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Bem-vindo, Janeiro, recém-regressado dos Estados Unidos. Conta-nos o motivo.
Obrigado por me receberem. Estive em Las Vegas por causa da nomeação para o Grammy Latino, na categoria de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa. Foi uma experiência surreal.
Como é que é partilhar essa categoria com nomes como Seu Jorge ou Tribalistas? Que já foram nomeados ou venceram...
Estar nomeado ao lado de quatro mulheres [Marina Sena, Carol Biazin, Julia Mestre e Liniker] numa categoria pop, que é onde eu me insiro... Eu digo sempre que sou pop, embora em Portugal muitas vezes seja rotulado como indie pop, porque a pop cá ainda é vista de forma diferente do Brasil ou do resto do mundo.
Poder ser catalogado dessa maneira é um prazer enorme e um motivo de orgulho pela minha arte, pela minha essência e por esta ideia que tenho de juntar o orgânico ao eletrónico, que é também o caminho que a pop mundial está a seguir. Mesmo não tendo ganho, regressar com a sensação de ter aberto essa porta, de poder estar ao lado desses artistas e produtores é um privilégio imenso e também uma responsabilidade enorme.
Como é que sentiste ao carregar um bocadinho de Portugal até este palco internacional da música?
Agradeço a pergunta, porque foi precisamente nesse ponto que mais me foquei durante o tempo em que estive lá. Nas entrevistas que dei e nas conversas que tive, falei muito da importância de as línguas latinas se projetarem no mundo e chegarem a públicos que ainda não as conhecem. Nos Estados Unidos, por exemplo, muita gente não conhecia Portugal.
Chegamos a falar com pessoas que não sabem sequer onde fica Portugal no mapa. Ora, se não existimos mentalmente, se não temos essa geolocalização na cabeça das pessoas, como é que podemos depois afirmar a nossa cultura — a arte, a música, a dança, o cinema?
Acredito que, quanto mais as nossas obras e as nossas mensagens circularem para fora, mais conseguimos abrir Portugal ao mundo. Há tantas pessoas portuguesas extraordinárias, a trabalhar em áreas muito diversas, que não faz sentido não termos esta abertura e esta ambição de projeção internacional.
É sempre positivo que seja a música a levar o nome, a bandeira e a cultura portuguesa além-fronteiras, sobretudo quando essa projeção acontece, na maioria das vezes, através do futebol.
É verdade. Normalmente é o futebol. Quando penso em Portugal no mundo, penso logo no Ronaldo.
Sentiste-te um “Ronaldo”?
Não, não me senti um Ronaldo. Também não aspiro a chegar a ser um Ronaldo. Acho que tenho uma abordagem que é muito mais internacional do que propriamente portuguesa. Essa abordagem nota-se na produção e até a nível harmónico. Em Portugal, essa ligação ao jazz e à MPB não é tão ouvida. Poder juntar tudo isso e fazer um disco, que saiu no ano passado, em setembro, e que ainda tem pouco tempo, foi importante.
Ainda não o nomeámos, mas esse disco é o Fugacidade.
Exatamente, o Fugacidade. E poder levar essa mensagem ao centro daquilo que vi como o núcleo da desconexão do capitalismo e do imperialismo americano. Um disco que fala muito dessa necessidade de descobrirmos algo dentro de nós que seja exterior ao comprar, ao consumir, ao subir escadas sociais invisíveis de representação social. Tudo isso me interessa muito, porque quero deixar uma mensagem, deixar palavras, deixar intenções, mais do que ser famoso ou ter a minha cara a reverberar no mundo. E é por isso que também não me sinto um Ronaldo nesse sentido. Na parte do trabalho, sim. Na parte do trabalho, tenho continuado sempre a trabalhar desde que fui apresentado ao público português, em 2018.
Por curiosidade, nessas entrevistas que mencionaste agora que deste, o que é que te perguntavam?
