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“A música nova tem mesmo de fazer a diferença”. O caminho até Far From God
Nem sempre gravar um disco novo é a resposta. Depois de cinco anos a questionar o futuro da banda, os Moonspell só regressaram quando sentiram que tinham algo realmente importante para dizer. Esse momento chama-se Far From God: um álbum marcado pelo regresso às raízes góticas, pela influência de Nietzsche e por uma vontade assumida de contrariar as fórmulas da indústria. Fernando Ribeiro e Pedro Paixão contam-nos porquê.
O QUE TENS DE SABER:
Far From God demorou cerca de cinco anos a ganhar forma, depois de um período de dúvidas sobre a necessidade de os Moonspell voltarem a editar um álbum;
A banda procurou um regresso às raízes do gothic metal, privilegiando canções mais diretas e menos sobrecarregadas de produção;
O novo disco foi produzido por Jaime Gomez Arellano e conta com capa assinada por Eliran Kantor.
O novo álbum dos Moonspell, Far From God, demorou cerca de cinco anos a ganhar forma. Porque é que este processo foi tão longo? Já ouvi o Fernando dizer que a banda precisou de esperar pela inspiração certa para o gravar. Como é que se reconhece esse momento, depois de mais de 30 anos de carreira?
Fernando Ribeiro (FR): Essa é uma perspetiva um bocadinho pessoal. Talvez eu esteja a falar mais em nome próprio do que em nome dos Moonspell mas, de vez em quando, as coisas confundem-se. Para mim, é um disco super importante. Eu acho que a banda, nestas três décadas — 34 anos, aliás, para o ano será o 35º aniversário dos Moonspell — sempre foi uma banda bastante proactiva. A nível de composição, a nível de escrita de canções, a nível de ideias. E eu acompanhava essa tendência, mas depois, quando saiu o Hermitage, quando houve a pandemia, quando nós andámos um bocadinho feitos galinhas sem cabeça, a ver onde é que a nossa vida e a nossa carreira iam parar... Penso que existiram várias dúvidas, vários caminhos que se apresentaram.
Um deles — a pergunta que eu fiz — era o porquê de nova música dos Moonspell. Era uma pergunta bastante existencial, até, porque havia outras bandas com mais gabarito que os Moonspell — os Metallica, os Judas Priest, etc. — a fazerem discos novos. Mas também havia muitas bandas a evitar isso: os Emperor, os Sisters of Mercy... Portanto, havia aquela coisa do legado e da música nova. E essa música nova é sempre um compromisso, na minha opinião, bastante diferente do que ser uma banda de legado. A música nova tem mesmo de fazer a diferença. Tem mesmo de ser boa, tem mesmo de ser completa, tem de ter bastante profundidade. É um compromisso muito maior do que ir fazendo outras coisas, que nós fomos fazendo nestes cinco anos.
Faltava, na minha opinião, um bocado de inspiração. Eu nunca estive — e o Pedro é minha testemunha — tão confuso com o nome do disco, com a direção, o que é que fazíamos, o que é que não fazíamos. Precisámos destes cinco anos. Claro que não foram cinco anos a compor canções para o Far From God... Penso que as coisas, temporalmente, nas bandas, são sempre um bocadinho mais dispersas no tempo, mas quando encontrámos o fio à meada tivemos um ano e meio a trabalhar intensamente para fazer estas oito canções.
O que vos fez encontrar esse fio condutor?
Pedro Paixão (PP): Há esta questão, claro, que o Fernando salienta, e com razão, que é o porquê, o que é que está atrás, porque é que nós havemos de fazer música nova quando já temos um legado... No meu ADN, olho praticamente sempre para a frente; tenho má memória e, por isso, tento utilizar mais o meu intelecto no que está para vir.
Mas penso que houve muitas circunstâncias, até pessoais, que levaram a este hiato. No meu caso, houve uma grande alteração na minha vida. No caso do nosso guitarrista, ele também tomou a decisão de se mudar para outro sítio. Acho que nós todos, pessoalmente, e as pessoas em geral, patinaram um bocadinho com a pandemia, no pós-pandemia, no restabelecimento dos seus hábitos, dos seus projetos e todas essas coisas. O nosso caso também foi um bocado mais circunstancial do que propriamente algo que a gente possa justificar como intencional; nós não queríamos dar um descanso, nós questionávamo-nos se precisávamos de um descanso.
Quando dizem que olharam para o vosso legado e para o de outras bandas, isso quer dizer que esteve em cima da mesa não editarem mais discos?
