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Leïla Slimani
ENTREVISTA: Leïla SlimaniENTREVISTA: Leïla Slimani

“Escrevo para, através da ficção, combater narrativas perigosas”


Levarei o Fogo Comigo encerra a trilogia que se inspira numa família de ascendência franco-marroquina. Um livro sobre o futuro e “o mais íntimo e pessoal” de Leïla Slimani. A autora, que vive há vários anos em Lisboa, constrói a sua identidade a partir das raízes em Marrocos, revelando a beleza e a complexidade de amar um país com todas as suas contradições.

 

Neste último livro da trilogia que começou com O País dos Outros, a história foca-se mais no exílio e na perda, ou na reconciliação e no regresso a casa?

 

Acho que em ambas. É, claro, uma história de exílio, de emigração, de ter de deixar o país de origem para procurar um novo lugar. Mas também é sobre o voltar, o desejo de regressar. E quando voltamos, será que regressamos ao mesmo país que deixámos? E seremos a mesma pessoa que partiu? Essas questões estão ligadas. Por isso, é uma narrativa melancólica, mas também cheia de esperança, na possibilidade de regressar e de construir uma nova vida. Curiosamente, quando comecei a escrever o livro não tinha isso em mente. Mas, agora que o terminei, percebo que me ajudou a compreender quem sou e porque sou assim. Ajudou-me a perceber o percurso da minha família e a complexidade da minha identidade e da minha posição no mundo.

 

Levarei o Fogo Comigo é o teu livro mais pessoal?

 

De certa forma, sim, e ajudou-me a fazer as pazes comigo mesma. E o curioso é que, através da imaginação, às vezes descobrimos verdades. Inventei uma personagem e descrevi-a no livro. Quando a minha mãe leu, perguntou-me: “Como é que sabias isto sobre este homem?” Respondi que o tinha inventado. E ela disse-me: “Não, ele existiu.” Eu não fazia ideia, nunca me tinha falado dele. É estranha esta mistura entre ficção e realidade. Acho que este é o livro mais íntimo e pessoal que escrevi. Provavelmente porque, quando o comecei, estava num estado de espírito muito particular, melancólico e frágil, mas também porque, com a idade e a minha trajetória, senti que podia expor mais vulnerabilidade e fragilidade neste livro.

 

Quando era jovem, sofria, não sabia quem era, nem como os outros me viam. Queria ser alguém, queria pertencer, e lutava constantemente para me definir. Nessa altura sentia-me revoltada: contra o meu país, contra os meus pais, contra toda esta confusão. Agora, com a idade, consigo ver que essa identidade complexa também foi uma sorte: deu-me a possibilidade de olhar o mundo de diferentes perspetivas, de ser curiosa, de me adaptar a qualquer situação. Sou uma privilegiada por viver como uma ponte entre duas civilizações, dois continentes: África e Europa. E hoje, mais do que nunca, precisamos dessas pontes entre culturas e as pessoas.

 

Precisamos de um túnel, como o que o teu pai sonhava construir sob o Estreito de Gibraltar, unindo os dois continentes? A tua escrita cria essa ligação, mas através das palavras?

 

Espero que sim. Quando falo com os meus leitores, seja em Portugal ou em Marrocos, sinto precisamente isso. Quando desligamos a televisão, a rádio e todo o ruído que nos rodeia, percebemos que a realidade das pessoas é muito mais bela do que aquilo que nos é mostrado. As pessoas querem conhecer-se, querem respeitar-se. E noto uma enorme curiosidade, sobretudo aqui em Portugal. Muitos leitores dizem-me: “Aprendi tantas coisas sobre Marrocos. Sempre tive vontade de ir, e é tão perto. É estranho nunca ter ido, mas agora, depois de ler o seu livro, fiquei com ainda mais vontade”. Por isso, sim, espero que o livro desperte essa curiosidade e esse desejo de conhecer melhor esta cultura, de a compreender para além dos clichés e preconceitos que tantas vezes existem sobre os povos árabes e muçulmanos.

 

Quando dizes que te sentes estrangeira no teu próprio país, que momentos ou vivências melhor traduzem esse sentimento?

 

Acho que tem muito a ver com a língua. Lembro-me da primeira vez que fui a uma repartição pública para preencher uns papéis para o julgamento do meu pai e não conseguia escrever em árabe. Senti-me estúpida, senti vergonha. E vi o funcionário à minha frente a rir-se de mim, como quem pensa: “Ela não é verdadeiramente marroquina. Quem é esta mulher?”. Esse foi, provavelmente, um dos piores momentos. Senti, de forma muito clara, que não tinha lugar, que não tinha raízes e que não pertencia ao meu próprio país.

 

Hoje, onde te sentes em casa?

