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O teu romance inscreve-se no território daquilo a que hoje chamamos pós-memória, isto é, da memória herdada. Isto quer dizer que recordar é escolher o que esquecer?
Acho que o livro se enquadra perfeitamente nesse campo. O conceito de pós-memória pode não ser particularmente atrativo para o leitor comum — é um termo um pouco académico —, mas parte dessa premissa. Traduzindo de outra forma: parte do pressuposto de que as memórias de quem amamos, de quem gostamos, de quem nos é próximo, sobretudo no seio da família, onde se encontram as maiores maravilhas, mas também, evidentemente, os maiores horrores, são, para nós, fundadoras.
Se pensarmos nisso, há um tema de fundo no livro — não o tema central, mas o pano de fundo —, que é o da guerra colonial e de como essas memórias passam dos avós para os netos, dos pais para os filhos. Isso pode ser determinante. Alguém da minha geração olha para esse tema de uma forma diferente da tradicional, diferente da memorialística, diferente da literatura escrita por quem combateu. O livro existe nesse jogo: o da memória dos nossos pais e avós, nessa fronteira entre gerações, na tentativa de descobrir um lado da vida deles que, muitas vezes, nos é inacessível e até tabu, envolto em silêncios. A ideia de que herdarmos essas memórias, que nos moldam, embora não sejam nossas, é muito importante para o livro.
E com que memórias desse período é que cresceste?
O meu pai foi combatente, capitão miliciano em Angola. Sem ele, e sem as memórias que transmitia — primeiro quando eu era criança, e depois, de outra forma, em adulto —, o livro não existiria. É claro que parte dessa experiência é ficção. O Augusto Campelo é uma figura difícil, completamente diferente do meu pai, mas o facto de eu ser filho de um combatente foi essencial para escrever um livro que, no fundo, é um drama familiar. E acho que é isso o mais importante: é o drama das famílias da nossa geração. Pessoas um pouco mais novas ou mais velhas do que eu, que olham para os pais e avós e tentam chegar a uma zona da vida deles que é, muitas vezes, inacessível. Essa fronteira é difícil de ultrapassar. Em muitas famílias, o silêncio impera. Muitas vezes até por generosidade dos ex-combatentes, que não querem expor os filhos e netos a esses traumas.
Tiveste oportunidade de cruzar as tuas memórias familiares com as de outros da tua geração?
Sim. E há uma coisa muito curiosa: em alguns casos existe essa procura, essa tentativa de entrar na memória e no passado dos pais e avós — sobretudo dos pais, claro —, mas noutros há um desconhecimento muito grande. Não é falta de vontade; é mais uma tentativa de compreender, de chegar até eles, e também de gerir o silêncio e o tabu. Ao mesmo tempo, há um grande desconhecimento do contexto histórico e bélico. Eu próprio tive de investigar muito para que o pano de fundo, as memórias do Augusto Campelo, o personagem principal, o avô... Talvez o verdadeiro protagonista seja o narrador, o neto.
Essa era uma das minhas questões.
Sim, talvez o antagonismo entre o avô e o neto seja o centro do livro. Entre um e outro há um embate — não uma luta, mas um confronto de memórias. O neto tenta descobrir o passado do avô, um território difícil de se chegar. O livro parte, aliás, da ideia de que a memória é uma forma de ficção. E se eu levasse essa ideia ao extremo, tal como nos outros livros levei: o que é que acontecia? Qualquer livro nasce assim, de uma imagem. No caso deste, foi a imagem de um homem de 81 ou 82 anos que, no fim da vida, escreve um manuscrito sem dizer a ninguém sobre o que é que se tratava, e que um dia o queima no jardim das traseiras. Uma semana depois, morre.
Só para esclarecer: isto não é um spoiler, já que essa informação vem logo na contracapa. Mas já te ouvi dizer que essa imagem foi demasiado forte quando surgiu.
Foi, sim. Foi uma imagem muito forte, até sensorial. A ideia do manuscrito a arder, dos papeis a levantarem voo. Quando um livro arde, há muitos parágrafos e páginas que levantam voo. [Imaginei-as] A cair sobre os telhados, nas árvores, nos quintais de um quarteirão em Campo de Ourique, em Lisboa.