FR: Houve de tudo um pouco em cima da mesa. As bandas estão um bocado treinadas para dizer que estão sempre na sua melhor forma, que [os discos novos] são os nossos melhores discos... Mas eu acho que bandas como os Moonspell não teriam tanta riqueza artística se não tivessem também essas complicações, essas camadas, esse existencialismo. Eu faço muita promoção, e também leio muitas entrevistas; não gosto nada daquela conversa de que está tudo bem. Também já a tive, mas já cresci um pouco para lá disso... Acho que uma banda é tudo menos rotina, é tudo menos previsibilidade. Essas questões, essas angústias, são muito importantes na música.
Claro que, com o Far From God a sair, com as coisas já consumadas, com o álbum já gravado, faz todo o sentido termos dado este passo, mas houve alturas em que não faria tanto sentido. Não há uma resposta satisfatória. Quem está satisfeito, entrou naquela lógica da indústria da música: dois anos na estrada, dois anos um álbum... Na minha opinião, isso tem matado um bocado a criatividade das bandas, e tem matado aquilo que nos torna um pouco diferentes das bandas pop. Aliás, acho que a pop, o indie, estará a experimentar mais que o metal ou o gótico. Acho que há aqui uma crise: está tudo muito a jogar pelo seguro.
A pop, hoje, vive de singles e de colaborações.
FR: Sim, é verdade. Eu percebo isso: eu gosto de pop indie... Essa pergunta existe sempre, é uma constante, mas acho que vem de uma certa falácia das pessoas não terem tempo, que começa já connosco. Porque se costuma dizer: se o tempo é um ladrão, o homem e a mulher, também neste caso, são mentirosos acerca disso. É endémico, não tem só a ver com a música.
Um amigo meu telefona-me e a primeira coisa que eu penso é: estou muito ocupado. Mesmo que não o esteja, nesse dia... Quero ir a um concerto, já estou a pensar em todas as razões para não ir ao concerto... Acho que nós, hoje em dia, temos essa predisposição. Já não nos deixamos ir. Foi por isso que nós estivemos um bocado a considerar isto, para ver se vinha aquele momento em que nós nos deixávamos ir, e foi isso que aconteceu.
Sei que é um pouco romântico, até um bocado ingénuo, falar da música nesses termos, mas eu não estaria ainda na música se fosse para falar nela noutros termos. “Sim, tivemos dois anos, agora tenho um álbum novo e já voltámos cá, e para a semana já estamos cá outra vez a fazer mais outra conversa”... Não. Acho que a música, o seu cariz profundamente humano, tem a ver um bocado com o erro. Aqui, nós pensámos que não íamos conseguir porque só pensando que não íamos conseguir é que nós íamos mesmo conseguir. Acho que eu tinha esse estado de espírito durante este tempo todo a fazer o Far From God.

Este título, que pisca o olho ao Nietzsche, também vem daí?
FR: É uma grande piscadela de olhos. Não é segredo que gosto de ler filosofia e sempre gostei muito do Nietzsche. Gostei muito também de outros filósofos, mas sempre achei o Nietzsche mal lido, mal interpretado. Está para a filosofia um pouco como o Orwell está para a literatura, agora com o 1984, com as utopias distópicas. Orwell foi muito mais do que isso, foi um autor social.
Orwell é um autor que tem sido apropriado pela esquerda e pela direita: cada um lê-o como entender... E Nietzsche também.
FR: Também, mas o Nietzsche tem a ver com o aproveitamento... Se calhar é mais complicado, mais complexo, sendo um filósofo. Se bem que, dentro dos filósofos, seja o que tem as frases mais apetecíveis, aquele movimento do fast thinking que hoje em dia há, das pessoas terem um raciocínio, ou uma teoria, e irem à internet procurarem justificações para as suas teorias e não propriamente fazer aquilo que é o pensamento filosófico, que é contrapô-lo com outras frases, outros pensamentos... Isso acontece muito.
Nietzsche tinha a particularidade de que tem muita filosofia, mas a filosofia dele — pelo que eu entendi — baseava-se apenas numa coisa que, não sendo simples, é bastante evidente: a corrupção do sentido original das coisas. Eu acho que o Far From God, o “longe de Deus”, mais concentrado nesse título, mais religioso, menos político... Hoje em dia também são já situações que não se distinguem, não é? A religião e a política, os conflitos que nos dias de hoje têm uma motivação política, mas um fundamento “religioso”. Todas essas coisas, e também o mundo, a maneira como nós nos comportamos uns com os outros... Há aqui um desviar, um caminho num sentido que poderia ser mais virtuoso.
Nietzsche avisou-nos bastante disso: nessa filosofia dele, na capacidade de vermos o que é original, e de recuperarmos essa originalidade. Nesse aspeto, continuo a dizer que é um título bastante Nietzscheano. É quase como se eu tivesse lido algumas das obras do Nietzsche, como Para a Genealogia da Moral, e tivesse ido lá buscar estes elementos. O álbum nem é nada filosófico; é muito mais romântico, muito mais poético. Mas lá está: as coisas também não se dividem nos Moonspell. O que aqui interessa não é o “God” [“Deus”], mas a “distância de”. É o mais importante da mensagem do título e do disco.
