Escolhe a tua loja FNAC
Todas as lojas
O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC?
Os Novos Talentos FNAC são um prémio de fotografia importante em Portugal, que representa o reconhecimento do trabalho fotográfico de um autor. Queria também colocar o meu trabalho à apreciação do júri; foi isso que me levou a candidatar-me.
Já te tinhas candidatado a edições anteriores?
Sim. No ano passado também me candidatei com o mesmo projeto.
O que representa ser um Novo Talento FNAC?
Por acaso, tive de pensar sobre o que significa ser “novo”. Muitas vezes associamos essa ideia à idade, mas eu considero que novo é alguém que está a iniciar a sua prática artística, neste caso na fotografia, e que tem algo de novo para mostrar. Ou, pelo menos, uma nova abordagem fotográfica ou uma nova perspetiva sobre determinado tema. Acho que é alguém que traz algo novo e que está no início da carreira, que ainda não tem um percurso longo e consolidado.
Que conselho darias a quem está a pensar candidatar-se numa próxima edição?
Aconselhava-os a terem um projeto sólido com o qual se identifiquem, algo que parta da própria pessoa e que tenha uma relação emocional forte, porque isso acaba por resultar num projeto mais consistente. Também é importante aprofundar o trabalho, consolidá-lo, fazer muita pesquisa e experimentar bastante. No fundo, construir um projeto forte para apresentar ao júri.
Porque é que decidiste concorrer com este projeto?
Este projeto é-me muito querido e, ao mesmo tempo, muito pessoal. Gostava de perceber como seria avaliado e recebido pelo júri e pelo público. Além disso, é um projeto que foi muito trabalhado. Não começou na masterclass Narrativa, já existia antes, mas foi aí que o aprofundei. Senti que era um projeto forte e foi por isso que decidi apresentá-lo.
Faz-nos um retrato de Recanto. Que reflexão propõe?
Este projeto é sobre o meu tio João e tem várias camadas. A primeira é prestar uma homenagem à sua vida através da fotografia; ao mesmo tempo, é uma tentativa de o conhecer melhor. O meu tio tem trissomia 21 e 90% de incapacidade. Comunica pouco com a família, diz algumas palavras que conseguimos interpretar, mas para mim sempre existiu um certo mistério sobre aquilo que pensa. Através da fotografia, tentei entrar um pouco no mundo dele. Procuro também trazer a sua perspetiva sobre o mundo através de fotografias de arquivo familiar e dos desenhos que fez quando era mais novo. Dessa forma, tento mostrar não apenas quem ele é no presente, mas também a sua história de vida.

Fotografar alguém próximo é diferente de fotografar qualquer outra pessoa? O que mudou por estares diante de alguém cuja história também faz parte da tua?
É muito diferente, porque o conheço desde que nasci. Ter de mudar o chip e encará-lo como o tema de um projeto fotográfico altera completamente a forma como estou com ele. Acho que mudou para melhor, porque passei mais tempo com ele e de uma forma diferente. Houve também algumas facilidades; ele já me conhece, eu não sou uma pessoa estranha, e tenho um acesso privilegiado à sua vida, tanto através da minha família como da instituição que frequenta. Isso facilitou bastante o processo.
Dizes que fotografas o teu tio para lhe dizer “estou aqui, vejo-te”. Há alguma coisa que a fotografia te permitiu comunicar que seria difícil dizer por palavras?
Acho que sim: a presença. Neste projeto, passei muito tempo com o meu tio. Eu consigo dizer-lhe que gosto muito dele e que gosto de estar com ele, mas ele não compreenderia totalmente essas palavras. Através da presença foi diferente. Não apenas por estar com ele regularmente, mas por aparecer em momentos em que ele não estava à espera. Por exemplo, há períodos em que fica a residir temporariamente na instituição e, nessas alturas, a família normalmente não o visita. Quando eu aparecia nesses momentos, ele parecia perguntar-se o que estava ali a fazer. Mas, passadas algumas semanas, quando eu chegava, ele sorria. Acho que foi através dessa presença constante e, também, através do ato de fotografar que lhe consegui dizer que o vejo e que estou atento a diferentes momentos da sua vida.
Como é que a fotografia surgiu na tua vida?
Surgiu quando estava no ensino secundário. Comecei a fotografar sobretudo em película, com uma câmara analógica do meu avô. Fotografava o dia a dia e as férias com amigos. Foi um processo muito espontâneo, ligado ao registo documental. Mais tarde, decidi estudar Audiovisual e Vídeo, e a imagem acabou também por se tornar a minha profissão.
Quais são as tuas principais influências?
Vou buscar referências a várias áreas: cinema, fotografia e música. Tento não me limitar apenas à fotografia porque isso pode ser redutor. Mas, dentro da fotografia, o Alec Soth é uma grande referência, não só pelo trabalho que faz, mas também pela forma como pensa a fotografia. Gosto muito também da maneira íntima e próxima como a Alessandra Sanguinetti se relaciona com aquilo que fotografa.
Que material usas?
Neste momento utilizo equipamento Fujifilm e tenho várias câmaras para diferentes propósitos.
Digital ou analógico?
Atualmente fotografo mais em digital. Em analógico utilizo equipamento Nikon.
O que gostarias que mudasse na forma como olhamos para a fotografia hoje?
Hoje a fotografia está muito no centro das atenções por causa da Inteligência Artificial e das questões relacionadas com a veracidade da imagem. Gostava que a fotografia pudesse voltar a ser vista como era no início. É um tema complexo, porque a fotografia sempre foi subjetiva; a partir do momento em que escolhemos um enquadramento em vez de outro, já existe uma interpretação. Mas acredito que a fotografia nos permite entrar em lugares aos quais normalmente não teríamos acesso. Através de projetos honestos conseguimos aproximar-nos dessas realidades e sentir, de alguma forma, o que é estar lá.
Se pudesses mudar uma coisa na forma como o público consome cultura, o que mudarias?
Mudaria o tempo. A cultura é cada vez mais consumida de forma demasiado rápida, muito por causa dos dispositivos móveis e da forma como nos relacionamos com os conteúdos. Gostava que as pessoas passassem mais tempo diante de um espetáculo, de uma performance ou de uma exposição. Além do momento de contacto com a obra, acho importante existir tempo para reflexão e discussão. Sinto que essa dimensão está a desaparecer. A arte pode gerar conversa e questionamento sobre os temas que aborda, e essa reflexão está a ser cada vez mais deixada para trás. A cultura merecia mais tempo.
Estás a trabalhar em novos projetos? O que podemos esperar nos próximos tempos?
Estou a trabalhar na produção de um novo projeto, mas também a fechar o capítulo Recanto. Tenho uma maqueta de um livro que gostava de publicar e o prémio poderá ajudar a impulsionar esse objetivo. Acho que o livro é o formato ideal para este trabalho; a exposição também funciona, mas é mais efémera.
O próximo projeto deverá centrar-se numa comunidade. Ainda não quero avançar muitos detalhes porque continuo numa fase de reflexão e criação, mas seguirá a mesma linha de fotografar algo próximo, criando intimidade com as pessoas retratadas. Será também um projeto que nasce de questões pessoais, de perguntas que tenho sobre a minha própria vida e sobre o futuro.
Onde podemos seguir o teu trabalho?
No meu site, joaocruz.com, e no Instagram, @ojoaocruz. O site será reformulado em breve.
Fica a conhecer todos os premiados dos Novos Talentos FNAC 2026 nas categorias de Cinema, Escrita, Fotografia, Ilustração, Música e Videojogos. Descobre AQUI os seus trabalhos.