Perguntavam-me coisas muito diferentes: desde qual era a narrativa do disco, até de onde é que eu vinha, porque é que falava espanhol tão bem e como é que falava espanhol tão bem. Lá encontrei muita gente, muitos hispânicos, e acabei por conhecer pessoas da Argentina, da Venezuela, do Uruguai, etc. Conheci também um artista que admiro imenso, que é o Adan Jodorowsky, filho do Alejandro Jodorowsky. Nesse sentido, foi muito rico. E, nas perguntas, achava tudo muito surreal: esta junção de poder falar espanhol, inglês e português e, ao mesmo tempo, trazer um disco em português. E esse disco estar ao lado de discos como o da Liniker, o Caju...
Que foi quem venceu nesta tua categoria.
Ou como o da Marina Sena, ou a Júlia Mestre, com quem estive lá. Portanto, foi uma junção de várias coisas, em várias línguas, mas muita conversa sobre o disco e muita conversa sobre quem eu sou e o que estava a trazer.
Sentiste, até pelas entrevistas que deste, alguma notoriedade acrescida com a exposição que esta nomeação já te trouxe, abrindo-te alguns palcos pela América Latina, por exemplo?
Isto já vem de uma construção que tenho vindo a fazer, que é este diálogo com o Brasil. Esta união Portugal–Brasil, que fiz através de dois discos — um EP e depois um LP — com o meu amigo Paulo Novaes, abriu um bocadinho essas portas para dialogar com outras realidades. Ou seja, neste caso, a língua portuguesa, mas também outras línguas, como a espanhola.
O Brasil é uma porta de entrada para os mercados hispânicos?
É isso que eu ia dizer. De alguma forma, o Brasil é uma porta de entrada para esses mercados. E esse posicionamento do disco, ali naquela categoria, fez com que isso também fosse uma porta. Isto acabou de acontecer, foi há umas semanas, portanto acho que isso ainda se vai desenvolver com o tempo — esses palcos e essa exposição.
Mas acho que funcionou um bocadinho ao contrário do que estavas a dizer, porque eu já tinha feito tour no Brasil antes. Com o “Com Tempo, Sem Tempo”, que também foi candidatado aos Latin Grammys... Agora candidatei o Fugacidade... Portanto, acho que é um processo um bocadinho inverso: começou por eu fazer tour lá e agora desenvolveu-se também noutra dimensão, com novos palcos e novas tours.
Ainda bem que mencionaste a candidatura, porque gostava de falar um pouco sobre esse processo, que nem sempre é assim tão claro. Quando se ouve que alguém foi nomeado, há todo um caminho até lá. Podes explicar?
Sim, há um caminho a percorrer, que na verdade é bastante simples, porque a Academia tem uma política muito aberta. Ou seja, qualquer pessoa pode candidatar um disco. O disco tem uma série de critérios, assim como os singles. Não te consigo dizer de cor quais são os critérios, mas isso está tudo online.
Sim, normalmente tem de ser editado no último ano.
Exatamente, de X a X data, etc. Tem de ter uma percentagem em língua portuguesa. Ou seja, há uma série de critérios nos quais o Fugacidade se inseria, mas nos quais eu nunca estive a pensar quando fiz o disco. Eu fiz o disco e depois ele encaixou-se nos critérios, e acabou por abrir essa porta. E deixo aqui, nesta entrevista, uma mensagem a todos os artistas de língua materna portuguesa que fazem música em português: isto é fácil de fazer e é positivo para a cultura portuguesa. Abre muitas portas, não só para nós enquanto artistas, mas também para Portugal lá fora.
E acreditas que cantar em português facilita ou dificulta este processo?
Neste caso, acho que facilita, por causa deste meu diálogo com o Brasil. Mas há também algo que dificulta: depois de haver esta abertura de portas, existe o facto de muitos brasileiros não ouvirem música em português de Portugal, ou cantada em português de Portugal. E isso porquê? Por uma questão de sotaque, por uma questão de tonalidade.