Além de romântico, têm dito que é um disco mais “simples”. O que é que isso quer dizer?
PP: Musicalmente, tem uma expressão mais simples; tecnicamente, tem muito menos camadas. Em termos de composição e de arranjo musical, um dos nossos esforços foi o de não alterar demasiadamente, ou sem necessidade. Que o ímpeto original, o motivo melódico, a ideia original, não estivesse tão distante do resultado final, como muitas vezes acontece, não por sobreprodução, mas por entusiasmo... Que é um entusiasmo normal: as pessoas que fazem música gostam de brincar com ela, desenvolvê-la. Muitas vezes, com alguma adulteração da ideia original, o que não tem mal por si. São apenas formas de fazer música.
Neste caso, houve um esforço vital para deixar que a ideia original, aquilo que motivou aquela canção, realmente transparecesse — não por baixo de várias camadas, mas que estivesse à superfície e que se ouvisse bem. Essa simplicidade vem talvez um pouco disso. Quando perguntaste de onde veio o fio condutor... É uma coisa que vem, muitas vezes, das tentativas das várias composições, de quando se acha ali, numa música, num determinado momento, uma determinada estética, à qual nos apegamos e adaptamos as outras músicas a essa estética. Aqui, houve um bocado esta simplicidade, no sentido de nós também fazermos aquilo que, para nós, é mais simples de fazer. “Simples” não no sentido de um grau de dificuldade, mas de familiaridade com o que fazemos.
O que é a simplicidade, hoje, na música? Pode ter várias interpretações...
FR: Acho que é um disco que se ouve bem. Sei que já é raro uma banda dizer isto, porque as pessoas estão muito em cima... Os nossos fãs, a partir do Sin/Pecado... Sempre houve ali uma falta de consenso: “muito comercial”, “muito agressivo”, muito isto, muito aquilo. Aí, nós caminhámos em frente. Há aqui duas coisas que eu tenho que dizer: para já, a influência tremendamente gótica do disco. Já tivemos esses dilemas, esses problemas, e acho que neste disco nós não tivemos problemas, porque estávamos bem sintonizados no fazer as coisas bonitas e soar bonito, assim como o nosso produtor.
O gótico não tem medo da beleza. O metal já tem uma relação mais complicada com a beleza, com a harmonia. Sinceramente, eu acho que — e as pessoas têm gostado disso, pelo que eu estou exatamente do lado errado da história — há muito exibicionismo dos músicos, hoje em dia, para fazerem coisas complexas, enquanto os Moonspell servem a banda. O nosso guitarrista toca maravilhosamente bem, o nosso baterista consegue fazer o que os Meshuggah fazem... Mas eu acho que se tenta, por exibicionismo, fazer coisas demais. A música está muito saturada com a wall of sound... As pessoas, quando vão ouvir o Far From God, até as que não gostam, ficam desarmadas. É um álbum em que às vezes está o baixo, a voz, a bateria, as teclas, a guitarra, essa falta de camadas.
Não foi fácil gravar esta simplicidade, porque quando está tudo muito mais “vazio”, todas as imperfeições ficam mais expostas. Isso é óbvio. O nosso produtor, o Jaime Gomez Arellano, tinha uma visão para o álbum que era completamente igual à minha e à do Pedro. As pessoas esquecem-se que os Moonspell começaram por ser seis elementos e que começámos com um álbum que é um clássico, hoje, da cena metal europeia e mundial: o Wolfheart. Para nós, foi um álbum que nunca nos satisfez: parecia uma hidra, seis cabeças, um puxava da folk, outro do gótico, outro do rock... O nosso movimento, os álbuns em que nos sentimos mais realizados, são aqueles que são um bocado simples e homogéneos.
Não quer dizer que, de futuro, não façamos uma coisa mais rasgada, ou uma coisa com mais complexidade. Mas acho que nós não precisávamos disso, os nossos fãs não precisavam disso. E a “cena” que nos vai ouvir tem-no apreciado exatamente por causa desta tal simplicidade, que é uma coisa tão singela, não é? Eu vou ouvir um disco e já não estou à espera de que ele seja simples; quando eu ouço um que o é, “eh pá, que maravilha”! Há aqui um sentimento nostálgico de quando a música era feita, não diria para agradar, mas há muita “coorte”: “será que vou gostar disto?”. Já ouviram duas músicas e dizem que não vão comprar o álbum...
As pessoas dizem muitas coisas quanto têm acesso à Internet...
