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CARMEN MARIA MACHADO
ENTREVISTA - CARMEN MACHADOENTREVISTA - CARMEN MACHADO

“Quando procuro uma coisa e não encontro, talvez tenha de ser eu a escrevê-la”

 

Em Na Casa dos Sonhos, Carmen Maria Machado escreve contra o silêncio: o da violência doméstica em relações queer, o da ausência dessas histórias no arquivo cultural, o da dificuldade em nomear o trauma quando ele não corresponde às narrativas dominantes.

 

Nesta entrevista, a autora reflete sobre a urgência de transformar experiência em linguagem, o peso de revisitar memórias traumáticas, a responsabilidade de escrever a partir de um lugar marginalizado e o poder político da forma literária. Entre casa e lar, arquivo e ausência, corpo e poder, Machado fala do livro que precisava de existir — e do custo pessoal de o escrever — num tempo em que a arte continua a ser um espaço de resistência.

 

Na Casa dos Sonhos explora a violência doméstica numa relação entre duas mulheres, a partir da tua própria experiência. O que te motivou a transformar a tua história neste livro?

 

Antes deste livro, já tinha escrito ficção sobre a mesma relação, explorando-a em várias histórias que aparecem no meu primeiro livro e noutros contextos. Tornou-se, contudo, importante escrever memórias, fazer um livro de não-ficção sobre o mesmo tema. Havia uma urgência em dizê-lo dessa forma, porque parte da dinâmica deste tipo de experiência passa pelo desejo de que acreditem em nós ou de sermos compreendidas. Na ficção existe sempre uma certa distância, enquanto na não-ficção é possível afirmar de forma direta: isto aconteceu-me. Por isso, este parecia um projeto que precisava de ser concluído, algo que tinha de ser retirado de dentro de mim.

 

Em que momento sentiste que era o tempo certo para começar a escrevê-lo?

 

Tentei escrevê-lo durante muitos anos, de forma intermitente. Até que a escrita começou verdadeiramente a ganhar forma em 2016 ou 2017. Ficou concluído em 2018 e foi publicado nos Estados Unidos em 2019.

 

Se fosse publicado hoje, achas que o clima cultural atual permitiria o mesmo nível de liberdade criativa?

 

Sim, sem qualquer hesitação. A minha editora nos EUA é excelente e tem uma linha editorial muito clara, apostando em livros estimulantes, estranhos e ousados. Faz parte da sua identidade, pelo que não tenho dúvidas de que o publicariam novamente. O que mudou foi o contexto. O mundo é hoje um lugar diferente, infelizmente.

 

A literatura tem evitado este território?

 

O território do subjetivo?

 

Da violência doméstica na comunidade queer.

 

Sim. Em parte, a razão para ter escrito este livro prende-se precisamente com isso. Procurei livros como o meu porque, embora as pessoas escrevam com alguma frequência sobre violência doméstica, todos os que encontrava eram sobre relações heterossexuais. Pensava que isso não podia ser possível, porque sabia que estas situações acontecem e, portanto, não fazia sentido que não existissem livros desse género. Há algo que atravessa o meu trabalho de forma mais geral: procuro uma coisa e não a encontro. E, quando isso acontece, acabo por pensar que talvez tenha de ser eu a escrevê-la. Parece que esse é o meu trabalho.

 

O que é que aprendeste sobre o poder, e sobre a sua linguagem, ao escrever sobre violência doméstica?

 

Esse tema sempre me interessou. Sobretudo nas questões de género e sexualidade, existe um forte interesse na forma como o poder opera, em como é negociado, navegado e como circula de um lado para o outro. Grande parte do poder vem da narrativa. As histórias que contamos e a forma como certas experiências existem no imaginário público, através da arte e dos media, fazem realmente uma enorme diferença. É difícil ser a primeira a dizê-lo, não no sentido de ser literalmente a primeira, mas porque, nesta forma e neste momento, este livro é diferente de outras maneiras de falar do mesmo assunto. É estranho constatar que isto quase não aparece, que surge apenas pontualmente aqui e ali, mas que em filmes, televisão ou romances não se vê em muitos lugares. Por isso, torna-se necessário colocá-lo em algum sítio. A forma como chegamos a compreender as coisas passa, muitas vezes, precisamente pelos media e pela arte.

 

Ao escolher escrever sobre este tema, que responsabilidade sentiste que estavas a assumir?