 

Hoje sinto-me em casa em Lisboa. Muito mesmo. Mas já não tem tanto a ver com lugares; tem mais a ver com pessoas. Por exemplo, quando vou a Oslo — adoro a minha editora, tenho lá muitos amigos de quem gosto muito — também me sinto em casa. Não é a minha terra, não falo norueguês e não tenho nada de norueguesa, mas sinto-me segura e rodeada de pessoas que gosto e que gostam de mim. No fundo, é isso: os lugares onde estão as pessoas que amo são os lugares onde me sinto em casa.

 

Numa entrevista à Anabela Mota Ribeiro disseste que não queres passar a vida a pedir desculpa pela tua história. O que representa assumir a tua própria narrativa sem pedir desculpa, e de que forma isso te moldou?

 

Sempre senti que tinha de pedir desculpa. Pedir desculpa aos marroquinos por não ser suficientemente marroquina, por não ser suficientemente tradicional, por não ser a rapariga sensata, meiga e delicada que esperavam. Senti que tinha de pedir desculpa aos homens. Senti que tinha de pedir desculpa a França por não ser a árabe que queriam que eu fosse — a vítima, a imagem estereotipada. Durante muito tempo vivi assim. Depois comecei a pensar: não quero mais pedir desculpa. Se não me aceitam, eu também não os aceito. Se não gostam de mim, talvez eu também não goste deles. E o curioso é que, a partir do momento em que pensamos assim, as pessoas começam a aceitar-nos. É estranho, mas é verdade. Quando nos sentimos confiantes, os outros olham-nos de forma diferente e já não esperam que peçamos desculpa. É triste dizê-lo, mas muitas vezes, quando somos demasiado simpáticos, demasiado leais, quando andamos sempre a pedir desculpa, as pessoas acabam por não nos respeitar.

 

A frase de Jean Cocteau — “Se a sua casa ardesse, o que levaria consigo? Levaria o fogo” — deu origem ao título deste livro, Levarei o Fogo Comigo. Que significado quiseste dar ao transformar o condicional em futuro?

 

Adoro o futuro, porque para mim funciona como um manifesto. A ideia inicial era escrever uma trilogia sobre o passado, mas o essencial não é o passado em si. O que realmente importa é perceber como o passado nos pode ajudar a viver e a imaginar o futuro. Não gosto da ideia de ficar presa à nostalgia ou encarcerada no passado. E hoje vemos isso com frequência: a utilização política do passado, a ideia de que antes é que era bom, de que devemos voltar atrás, “tornar a América grande outra vez”, “a França grande outra vez”, ou até “Portugal grande outra vez”. Não gosto dessa visão. O passado é importante, claro que sim. É essencial sabermos de onde vimos, mas precisamente porque precisamos de construir o futuro. E é por isso que me fascina esta ideia de manifesto: Levarei o Fogo Comigo. Eu sigo em frente, tenho coisas para fazer, quero transmitir, e o futuro está aqui. É uma forma de dizer: não pensem que este livro é apenas sobre o passado. Este livro é, sobretudo, sobre o futuro.

 

O mundo que retratas em Levarei o Fogo Comigo já não existe, mas continua a ressoar no presente.

 

Sim, e isso deixou-me muito melancólica enquanto escrevia. Estava a falar dos anos 90 e parecia-me um tempo ainda mais distante do que os anos 50 ou o período da colonização. Pensava: “Meu Deus, é a minha infância, mas sinto que esse mundo desapareceu por completo”. Os valores com que cresci, a forma como olhávamos para o mundo… Tudo isso se perdeu. Mas é assim a vida.

 

Dedicas este livro às tuas irmãs e aos chamados “fora-da-lei” — hors-la-loi, em francês. Queres explicar o seu significado?

 

Criei em Marrocos uma associação chamada Moroccan Outlaws [em 2019, em conjunto com a realizadora Sonia Terrab]. No país, é proibido ter relações sexuais fora do casamento, a homossexualidade é proibida, o aborto também. Mas, claro, existem homossexuais, existem muitos abortos, e há homens e mulheres que têm relações fora do casamento. De certa forma, o Estado empurra-nos para essa condição, coloca-nos na situação de sermos “fora da lei”. Todos nós somos, de algum modo, ilegais, e vivemos constantemente sob a ameaça de poder ser presos. Por isso quis dedicar o livro a todas essas pessoas que, como eu, são “fora-da-lei” simplesmente porque não têm outra escolha.

 

Nesta trilogia, as personagens femininas mostram-se mais fortes e resilientes em oposição às masculinas, que parecem mais vulneráveis e condicionadas pelo seu estatuto. O que te levou a criar este contraste?