FR: E acho que devem ter acesso e acho que devem fazer ruído, porque é importante e salva bastante gente de ter um problema de saúde ou de explodir interiormente. Nós, que estamos do outro lado — que estamos dos dois lados, aliás — temos que ver um bocadinho além desse ruído. Quando nós estamos numa “crise existencial”, encontramos a tal direção, dizemos que vamos fazer um álbum de metal gótico, toda a gente ficou entusiasmada... Fomos concretizá-lo. Nem pensámos duas vezes se ia ter pouca complexidade ou se as canções iam ser orelhudas. Quando tivemos a certeza, tivemos mesmo a certeza que era isto que íamos gravar, e de cada vez que nos desviávamos — porque os músicos são assim, em estúdio — o nosso produtor estava lá.
A que se deve o regresso do Jaime Gomez Arellano, que já colaborou convosco no Hermitage, como produtor? Havia um trabalho ainda por fazer?
PP: Acho que é exatamente isso. Ele merecia este disco. A nossa colaboração quase que ficou ali inacabada, não é?
Em que sentido?
PP: No sentido em que o Hermitage foi a nossa primeira experiência. Nós tivemos algum contacto musical antes, ele também fez alguma pré-produção, mas foi uma coisa muito mais suave. Desta vez, juntámo-nos antes de ir para estúdio, onde finalizámos as músicas; nós tínhamos as oito canções do disco em aberto. Isto é um bocado difícil de explicar, porque imagino que seja diferente de banda para banda. Connosco, se eu precisar de finalizar esta música, sei fazê-lo; mas não estou muito contente com a solução que tenho na cabeça, e o produtor é que entra muito nesse aspeto. Então, uma pessoa deixa a música ali a três quartos do seu final, para ainda jogar as peças, para ainda ter ali uma margem de manobra. Ele entrou nessa parte, num estádio muito mais preliminar do que no Hermitage, até porque ele também se mudou para o Porto.
O disco é gravado no ArGon Studios.
FR: O ArGon é um projeto itinerante, que depois se vai fazendo em vários estúdios. Ele andou num périplo pela Europa – é colombiano, mas morava há muito tempo no Reino Unido, e quando foi o “Brexit” não aguentou mais a situação política e quis ir-se embora. Em conversas connosco, dizia: “estou na Finlândia, mas é muito seca...”, ou “estou em Berlim, mas é muita confusão...”. Às tantas, digo-lhe: “porque não tentas o Porto? Acho que te vais dar bem lá”.
O que o Pedro estava a dizer é muito curioso. Não afetando a parte técnica, porque o Jaime é um produtor incrível, mas acho que a nossa escolha recai nele porque ele tem muito gosto. É algo que não se fala muito na música. E nós quisemos fazer uma coisa mesmo old school: fazer a pré-produção com ele, finalizar a escrita das canções com o produtor, para que ele já tivesse a arquitetura sonora, ou a engenharia, ou as duas coisas, na cabeça... Fomos gravar com ele, fizemos a captação – hoje, quase ninguém o faz; grava-se num estúdio, até por razões de orçamento, e depois faz-se a mistura e a masterização...
No Hermitage, fomos ter com ele porque tínhamos um disco diferente, que misturava Moonspell com rock e metal progressivo, e ele trabalha com muitas bandas deste estilo. Também trabalha com bandas mais indie, como os Grave Pleasures ou os Hexvessel. Coisas mais esquisitas, como costumamos dizer. Nas várias conversas que tivemos no estúdio, porque também temos uma amizade muito forte, disse-nos que fomos ter com ele mas que com este disco ele é que tinha ido ter connosco. Ouve-nos desde os tempos em que fazíamos black metal, desde o “Under the Moonspell”, e disse-nos que com este disco éramos mais “nós”. Ele queria trabalhar num disco connosco em que pudesse estar menos atento à direção musical e pudesse trabalhar mais quando já tivéssemos um disco que nos fosse mais familiar. Já escutámos o disco no carro, em vinil, num sistema de som, e a produção está realmente incrível. Ele foi muito importante, como qualquer outro elemento dos Moonspell. Acho que há aqui muita assinatura do produtor, o que é bom para nós, porque não nascemos ensinados. Desde que fomos à Alemanha gravar o Wolfheart, em 1995, que percebemos que o produtor não é uma mera figura decorativa. Quase todos os nossos produtores foram interventivos, mas o Jaime... Ainda por cima agora também tem esta parte do Porto, e é latino...
PP: É definitivamente o produtor mais parecido com a banda.
FR: Às vezes choca...
A nível futebolístico, há concordância, sendo ele colombiano?...
FR: Acho que ele não liga nenhuma... O Pedro é do Benfica, eu sou do Futebol Clube do Porto, o Ricardo é do Sporting...
Estava a pensar no legado que o Futebol Clube do Porto tem quando o assunto é jogadores colombianos...
