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PAUL MURRAY EM ENTREVISTA
ENTREVISTA PAUL MURRAYENTREVISTA PAUL MURRAY

“Como escritor, o meu trabalho é entrar na cabeça dos outros”



Finalista de vários prémios, incluindo o Booker 2023, A Picada de Abelha figura nas listas dos melhores do ano para as publicações nacionais. Em conversa com a Cultura FNAC, Paul Murray, romancista irlandês, defende o final “algo controverso” do livro e explica porque é o que o Algarve é um destino “cliché”.



 


Disseste que, ao escrever A Picada de Abelha, colocaste toda a tua tristeza no livro. Como é que as emoções influenciam o processo de escrita?

 

Quando disse isso, estava a referir-me sobretudo à segunda metade do processo de escrita. Na fase inicial, ao escrever o rascunho, adoto uma abordagem mais livre. Contudo, a segunda fase, que é muito mais longa, foca-se na revisão e edição. Durante essa etapa, que coincidiu com a pandemia de COVID-19, senti-me profundamente grato. Apesar da sensação de que a civilização estava a colapsar, eu podia simplesmente subir ao meu quarto e continuar a trabalhar no meu livro.

 

Na verdade, mesmo numa fase inicial, o livro foi uma oportunidade para explorar temas do meu quotidiano e preocupações pessoais enquanto indivíduo do século XXI — ansiedades que todos partilhamos. Só o facto de possuirmos um telemóvel cria uma espécie de fluxo constante de terror que nos invade diariamente.

 

No início, pensava que o livro iria ser uma comédia e investi bastante tempo a planear nesse sentido. No entanto, não encontrei na comédia algo verdadeiramente satisfatório, porque nem sempre me sentia com piada; não parecia que a vida tivesse muita graça. Pelo contrário, parecia-me que a vida estava cheia de terrores, novos e antigos, e a escrita tornou-se uma forma de lidar com isso. Diz-se que escrever é uma tentativa de recuperar algum controlo. Talvez tenha sido exatamente isso que fiz com A Picada de AbelhaSentir alguma estabilidade ou paz no ambiente atual, inundado por más notícias constantes, é igualmente desafiante. Talvez, se tivesse desligado do mundo e parado de ler notícias, fosse mais feliz. Ainda assim, foi interessante refletir sobre estas questões, transformá-las e deixar que as minhas personagens as enfrentassem. Foi uma forma de explorar temas que, até então, não tinha visto abordados em romances. Por isso, senti que estava a criar algo novo, pelo menos para mim.

 

Quando é que o começaste a escrever?

 

Comecei o primeiro rascunho no final de 2017 e iniciei o segundo no início de 2019.

 

Dizes que o livro é sobre a descoberta da beleza em lugares sombrios.

 

Por isso é que a comédia não funcionou. As coisas boas destacam-se em contraste com as más. É assim que, enquanto humanos, compreendemos o mundo. Por exemplo, imaginar o planeta a ser destruído pelas alterações climáticas dá-nos uma perceção mais clara do que é o mundo: a natureza, o ambiente vivo e pulsante em que existimos.

 

Escrever um livro ambientado numa floresta foi algo que sempre quis explorar. Adoro florestas. São espaços românticos, quase mágicos, onde nos podemos perder. De certa forma, parecem intemporais, desligadas do resto do mundo. No livro, a família, especialmente o pai, tenta escapar ao mundo moderno, procurando um lugar puro e seguro, longe de tudo. Mas isso é impossível. Não podes fugir às ligações que tens com outras pessoas; não podes escapar da época em que nasceste. Escrever um livro é algo semelhante. A motivação inicial parece ser criar um universo isolado para escapar aos teus problemas. Mas, ao longo do processo, percebes que aquilo que amas no mundo imaginado são, na verdade, as coisas que amas no mundo real. Para mim, os livros ajudam-nos a mergulhar no lugar onde estamos. Foi aí que encontrei a beleza. Por exemplo, estava a escrever sobre uma cidade no centro da Irlanda, um lugar banal e aparentemente sem romantismo. Queria que a história fosse sobre pessoas comuns num local comum. No entanto, quanto mais me envolvia, mais percebia a profundidade emocional das suas vidas, algo que me marcou profundamente. Além disso, aquela cidade, que para eles parecia tão monótona e sem graça, tinha uma ressonância épica e mítica, o que adorei explorar.

 

Durante o processo de escrita, houve algum momento em que a história tomou direções inesperadas?

 

Sim, várias vezes. Se considerarmos que o livro começou como uma comédia, essa já foi uma mudança significativa. No entanto, quando cheguei à secção da Imelda [a mãe] — o livro está estruturado por personagens —, a voz alterou-se radicalmente. Foi uma experiência completamente diferente de tudo o que tinha escrito até então.

