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Qual foi o ponto de partida para Se Um Dia Voltarmos?
Sempre me interessou explorar a presença de espanhóis fora da Península Ibérica e os movimentos migratórios em diferentes momentos e circunstâncias históricas. Sabia que, na Argélia, sobretudo em Orã [no livro assume-se a grafia espanhola, Orán], existiu uma forte comunidade espanhola que desapareceu com a guerra da Argélia e a independência do país. Um rasto que foi apagado. Quis investigar esse fenómeno, aprofundá-lo e transformá-lo num romance. Parece-me um episódio relevante da História, não apenas de Espanha, mas da Europa e do Mediterrâneo...
Como se entrelaçam a história das personagens e a História com maiúscula?
De todos os meus livros, este é o que percorre um arco temporal mais amplo: 34 anos. Passamos pela Guerra Civil Espanhola, pelo pós-guerra e o exílio dos republicanos, pela II Guerra Mundial, pela guerra da independência da Argélia, de 1954 até 1962. É um período vasto, que inclui o desembarque das tropas norte-americanas no norte de África, entre outros episódios históricos de enorme relevância, sempre em paralelo com a vida da protagonista. Procurei que o seu crescimento, as várias etapas da vida profissional, as amizades e os amores estivessem permanentemente entrelaçados com esses momentos históricos, cruzando-se a cada passo.
Os espanhóis sabem o suficiente sobre este capítulo da História e a sua relevância?
Muito pouco. Os franceses, sim, conhecem bem. A guerra da independência foi dramática para eles: muitos jovens soldados tiveram de ir para a Argélia, houve inúmeras mortes, foi um conflito duríssimo tanto para os franceses como para os argelinos. Em Espanha, o conhecimento é escasso, quase nulo, e suponho que em Portugal aconteça o mesmo. Mesmo entre nós, apesar de ter afetado tantos espanhóis, prevalece a ideia de que foi algo de França, não nosso. E deixem-me acrescentar: também houve uma presença portuguesa considerável em Orã e na Argélia. Para comércio e fins militares.
Como foi o processo de documentação e investigação para recriar o ambiente desta história?
Passei vários meses a recolher documentação. Viajei até à Argélia, estive em Orã. O que não é simples, porque é preciso pedir autorizações e vistos. Fui depois a Alicante, na costa sudeste de Espanha, onde ainda vivem muitas pessoas ligadas à Argélia e a Orã. Tive várias conversas e comigo partilharam histórias pessoais e familiares daquele tempo. Memórias agridoces, algumas duras e amargas, outras profundamente afetivas e comoventes. Com tudo isso, documentação escrita e as memórias individuais, fui construindo a atmosfera do romance.
E agradecem-te por teres escrito a história dos seus antepassados?
Muito, muito. Isso chamou-me bastante a atenção durante a apresentação em Alicante, onde havia muita gente ligada a esse passado. Depois, quando estive na Feira do Livro de Madrid, em maio, todos os dias alguém se aproximava, contava-me que os seus pais ou avós tinham vivido lá e mostrava-me fotografias. Há também grande curiosidade pela tradução para francês. De muita gente de origem espanhola que já perdeu o domínio da língua, não fala castelhano e quer lê-lo em francês.
O que foi mais desafiante neste livro?
Acho que a parte mais difícil foi o final, quando abordo os anos da Guerra da Independência. Foi muito dura, muito sangrenta, com muitas mortes. Depois, a reação do governo francês e das autoridades foi igualmente agressiva, dura e dolorosa. Foi complicado porque, como romancista, tento ser objetiva e apenas contar o que aconteceu, sem julgar ninguém.
Procuras que a tua escrita tenha um carácter pedagógico?
Um pouco, sim. No fundo, ainda carrego uma professora dentro de mim, e no meu coração ainda está essa vocação. Além disso, tinha consciência de que este era um capítulo da história da Europa — da história coletiva do sul da Europa e do norte de África — praticamente desconhecido fora de França e da Argélia. Por isso, esforcei-me por contá-lo bem: mostrar todas as partes envolvidas, explicar como foi viver aqueles anos, e como terminou. Procurei sempre narrar com clareza e rigor, para que qualquer leitor pudesse compreender.
A imigração é um tema recorrente nos teus livros. As histórias de quem partiu merecem ser contadas?
Acredito que sim, e ainda há capítulos por explorar na literatura. Espanha foi — tal como Portugal — um povo profundamente imigrante. Estivemos no Pacífico, e isso praticamente ainda não foi contado. Há um episódio muito interessante da imigração espanhola para a Austrália, sobretudo de mulheres, nos anos 60, que tem sido pouco abordado. Por isso, sim, creio que ainda há muitas histórias por contar. Porque são fenómenos sociais e históricos, mas também histórias íntimas. Cada família, cada indivíduo que partiu viveu a experiência de forma diferente.
No final do século XIX e início do século XX, os movimentos migratórios iam de norte para o sul; hoje seguem no sentido inverso. Como se enquadra este livro neste contexto das diásporas contemporâneas?