Não lhes soa bem. É quase romeno, é quase russo...
Às vezes isso é mencionado quase de forma anedótica, mas é verdade que, no Brasil, há alguma dificuldade em compreender o português de Portugal.
É verdade. E isso tem de ser visto de uma forma natural, em vez de ser encarado como “ah, mas eles deviam perceber, deviam entender”. Ok, mas a realidade não é essa. Portanto, se eles não entendem, o que é que nós podemos fazer para sermos entendidos? Há uma série de artistas que se têm conseguido reinventar. Por exemplo, eu vejo a MARO a cantar em português do Brasil e ninguém acha isso pouco natural. Ou a cantar em inglês. Portanto, isto tem a ver também com o próprio artista trabalhar o seu sotaque, ou dialogar com artistas do Brasil.
Eu sinto que, ao dialogar com o Paulo, de alguma forma abri também o meu sotaque. Se calhar estou a cantar determinadas palavras de outra forma, ou a dizer determinadas sílabas de forma mais aberta, e isso permite que, de repente, os brasileiros consigam compreender coisas que antes não conseguiam. Portanto, é um bocado isso: fazer essa adaptação e tentar que eles compreendam.
Porque nós compreendemos muito bem a língua deles... Quer dizer, é a mesma língua... O sotaque deles... Compreendemos muito bem a intenção e aquilo que está a ser passado liricamente. A única coisa que falta é mesmo eles compreenderem o nosso acento. E nós abrirmos isso faz com que eles consigam dialogar connosco e nós com eles.
Essa missão que eu tenho de juntar os dois países, que precisam de uma reparação histórica tão grande, acho que pode ser feita através da arte, através da cultura. Acredito muito nisso. E, através dessas amizades, tenho hoje uma série de portas abertas com artistas brasileiros. Neste último álbum, participou na composição o Leo Bianchini, de uma banda incrível que são os 5 a Seco, com quem estive nos Latin Grammys. Também o Marulo, numa das canções, que é o Vambora. E ainda a presença de um artista que eu adoro, o Dino d’Santiago, que não é brasileiro, é africano, mas entra igualmente neste diálogo entre países falantes de língua portuguesa, o que me interessa imenso. Estou a cantar em crioulo no disco, versos dele, e isso deixa-me muito contente. É mais um diálogo com outra nacionalidade, mais uma abertura de portas. Essa é a minha intenção com a minha música.
E já que estamos a falar de música brasileira, a Elis Regina cantava Eu quero uma casa no campo... O título deste disco quase que parece ter uma ligação a esse verso...
É verdade.
Que disco é este?
Este disco — é curioso estares a falar disso — tem como base narrativa exatamente essa ideia: a fuga da cidade. O título é uma brincadeira de palavras com a fuga da cidade que vivi durante a pandemia — porque fugi mesmo de Lisboa, rumo ao Alentejo, a tentar ter uma vida um bocadinho menos acelerada. Primeiro em Melides, depois em Sintra. Tenho estado sempre perto da cidade, mas numa certa fuga.
Acho que as pessoas que são amantes da palavra, dos textos, dos livros, mantêm uma calma que permite ver esse diálogo, mas a maioria não o faz. Vivemos numa efemeridade constante, nessa fugacidade. Liguei isso a um termo que me foi ensinado, o FOMO [Fear of Missing Out - ansiedade de perder eventos]. Vivemos todos um bocadinho nessa dispersão, que acabou por ser o título do primeiro — ou o segundo — single do disco. A minha ideia era trazer isso: quase uma cura para essa fugacidade interna, através da própria fugacidade. Não sei se isso se transforma de alguma forma, mas as mensagens que me têm enviado, aquilo que as pessoas dizem sobre o disco, até lá fora — incluindo num podcast da NPR, o Alt-Latino — têm sido muito curiosas e também muito misteriosas de descobrir. Parece que criei aqui uma narrativa que também me está a curar a mim. E isso é muito bonito.