 

Evitas qualquer uso de pontuação, recorrendo, na maior parte das vezes, a letras maiúsculas para delimitar as frases. Porquê?

 

Inicialmente, usei a pontuação convencional, como nas outras partes do livro. No entanto, gradualmente, ao longo de 10 ou 20 páginas, a pontuação foi desaparecendo porque não refletia o pensamento dela. Ela vive e sente as coisas de uma forma mais emocional, e a pontuação parecia limitar essa expressão. Era como impor uma estrutura formal que não fazia sentido para a essência da personagem. Sem pontuação, o texto ganhou um ritmo próprio, quase poético. Embora pareça uma torrente de ideias, na verdade, é algo muito cuidado.

 

Com exceção da Imelda, todas as outras personagens vêm da classe média. Isso foi determinante para essa voz?

 

Talvez, sim, talvez. Ela vive num tipo de... Não é nenhum tipo de estereótipo, mas imaginei o seu passado como um lugar onde reina o caos. Ela está constantemente a reagir. Reage a um mundo que lhe parece muito ameaçador. E ela está apenas a tentar... sobreviver. É isso. Ela é o único membro da família que sabe o que é ser pobre. Se fores de classe média, novamente sem querer generalizar, abres o frigorífico e assumes que vai haver algo lá dentro. Mas nem toda a gente tem essa experiência.

 

Há quem ache que toda a gente tem uma mesa para jantar, mas isso não é verdade. Algumas pessoas vivem realidades muito diferentes, mesmo ao nosso lado. Queria mostrar esse contraste em relação às outras personagens. Ela cresceu assim, num estado constante de perda de controlo. E vive com o medo de, a qualquer momento, ser arrastada de volta para esse lugar onde não tem qualquer poder, onde tudo lhe escapa das mãos. Acho que é assim que o trauma opera: está sempre à espreita, pronto a regressar, como uma sombra que nunca desaparece.

 

O livro está dividido em quatro grandes capítulos, cada um focado num membro da família Barnes. Como é que chegaste a esta estrutura?

 

Bem, inicialmente, pensei em estruturar o livro de forma diferente. Comecei com a Cass [a filha] — ela foi sempre o ponto de partida — mas, no início, havia momentos em que queria descrever os sentimentos da cidade em relação à família. Já tinha usado uma estratégia semelhante num livro anterior, passado numa escola [Skippy Dies]. Nele usei uma voz omnisciente que explicava coisas ao leitor, como: "Esta escola tem cem anos, o ginásio fica ali, e há um fantasma, blá blá." Pensei em usar a mesma abordagem aqui, mas percebi que, sempre que introduzia essa voz — como, por exemplo, "os habitantes da cidade veem o Dickie [o pai] como um idiota benevolente" —, a força do texto diminuía consideravelmente. Senti que, quando me mantinha próximo da Cass, acompanhando a sua perspetiva, a narrativa tinha muito mais intensidade. Assim, decidi, ainda numa fase inicial, que cada personagem teria a sua própria perspetiva, e o livro seria construído como um puzzle, peça por peça. Não é uma ideia nova, especialmente em sagas familiares, mas achei que era a que fazia sentido, porque, no contexto de uma família, não há ninguém que conheças tão bem e, ao mesmo tempo, compreendas tão pouco.

 

A estrutura funcionou para refletir essa dinâmica: estas quatro pessoas estão profundamente interligadas mas, ao mesmo tempo, são incrivelmente cegas umas em relação às outras. Não se compreendem verdadeiramente, não falam a sério umas com as outras, e essa falta de confiança e comunicação cria lacunas que nós, como leitores, conseguimos ver, mas eles não. Foi uma forma eficaz de avançar a narrativa.

 

Por exemplo, durante 200 páginas, os leitores veem a Imelda pelos olhos da Cass e do PJ [o filho], e ela parece apenas uma idiota. Mas, quando chegamos à secção dela, percebemos: "Meu Deus, ela tem um passado. Ela é uma pessoa com emoções complexas e segredos profundos que os filhos desconhecem." Isso é o que significa ser humano. Isso é o que a escrita nos permite explorar — essa capacidade de revelar o que está escondido por trás das aparências.

 

Como foi colocares-te na cabeça da Cass, uma adolescente de 17 anos?

 

Acho que uma das ideias centrais do livro é que não somos assim tão diferentes uns dos outros. Estamos todos mais conectados do que parece. Todos carregamos pequenas histórias, papéis ou identidades que adotamos e mantemos para dar sentido ao mundo. Mas, na verdade, essas coisas não são reais – não refletem a essência do que realmente somos. Se conseguíssemos deixar cair essas máscaras, perceberíamos que todos partilhamos as mesmas vulnerabilidades, as mesmas ansiedades. Gostei imenso das partes da Cass. A perspetiva dela abriu-me um universo de novas possibilidades. Já tinha escrito um livro sobre rapazes numa escola, Skippy Dies, que inclui uma parte narrada por uma rapariga.