É um movimento muito diferente, pela direção que tomou, pelo perfil das pessoas e pela conjuntura mundial. Mas, no essencial, é semelhante: trata-se sempre de pessoas obrigadas a abandonar o seu mundo em busca de melhores condições de vida. Essa base não muda, acompanha a história da humanidade. A procura de um lugar onde se possa viver melhor, seja do sul para o norte, do norte para o sul, cruzando o Atlântico ou o Mediterrâneo. Claro que as conjunturas são distintas, os processos também. Hoje, em circunstâncias muito difíceis — como sempre houve —, vemos diariamente nas notícias pessoas de África a tentar chegar à Europa, e tantas outras em movimento...
E vemos, cada vez mais, movimentos anti-imigração.
Exatamente. E toda a rejeição que geram nas sociedades de acolhimento. Mas conhecer a nossa História — e a nossa História tem uma base de imigração — é fundamental para enfraquecer esses movimentos. Se conhecermos o nosso passado, estaremos mais preparados para, culturalmente, não alimentar este tipo de rejeição. Por isso, com os meus livros, ainda que não queira fazer pedagogia ou política, nem ser dogmática, gosto de recordar que nós, noutras circunstâncias, também fomos “eles”. É verdade que as condições eram outras, que o mundo funcionava de maneira diferente, mas acho que devemos cultivar essa sensibilidade e ser mais conscientes.
Acreditas que o conceito de “voltar” tem hoje um significado diferente do que tinha há algumas décadas?
Creio que sim. Antigamente a separação era muito mais radical: partia-se e partia-se para sempre. Ou só se podia regressar ao fim de muitos anos. Não havia o contacto permanente que hoje temos: basta um telefone, uma câmara, e mantemos a ligação. Antes, quem partia podia passar anos sem notícias da família. Daí a nostalgia profunda do regresso. Hoje voltamos com muito mais facilidade. Compramos um bilhete de avião e regressamos. Mas isso implica também uma mudança emocional na forma como enfrentamos o desenraizamento. Saber que podemos voltar com facilidade torna o processo de partir relativamente mais simples.
Falemos agora da protagonista, Cecília. Nos teus romances, é frequente encontrarmos mulheres fortes e complexas. O que te inspira a dar-lhes voz?
O que me inspira é pensar que houve muitas mulheres assim, anónimas, que viveram o mesmo que Cecília. Um amigo — investigador académico, não romancista — dizia-me que esse mundo estava cheio de Cecílias. Porque a vida dos homens ficou muito mais documentada do que a das mulheres. Elas imigravam, trabalhavam, procuravam prosperar, sacrificavam-se. Muitas vezes sofriam abusos dentro e fora da família, enfrentavam exploração laboral e circunstâncias muito duras. E, ainda assim, suportavam tudo com coragem, sacrifício e dignidade. Não foram heroínas reconhecidas, não deixaram grandes feitos, ficaram esquecidas. Mas estiveram sempre presentes. O que procuro, ao criar personagens e narrativas de ficção, é resgatar um pouco essas mulheres do esquecimento.
A decisão de dar voz a personagens femininas reflete, de algum modo, a ideia de que a literatura tem sido, em grande parte, narrada através do olhar de homens?
Absolutamente. A literatura universal foi escrita, historicamente, por homens, e a perspetiva transmitida foi a deles. Contaram-nos quase sempre histórias de homens e, quando contaram histórias de mulheres, eram mulheres concebidas pela imaginação masculina, que nem sempre entrava verdadeiramente na nossa pele ou na nossa alma. Acredito que agora, estando tantas mulheres na linha da frente das narrativas contemporâneas, é positivo contarmos estas histórias. Temos uma dívida para com as mulheres que foram esquecidas pela História.
Mulheres que ficaram por contar, por escrever.
Exatamente.
Isso reflete-se em quem te lê. Contei a duas amigas que iria fazer esta entrevista e ambas disseram-me: “a minha mãe adora lê-la”.
Acho que tudo começou com O Tempo Entre Costuras. Muitas mulheres reconheceram-se ali — elas próprias, às suas mães, às suas avós — numa costureira. Era uma profissão, um ofício universal, e ninguém até então se tinha ocupado delas num romance contemporâneo. Isso entusiasmou-as. Sentiram que o seu mundo tinha sido resgatado e isso gerou uma ligação emocional fortíssima, que criou uma corrente muito fiel de leitoras. O que me agrada é que esse legado foi sendo transmitido: das mães às filhas, até às netas. Nas sessões de autógrafos é comum aparecerem três gerações: a avó, a mãe e a neta. Umas dizem “o livro é para as três”, outras “é para a minha mãe” ou “para a minha filha”. Gosto muito dessa ideia de uma literatura transgeracional, que passa de uns para outros e pode ser partilhada.
Um clube de leitura em família.
Exatamente. Muitas vezes chegam com livros muito usados, lidos por sete pessoas da mesma família.
