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Qual foi o ponto de partida de Os Nossos Eternos Destinos? Há uma história com a Taylor Swift...
A ideia para Os Nossos Eternos Destinos surgiu em 2017. Nessa altura, andava a pensar no que escrever a seguir, e ocorreu-me a história de uma rapariga que se lembrava da sua vida passada — e que, nessa vida, tinha sido assassinada e queria resolver o próprio homicídio. Explorei várias versões desta premissa. Tentei escrever a história como um mistério policial, depois como algo mais virado para a ficção científica, mas nenhuma dessas abordagens parecia resultar. Acabei por pôr a ideia de lado durante bastante tempo, cerca de três anos. Em 2020, a Taylor Swift lançou a música Exile, e houve uma frase que me ficou na cabeça: “I think I've seen this film before and I didn't like the ending”. Pensei: e se ela já tivesse mesmo visto este ‘filme’ centenas de vezes? E se quisesse, desesperadamente, mudar o final?
Foi aí que tudo começou a encaixar. E se tivesse sido morta em todas as vidas passadas pela mesma pessoa? E se estivesse apaixonada por essa pessoa? A canção transmite uma ideia de esperança e desespero, de amor e perda. A partir desse momento, percebi que tinha encontrado o coração da história. Ainda assim, demorei mais dois anos a começar a escrever. Percebi que, se queria incluir várias vidas passadas, teria de fazer uma boa dose de pesquisa sobre os diferentes períodos históricos em que a narrativa iria decorrer. No total, passaram-se cinco anos desde a ideia inicial até ao momento em que finalmente comecei a escrever o romance.
O livro foi escrito durante a pandemia. A escrita ajudou-te a lidar com os medos e incertezas desse período?
Fui mãe no início da pandemia. O meu bebé nasceu apenas três semanas antes do confinamento. Três semanas de vida ‘normal’, depois o mundo virou do avesso. O meu marido, militar de profissão, teve de se isolar durante meses. Fiquei sozinha em casa com um recém-nascido e, confesso, senti-me à beira do desespero. A ansiedade pós-parto tomou conta de mim. O medo constante de que algo de mau pudesse acontecer ao meu filho tornou-se uma obsessão. Um medo que me consumia, amplificado pelo isolamento. Sempre fui uma pessoa marcada por inquietações e pelo pavor de perder quem amo. A morte sempre foi um medo real, quase palpável. Escrever este livro foi terapêutico. Através da história da Evelyn e do Arden, que ao longo de mil anos perdem todos aqueles que amaram — exceto um ao outro — encontrei uma forma de explorar a resiliência e a capacidade de seguir em frente. Se consegui criar personagens que, apesar das perdas, mantêm o coração aberto e continuam a amar, talvez, tenha conseguido ensinar a mim mesma a fazer o mesmo.
Chegaste a duvidar de que fosses capaz de terminar o livro?
Sempre soube que o iria terminar. Afinal, foi o 15.º livro que escrevi. O que realmente me deixou com dúvidas foi se haveria público para este livro. Porque acho que não é uma história que se encaixe facilmente numa categoria. O mercado editorial gosta muito de saber exatamente onde ‘engavetar’ um livro. Gosta de dizer: isto é um thriller, isto é fantasia, isto é romance, isto é ficção científica. E este livro não se encaixa em nenhum desses géneros. Sim, é uma história de amor, mas tem elementos de fantasia. E sim, tem elementos de fantasia, mas está escrita como um thriller. Há muitas camadas diferentes. E depois, no que toca ao estilo, apesar de o conceito ser comercial, acho que a forma como escrevo é bastante literária. A narrativa avança com tempo, sem pressas. Não é do género “reviravolta atrás de reviravolta”. Às vezes é até algo divagante.
Já referiste, noutras entrevistas, que as tuas protagonistas têm muito de ti. Isso ajuda ou dificulta o processo de escrita?
Este livro não me tornou a tarefa nada fácil. Como disse, era já o 15.º que escrevia, por isso sentia-me bastante confiante quanto à forma de construir uma personagem. Costumo escolher um traço meu e amplificá-lo. Por exemplo, no The Society for Soulless Girls, a protagonista é muito impulsiva, irrita-se com facilidade. Neste livro, tive de ir mais fundo para responder à questão: quem somos quando tudo à nossa volta muda? Porque crescer numa zona pobre do Rio de Janeiro não é o mesmo que crescer no Império Austro-Húngaro. E o que encontrei, no caso da Evelyn, foi uma espécie de esperança e otimismo. Acredito que todos conhecemos pessoas assim, que parecem atravessar o mundo como se nada pudesse correr mal, como se tudo fosse acabar por se alinhar a seu favor. Foi fascinante criar uma personagem com essa luz interior, especialmente quando, depois de mil anos a ser morta, qualquer outra pessoa já estaria emocionalmente esgotada. E a verdade é que, mesmo ansiosa, sou uma pessoa bastante otimista. Foi esse meu lado que escolhi amplificar para dar vida à Evelyn.
Quando sentiste, pela primeira vez, que a escrita era a tua paixão?