 

Com a Cass, sinto – e posso estar errado – que os livros, especialmente para quem lê muito, oferecem uma capacidade única de empatizar com pessoas que, à primeira vista, parecem completamente diferentes de nós. Eu cresci a ler, por exemplo, Judy Blume. É uma escritora americana que cria histórias para adolescentes, tanto rapazes como raparigas, mas também livros mais direcionados para raparigas. E eu li esses livros. Tinha uns 12 anos, e li-os todos. Por isso, sim, acredito que, enquanto leitor, temos a sorte de poder explorar outras perspetivas através de grandes escritoras. Essas vozes femininas abrem janelas para experiências que, de outra forma, talvez nunca considerássemos. Não que, na altura, eu pensasse conscientemente: "Ah, é assim que é ser uma rapariga." Mas entrar na mente de uma adolescente, em vez de um adolescente, nunca me pareceu um salto enorme. Como escritor, o meu trabalho é entrar na cabeça dos outros.

 

Há algum autor ou livro que tenha influenciado este romance?

 

Talvez os livros da Elena Ferrante, ela é absolutamente incrível. Ler A Amiga Genial, o primeiro livro da série, foi uma experiência extraordinária. É fascinante acompanhar a amizade entre as duas personagens, Lenu e Lila. É uma relação tão poderosa, mas cheia de tensões e complexidades. Além disso, o mundo que ela constrói – aquela pequena parte de Nápoles onde vivem – é retratado com tanta autenticidade. As personagens parecem, à primeira vista, pessoas comuns, mas na verdade ninguém o é. E, ao longo de décadas, revisitas essas personagens e observas como as suas vidas evoluem. A escala das suas vidas é quase operática. A forma como os acontecimentos se desenrolam é dramática, romântica, mas ao mesmo tempo ancorada na realidade. Para mim, esses livros foram fantásticos e tiveram, sem dúvida, um grande impacto na minha escrita.

 



Porque é que escolheste Portugal, mais especificamente o Algarve, como destino de uma das personagens?

 

Oh, bem... nunca estive no Algarve. Acho que não sou rico o suficiente para umas férias no Algarve. Basicamente, quis mostrar que o Morris, o pai do Dickie, é um empresário rico. E, na Irlanda, é um cliché dizer que empresários abastados vão para o Algarve.

 

Nunca estive lá, mas já visitei Lisboa. É uma cidade lindíssima, e adoraria voltar e explorá-la mais a fundo um dia. No entanto, para esta história, quis transmitir que o Morris é aquele tipo de pessoa que vive no conforto. Ele está no Algarve, feliz da vida, enquanto o filho, o Dickie, está preso a um negócio em ruínas. O contraste é óbvio: o Morris passa os dias a jogar golfe e a beber cocktails, sem se preocupar, enquanto o filho enfrenta os desafios da vida real. Acho que essa oposição era importante para a narrativa, mesmo que, talvez, seja um pouco injusto com o Algarve.

 

Abordas temas como o das alterações climáticas. Sentes alguma responsabilidade enquanto autor?

 

Bem, não acredito que os escritores tenham, necessariamente, uma responsabilidade moral. Acho que o mais importante é escreveres o que realmente queres escrever. Quando começas a pensar: "Devo incluir uma lição moral", isso acaba por soar artificial. É como tentar escrever algo do tipo: "Não fumem!". Essas mensagens raramente funcionam de forma eficaz. Por outro lado, as minhas experiências pessoais influenciam-me profundamente. Penso muito nas alterações climáticas, e sinto frustração por este tema ser tantas vezes ignorado. Muitos livros retratam o mundo em que vivemos, mas raramente abordam as alterações climáticas, um problema que afeta toda a gente. Queria reconhecer isso no meu livro porque é uma questão importante, e não podemos fingir que vai desaparecer. Não é algo que simplesmente vai parar por si só.

 

As personagens do livro também refletem essa preocupação?