 

Quando se escreve sobre uma comunidade, sobretudo uma comunidade que é discriminada de várias formas, existe sempre um cuidado acrescido. No caso deste livro, os acontecimentos ocorreram nos Estados Unidos muito antes de existir igualdade no casamento. Essa igualdade foi, entretanto, conquistada e voltou a estar em risco, mas o livro foi escrito naquele momento específico. Há sempre o risco de falar de uma comunidade que recebeu pouca atenção ou cuja visibilidade foi, muitas vezes, negativa. Isso gera um medo adicional, o de estar a representar toda uma comunidade. Essa pressão não é exclusiva de uma pessoa ou de um caso particular; aplica-se a muitas situações. É algo que acontece quando se escreve sendo mulher, sendo queer, não sendo branca ou sendo trans. Existe a sensação de que, ao escrever, se corre o risco de ser vista como representante de um grupo inteiro.

 

Ser “a voz de”...

 

Exatamente. Ninguém é a voz de ninguém. Não existe uma voz única queer, seja lá o que isso for. As coisas não funcionam assim. E, no entanto, esse risco e essa ansiedade existem sempre. Era uma ansiedade que eu tinha, mas não é algo invulgar. Acontece muitas vezes.

 

Como foi o processo de revisitar memórias tão traumáticas?

 

Foi difícil, foi bastante difícil.

 

Que cuidados tiveste contigo enquanto escrevias?

 

Não cuidei. Fiz um trabalho muito mau nesse sentido. Pensei que ia ficar bem e acreditei genuinamente que, embora fosse difícil, era algo que precisava de fazer. Durante a escrita, subestimei profundamente o quão exigente seria e o peso que teria em mim a nível mental. O que é estranho é que o livro foi publicado nos Estados Unidos há seis anos, depois aconteceu a pandemia (que foi obviamente muito dura e muito traumática para mim, por várias razões), e só falo dele agora porque está a ser traduzido e existe este desfasamento temporal. Torna-se uma situação esquisita, porque nos EUA já não falo deste livro. Não falo, simplesmente porque é difícil. Falei dele durante tanto tempo que acabei verdadeiramente exausta e pensei que, na realidade, não queria voltar a falar sobre ele. Por isso, só em circunstâncias muito específicas é que o faço. Com as traduções acontece o contrário: estou constantemente a falar do livro. E isso foi mesmo difícil. Foi difícil escrevê-lo, foi difícil fazer a digressão, foi difícil publicá-lo.

 

Vou a lugares onde leio o livro para as pessoas e, depois, fazem-me perguntas ou contam-me experiências muito difíceis que viveram. Sou apenas uma pessoa. E há uma dinâmica em que sinto que estou a segurar muita coisa, apesar de ser só uma pessoa. É uma dinâmica muito particular. No fundo, foi um processo verdadeiramente duro.

 

O que entendes por arquivo da violência? E que papel teve Na Casa dos Sonhos na criação ou expansão desse arquivo?

 

Parte do processo de escrever este livro passou por perceber que estava, de certa forma, a ocupar um espaço muito pouco explorado. Não um espaço novo, mas um espaço marcado por ausências. Daí a importância da questão do arquivo, do seu silêncio e da sua violência: que histórias entram no arquivo, que histórias persistem na história. Isso depende muito de quem as coloca lá e de quais são priorizadas. Cito uma autora que é muito importante para mim, a escritora americana Saidiya Hartman, que escreveu de forma brilhante sobre estas questões, sobretudo no que diz respeito à raça.

 

Ela reflete, por exemplo, sobre o que significa não existirem histórias de determinado tipo de pessoas e sobre a forma como essa ausência afeta a maneira como pensamos certos assuntos. O trabalho dela sobre o arquivo foi, por isso, muito potente e muito útil durante a escrita deste livro. A certa altura, a perceção foi clara: sou apenas uma pessoa. Não consigo corrigir a história, nem reparar tudo. Tudo o que posso fazer é acrescentar algo ao arquivo, da forma que me é possível, e esperar que isso permaneça. E isso também é difícil, porque não sei o que vai acontecer depois de eu morrer, não sei como isto será lido ou usado no futuro. Só consigo compreender até um certo ponto. Posso apenas colocar a minha parte onde acho que deve estar e depois ver o que acontece.

 

Numa das minhas canções preferidas de David Byrne, Glass, Concrete and Stone, ele canta: “it’s just a house, not a home” [“É apenas uma casa, não um lar”]. Porque é que é importante estabelecer esta diferença entre ‘casa’ e ‘lar’?

 

É uma excelente pergunta. Essa distinção também existe em português? Em inglês, house é um objeto, um lugar físico, um edifício com paredes, janelas, chão e teto, com tudo o que se espera que uma casa tenha. Já home é algo conceptual. É onde nos sentimos em casa. E o lar não é apenas o espaço físico; envolve a família ou, por exemplo, a relação com alguém com quem se vive. Pode construir-se um lar de muitas formas diferentes, em lugares onde sentimos que pertencemos e onde nos sentimos amadas e cuidadas.