 

Acho que tem muito a ver com os homens que me rodeavam quando era criança, com os modelos que tive em pequena. O meu pai e o meu avô eram muito românticos, muito idealistas e, de facto, bastante mais frágeis do que as mulheres. Sempre vi as mulheres como pessoas muito poderosas, profundamente ligadas à vida. Estavam constantemente ocupadas com alguma coisa, mesmo que não fosse considerada “importante”: ir ao mercado, cozer pão, cozinhar, tratar da casa, dos filhos, ajudar nos trabalhos de escola.

 

O meu pai, por exemplo, trabalhava, mas quando chegava a casa não tinha nada para fazer. Passava o tempo a sonhar, a inventar uma vida diferente, a imaginar outro futuro, a pensar que talvez a sua vida não fosse suficiente e que gostaria de ser outra coisa — um escritor, um poeta. A minha mãe não tinha tempo para isso. Estava ocupada 24 horas por dia, cheia de tarefas e responsabilidades. Por isso, creio que este contraste nasceu simplesmente da observação das pessoas que me rodearam.

 

Por falar no teu pai, este livro vinga-o?

 

De certa forma, sim. Hoje já não sinto essa necessidade; não procuro vingança, não quero revanche. Isso ficou para trás, passaram 20 ou 25 anos. O que preciso agora é de empatia, de amor e de perdão em relação ao meu pai. A vingança prende-nos ao passado e quem vive obcecado com ela não consegue olhar em frente nem aceitar o que aconteceu. Eu não quero ser essa pessoa e, por isso, já não se trata de vingança.

 

Mas chegou a ser, no início?

 

Sim, bastante.

 

No livro, a escrita passa de geração em geração, mas nunca da mesma forma.

 

É algo em que não tinha refletido antes de escrever o livro, mas percebi depois que, na minha família, houve várias pessoas que quiseram escrever. A minha avó, por exemplo, tinha uma enorme vontade de o fazer, mas desprezava a vaidade e o ego de quem se afirmava escritor. Costumava dizer: “Não, escrevo apenas para mim, para os meus amigos. Quero apenas contar boas histórias, não me interessa o estilo”. Talvez porque nunca teve oportunidade de frequentar a universidade e tinha pouca instrução, cultivava uma espécie de complexo. Para ela, a literatura parecia demasiado distante e nunca acreditou verdadeiramente ter o talento necessário para ser escritora. Com o meu pai aconteceu o contrário. Queria ser escritor, mas queria ser o maior escritor do mundo. E, claro, cada vez que começava um livro, nunca lhe parecia suficientemente bom. Apagava, rasgava, queimava, recomeçava… Até que acabava por desistir, dizendo: “Se não for o maior, então não quero ser”. Da minha avó ficaram alguns textos; do meu pai, quase nada. Apenas umas notas soltas que, para ser sincera, são muito fracas. Não consigo perceber o que ele queria dizer; é tudo muito confuso, muito estranho. Nem sei se ele próprio compreendia o que tentava escrever. Acho que estava profundamente perdido.

 

De que forma as frustrações e os sonhos não realizados que herdamos moldam quem nos tornamos?

 

Acho que nos moldam imenso. Tendemos a acreditar que herdamos apenas de forma direta — valores, histórias, memórias contadas —, mas, quanto mais envelhecemos, mais percebemos que também herdamos segredos, silêncios, feridas antigas, violências muito antigas de que, muitas vezes, nem os nossos próprios pais têm plena consciência. A transmissão e a herança são algo muito misterioso; não se reduzem apenas ao que é consciente, fazem-se também de não-ditos. E eu percebi isso. Percebi que, na minha família, havia muitos silêncios e muitas coisas que nunca foram ditas. Quando tentava questionar a minha mãe, havia momentos em que ela me interrompia, e também quando, através da ficção e da imaginação, ia construindo personagens, chegava a um ponto em que pensava: “Isto não faz sentido, deve haver aqui um segredo, qualquer coisa que desconheço”. E é precisamente aí que a escrita se torna mágica.

 

Já respondeste em parte, mas quero voltar aqui. Escrever esta trilogia foi também uma forma de regressar a Marrocos pela memória e pela imaginação?

 

Para ser sincera, sinto que nunca realmente saí de Marrocos. Este país está sempre comigo. Às vezes fez-me sofrer muito, e há alturas em que me sinto zangada com ele. Mas, ao mesmo tempo, é como um homem por quem me apaixonei loucamente, mesmo sabendo que por vezes é estúpido ou violento. Não consigo evitar apaixonar-me, mesmo sentindo que ele não me ama tanto quanto eu o amo. É uma relação complexa, quase tóxica, mas amo Marrocos cada vez mais.