Era a imagem de um homem consumido, pelo passado da guerra e pelo passado com a filha, a única pessoa que ele verdadeiramente amou, embora de forma egoísta, mal orientada, narcísica. Esse passado que o consome leva ao incêndio. Quando tive essa imagem, havia muitas perguntas a que não sabia responder e que fui descobrindo ao escrever. Quem é ele, o Augusto Campelo? Quem é o neto? Porque é que o avô queimou o manuscrito? Porque é que isso é importante para a família? O que é que esse gesto esconde? E o que é que diz daquela família e das nossas famílias? Porque, de certa forma, aquela é uma família levada ao extremo. O Augusto Campelo é um escritor, um ficcionista dentro e fora das páginas. Mas o que é que aquela família tem de semelhante com as nossas? E o que é que esta história pode significar também para o país? Talvez fale sobre essa cisão entre gerações, sobre a tentativa de compreender um passado que já não é o nosso.
Para compreender algumas feridas políticas que não sararam e que agora ajudam a explicar alguns fenómenos mais extremistas.
Sim, e o livro, embora tente reduzi-lo ao essencial, é uma história familiar e, portanto, não tem uma tese doutrinal. Não tenta oferecer ao leitor uma “boa maneira de viver”. Mas reflete, de alguma forma, tensões que existem, e sobretudo esta tensão entre gerações. Quis trabalhar um tema que já foi muito explorado pela ficção: a guerra colonial como pano de fundo.
Foi suficientemente trabalhado pela ficção?
Foi muito trabalhado pela ficção. Temos grandes escritores que foram combatentes e que trabalharam o tema, desde João de Melo a Lobo Antunes, passando por Lídia Jorge, que o fez a partir da perspetiva de quem viveu nas ex-colónias. Há uma literatura fortíssima dessa época, mas depois o tema foi-se perdendo. E acho que está no limiar de se transformar em tema histórico, ou melhor, em tema de romance histórico. Teremos, segundo as estatísticas, cerca de trezentos mil ex-combatentes. Por isso, para mim, o livro nunca poderia ser um pastiche dessa grande literatura que se fez, mas também ainda não estava a ponto de ser tema de romance histórico. Eu, pela minha idade, estou nesse limiar. E, por isso, podia ser outra coisa, ser história familiar. Sem pretensão, talvez um reflexo do encontro entre gerações, entre nós e os nossos avós.
Porque a guerra está bem presente até nas personagens que não combateram.
Exatamente. A memória do Augusto Campelo é imagética. A memória dele, uma vez feita ação, é como se existisse. Ele fala de personagens do seu passado em Angola, em 1973-75, e quase que essas figuras ganham vida para as personagens do presente. O livro passa-se na atualidade, mas alterna entre o passado da guerra, o passado da mãe do narrador — a Formiga, como gostava de ser chamada — e o presente do narrador, que tem mais ou menos a minha idade, talvez um pouco menos. Faz-se, assim, um cruzamento de épocas que, no fundo, constroem a nossa atualidade e o tecido familiar. É um tema que, de uma maneira ou de outra, nos liga a todos.
Falaste agora da Formiga, a filha. Dentro deste enredo familiar, ela parece surgir quase por acaso, não participa ativamente na história, mas no final percebe-se como é determinante para o desfecho. Porque é que escolheste não lhe dar um nome?
Pois, spoilers à parte. Acho que a literatura, quando é bem feita, sobrevive aos spoilers, mas os livros são escritos para ter um determinado impacto. E este, em particular, foi pensado assim. Aliás, todos os meus romances até agora têm sido escritos tendo em conta um desenlace. Gosto de brincar com o leitor, de o surpreender. Uma leitora disse uma vez que eu era um bocado matreiro. É um jogo de comunicação: eu sei a história e estou a mostrá-la aos poucos. E, nesse sentido, a Formiga é essencial. É mãe do narrador e filha do Augusto Campelo. Tem uma sensibilidade tão forte que a ideia do passado do pai na guerra, não saber exatamente o que ele fez, é-lhe intolerável. Isto porque o Augusto Campelo, sendo o grande escritor nacional, nunca escreveu sobre a guerra. Falava sempre dela em entrevistas, mencionava o trauma, mas sempre num mostra-e-esconde, nunca se percebendo coisas concretas. Perante esse silêncio, e o pouco que o pai contava em casa, a Formiga sente-se encurralada, quer perceber o passado do pai. Essa procura leva-a a fugir de casa — também não é spoiler, está na contracapa. E o filho, por sua vez, precisa de descobrir o mistério da mãe.
E acontece algo que tantas vezes acontece nas famílias: quando alguém morre, descobre-se uma série de coisas. É como se, vivos, tivéssemos um centro de gravidade que mantém a história unida; depois da morte, esse centro desfaz-se e as histórias deambulam sem que as controlemos. Isso acontece com o Augusto Campelo. E, num escritor e ficcionista, isso pode ser terrível.