E foste para Las Vegas com um discurso preparado?
Não, não tinha nada pensado. Até porque eu sabia, de alguma forma, que o prémio era para a Liniker. A sério. Até lhe fui dar os parabéns antes e dizer-lhe que achava mesmo que o Grammy ia ser para ela, porque o disco está incrível. Estive no concerto dela, no Festival Koala, a ver o concerto, e achei incrível. De alguma forma, já desconfiava que o prémio era para ela e que fazia todo o sentido que fosse. E a forma como ela traz esta questão da mulher trans — ainda por cima uma mulher trans negra —, esta representação da minoria, que é tão importante, cria um contexto social muito forte. E fazer um discurso também tem esse peso social. Tudo isso me fez sentir que o prémio era para ela e que ela o merecia. Uma pessoa também sente essas coisas.
A nomeação teve um peso especial por seres um artista independente?
Para mim, sim. E acho que as pessoas ali à volta também sentiram isso.
E isso é a prova de que não é preciso ter uma grande estrutura por trás para chegar a outros palcos?
É verdade. Embora eu trabalhe com uma equipa ainda grande, o facto de ser independente permite-me gerir essa equipa. Houve muitas pessoas a trabalhar no disco — desde um brasileiro que masterizou o disco, o Maurício Gargel, até misturadores, músicos, produtores. Portanto, o facto de eu ser independente ou estar numa major não me diz assim tanto. A única coisa que muda é de onde vem o dinheiro, ou seja, quem investe. Estar numa major, hoje em dia, é quase como ter um banco: alguém que investe e depois vai buscar o retorno por outros caminhos. É um bocadinho isso, na minha opinião.
E por seres um artista independente, sentes que esta nomeação te traz mais responsabilidade ou mais liberdade?
As duas. Traz-me responsabilidade porque o facto de ter sido posicionado daquela forma faz com que eu acredite ainda mais na minha mensagem. E depois traz-me uma liberdade enorme, porque percebi que, ao acreditar na minha mensagem, pude chegar ali. Portanto, o próximo disco vai ser dentro do que eu quiser que seja, e não do que me digam. E isso dá-me uma liberdade enorme, porque há uma expansão no pensamento e na criatividade que é brutal.
És daqueles artistas que dizem que os prémios não têm importância, que não simbolizam nada?
Acabei de dar a prova de que têm e que há um peso associado. Eu nunca estaria na receção dos nomeados a segurar aquela medalha se não achasse que aquilo fazia sentido. Mas eu não faço música para o prémio, só para te responder antes de seguirmos. Há uma grande diferença entre fazer para ser hit ou ser hit porque foi gostado, e fazer um álbum para chegar aos Grammy ou o Grammy assinalar aquele álbum porque ele é bom — ou porque foi importante para alguém que está lá dentro. É um bocadinho diferente.
No teu Instagram vi algumas fotos em que partilhavas e erguias com todo o orgulho essa medalha.
Todos os nomeados recebem uma medalha na receção dos nomeados, e foi essa medalha que eu mostrei. Que engraçado.
Onde é que a tens?
No quarto, em casa, guardada.
Como é que vês o estado atual da música portuguesa?
Eu acho que a música portuguesa está incrível, nunca esteve tão bem. Estou muito positivo em relação a isso. Acho que, mais do que tudo, agora é preciso trabalhar as estruturas à volta das pessoas que fazem música. As pessoas que estão a criar parecem-me ter condições, tecnologia, ideias e espaço para o fazer. Depois é preciso trabalhar toda a parte da comunicação e do marketing. É preciso que os PRs saibam como comunicar, como chegar às pessoas, e façam bem o seu trabalho — assim como a malta da comunicação, dos jornais, das revistas, etc. E ver esse orgulho.
