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Escrito com Sangue na Água nasceu da tentativa de responder a uma ausência que atravessou toda a vida de Maria Grazia Calandrone. Em conversa com a Cultura FNAC, a escritora italiana explica como reconstruiu a vida de Lucia e porque sentiu que esta história precisava de ser contada.
O QUE TENS DE SABER:
Maria Grazia Calandrone é escritora, jornalista e artista visual.
Finalista do Prémio Strega com Escrito com Sangue na Água, estreia-se agora em Portugal com esta obra.
Em Escrito com Sangue na Água, a autora reconstitui a vida da mãe através de testemunhos, arquivos e documentos, recuperando uma história marcada pelo amor, pela violência e pelo julgamento social na Itália do pós-guerra.
“Roma, 1965: um homem e uma mulher, unidos por um amor proibido, abandonam a sua filha bebé num jardim, antes de cometerem um ato extremo”, antecipa a sinopse do livro publicado pela Alfaguara.

Quando é que percebeste que a história da tua mãe precisava de ser contada em livro?
Quando a conheci. Quando comecei a ouvir os testemunhos sobre ela, percebi que a sua história era emblemática da condição das mulheres em Itália naquela época. Foi nesse momento que senti que precisava de ser contada.
Depois da publicação do livro, muitas pessoas disseram-me: "Agora percebo porque é que a minha avó dizia isto" ou "Também havia uma história assim na minha família." Foi então que compreendi que, em quase todas as famílias italianas, existe uma Lucia. Há sempre uma mulher empurrada pela História para um sofrimento extremo. Não digo necessariamente para o suicídio, mas para viver uma experiência marcada pela mesma violência.
Ao descobrires Lucia, o que mais te impressionou nela?
A dignidade.
A investigação aproximou-te da tua mãe de uma forma que não esperavas? Como foi acontecendo essa aproximação?
À medida que a investigação avançava, fui-me afeiçoando a ela. Comecei a compreender o seu desejo de liberdade, a vontade de viver a vida que escolhia para si, e não a que lhe era imposta.
Passei a sentir uma enorme ternura. Cada novo detalhe ajudava a construir essa figura tridimensional que depois aparece no livro. Deixou de ser apenas uma ausência para se tornar uma pessoa completa, viva.
Ao longo do livro, há momentos em que parece ser a filha a dar uma nova existência à mãe. Sentiste isso enquanto escrevias?
Não apenas através da escrita. Hoje digo que tenho três filhos, porque ela era mais nova do que eu quando comecei a procurar os seus vestígios. É como se se tivesse tornado a minha filha mais velha.
No final do livro, referes-te à tua mãe como "minha filha". O que mudou na tua relação com ela para chegares aí?
Nasceu do amor. De a ter finalmente conhecido e de ter aprendido a admirar a sua força, o seu desejo de liberdade e a sua sinceridade. Ela nunca tentou enganar ninguém. Fez apenas uma coisa que, na altura, não era permitida: deixou o marido para viver com o homem que amava. Queria viver de forma transparente. Quanto mais a conhecia, mais a amava e maior era a ternura que sentia por ela.

Ao reconstruíres a vida da tua mãe, também passaste a olhar para o teu pai de outra forma?
Já sabia que Giuseppe tinha deixado uma família por amor à minha mãe. O que não sabia era que a tinha deixado com uma dívida enorme. Por isso, a figura de Giuseppe acaba por ficar um pouco na sombra da de Lucia. Percebi que, apesar do amor que sentia por ela, também teve comportamentos pelos quais deve ser responsabilizado.
Há alguma leitura deste livro que gostasses de evitar?
Gostava, antes de mais, que não me vissem como uma órfã desamparada. O mais importante para mim era fazer justiça à memória da minha mãe.
Durante muitos anos, ela foi vista como uma mulher de má reputação, quando, na verdade, era apenas uma mulher muito mais moderna do que o seu tempo.