 

Ao mesmo tempo, o lar é frágil e circunstancial. Pode ser destruído de muitas maneiras. Essa dinâmica é muito importante neste livro, porque uma coisa é ter uma casa e outra é ter um lar. Em inglês existe ainda a expressão dream house, que significa a casa dos nossos sonhos, aquela que desejamos. Vemos uma casa bonita e pensamos que é um sonho, que é essa que queremos. Há aí uma dimensão de fantasia, de antecipação. Existe algo de interessante na relação entre casa, lar e dream house, que é um conceito um pouco à parte, porque envolve imaginar esse espaço, tanto de forma literal, material, como pensar no que ele vai significar emocionalmente quando se estiver dentro dele.

 

Essa distinção interessou-me muito e acabou por ser determinante para o título do livro, que surgiu bastante tarde no processo. Inicialmente, o livro tinha outro título em inglês, com o qual foi vendido, mas de que eu não gostava. Chamava-se House in Indiana, que era aceitável no momento da venda, mas levava as pessoas a perguntar-me se eu era do Indiana. Eu não queria falar desse lugar específico nem tinha uma relação particular com essa localização geográfica. Não era isso que me interessava. Passei algum tempo à procura de um novo título e foi então que cheguei a este, porque a ideia de sonho, de casa e de lar acabou por encaixar de forma muito clara no que o livro é.

 

E de que forma é que o conceito de lar muda para pessoas queer?

 

Para começar, quando falamos de família, falamos também de comunidade. Quando escrevi este livro, o casamento entre pessoas do mesmo sexo já existia nos Estados Unidos, mas quando vivi os acontecimentos que nele relato, não me podia casar. Isso levanta outras questões: aquilo que imaginamos para nós próprios em contraste com o que é permitido pelo Estado, pelo governo, pelo enquadramento legal. Surgem, assim, várias perguntas sobre o que significa criar um lar e em que condições isso é possível.

 

Nesse contexto, a comunidade queer pensa muitas vezes a família para lá dos termos biológicos. Conheço muitas pessoas com dinâmicas familiares muito interessantes, precisamente porque a ideia de família é entendida de forma mais ampla do que o modelo de mãe, pai e filhos ligados geneticamente. Esse modelo continua a ser uma forma de família, mas é apenas uma entre muitas. Existem inúmeras maneiras de ser família. Eu própria senti que tinha família com colegas de casa com quem vivi e com quem não tinha qualquer relação de sangue. Éramos apenas amigos a viver juntos, e isso também me soube a família, de certa forma.

 

A estrutura fragmentada de Na Casa dos Sonhos cruza múltiplas formas narrativas. Porque é que esta abordagem te pareceu a mais adequada para contar a tua história?

 

Tentei, a princípio, escrevê-lo de forma convencional, como umas memórias mais tradicionais, mas o resultado era muito mau e profundamente aborrecido. Lia e relia o que estava a escrever e pensava que nunca leria um livro assim, que aquilo era horrível. Só quando encontrei a forma certa, sem saber exatamente porquê nem identificar um motivo preciso para ela ter surgido daquela maneira, é que o livro inteiro simplesmente saiu de mim. A partir desse momento, gostei verdadeiramente do processo. De repente, pareceu que estava finalmente a fazer aquilo que queria que o livro fizesse.

 

A fragmentação permite-te explorar emoções que uma narrativa direta deixaria de fora?

 

Sim. Há esta ideia de que os géneros, no sentido do terror e da ficção científica, são formas de captar ou articular a realidade, de pensar como ela funciona. Têm tropos, regras, estruturas próprias. Quando se pensa na vida e na forma como se existe nela, atravessam-se muitas fases diferentes, algumas que parecem um romance de terror, outras que pedem outros enquadramentos. Pareceu-me que essa abordagem conseguia conter não apenas a minha experiência naquela relação, mas também a forma como pensava o meu passado, o meu presente, tudo isso. Foi, simplesmente, aquilo de que eu precisava.

 

O rótulo “gótico queer” surge com frequência associado ao teu trabalho. O que significa, para ti? Sentes-te confortável com ele?

 

É algo deliberado: gosto de ser um pouco evasiva. Trabalho em muitos géneros diferentes, mas “gótico queer” é talvez a expressão que mais se aproxima de uma estética unificadora. Interessa-me muito a estética, o sexo e o género, o horror e o espaço; são esses os temas que atravessam o meu trabalho. Nesse sentido, tens razão: “gótico queer” encaixa, de certa forma.