Mas sentes que não há esse orgulho?
Acho que ainda há uma coisa um bocadinho individualizada, ou seja, algo que nós, artistas, estamos a tentar romper. E rompemos todas as semanas: com jams, com diálogo com músicos brasileiros, com músicos cabo-verdianos, holandeses, franceses, etc. E quebramos também esta questão da língua. O Dino d’Santiago dizia: “um branco a cantar crioulo na rádio é a Nova Lisboa”. Ele disse isto no dia do videoclipe. Isso emociona-me imenso. Obviamente que é algo que me deixa orgulhoso e com muita vontade de continuar a criar. Mas, de alguma forma, ainda se sente uma individualização muito grande. Esta ideia das escadas da representação social continua a afastar os artistas uns dos outros. Eu criei um conceito, as Janeiro Sessions, em que há já alguns anos convido uma série de artistas. Reabri esse conceito há pouco tempo, com o Gracinha, no rooftop do Solar dos Presuntos.
Acabei por fazer três sessões: com dois músicos com quem nunca tinha feito, o Tatanka, dos Black Mamba, e o Benjamim; e com uma artista com quem já tinha feito três ou quatro sessões, a Ana Bacalhau. Não sei quando é que esse conceito vai abrir outra vez, em termos de narrativa, mas no fundo o propósito é este: alinharmo-nos e cantar ao vivo canções uns dos outros. Publicar canções uns dos outros. Mostrar o quanto eu gosto da tua arte, desta canção. Esse saravá, como se diz no Brasil, acaba por não acontecer muito aqui. Acaba por ser tudo tão pequeno que surge uma individualização e uma catalogação. Parece que o artista maior não pode fazer uma coisa com o artista mais pequeno. Eu tento desconstruir isso. Tanto quero ver o António Zambujo ou o Slow J numa arena como num sítio para 40 pessoas.
Isso não me faz pensar nada diferente sobre o Slow J ou sobre o António Zambujo. Portanto, quanto mais os artistas desconstruírem isso — quererem aparecer em todas as rádios, não haver supremacia de uma certa rádio, de uma certa sala — e perceberem que o tamanho do artista não depende de estar no Hard Club, no Bota Anjos ou no Super Boca Arena. Não tem a ver com isso. A dimensão do artista é interna. O gigantismo e a intemporalidade do artista são internos. Eu acredito muito nisso. O Chico César, que é um génio da música popular brasileira, vem cá e toca sempre no Bota Anjos. Ele quer tocar naquele sítio. Isso apaixona-me muito: essa desconstrução e esse olhar diferente.
Não receias que no futuro sejas apresentado como “Janeiro, nomeado para um Grammy Latino”?
Não, não. Porque, lá está, voltamos àquela pergunta de trás: se há um peso, se há uma responsabilidade. Há esse filtro, e esses filtros existem por alguma razão. Portanto, eu estar a ser apontado também é uma coisa importante. Não retiro essa importância. Nem me irrita, nem me deixa nada. São coisas boas que acontecem na nossa carreira e que são para ser faladas, obviamente.
Quando e como é que soubeste da nomeação? E qual foi a tua reação?
Para ser totalmente honesto, eu estava num transfer, de férias com a minha mãe e com o meu irmão, de um hotel em Mallorca para o aeroporto. Soube através da minha distribuidora digital e comecei a chorar. Fiquei assim: “o que é que está a acontecer?” Primeiro, porque o álbum já estava a reverberar há quase um ano e tinham acontecido muitas coisas boas, mas eu nunca pensaria que pudesse ser filtrado dessa forma, visto dessa forma. Depois, porque é um álbum complexo.
Quando se ouve o álbum, tem arranjos de sopros, tem muito jazz, tem eletrónica misturada com música orgânica, que é algo que muita gente ainda não ouve. Há pessoas que ouvem a canção com instrumentos orgânicos, mas depois não ouvem o lado mais alto ou a parte mais ritmada ou eletrónica da música. Essa junção acaba por ser complexa para as pessoas, pela carga que traz. Por isso, acaba por ser incrível, obviamente.