PP: Nós conhecemos mais jogadores colombianos que ele...
FR: Até do que eu! Mas o que gostei mesmo foi de estar no Porto a gravar. É uma cidade incrível, e para o nosso disco foi ótimo, porque tem uma vibração meio vitoriana, meio gótica. Muitas vezes estava a chover, céu cinzento...
Foi um ambiente propício para este álbum.
FR: Mais outra coisa romântica: acho que é importante termos um ambiente propício. Lembro-me de gravar discos... Somos todos muito simples, a gravar: o microfone tal, os headphones tal. O Pedro até tinha uma sala a que chamávamos “manicómio”, que era onde ele explorava a sua gama de sons, teclados, loops... Tudo isto também se reflete no disco, este ambiente do Porto. É um disco com gosto, com alguma classe.
Para acompanhar com um vinho do Porto...
FR: Talvez, porque não? Um bom Porto...
PP: Espero que envelheça tão bem...
FR: Acho que vai envelhecer bem, sinceramente. Os discos mais simples que fizemos, as canções mais simples – não estou a dizer que sejam simplórias, fica essa nota –, que vão diretas ao assunto... Para mal dos nossos fãs, e da cena metaleira e gótica — talvez pelas redes sociais, que vieram potenciá-lo um bocado – as pessoas debatem muito a música. De vez em quando, estamos a debater as coisas e não estamos a experimentar. Eu, se não vou gostar de um disco, não vou ver nada na internet sobre ele.
Quando havia mais críticos de música, nos jornais... Eram pessoas que tinham outra gravidade para o dizer, porque fazem disso a sua vida, porque têm mil e tal discos de vinil na sua coleção. Os críticos de internet, por assim dizer, não têm essa bagagem. Claro que, de vez em quando, ficávamos um bocadinho magoados com os críticos, porque a música é muito pessoal, muito emocional. Hoje em dia, já vi que as pessoas têm muita pressa para formar uma opinião mas pouco interesse, ou pouca pressa, em ter uma experiência.
E em ouvir um disco do início ao fim.
FR: Nós temos sorte; acho que os nossos fãs os ouvem.
PP: As pessoas continuam a ouvir álbuns; é talvez uma questão mais geracional.
FR: Não é um fator, para nós. Uma das coisas que discutimos bastante é o flow do disco. Temos uma música, a 'Biblical', que ganhou muito com a pré-produção; felizmente, o Pedro não desistiu dela. Eu tinha-a apontado para o fim do disco, e o Pedro afirmou que seria a terceira música. Quando ouvi o flow... Ou seja, se estivéssemos a pensar em singles e em momentos, e não em narrativa, nem sequer discutiríamos o alinhamento. Ou então íamos ao ChatGPT, punhamos as músicas e pedíamos-lhe para fazer um alinhamento, considerando o que as pessoas estão a ouvir, o seu défice de atenção, quanto é que elas conseguem dedicar por dia à música...
Para fazer música, não só de uma forma profissional, mas pessoal, nós não podemos estar com esses parâmetros. Eu acho que são tóxicos, como se costuma dizer agora. Essa conversa da indústria, do single, do tens de ter um bom single, o resto depois não interessa... Eu sei que os Moonspell são uma banda diferente, mas eu acho que a comunidade artística, por assim dizer, perde um pouco ao ir atrás desses cantos de sereia. Afinal, as pessoas que dizem isso, as agências, as editoras, etc., elas não querem é ter o trabalho de ouvir o disco. E as pessoas que ouvem singles não querem ter trabalho porque acham que não têm tempo para aquilo, e, portanto, vão ouvir duas ou três músicas da Shakira, ou uma da Jennifer Lopez, ou uma do Bad Bunny, e pronto, está feito o ramalhete...
A música, para nós, é muito mais do que isso. Aqueles milhares de pessoas que enchem o concerto do Bad Bunny — não tenho nada contra o Bad Bunny, mas também não tenho nada a favor — não são pessoas que estão ali para fruir de uma experiência musical. Chamem-me snob; prefiro muito mais ir ver um concerto na Gulbenkian, ou um dos Sunn O))) ou dos Swans. São coisas diferentes e há espaço para tudo. Faço este comentário, não para diminuir, mas para defender aquilo que está a ser diminuído, que é as pessoas que ouvem e que gostam de música de outra maneira, colecionadores de discos de vinil, artistas que estão a fazer coisas incríveis...
Tivemos uma no nosso disco, a tocar cordas: a Alicia Nuhro, que eu não conhecia. Fui ver o trabalho dela, e ela está a fazer música incrível; só a conhecemos por ter feito uma colaboração connosco... Portanto, há muita coisa para ser descoberta. Sou muito otimista. Não entro nada nessas conversas, de que agora vem uma empresa, a Live Nation, a Universal, que vai dar cabo disto tudo. É um bocado como os partidos políticos; se houver bandas na clandestinidade, acho que vai sempre haver pessoas para as ouvir, de uma forma, até para morrer por elas, quase.