 

Achas que, só por existir na página, o corpo queer se torna mais político do que outros, mesmo numa escrita autobiográfica?

 

Acho que todos os corpos são políticos de uma forma ou de outra. “Político” não significa necessariamente “oprimido”; pode significar que o corpo está a ser politizado. Vivemos num momento em que certos corpos são priorizados, considerados mais importantes, com a sua dignidade e os seus direitos vistos como mais urgentes. Outros corpos são ativamente discriminados de várias formas e colocados em perigo, e existe toda uma escala entre essas posições. Nesse sentido, o corpo é algo politizado. Sempre foi e sempre será. É uma experiência universal.

 

Quanto à questão de saber se este livro é apenas para leitores queer ou para qualquer pessoa que tenha vivido violência, diria que é para qualquer pessoa que o leia e encontre nele algo que lhe fale. Não sei definir isso de outra forma. Imagino que a dedicatória tenha sido traduzida: “se estás a ler este livro, ele é para ti”. Recebo emails, mensagens, falo com pessoas cujas experiências não correspondem exatamente às descritas no livro, mas que encontram nele algo significativo, nesta forma de falar para dentro do silêncio. Há algo nos livros e na arte, em geral, que faz com que, depois de criados, deixem de nos pertencer. Tornam-se separados de nós. Um dia vou morrer e ninguém me poderá fazer perguntas sobre este livro, mas o livro continuará a existir e as pessoas continuarão a ter as suas próprias conversas com ele. Isso é muito especial. Significa também que não posso delimitar a quem ele se destina. Posso dizer que, quando o escrevi, estava a pensar em pessoas queer, porque era disso que estava a escrever. Mas isso não quer dizer que seja apenas para pessoas queer, ou apenas para mulheres, ou apenas para um grupo específico. É para quem quer que seja. Se te falar, se precisares dele, se significar alguma coisa para ti, então foi escrito para ti.

 

Tinha uma pergunta sobre o impacto do teu trabalho em leitores queer, mas acho que essa resposta já foi surgindo ao longo da conversa.

 

Sim. Espero que seja uma forma de dar linguagem a algo para o qual, talvez, ainda não existisse linguagem. É isso que realmente me importa: oferecer essa possibilidade.

 

Tendo em conta o contexto atual, como imaginas o futuro da literatura queer?

 

Vamos estar sempre aqui e a fazer arte. Vamos continuar a existir. Vivemos um momento muito precário, nos Estados Unidos e noutros lugares, e uma das formas como o fascismo se tem manifestado nos EUA passa pelas proibições de livros e pelo desmantelamento do financiamento às artes. Isso faz parte do seu modus operandi, porque a arte é uma ameaça. Ainda assim, vamos existir sempre. A literatura queer vai continuar a existir. Em que forma ou em que formato, isso ainda está por ver, mas continuará a existir. Não se livram de nós. Sempre existimos e vamos continuar a existir.

 

E se este livro fosse uma arma, a quem é que estaria apontada?

 

Estaria apontada, sobretudo, para os alvos mais óbvios: conservadores, fascistas, autoritários. Donald Trump, em particular, mas também outras figuras semelhantes. No entanto, dirige-se também a pessoas que são passivas neste contexto. Pessoas que simplesmente não pensam muito nestas questões. Não estão ativamente a trabalhar contra isto, mas também não consideram que seja especialmente importante, ou não estão verdadeiramente atentas ou envolvidas.

 

O que é que ainda te permite ter esperança?

 

Nos Estados Unidos, há muitos ativistas que estão a colocar o corpo em risco. Muitas dessas pessoas são queer e trans e, com frequência, são também ativistas racializados, não brancos. Estão a fazer um trabalho essencial e, ao mesmo tempo, profundamente perigoso. São essas pessoas que me dão esperança, precisamente por assumirem esse risco. E também a arte: a música, o cinema, o trabalho de quem cria. Artistas e ativistas acabam por estar, muitas vezes, na linha da frente de tudo isto. Saber que estamos aqui, que este trabalho continua a ser feito e que há pessoas dispostas a fazê-lo, é muito importante.

 

O que é que estás a ler?

 

Costumo ler livros que ainda não saíram ou que estão prestes a sair, e isso faz com que, por vezes, tenha dificuldade em responder quando me perguntam o que estou a ler. Neste momento, por exemplo, estou a ler um livro que ainda não existe em português e que nem sequer foi publicado nos Estados Unidos. Chama-se Canon. Ainda não saiu, mas vai sair. É de Paige Lewis. É um livro lindíssimo, descrito como uma “epopeia não-binária”, e é muito difícil de definir, mas aproxima-se de uma espécie de poema épico.

 

Por Rita Sousa Vieira

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