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O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC?
O desafio de escrever um conto breve e impactante, juntamente com o sonho de ver o meu trabalho reconhecido, publicado e lido.
Já te tinhas candidatado a edições anteriores?
Sim, três vezes! Fugindo à tradição, à quarta foi de vez.
O que representa ser um Novo Talento FNAC?
É um motivo inegável de orgulho. Espero que seja um primeiro passo na estrada da minha carreira. Não estava à espera de sentir um certo grau de responsabilidade de me superar e surpreender como artista.
Que conselho darias a quem está a pensar candidatar-se numa próxima edição?
Sair da sua zona de conforto e não obcecar com a ideia do que é esperado de uma obra vencedora. Julgo que o mais importante não é seguir tendências ou valorizar um determinado tipo de escrita, mas construir uma obra própria e genuína. Os contos que escrevi para as edições anteriores continuam a ter um lugar especial no meu coração, mas foi apenas quando me libertei do júri imaginado da minha cabeça — que media cada palavra dos meus textos — que consegui escrever Mafarrico.
Porque é que decidiste concorrer com este conto?
Ponderei longamente se concorria com este conto, mas quando o entreguei à minha mulher para fazer uma primeira leitura e testemunhei através dela o humor que entrelacei no texto a funcionar tão bem, deixei de ter opção.
Qual é a história de Mafarrico?
Já há muito tempo que ponderava escrever alguma coisa sobre a maneira particular de ser poveiro e sobre as mitologias portuguesas e o horror do inexplicável. Sinto que ainda há tanto por explorar na escrita portuguesa sobre a nossa história e o nosso imaginário e quis escrever este conto como um primeiro contributo meu nesse sentido. Aprecio muito quando as obras de arte nos propõem o inacreditável como plausível e gostava que o conto propusesse o mesmo, que pedisse ao leitor uma brecha na sua confiança na realidade e admitisse a possibilidade de o texto ser baseado em coisas que realmente aconteceram.
Nasceste na Póvoa de Varzim e escreveste um conto profundamente enraizado nos falares e imaginários do litoral norte. Em algum momento sentiste a responsabilidade de preservar esse património através da literatura?
Senti, desde logo, que um tipo de escrita como esta, que experimenta com a linguagem e a língua e que desconstrói a gramática convencional, poderia facilmente cair no paródico ou no ridículo. Não quis que fosse o caso. Tentei imaginar o dialeto como uma ponte entre o lugar e a leitura, como uma forma de trazer o autêntico sem abdicar da invenção, e respeitar a fronteira entre a comédia do dialeto e a beleza do que é diferente.
Sendo investigador de literatura medieval, o que te fascina na forma como as histórias atravessam os séculos e continuam a encontrar novas vozes?
Passei quase uma década com os cronistas medievais e sem eles nunca teria conseguido escrever o "Mafarrico". Há algo de especial na maneira livre como estas primeiras investidas pela escrita em português se apresentam. O meu trabalho centra-se, precisamente, na possibilidade das crónicas medievais serem lidas como romances, mas romances escritos num lugar específico e de uma forma específica. Algumas histórias dependem muito do modo como são contadas e eu sinto que a universalidade de toda a história e literatura depende, em grande medida, da familiaridade que se encontra na sua diferença. As pessoas do medievo viviam num lugar estranho aos nossos olhos e as suas formas de expressão artística, de alguma forma, comunicam essa estranheza mas também ajudam a esbatê-la. Quando lemos um texto medieval na sua própria língua não conseguimos fugir de sentimentos que, apesar de tão distantes e esquisitos, continuam a assemelhar-se aos nossos.
Que reação esperas dos leitores ao lerem o conto?
Que se sintam entretidos, primeiro. Que se riam, depois. Que sintam a inquietação, por fim.
Quando e como surgiu a tua paixão pela escrita?
Acho que é um lugar-comum de quem escreve dizer que não me lembro de um momento em que escrever não fosse uma necessidade, mas é a única verdade. Aliás, ainda antes de escrever já contava histórias à dúzia (não é à toa que, nos natais da minha infância, se distribuíam tampões para os ouvidos a todos os adultos).
Já tens algum trabalho publicado?
Com o meu nome, e a nível académico, publiquei recentemente a minha tese de doutoramento, que gosto de pensar como um academismo literário porque escrevi-a para ser lida por qualquer pessoa e não apenas por especialistas. Com outros nomes e em outras línguas, já publiquei poemas e contos na Irlanda e na Suíça.
Qual é o teu livro favorito?
Tenho muitas escolhas eruditas, como o Guerra e Paz ou o Emma, mas o 'livro' ao qual regresso sempre é o ciclo The Wheel of Time de Robert Jordan.
Que ideia sobre o que faz um "bom livro" gostarias de ver posta em causa?
A ideia que a boa literatura deve ser superior ao entretenimento. Acho que um bom livro deve abanar o edifício e desafiar os seus leitores, mas é muito fácil confundir obscuridade e erudição com qualidade literária. Entreter e desafiar ao mesmo tempo é como tentar acender um fósforo à chuva.
Se pudesses mudar uma coisa na forma como o público consome cultura, o que mudarias?
A velocidade. Ler como um ato de sprint ou como um medidor estatístico é cansativo e contraproducente. Nem toda a arte é feita para ser devorada de uma garfada. Há obras que levam tempo, que precisam da lentidão para que não sejam lidas hoje e esquecidas amanhã. Até o escapismo precisa de espaço para nos deixar escapar.
Estás a trabalhar em novos projetos? O que podemos esperar nos próximos tempos?
Sou culpado de ter sete ou oito romances no forno, mas aquele ao qual tenho dedicado mais atenção é um romance de realismo mágico sobre a identidade portuguesa, que mistura Saramago e Stephen King.
Onde podemos seguir o teu trabalho?
Podem acompanhar-me no Instagram.
Fica a conhecer todos os premiados dos Novos Talentos FNAC 2026 nas categorias de Cinema, Escrita, Fotografia, Ilustração, Música e Videojogos. Descobre AQUI os seus trabalhos.