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O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC?
Candidatei-me a todas as edições desde 2021. Receber agora este prémio é uma alegria enorme, sobretudo pela visibilidade e pelo reconhecimento que traz. Acredito que é algo que também nos ajuda a abrir outras portas.
O que representa ser um Novo Talento FNAC?
É uma validação, um reconhecimento e um orgulho muito grande. Sentir que o meu trabalho passou por um júri importante e foi visto por tantas pessoas é muito especial.
Ao mesmo tempo, é uma motivação para continuar. Faz-me acreditar que o meu trabalho merece ser visto e partilhado.
Que conselho darias a quem está a pensar candidatar-se numa próxima edição?
O primeiro conselho é não desistir. O segundo é dar mais importância ao texto que acompanha o projeto. Muitas vezes, na fotografia, escrevemos textos demasiado genéricos. Acho importante que o texto seja mais íntimo, que revele o nosso ponto de vista e ajude a compreender aquilo que está por detrás do trabalho.
Porque é que decidiste concorrer com este projeto?
Sinto que este é o meu projeto mais forte neste momento; foi por isso que decidi apresentá-lo. Além disso, é um trabalho de que me orgulho muito. Curiosamente, é o mesmo projeto que tenho submetido a concurso ao longo destes quatro anos. Por isso, para mim, também foi uma surpresa vê-lo ser distinguido agora.
Faz-nos um retrato de Eskawatã Kayawai. Que reflexão propõe?
Fotografei este projeto na Amazónia brasileira, em 2019, pouco antes de vir viver para Lisboa. Tive o privilégio de passar um mês numa comunidade indígena do povo Huni Kuin, e aquilo que encontrei foi algo pouco comum: uma comunidade a viver um momento muito positivo de recuperação cultural, de regresso às suas raízes e de fortalecimento da sua identidade. Ao contrário do que acontece com muitos povos indígenas, estavam a atravessar uma fase de prosperidade, tanto cultural como económica. As fotografias nasceram desse encontro e procuram documentar esse momento de transformação.

Ao fotografar comunidades que muitas vezes são representadas a partir de um olhar exterior, que responsabilidades sentes enquanto fotógrafa?
Desde o primeiro momento que tivemos uma reunião com toda a comunidade, para explicar que o nosso objetivo era funcionar como uma ponte entre eles e o nosso mundo. Pedimos-lhes que nos utilizassem, que nos mostrassem aquilo que consideravam importante. Isso mudou completamente a forma como as imagens foram feitas, porque eram eles que decidiam o que queriam mostrar. Num dia podia ser o trabalho na horta; noutro, uma aula sobre os nomes dos animais na sua língua.
A forma como o fotógrafo se posiciona é muito importante. Eu coloquei-me à disposição deles e isso mudou tudo. Claro que continuo a ser alguém de fora; não sou indígena e não pertenço àquele contexto. Por isso, sinto que as melhores imagens surgiram nos últimos dias, quando já compreendia melhor aquele território, o seu ritmo e a sua forma de viver. Nos primeiros dias tudo me parecia interessante porque era novo, mas ainda não tinha verdadeiramente entendido o lugar.
O que gostarias que as pessoas compreendessem sobre as comunidades retratadas neste projeto, para além daquilo que veem nas imagens?
Algo que, para mim, foi essencial aprender ali é que não precisamos de abandonar o passado para construir o futuro. Na aldeia, existe uma enorme valorização dos mais velhos. São constantemente consultados, ouvidos e respeitados; chamam-lhes "bibliotecas vivas". Essa foi talvez a minha maior lição: perceber que existe muito conhecimento que se perde quando os nossos avós desaparecem. Conhecimento sobre plantas, sobre formas de cura, sobre construção, sobre alimentação... Um património enorme que muitas vezes não valorizamos.
Espero que as minhas imagens, ao mostrarem gerações diferentes, ajudem a construir essa ponte entre passado e futuro, e a lembrar a importância de preservar aquilo que aprendemos.
Da fronteira galego-portuguesa à Amazónia brasileira, o teu percurso tem sido marcado por territórios onde diferentes identidades coexistem. Como é que essas experiências influenciaram a forma como te aproximas das pessoas e das histórias que fotografas?