Se Um Dia Voltarmos homenageia os que partiram em busca de uma vida melhor?
Sim, sem dúvida. Um pequeno tributo, um reconhecimento. Este romance conta a história de uma espanhola em Orã, na Argélia, tal como As Filhas do Capitão conta a de três jovens espanholas em Nova Iorque. No fundo, todos os meus livros acabam por ser uma homenagem a quem teve de partir para começar de novo, viver com a incerteza, e reunir coragem e força para reconstruir o seu mundo. Às vezes conseguem, outras vezes não, mas são sempre pessoas que merecem reconhecimento.
O título é muito evocativo. Que significado quiseste dar-lhe?
Está ligado a uma frase que a protagonista diz no final do romance. Quando deixam a Argélia, depois da guerra, partem de forma precipitada: abandonam casas, negócios, vidas inteiras, sem saber se um dia vão regressar. A triste realidade é que quase nunca voltavam.
Podemos comparar com os portugueses em África, entre 1974 e 1976, com a independência de Angola e Moçambique. Famílias inteiras deixaram tudo e vieram apenas com uma mala, pouco mais.
Na Argélia passou-se o mesmo: diziam “uma mala por pessoa, nada mais, mete um pouco de roupa e vai-te embora”. Era o que acontecia a tanta gente. Tinham passaporte de outro país, mas o seu mundo estava ali.
Se tivesses de regressar a um lugar do passado, a qual seria?
Seria complicado, porque, embora o presente não seja cem por cento feliz, custar-me-ia regressar ao passado. Mas talvez regressasse a alguns dos cenários dos meus romances. A Orã, de O Tempo Entre Costuras; a Tânger, de Sira; a Jerez de La Frontera e a Havana, de As vinhas de La Templanza; e a Nova Iorque, de As Filhas do Capitão.
Depois do êxito internacional de O Tempo Entre Costuras, é fácil lidar com as expectativas em cada novo livro?
Nunca me senti pressionada, de forma alguma. Tenho uma equipa editorial em Espanha excelente, com quem mantenho grande amizade, e o mesmo acontece com todas as traduções. Não sinto pressão para publicar depressa, nem para publicar este ou aquele tema. Escrevo o que quero, quando quero, trabalho com a minha melhor vontade e procuro sempre fazê-lo da melhor forma possível.
E lidas bem com o rótulo de bestseller?
No seu real sentido, o de vender muitos livros, sim. O problema é que, às vezes, vem carregado de um certo matiz: como se dissesse, “vende muito, mas a qualidade literária é duvidosa”. Isso já me incomoda mais, sobretudo porque quem o afirma, na maior parte das vezes, nunca leu os meus livros. Irrita-me um pouco esse preconceito, esse encaixarem-nos numa etiqueta sem saber o que está dentro.
Voltando a Se Um Dia Voltarmos, que mensagem esperas que os leitores guardem ao terminar a leitura?
Gostava que sentissem, e é algo que muitos leitores me dizem, que lhes abri uma porta para um momento histórico, para determinadas circunstâncias e para uma geografia que desconheciam. Se me dizem que descobriram um pequeno mundo, um episódio da História que lhes permitiu aprender e, ao mesmo tempo, sentir cumplicidade com a protagonista e com as personagens, para mim é muito gratificante.
No final do livro, na “Nota da Autora”, deixas vários trabalhos académicos e títulos que foram fundamentais para a escrita deste livro, alguns de autores descendentes da imigração espanhola. Quais nos podes destacar?
Destaco O Primeiro Homem, de Albert Camus. Camus era franco-argelino, nascido em Argel, não em Orã. A família da mãe, com quem viveu, era de origem espanhola, de Menorca, nas Baleares. No livro, conta como foi a sua infância e juventude numa sociedade de trabalhadores muito humildes, de classe baixa. Graças à escola francesa e ao incentivo de um professor, conseguiu prosperar, embora contra a vontade da avó, que comandava a casa e defendia que o seu destino não era estudar, mas trabalhar, trabalhar, trabalhar. Ele, porém, queria aprender, queria educar-se, queria ir mais além — e acabou por se tornar prémio Nobel da Literatura. É um livro belíssimo, muito comovente, que retrata um mundo semelhante ao que procuro mostrar.
Há projetos em curso que possas partilhar com os leitores portugueses?
Não posso, porque ainda não sei. Neste momento estou dedicada à promoção do livro e às primeiras traduções. Além disso, estou muito envolvida na adaptação de Sira para série de televisão. Por isso, ainda não tive oportunidade de pensar no próximo romance. Estou a dar-me tempo até janeiro.
E o que estás a ler?
Estou a ler um livro de contos de Lídia Jorge. Já a conhecia, mas nunca tinha lido. Em Espanha cruzei-me com um crítico e escritor, grande apaixonado pela sua obra, que me recomendou muito. Aprovei que vinha a Portugal e comecei, finalmente, a lê-la.
Por Rita Sousa Vieira