 

Sim, sem dúvida. A Cass pensa muito nas mudanças climáticas, entre outras preocupações que enfrenta. O Dickie também demonstra algum interesse pelo meio ambiente. Ao escrever este livro, consegui abordar estes temas de forma natural, sem que parecessem deslocados ou forçados. Quando tentas inserir uma mensagem política num romance, muitas vezes parece algo desajustado, como uma peça que não encaixa. Mas, neste caso, fazia sentido porque a história aborda a negação. E a negação da realidade tem sempre consequências graves. Se olhares para o aumento do autoritarismo, por exemplo, é muitas vezes uma forma de fuga. Criam-se narrativas confortáveis, como culpar os imigrantes pelos problemas. Mas isso não resolve absolutamente nada. Com este livro, quis representar de forma autêntica o que significa estar vivo em 2021, ou em 2014, quando a história é ambientada. E a verdade é que isso é assustador. O livro é, no fundo, um reflexo honesto das nossas ansiedades coletivas.

 

Mais livros deveriam abordar estes temas?

 

Sim, absolutamente. As mudanças climáticas deveriam estar na capa de todos os jornais, todos os dias. É um tema de tal relevância que não deveria nunca sair das nossas mentes. O problema é que este assunto é tão vasto e avassalador que nem sabemos por onde começar a enfrentá-lo. E isso é aterrador.

 

O final tem sido descrito como algo ambíguo. Porque é que deixaste a conclusão em aberto?


Bem, tem sido interessante, porque não achei que fosse tão… Não achei que fosse ambíguo. Para mim, não é ambíguo. Mas senti que, como muita coisa no livro aconteceu de forma orgânica ou por tentativa e erro, quando escrevi o final, parecia que ele terminava um segundo antes de o desfecho real ocorrer. Sempre que tentava ir além disso – escrever a cena seguinte, seja dois minutos, cinco minutos, meia hora, um mês ou cinco anos depois – tudo parecia desnecessário. Não era preciso adicionar explicações como: “E, olhando para trás, agora podemos ver que...”. Era simplesmente uma questão de intensidade: o livro opera num certo nível de tensão, e ultrapassar o ponto onde terminei seria deixar essa intensidade diminuir, como se algo que funcionava em alta velocidade passasse para uma marcha mais lenta. E os finais são realmente importantes. Acho que, por vezes, um final que não explica tudo tem mais impacto do que um que tenta fazer todo o "trabalho de casa" para resolver todas as questões.

 

É como… Penso muitas vezes em Twin Peaks, a série de David Lynch. É sobre o assassinato de Laura Palmer. Ou melhor, não é exatamente sobre isso, mas essa é a premissa inicial. David Lynch contou que, na segunda temporada, o canal exigiu que ele revelasse quem a matou. Disseram-lhe: "Estás a prolongar isto por demasiado tempo." Mas ele argumentava que o mistério era o que impulsionava a série, que todas as outras histórias surgiam a partir desse mistério. Ele dizia que as pessoas acham que querem saber a resposta, mas, na verdade, não querem. Quando alguém te dá a resposta, torna-se apenas mais um facto. Mas, se deixares algum mistério no ar, as pessoas continuam a projetar os seus próprios sentimentos, traumas, paixões ou experiências nesse espaço vazio.

 

Quando lê um livro, o leitor faz muito do trabalho. Não é um meio passivo. O leitor contribui com tanta imaginação e invenção durante a leitura. Um final que deixa um pouco de espaço permite que as pessoas preencham essas lacunas com as suas próprias interpretações. É como quando todas as luzes da tua casa estão apagadas. Um espaço familiar pode, de repente, tornar-se assustador. Acho que talvez esse espaço seja o que o final proporciona às pessoas. Pelo que percebo, o final é algo controverso. É algo que suscita sentimentos fortes, exatamente por estas razões.

 

David Lynch poderia realizar um filme de A Picada de Abelha?

 

Absolutamente, mas só nos meus sonhos.


Sentes-te parte de uma nova cena de escritores irlandeses?

 

Ah, não descreveria isso como uma "cena". Conheço todos os outros escritores irlandeses, e tem sido um par de anos muito bons para a literatura irlandesa. Isso tem sido fantástico. Não sei exatamente o que faz os romances irlandeses ressoarem neste momento. Talvez seja porque tendemos a escrever histórias amplamente realistas, muitas vezes situadas em lugares pequenos. O curioso na ficção é que, quanto mais específico és nos detalhes, mais universal ela se torna.

 

Em que é que estás a trabalhar neste momento?

 

Estou a escrever a adaptação de A Picada de Abelha para televisão. Além disso, estou a trabalhar num livro infantil ou juvenil – ainda não tenho a certeza de qual será, mas é algo cómico e divertido para crianças.

 

O que estás a ler neste momento?

 

Acabei de ler o Aniquilação, do Michel Houellebecq. É uma história muito peculiar sobre um homem de meia-idade. Parece que vai ser um cyber thriller, mas acaba por ser uma narrativa melancólica – uma história de amor muito triste, terna e incrivelmente bonita, sobre o final da vida. Gostei imenso.

 

Por Rita Sousa Vieira

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