certeza, me vão convidar para outro. Não aconteceu.
Hoje, agradeço por isso. Fui fazendo projetos soltos, apresentando projetos de televisão, rádio, etc. Tive a possibilidade de ter, durante anos, uma crónica no Expresso. Era uma obrigação semanal, com alguma responsabilidade, mas permitiu-me ter o resto do tempo livre para escrever ficção.
Nos últimos nove anos, tive também a alegria de fundar uma editora, a Sibila, outro sonho que muitos escritores têm. Calhou ter acontecido um século depois de VirgInia Woolf ter fundado a sua. Temos como objetivo primordial publicar mulheres "desaparecidas" ou ainda não publicadas em Portugal, mas também publicamos coisas pouco usuais.
Publicámos, por exemplo, um ensaio extraordinário sobre Camões, da autoria de Nuno Júdice, o que nos deu imenso gosto, porque foi ele que no-lo propôs. Publicava na LeYa, mas tinha um livro que ficara abandonado numa gaveta e que tinha muita pena de não ter publicado. Tivemos a sorte de o fazer e ganhou logo um prémio de Ensaio. É um ensaio muito bonito e inovador sobre Camões. Também publicámos alguma poesia com ele, numa coleção dirigida por si.
Publicámos Grazia Deledda, a primeira escritora italiana a vencer o Prémio Nobel da Literatura, em 1926, que não estava publicada cá. Publicámos também Maria Antónia Palla, cujos trabalhos jornalísticos estavam desaparecidos do mercado e que foram muito importantes para mim quando era miúda. Agora, temos publicado novas escritoras.
E a tua obra.
Sim, mas inicialmente estava na Porto Editora. Não comecei por me publicar a mim própria porque não queria que parecesse que queria era publicar-me. Acabei por achar que é mais simples. Os editores achavam que eu era um bocado chata com as capas... Tenho esse feitio de ser também editora e de querer que as coisas correspondam, que tenham uma verdade por dentro e por fora semelhante. Agora posso fazer exatamente como quero, sem ser a chata que já recusou cinco capas.
Faço isto com o meu marido, o Gilson Lopes, que é designer. Trabalhava em publicidade e gosta muito de livros. Ocupa-se da parte gráfica e do marketing, e eu concentro-me no editorial, em ver o que é publicável, na edição. E também nos meus, claro, mas isso não foi a ideia inicial, até porque não sabia se haveria lugar para a editora e estava bem na Porto Editora.
Uma coisa que hoje é difícil para as grandes editoras terem é a obra completa de um autor no mercado. Muitos colegas meus queixam-se disso. E até é estúpido: há livros que foram grandes sucessos e que eu acho que continuariam a ser. Podia dar exemplos, mas não o vou fazer, porque há alguns que estão há tanto tempo fora do mercado que estou para ir falar com os autores e propor: já que a sua editora tradicional não os publica, talvez nós o possamos fazer.
No meu caso é assim. Não só agora reeditámos A Instrução dos Amantes, que estava fora do mercado, como já reeditámos Desamparo ou Nas Tuas Mãos, que está, aliás, no Plano de Leitura, talvez por ser um romance que atravessa o século XX todo e, portanto, dá um pouco a história de Portugal do século XX, da ditadura, de como foi vivida a II Guerra Mundial e da mudança para a democracia. Também já reeditei Fazes-me Falta. Conseguimos tê-los no mercado ao mesmo tempo.
As grandes editoras prometem fazê-lo, mas, na verdade, só têm o último. Também porque têm tantos autores que não têm o trabalho que nós temos: o Gilson fala com os livreiros, explica que tem isto, tem aquilo, que provavelmente vende.
Publiquei um livro que é o Vinte Mulheres Para o Século XX, que tinha desaparecido da LeYa. Houve hipermercados que me chegaram a perguntar se não tinha cem exemplares em casa, para fazer ações de campanha no Dia da Mulher. Disse-o, na altura, ao diretor-geral da LeYa, e ele respondeu que o século XX já tinha acabado e já ninguém queria saber...
Republicámos o livro e tenho verificado que há muita gente interessada em saber quem foi Golda Meir, quem foi Marie Curie, quem foi Bette Davis, quem foi Marilyn Monroe.
Aliás, as mulheres agora estão na moda. Apareceram biografias de mulheres até para crianças, e bem. Frida Kahlo, Virginia Woolf... Há mais apetência por isso do que na altura em que o publiquei, no ano 2000, quando ainda não havia o #MeToo.
Por vezes, penso que os editores que estão na roda do mercado só veem a última coisa que saiu e perdem com isso, porque têm um catálogo que não rentabilizam. A vantagem das pequenas editoras é que é a nossa vida, o nosso trabalho. Nos meus livros em particular, claro, mas todos os livros que publico são um bocado a nossa cara.
Publicámos um livro da Grazia Deledda e publicámos logo mais dois. Temos quatro livros publicados da Joumana Haddad, uma libanesa extraordinária, de grande coragem, que já recebeu ameaças de morte por ser uma mulher que se mete na política, na literatura, que fez uma revista erótica no Médio Oriente...
Publicamos porque queremos apostar num autor e fazer, de facto, com que esse autor, ou autora, tenha a sua voz, a oportunidade de se fazer ouvir. Já não publico há alguns anos também por causa disso. Entre traduções para a minha editora e para outras, gosto muito de traduzir, acho que me ensina também a escrever melhor...
Às vezes, os meus amigos, o meu coeditor e marido, perguntam-me pelo livro novo. Estou a escrevê-lo. Mas na cabeça... Para o ano, tenciono editá-lo.
Este ano, juntei as entrevistas de uma vida num livro que se chama Vidas Entrevistas. Entrevistei o Jean Baudrillard, uma influência fortíssima na minha formação. Entrevistei o Serge Moscovici, o Fernando Savater, o Caetano Veloso, o John Malkovich, a Laurie Anderson, o William Golding. Estava tudo disperso por jornais que já ninguém lê e, como agora também vejo que há uma certa apetência por livros de entrevistas, lembrei-me de as recolher. Sai nesta rentrée, em outubro.
O que é que está a ler neste momento?
Estou a ler The Prisoner, de Sally Carson, um livro muito interessante sobre a ascensão do nazismo, escrito em 1934. Surpreendeu-me muito, porque tudo o que começou a acontecer na Alemanha está a acontecer agora nos Estados Unidos e noutros sítios. É o segundo de uma trilogia e estou a lê-lo para o publicar e traduzir.
Acabei de ler Atos de Desobediência, da Helena Magalhães. Estou também a ler um livro de António Cabrita, um autor da minha geração, mais dedicado à poesia: Da Santidade na Perspetiva dos Pangolins. O título é estranhíssimo e o livro é hilariante e muito cruel. É sobre Moçambique, onde ele viveu nos últimos anos, sobre o que se passa lá agora. E é também uma história de amor e política.
Estou sempre a ler várias coisas ao mesmo tempo. Tenho sempre um livro de bolso na carteira, agora é Maigret e a Mulher Desaparecida. Ando também a ler contos porque estou a fazer uma antologia. Já fiz uma há muitos anos e agora estou a refazê-la, atualizando-a. Por isso, ando a ler várias antologias de contos.
Por Rita Sousa Vieira
Fotografias de Inês Pedrosa: Alfredo Cunha (capa), Correntes d'Escritas/C.M. da Póvoa de Varzim (texto)
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