O metal nunca foi de singles, mas deixa-me puxar pelo single de antecipação deste disco; há muito tempo que não se ouvia uma canção sobre acidentes ferroviários... Porque escolheram Cross Your Heart como primeiro single? É aquele que resume bem a ideia do disco?
FR: Desde a Adelaide Ferreira que não se ouvia. Lançámos já dois singles; o Far From God, que foi logo o primeiro vídeo, e que achámos ser uma boa súmula – sempre ingrato – do disco, porque o disco é muito mais diverso. Penso que estas duas canções até têm mais a ver uma com a outra do que propriamente com o resto do disco. Vamos ter uma canção bastante diferente, que vai sair mesmo antes do disco, que é a The Great Wolf in the Sky, também com vídeo, feito de outra maneira.
Focando-me no Cross Your Heart, acho que em Portugal temos um problema mental com as estradas, que é uma coisa horrível e algo a que não damos importância suficiente. Morando em Alcobaça, ando todos os dias de carro, porque não tenho outra hipótese; cada vez há menos transportes. Lembro-me de ser adolescente e conseguir ir a Leiria, a Alcobaça, sempre nas camionetes ou nos autocarros, de haver transportes quase de hora a hora. Agora, as pessoas vivem mais isoladamente.
Isto é só um exemplo: numa zona em que eu quero andar a 50 km/h, está um autocarro amarelo em cima de mim, quase a abalroar-me, para eu andar a mais de 50 km/h quando o limite é esse. Isto é a mentalidade portuguesa. O resto é tudo exceção, as pessoas conduzem defensivamente.
Nas vossas tours pela Europa, percebem que a mentalidade é outra?
FR: Digamos que há uma certa loucura na América do Sul, também. Em Itália, idem. Mesmo assim, não há aquilo que eu considero quase uma tendência para o homicídio e o suicídio. Claro que isto não começa por aí, começa por uma observação mais poética, que vejo muito no Alentejo ou na província: aqueles altares, centenas de altares, que assinalam que houve uma morte na estrada, nomeadamente de um jovem numa mota.
Esse é o lado poético da canção. Ao outro lado, não chamaria interventivo; é só uma canção para pensarmos um bocado nisso, e para as autoridades pensarem que, tal como a toxicodependência nos anos 80, em que éramos mais crianças... Eu vinha de um bairro onde se viveu isso, e houve uma espécie de mudança de perspetiva ao não tratar os toxicodependentes como pessoas viciadas, como o eram também, ou ao não os perseguir criminalmente, mas encará-los como doentes. Das poucas coisas boas que Portugal fez...
A toxicodependência era um flagelo e, hoje, a estrada também o é. Eu, pelo menos, sou muito sensível a isso. É muito agressivo, é muito desnecessário. É uma das principais causas de morte, e não estamos a melhorar. Até digo que, de vez em quando, é uma guerra civil. A Adelaide Ferreira tinha uma canção que era sobre atropelarem peões e já foi há trinta e tal anos... Moro numa avenida que tem cinco passadeiras e, todos os anos, morrem cinco ou dez pessoas porque os carros andam depressa demais. Acho que não conseguimos dar uma volta por cima.
PP: Mas é invulgar que sejam os Moonspell a falar um bocado sobre isso. Não estou a dizer para “terem cuidado”; quando ouço a música ou leio as letras, é mais a inspiração que vem de lá do que propriamente o tema.
É uma canção de uma banda com quase 35 anos de estrada...
PP: Já nos aconteceu muita coisa, sim. Mas o que eu quero aqui enaltecer é que, quando ouço a música, ouço mesmo uma peça musical; não é nada de intervenção, nem fala sobre os acidentes em específico. Fala da parte trágica, de tudo o que está por trás ou de tudo o que vem daí, mas não é tão elevado. Não é nenhuma canção de intervenção. Pelo menos, não consigo interpretá-la dessa forma. É uma chamada de atenção? Ok, poderia ser, mas continua a haver ali muita poesia.
FR: Fiz o que os portugueses fazem: fiz um poema sobre isso... Se por algum acaso houver alguma consciencialização, alguém que ouça a canção comece a pensar sobre isso, seria ótimo. Sinceramente, acho que temos – outro – grande problema...
Temos vários, e agora que chega o verão, esse é um deles...
FR: Sim, vimos os resultados na Páscoa. Vai haver a parte da punição, da disciplina, da multa, mas isso vai apenas mitigar, não vai resolver. É como a questão do Volta. Na Alemanha, há o pfand, e quando lá íamos e víamos as pessoas todas a fazer aquilo gozávamos com elas. Agora temos isso cá em Portugal, e vemos o desastre que está a ser, a opinião que as pessoas têm contra isso. Uma coisa benéfica, simples, que se calhar está mal organizada.