Em Itália existe uma figura muito conhecida, Franca Viola, que recusou casar com o homem que a violou. Tornou-se um símbolo porque teve o apoio do pai e conseguiu resistir.
A minha mãe teve exatamente o contrário. O pai colocou-se contra ela. Se tivesse tido esse apoio, talvez tivesse sido outra Franca Viola: uma mulher rebelde que teria aberto caminho às gerações seguintes.
Sentes que este livro acaba por fazer justiça à vida da Lucia?
Sem dúvida. Aliás, essa reparação continua a incomodar algumas pessoas. Na aldeia onde a minha mãe nasceu vandalizaram o meu carro, porque a família de Luigi não ficou satisfeita com esta nova versão da história.
Ao conheceres melhor a tua mãe, o que acabaste por descobrir sobre ti?
Aprendi que talvez não seja capaz de amar tanto quanto Lucia amava. Ela foi capaz de desaparecer da minha vida, não apenas porque vivia numa situação impossível, mas também porque acreditava que assim me daria uma vida melhor do que aquela que me poderia oferecer. Não sei se eu seria capaz de fazer o mesmo pelos meus filhos.
Sentes que este livro mudou a forma como vives a família?
Diria que hoje consigo viver essa relação melhor do que antes.
A escrita consegue preencher os espaços em branco das nossas origens?
Não. Enquanto escrevemos, a pessoa está ali, sentada ao nosso lado. Mas, quando a escrita termina, essa presença desaparece. Ainda assim, este livro será importante para os meus filhos, porque lhes deixa uma história em vez de uma incógnita sobre as suas origens.
O livro denuncia a violência de que tantas mulheres foram vítimas. Essa intenção esteve presente desde o início?
Sim. Quando comecei a ouvir os testemunhos e percebi que todos convergiam para o relato de uma injustiça tão profunda, tive imediatamente a certeza de que esta era uma história que precisava de ser contada.
Lucia foi punida por amar quem escolheu. Acreditas que as mulheres continuam hoje a ser julgadas por decisões como essa?
Aparentemente, muito menos. Mas acredito que, numa pequena aldeia como aquela onde Lucia viveu, se uma mulher decidir deixar o marido, continua a ser preferível que vá viver para outro lugar.
Os direitos conquistados pelas mulheres nas últimas décadas podem ser dados como adquiridos?
Temos de estar muito atentas. Sobretudo com o governo que temos atualmente. Direitos como o divórcio e muitas das liberdades conquistadas pelas mulheres nunca podem ser dados como garantidos. É preciso continuar a defendê-los.
Este livro acabou por ter um significado diferente dos teus anteriores?
Sim. Embora diga que a escrita não consegue preencher os vazios, a verdade é que Lucia passou a existir. Não na realidade, mas no amor dos outros. Vejo pessoas que passam pelo lugar onde fui encontrada ou que vão à aldeia da minha mãe deixar uma flor. Isso significa que, de alguma forma, ela continua viva na memória de quem a lê.
O que é que a poesia trouxe à forma como escreveste esta história?
Venho da poesia. Escrevi poesia durante décadas antes de começar a escrever prosa, por isso esta é a minha forma natural de escrever. Mesmo nos meus livros de poesia houve sempre muita História, muita política, muita realidade, muita crónica social e até judicial. A diferença é que, na narrativa, posso desenvolver essas histórias de forma mais extensa e detalhada do que a poesia permite.
O que é que este livro te ensinou de mais importante?
A resposta está, de certa forma, no título do meu livro mais recente, Dimmi che sei stata felice (Diz-me que foste feliz). É essa a esperança que guardo.
Penso que, se hoje pudesse encontrar a minha mãe, era isso que ela me pediria: "Diz-me que foste feliz."
O que está a ler?
Um livro de física quântica, de Carlo Rovelli, que defende que a realidade nem sempre é aquilo que parece.
Por Rita Sousa Vieira
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