E ligaste para alguém?
Fiquei muito emocionado. Liguei logo ao meu pai. Estava com a minha irmã e com a minha mãe, então pudemos abraçar-nos.
E agora? No presente e a olhar para o futuro, o que é que podemos esperar?
Já estava a olhar para o futuro antes da nomeação, isso é importante dizer. Já estou a preparar o próximo álbum há algum tempo. As 14 canções já estão todas escritas e compostas. Estou em fase de pré-produção, nos estúdios do Rui Veloso. E estou muito contente com as canções. Acho que é um passo grande, no sentido de ser mais simples e ainda mais de regresso à canção. Vou continuar a tocar este disco, porque acho importante as pessoas ouvirem o disco ao vivo, e vou continuar em residências artísticas a trabalhar noutras coisas. Ao mesmo tempo, com a pandemia, comecei não só a produzir os meus discos, mas também a desmembrar-me.
Um músico não pode só fazer música e dar concertos.
Se bem que eu sempre vivi disso, mas quis desmembrar-me na pandemia porque tinha muito tempo livre. Pensei: e se eu souber agora como captar esta guitarra, em vez de saber só como tocá-la? E se souber ligá-la, perceber as ligações?
Isso mudou alguma coisa na tua composição?
Sim. Acho que fiquei um bocadinho mais analítico, mais em autoanálise, algo que não fazia muito. Antes eram quase “vómitos”: a coisa saía. Agora entro mais em autoanálise, conheço melhor os processos. Isso permite-me ir buscar as pessoas certas, porque tenho outra confiança, outro conhecimento. Está-me a permitir abrir portas, trabalhar com pessoas de todo o lado, produzir música que não é necessariamente a música que eu ouço. Produzir genéricos para projetos de amigos, e também inspirar a nova geração, que é algo que me interessa muito.
De que forma?
Estive a trabalhar no TUMO Portugal, no Beato, como workshop leader de música. Foi cerca de um ano e meio de muita aprendizagem, não só como pedagogo, mas também sobre seres humanos, a lidar com adolescentes. Os jovens hoje em dia — e eu sou jovem e sinto isso —, mas os mais novos ainda, 20, 18, 15 anos, vivem muito com ADHD [Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção, PHDA em português], com dispersão, com essa nebulosidade na cabeça. Tudo parece demasiado demorado, tudo é muito efémero e rápido, e não se abraça o processo. Poder inspirar jovens, explicar que uma composição pode demorar um ou dois meses, que uma gravação pode demorar meses, que às vezes tens de te sentar todos os dias a olhar para aquilo, é transformador.
Estar a contribuir para o que pode ser a música portuguesa daqui a 15 anos é incrível e muito recompensador. Agora vou iniciar essa fase de produzir aquilo que escrevi e compus. Ainda não decidi totalmente se vai ser em banda, se vai ser mais orgânico — piano, voz, guitarra — ou mais eletrónico.
Sempre com esse diálogo Portugal–Brasil?
Acho que este disco vai ser mais Portugal–Portugal, canções portuguesas. Isso já se sentia nos outros discos, no Fragmentos, no Fugacidade. A canção portuguesa está lá. Este será um disco de canção portuguesa, inerente.
O que é que andas a ouvir?
Ando a ouvir muito Fred Again, muito Count Basie, muito jazz. Também esta nova MPB que está a surgir: Zé Ibarra, Paulo Novaes, Leo Middea, Bruno Berle. Uma série de artistas novos que costumo ouvir muito. E, em Portugal, ouço muito Slow J.
Por Rita Sousa Vieira
Entrevista editada a partir da gravação no estúdio da Cultura FNAC, que podes ver no YouTube da FNAC.