Mas o português reage mal à mudança...
FR: Talvez seja isso, acho que reagimos mal à mudança, nem nos damos hipótese de reagir à mudança, nem damos hipótese de a mudança acontecer. Se for preciso, metemos um fogão industrial num caixote de lixo, quanto mais reciclar latas e garrafas. Talvez faça uma canção sobre isso...
Falem-me da capa do álbum, da autoria de um artista que tem um longo portefólio nesta área da música “pesada”.
FR: É do Eliran Kantor. Acho que tenho vários discos com capas dele dos quais nem sequer gosto da música. Ele é fã de metal e dos Moonspell, cresceu em Israel e agora está na Alemanha. Ouvia-nos ao vivo, nos clubes... Quando o contatei, quase nem tínhamos músicas, nem tínhamos título para o disco. Como eu sei que ele é muito requisitado, contatei-o para fazer a capa dos Moonspell. Disse logo ao Pedro: como íamos fazer o disco, quis que fosse tudo melhor: mais nível, mais gosto, mais investimento. Tudo o que tem acontecido com os Moonspell tem sido uma procura, também, de melhor qualidade; até nas redes sociais, nos conteúdos, tudo isso. Depois de três décadas, é a coisa certa a fazer.
Depois, houve aquele vai-não-vai dos títulos, da capa, do Far From God, e estivemos praticamente desde 2022, 2023 nisto. Ele nunca me enviou nada, eu é que lhe enviava imensas coisas: “estou a ouvir a ópera do Leoncavallo, estou a escrever sobre o artista, que também é um Pagliaccio...”. Fui muito chato para ele, e ele, como um verdadeiro artista, não ligou absolutamente nenhuma aos meus moodboards. Entretanto, quando faltava pouco tempo e eu até já tinha comentado que ele não mandava capa nenhuma, ele manda-me o sketch desta capa, a preto e branco, com uma explicação, já sabendo que era Far From God, já tendo ouvido algumas demos... Era uma peça em que ele já tinha trabalhado, e que estava à espera da banda certa, o que foi incrível. Eu não lhe tinha dado aquele tratamento de cor, que faz toda a diferença. Falou-me em estrangement, que em português talvez seja estranhamento, uma divisão, uma espécie de separação. Fiquei logo apaixonado pela capa.
Quando a mostrei, é uma capa completamente inesperada; nós olhamos para aquilo, mas depois... É como quando nós damos nome a uma criança, a um disco, a um livro, a uma canção, a um próprio animal de estimação; parece que quando tens um nome para uma coisa, essa pessoa e essa coisa se tornam um bocado nesse nome. Há uma figura muito central na nossa cultura, que é a figura do beijo: o beijo, na cultura católica, pode ser um símbolo de amizade e de proximidade ou de traição. Judas beijou Cristo; quando vais à missa, há um período da saudação, em que as pessoas se saúdam com um beijinho na cara. Há várias pessoas que não veem a guilhotina, lá em cima, e há aquele movimento em que eles ou se estão a despedir ou ela está a puxá-lo para a guilhotina.
Isto é uma capa que conta uma história. Uma das coisas que eu queria, e que ele realizou, é que eu acho que o Eliran, apesar de trabalhar em metal e ser bastante feliz com isto, não podia ser muito mais. Não sei que técnica é que ele tem, mas se ele metesse isto no museu, a nossa capa, várias capas dele, as pessoas paravam para olhar; tem esse tipo de qualidade estética e plástica, mesmo de artista...
O que acabaste de explicar é a narrativa de uma obra de arte...
FR: Ele até me disse, à maneira dele: imagina que a capa do Vulgar Display of Power dos Pantera se chamava “A Punch in the Face”. Perdia todo o sentido, porque é uma capa muito forte: alguém a levar um soco... Foi buscar um exemplo de uma banda que não tem nada a ver com os Moonspell, muito mais agressiva, muito mais metal americano, e eu entendi realmente o que ele tinha a dizer. De cada vez que vejo o produto físico, que vejo a capa, num ecrã ou em qualquer coisa, fico sempre a pensar que foi quase um achado, quase um milagre.
PP: E, lá está, foca-se mais no fator da distância e no sentido vetorial disso do que propriamente no Deus, não é?
FR: Sim, e é muito engraçado, porque nós gostamos tanto da capa...
PP: ...Eu não gostei logo, lembras-te? Foquei-me no lado errado... Agora adoro.