 

Escrever esta trilogia ajudou-me a compreender melhor esse afeto, esse amor pelo país e pelas pessoas. As pessoas são tudo: o sentido de humor, a ternura, a solidariedade. Encontrei muitas semelhanças entre os marroquinos e os portugueses: a importância da família, a ternura, o desejo de viver em paz, o amor pelas crianças, o respeito pelos mais velhos. Pode parecer simples ou trivial, mas para mim é tudo. E depois há as flores, as árvores, o céu... Também temos jacarandás... É um país muito bonito, e escrever a trilogia ajudou-me a perceber essa riqueza.

 

Num mundo em que muitas narrativas sobre o “sul” são escritas de fora para dentro, como é que a tua escrita rejeita esse olhar colonial sem cair na autojustificação?

 

É muito difícil, mas é o nosso trabalho. Acho que tem a ver com o que dizia antes sobre Marrocos: é reconquistar uma boa relação com quem somos, com a nossa história e com a nossa memória. Não nos vermos apenas como vítimas, mas sermos ternos connosco, com os outros e com o nosso país. Acredito muito na ternura e na empatia. Não escrevo para justificar, nem para acusar. Não estou aqui para dizer quem são os meus inimigos ou quem está certo ou errado. Escrevo para, através da ficção, combater outras narrativas perigosas, como aquela da extrema-direita que nos diz que a colonização foi maravilhosa, que tudo correu bem e que as pessoas estavam felizes com os franceses ou com os portugueses nos seus países. Através da ficção, da descrição de seres humanos e da construção de personagens, é possível lutar contra essas narrativas.

 

Que histórias sobre o mundo árabe e africano é que a tua geração ainda não conseguiu partilhar com as mais novas?

 

Acho que isso está a mudar. Quando estive na Noruega, participei numa mesa-redonda com outros autores do mundo árabe, mais jovens do que eu. Foi muito interessante ver como eles têm orgulho de si mesmos, sem tentar justificar nada, sem sentir complexos em relação ao Ocidente, sem se sentirem inferiores ou precisarem de justificar quem são ou de onde vêm. Querem construir uma nova narrativa, não só para o público ocidental, mas sobretudo para o seu próprio público.

 

Nos últimos 20 anos, no mundo árabe, foi muito difícil viver com o conservadorismo, o islamismo, a violência e os ataques. Mas agora os jovens querem mostrar ao mundo e ao seu próprio povo que não são apenas aquilo que se diz deles. São pessoas que amam, que têm sonhos, desejo de criar, de ser livres, de viajar, de aproveitar a vida. Admiro muito isso, porque quando eu tinha a idade deles sentia muitos complexos e não me sentia bem com quem era. Hoje, com a Internet, as redes sociais e a diversidade de livros, filmes e séries, eles têm uma visão muito diferente de si mesmos, e admiro-os imenso por isso.

 

Já tinhas planeado o final da trilogia ou a personagem da Mia acabou por te surpreender durante a escrita?

 

Não, Mia surpreendeu-me. No início, eu não sabia se iria ter uma narradora a contar a história. Mas senti necessidade de responder à pergunta que os leitores portugueses faziam constantemente: “Quem está a contar a história?”. Um dia percebi que essa questão era importante e que o leitor tinha razão em perguntar. Precisava de responder e de definir quem conta a história.

 

A história termina com este livro, ou poderá ser contada pelas próximas gerações da família Belhaj?

 

Talvez não agora, mas quem sabe daqui a dez anos? Porque não?

 

Levarei o Fogo Comigo foi escrito entre Cascais, Lisboa e os Açores. Que influências ou marcas desses lugares podemos encontrar no livro?

 

Sem dúvida, a melancolia dos Açores. Foi lá que escrevi o prólogo e o final. Mas também há Portugal, com a sua luz. Há muita luz neste livro, mesmo que seja melancólico e triste, há sempre essa luz e esse desejo de viver. Acho que se sente isso ao ler o livro, e espero que seja assim para os leitores.

 

O que é que estás a ler?

 

Neste momento estou a ler um livro sobre alcoolismo, de Leslie Jamison. Em francês, chama-se Récits de la Soif (The Recovering: Intoxication and Its Aftermath). É muito interessante porque aborda a dependência e as diferentes formas como a sociedade olha para o alcoolismo, dependendo de se se trata de um homem ou de uma mulher, de uma pessoa branca ou negra. Por exemplo, quando se trata de uma mulher negra, muitas vezes pensa-se que é criminosa, prostituta ou histérica. Já se for um homem, como Hemingway ou Fitzgerald, pensa-se que é um génio, alguém que sofre tanto que precisa de beber porque não consegue lidar com a sua genialidade. É muito interessante.

 

Rita Sousa Vieira

 

ENTREVISTA: Leïla Slimani
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