Desde sempre que os livros fizeram parte da minha vida. Quando era pequena, passava horas na biblioteca e chegava a ler vinte livros por semana. Não é exagero: lia o tempo todo, quase não dormia. E escrevia também. Na adolescência, comecei a perceber que os miúdos ‘fixes’ não se interessavam por livros nem pela escrita. E, quando estudei Literatura Inglesa, o encanto começou a desvanecer-se. Os livros deixaram de ser apenas prazer e tornaram-se trabalho. Na altura de escolher um curso, Jornalismo pareceu-me uma forma de continuar a escrever. Trabalhei durante alguns meses numa revista de lifestyle, mas comecei a questionar se era mesmo aquilo que queria. Na cerimónia de final de curso, convidaram uma escritora para discursar. Vinha de uma zona pobre de Glasgow, de uma família da classe trabalhadora, tal como eu. E disse algo que nunca mais me esqueci: “Qualquer pessoa pode escrever um livro. Basta ter um portátil e imaginação”. Dois dias depois, com essa frase na cabeça, comecei a escrever o meu primeiro livro.
Como é que o crescimento do BookTok e o crescente poder dos leitores tem desafiado o mercado editorial a valorizar obras que, anteriormente, eram rejeitadas por não seguirem padrões tradicionais?
Estou muito grata ao BookTok. Acho que surgiu no momento certo e deu uma nova vida à indústria editorial. Para mim, representa sobretudo um enorme fluxo de feedback direto dos leitores sobre aquilo de que realmente gostam. Porque, por vezes, enquanto autores, estamos um pouco desligados disso — pelo menos, era assim no passado. A não ser através do Goodreads, de outras plataformas semelhantes ou dos números de vendas, claro.
Durante anos, os autores ouviram sempre o mesmo: não podem esperar influenciar as vendas, isso é trabalho da editora. Tu escreves o livro, eles tratam de o vender. Mas isso mudou. Quando passei por uma fase complicada, comecei a publicar vídeos no TikTok, sem grandes expectativas, mas com vontade de partilhar o que escrevia. Para minha surpresa, os vídeos começaram a ter muita visibilidade. Os dois livros que escrevi antes de Os Nossos Eternos Destinos foram os primeiros a ganhar força na plataforma. Acredito que foi isso que levou a editora a apostar neste livro. Pensaram: “Pode não encaixar num género, mas ela sabe falar com o público e percebe o que os leitores querem.” E tinham razão. Sem essa presença no TikTok, não acredito que Os Nossos Eternos Destinos tivesse chegado ao primeiro lugar da lista de bestsellers do New York Times.
Como foi chegar a essa lista?
Estava em Paris numa tournée de promoção do livro e tinha uma apresentação marcada para essa mesma noite. Mais cedo, nesse dia, a minha editora americana enviou-me os números de vendas. Achámos que a primeira semana tinha corrido muito bem, mas ela tentou gerir as minhas expectativas.
Sabíamos que a lista seria divulgada entre as 21h e as 23h, hora local, e fui para a festa de lançamento. Esta decorreu num speakeasy minúsculo, numa rua discreta, sem rede móvel, o que me deixou com a sensação de que não conseguiria saber nada. O meu agente estava comigo e, por volta das 21h30, nenhum de nós tinha sinal nos telemóveis. Pensámos que, mesmo que já tivesse saído, não havia forma de o confirmar. Acabámos por sair do bar e fomos para um restaurante próximo, onde a rede também era fraca. A minha editora tinha-me avisado que, se a notícia fosse má, enviava uma mensagem, mas se fosse boa, ligava. Passava das 22h30 quando finalmente recebi uma mensagem. A minha primeira reação foi pensar que não tinha entrado, mas ao abrir, lia apenas: “Atende o telefone.”. Pouco depois, o telemóvel tocou. Quando a minha editora disse que o meu livro estava em primeiro lugar na lista do New York Times, desatei a chorar.
Tentei ligar aos meus pais, ao meu marido, mas sempre com pouca rede. Andava pelas ruas de Paris com a maquilhagem esborratada a tentar falar com eles. Foi um dos momentos mais especiais da minha vida. Este reconhecimento teve para mim um significado muito maior do que teria tido se tivesse ocorrido no início da minha carreira, altura em que provavelmente o teria encarado como algo normal.
Que conselho darias aos escritores que estão com dúvidas?
É muito fácil perder a motivação com as redes sociais, porque as pessoas só mostram as vitórias. Vês aquela autora que, aos 21 anos e no livro de estreia, recebeu 10 milhões de dólares e entrou logo para a lista de bestsellers, e pensas: “Devo estar a fazer tudo mal”. Não. O meu conselho é este: mesmo que o reconhecimento não chegue no primeiro, ou no quarto, sétimo ou nono livro, isso não quer dizer que nunca vá chegar. Há que continuar a trabalhar, e talvez o próximo livro seja o tal.
De que forma as romantasies influenciam a visão que os jovens têm do amor e das relações?