FR: Mostrei-a a diversas pessoas que gostaram logo. Mas acho também que cresce, é mesmo uma obra de arte. Eu também não gostava de arte contemporânea até a ver ao vivo. Quando a vi ao vivo, disse: isto tem realmente uma história, conta uma narrativa. Não tem de ser só coisas que eu adoro, não tem de ser só Velázquez ou Goya ou Caravaggio. Pode ser o Jeff Koons, o Damien Hirst. Valeu a pena fazer este disco, também, para ter uma capa daquelas.
A nossa edição de banda não tem o logótipo dos Moonspell. Penso que também estará disponível nas lojas. Quem fez a imposição do logo foi o artista, não foi nenhum editor, nem nada; disse que nós é que tínhamos de o fazer, que ele não se atrevia a pôr ali o logótipo dos Moonspell. É quase como quando tocamos com orquestra; eles primeiro tocam sozinhos, e é lindo, e depois nós vamos tocar, não estragamos, mas ganha outro sentido. Aquela capa é para ser apreciada no seu esplendor total.

Pegando na Orquestra e no que disseste há pouco, de quererem tudo do melhor para este disco, isso estende-se à digressão? O que podem os fãs esperar das datas nacionais e internacionais?
FR: Tem de se estender à digressão, porque o palco é onde nós conseguimos contar as nossas histórias. Moonspell sempre foi assim; com muita ou pouca produção, sempre tivemos alguma teatralidade nas nossas apresentações ao vivo. Lembro-me de estar a fazer a primeira tournée com os Morbid Angel, em 1995, e de haver uma revista boa, a “Aardschok”, neerlandesa, que é uma revista grande, da especialidade, que tinha uma fotografia em que não tínhamos absolutamente nada, e em que eu estava com os braços abertos e com uma luz roxa — e essa era a fotografia de destaque. Portanto, nós temos essa teatralidade.
Vamos ter várias datas. Podem ver nas nossas redes e no nosso site, moonspell.com, tem lá os links para os bilhetes e tudo. Quando começarmos a tocar mais canções do Far From God, vamos ter também um novo espetáculo, que tem a ver com o conceito, com a simbologia da Cruz, que é uma simbologia ocidental, e está muito presente. A capa não é uma cruz, porque seria muito óbvio... Mas o mise-en-scène tem de ser um bocadinho mais óbvio, porque não temos tempo de estar a contar a história da capa, aquilo é para observar de imediato. Acho que vai ter uma grande produção que vai misturar um pouco das novas tecnologias com um gosto, uma estética, mais antigos, mais de teatro.
Gótica?...
PP: O nosso termo é goth stadium, não é? É um gótico, mas mais sofisticado.
O que é que estão a ouvir neste momento?
PP: Tento ouvir música moderna, mas não tem acontecido. Por “moderna” entenda-se “nova”, recente... Tenho ouvido muito os Gaerea... Mas este fenómeno dos podcasts tem minado muito a escuta que normalmente estava guardada para a música... Tenho ouvido muito The Cure, por causa do concerto no North Festival, achei que era celebrativo.
FR: Tenho ouvido Wormwitch, que é uma banda canadiana de metal, um bocadinho a soar a Bathory e a Venom. Tenho ouvido o novo álbum de Ulver, que é completamente experimental, nem sequer se pode dizer que tenha canções. Tenho ouvido um álbum de música francesa, do Liam Tar, La Poésie Vivante des Poètes Morts. Uma banda espanhola, os TodoMal, meio doom, meio gótico, meio prog. Os La Bande-Son Imaginaire, mexicanos, góticos, muito extravagantes mas muito apreciados na comunidade. E tenho ouvido o The Longest Night, dos Nattradio, que fazem aquele tipo de metal que eu ouço, tipo Katatonia. Portanto, tenho ouvido muita música diferente daquilo que fizemos com o Far From God, sendo que há ali algumas coisas que me fizeram compô-lo. French Police, Twin Tribes... Novos valores do gótico. Uma banda que cito sempre são os Tribulation, que lançaram um álbum em 2024, o Sub Rosa In Æternum. Quando o ouvi, cheguei ao pé do Pedro e disse: “então, estes suecos estão a fazer isto, e nós somos os reis disto...”.
PP: Ouvi o disco, gostei. É um bom disco. Mas claro que uma pessoa recorre sempre [aos outros], quando é para fazer música gótica. É por isso que acho que estou numa fase pós-disco, que demora um bocadinho a encontrar novas sonoridades. Não estou a procurar muito porque tive de ouvir muito os registos, o que é que nos leva a ter aquele estilo. Então, os Fields of the Nephilim e os Type O Negative são incontornáveis, principalmente os primeiros. Inspiram-me muito. Se calhar, agora tenho que fazer a curva para mudar outra vez de direção.
Por Rita Sousa Vieira
*A versão vídeo desta entrevista pode ser vista no YouTube da FNAC.