Acredito que, no fundo, a essência de todos nós é muito semelhante. Cresci num contexto rural, na fronteira do Minho, e talvez por isso tenha facilidade em aproximar-me das pessoas quando chego a um lugar novo, principalmente em meios rurais. Às vezes basta um olhar, um gesto ou começar por ajudar em alguma tarefa para criar uma ligação. Hoje, já não me sinto apenas galega. Claramente, não sou portuguesa, nem brasileira, nem indígena. Acho que nos vamos tornando uma mistura de todas as experiências que vivemos, e isso influencia inevitavelmente a forma como me aproximo das pessoas e das histórias que fotografo.
Como é que a fotografia surgiu na tua vida?
Principalmente através da minha mãe. Quando eu e o meu irmão nascemos, ela comprou uma máquina fotográfica e uma câmara de vídeo. Fez um enorme esforço para as pagar, aprendeu sozinha a utilizá-las e eu cresci sempre diante de uma lente. Essa paixão acabou por passar para mim; sempre tive uma câmara por perto. Comecei no analógico, passei para o digital e, entretanto, voltei ao analógico. Mais tarde estudei Publicidade, onde tive uma disciplina de fotografia muito importante, e depois formei-me em Cinema. Mas a minha mãe foi, sem dúvida, a pessoa que me aproximou da fotografia.
Que material usas?
A minha câmara favorita é uma Canon EOS 1V analógica. Também gosto muito de filmar em Super 8, embora utilize igualmente equipamento digital. Este projeto, por exemplo, foi fotografado em digital. Durante algum tempo tentei aproximar o digital da estética analógica através da edição, mas cheguei a um ponto em que percebi que fazia mais sentido trabalhar diretamente em película. Hoje, quase todos os meus projetos são analógicos. Sinto que é uma linguagem mais intemporal.
Quais são as tuas principais influências?
Inspiro-me muito no cinema. Gosto muito de ver filmes. Uma das minhas grandes referências é a realizadora portuguesa Catarina Vasconcelos. Também admiro fotógrafos de outras gerações, como Vivian Maier. Ao mesmo tempo, acompanho muitos autores contemporâneos e encontro inspiração até nas redes sociais. É uma mistura entre cinema, fotografia mais clássica e linguagens contemporâneas.
O que gostarias que mudasse na forma como olhamos para a fotografia hoje?
Tenho visitado galerias e festivais onde, por vezes, parece haver apenas duas posições possíveis: ou a fotografia mais clássica é a única que tem valor, ou então é considerada ultrapassada e deve ser descartada. Acredito que precisamos de mais abertura. Nem todas as fotografias têm de ser tecnicamente perfeitas para serem boas imagens, mas também não devemos rejeitar uma fotografia apenas porque segue uma linguagem mais clássica. Sinto que existe algum extremismo nestas discussões e acredito que é precisamente nas zonas intermédias, nas fronteiras entre diferentes formas de olhar, que surgem as coisas mais interessantes.
Se pudesses mudar uma coisa na forma como o público consome cultura, o que mudarias?
Gostava que a cultura fosse mais acessível e menos exclusiva. Também gostava que os próprios criadores partilhassem mais os seus processos, as suas dificuldades e os caminhos que encontraram. Muitas vezes a aprendizagem acontece de forma muito solitária, sobretudo quando não temos acesso a cursos, formações ou mentorias. Acredito que todos beneficiaríamos de uma cultura mais aberta, mais democrática e mais generosa na partilha de conhecimento.
Estás a trabalhar em novos projetos? O que podemos esperar nos próximos tempos?
Estou a desenvolver um projeto sobre as tradições do Entrudo no Norte de Portugal e na Galiza. Continuo muito interessada nesse território de fronteira, e em tudo aquilo que temos em comum. O projeto procura observar como estas tradições passam de geração em geração e de que forma ajudam a construir identidades individuais e coletivas. Trabalho nele há cerca de três anos e espero, agora, conseguir dedicar-lhe ainda mais tempo.
Onde podemos seguir o teu trabalho?
Principalmente no Instagram. Estou também a trabalhar num novo website, que deverá ficar pronto dentro de cerca de um mês. Mas, neste momento, o Instagram continua a ser o espaço onde partilho o meu trabalho de forma mais regular.
Fica a conhecer todos os premiados dos Novos Talentos FNAC 2026 nas categorias de Cinema, Escrita, Fotografia, Ilustração, Música e Videojogos. Descobre AQUI os seus trabalhos.