Acho que pode ser problemático. Às vezes, quando vejo certas coisas a serem romantizadas nestas histórias, preocupo-me. Preocupa-me que, se um jovem entrar numa relação abusiva, por exemplo, possa não reconhecer os sinais, porque leu tantos romances sombrios que acaba por pensar: "Ah, isto é normal, isto faz parte”. E esta foi, aliás, uma das razões pelas quais adiei escrever esta história durante tanto tempo. Pensei: "tenho de fazê-lo de forma a não romantizar a ideia de seres morto pelo amor da tua vida." Queria mostrar isso como algo terrível, realmente trágico, algo que as personagens estão desesperadamente a tentar evitar.
Na verdade, acabei de vender uma nova série — provavelmente não devia estar a dizer isto, mas pronto — e quero muito desconstruir esse tipo de relação. Normalmente, temos uma protagonista adolescente que se apaixona por alguém muito mais velho ou até imortal, alguém que já viveu milhares de anos. E ela nem sempre sabe lidar com essas dinâmicas de poder, nem percebe o que é aceitável ou saudável. Espero sinceramente que, nos próximos anos, os autores comecem a desmontar estas narrativas e digam: “Isto não está certo, não é assim que deve ser”. Porque sim, isso preocupa-me.
Como vês a evolução da representação LGBTQIA+ na literatura Young Adult? Que papel queres que os teus livros desempenhem?
Acho que a minha vida teria sido muito diferente se, na adolescência, tivesse tido acesso à Internet e ao tipo de literatura queer que os jovens têm hoje. É algo extraordinário. Teria percebido muitas coisas sobre mim muito mais cedo.
No caso de Os Nossos Eternos Destinos, por exemplo, a Evelyn e o Arden reencarnam com géneros diferentes em cada vida. Isso significa que, por vezes, a história de amor é entre duas raparigas, outras vezes entre dois rapazes. Isso obrigou-me a refletir profundamente sobre temas como o que é, afinal, amar uma pessoa independentemente do género, e a repensar a minha própria visão sobre género e sexualidade. Como escritora, é maravilhoso ter hoje a oportunidade de explorar estas questões. Há 20 anos, as editoras não saberiam o que fazer com este tipo de história.
Felizmente, agora há uma abundância de literatura queer incrível. Sinto-me muito grata por isso — e espero que continue a crescer. Preocupa-me, no entanto, a possibilidade de haver algum retrocesso. Já aconteceu com a diversidade racial, por exemplo. Houve uma altura — entre 2019 e 2020 — em que surgiram várias iniciativas no sector editorial para promover esse tipo de representatividade. Mas, mais recentemente, os dados mostram que isso começou a desaparecer. No Reino Unido e nos EUA, por exemplo, apenas cerca de 3% dos livros infantis têm protagonistas racializados, enquanto cerca de 20% têm... animais. Não é propriamente animador.
Queres deixar uma mensagem para os leitores portugueses?
Obrigada por serem tão apaixonados. Estou a ter uma experiência incrível em Lisboa — é a minha primeira vez na cidade. Já tinha estado em Portugal em criança, com uns nove ou dez anos, de férias, mas isso não conta. E, claro, adoro pastéis de nata — já comi imensos. Lisboa é uma cidade maravilhosa, e Portugal um país incrível. Nota-se mesmo que o mundo dos livros, aqui, é vibrante e cheio de vida. Acho fantástico que a Feira do Livro dure tanto tempo, que seja ao ar livre e que seja de entrada livre. É absolutamente extraordinário.
A minha mensagem para os leitores portugueses é esta: continuem a comprar livros traduzidos para português. É um mercado em crescimento e é algo que me diz muito. Não quero que os leitores fiquem apenas pelas edições em inglês, é importante apoiar a tradução. Por isso, sempre que puderem, escolham a edição traduzida. Apoiem a literatura na vossa língua.
Uma mensagem bastante importante.
É difícil. E tenho muitas conversas sobre isto com a minha equipa editorial. No meu novo livro, Silvercloak, escrevi um capítulo bónus que só está disponível nas edições traduzidas. Em alguns mercados em particular — como a Alemanha, os Países Baixos e a Escandinávia —, há uma percentagem tão elevada de pessoas que lê em inglês que acaba por lhes sair mais barato comprar a edição original. Por isso, quisemos criar um incentivo: se quiserem ler esse capítulo extra, têm mesmo de comprar a edição em alemão, por exemplo. Estou constantemente à procura de formas de incentivar os leitores a apoiar as traduções.
O que estás a ler?
O melhor livro que já li. Já o terminei e estou a reler — é mesmo assim tão bom. Acordei com os olhos inchados de tanto chorar. Tentei explicar ao meu marido porque é que me tinha tocado tanto, e nem consegui. Mas foi absolutamente incrível. Chama-se The Everlasting, da Alix E. Harrow. Infelizmente, ainda não está traduzido cá, mas espero mesmo que venha a ser editado em Portugal. Tem temas muito semelhantes aos de Os Nossos Eternos Destinos, por isso recomendo-o aos meus leitores.