Porquê?
Porque as histórias que contamos têm sempre um pendor ficcional, e o livro vai em descoberta disso.
Este é também um livro sobre o luto?
Certamente. E talvez tenha sido um dos aspetos mais difíceis de escrever. A escrita é sempre um sistema de projeções. Eu e todos nós temos os nossos lutos. Felizmente, não tenho um luto como o do narrador, em relação à mãe, mas tenho os meus. O narrador tenta encontrar uma mãe perdida muito cedo, quando tinha sete ou oito anos. Isso é profundamente determinante na vida de uma pessoa. É uma orfandade emocional, espiritual, cultural... Tudo junto, projetado na figura da mãe, que é um pouco angelical, como seria natural quando é o próprio filho a falar dela. E isto vai fazendo com que o livro chegue ao fim, assim, num crescendo. Ou, pelo menos, foi o que eu tentei.
Voltando à figura de Augusto Campelo, um grande escritor, o maior de Portugal, a quem só faltou o Nobel. Confesso que, nas primeiras páginas, o imaginei como o Lobo Antunes, mas essa imagem desvaneceu-se.
Compreendo que se tenha essa imagem, mas seria muito redutor se se mantivesse. É uma personagem puramente ficcional, embora, como acontece com todos os escritores, vá buscar traços de pessoas que conheço.
Inspiraste-te em alguém em particular?
Não, não. Se as personagens são bem feitas, acabam por ser uma extravagância da imaginação. Os escritores têm uma memória muito ativa, de construção permanente de personagens. Não há quaisquer referenciais factuais. Aliás, todos os meus livros são ficcionais, mas este foi o mais difícil de fazer. É o que tem menos amarras.
O meu irmão tem, por exemplo, uma âncora muito clara: eu tenho, de facto, um irmão com síndrome de Down e, portanto, é natural que o livro parta de um conhecimento muito próximo dessa realidade. Depois, a ficção destrói e reconstrói muita coisa, mas nasce de um conhecimento íntimo, que é ter um irmão mais novo com síndrome de Down. O Pão de Açúcar parte de um caso real, o da Gisberta. Este novo livro não tem uma âncora assim tão nítida. Por isso foi também o mais difícil, porque foi o mais livre e, talvez, o mais imaginativo.
Augusto Campelo é uma figura venerada, mas um homem tirânico na relação familiar. Até que ponto a grandeza da obra de um autor permite separar ou relativizar os seus atos e falhas morais enquanto ser humano?
Acho que nos privaríamos de muita boa e ótima literatura se estivéssemos constantemente a fazer julgamentos morais. Somos bichos de julgar, é verdade, e é natural que o façamos. Mas uma coisa é independente da outra. Posso, perfeitamente, achar um grande escritor um grande homem, e o contrário. Sendo o livro uma história familiar, aí é outra coisa. Porque ele ser escritor é apenas uma contingência. Torna tudo mais difícil pela exposição pública e pela inteligência com que pode fazer estragos. Mas, numa história familiar, isso já é determinante. Ele ser escritor, ou não, é bonito para quem o lê; para os filhos e netos, é outra história. Agora, mal seria se nos privássemos de grandes livros por pequenos homens.
Achas que cada geração escreve o país à sua maneira?
Certamente. Se a memória é uma forma de ficção, o país também o é. Temos uma ideia do que somos... E o próprio país é uma identidade coletiva, um conjunto de imaginações.
E que diferenças encontras entre a tua geração de escritores, a que te antecedeu, e da que virá a seguir?
Acho que há uma espécie de ciclo, como disse o Mário Cláudio na apresentação de O Último Avô no Porto. Um ciclo que é transversal à literatura e que alterna entre uma maior simplicidade no dizer e uma maior complexidade. E que talvez a nossa geração, a minha geração de escritores, esteja no ciclo da maior simplicidade. Atenção: isto não quer dizer nada em relação à qualidade literária, nem representa facilitismo. Há exemplos de tudo, não é? Mas, de maneira nenhuma, isso significa facilitismo. Por outro lado, uma maior complexidade no dizer ou no escrever também não torna necessariamente a obra mais interessante. O que interessa é que seja bom, de facto, em qualquer estilo. E eu, também no lançamento, percebi mais do que nunca que nos privamos de tanta coisa por causa de conceitos — conceitos literários, pessoais, enfim. Privamo-nos de tanta boa literatura. A nossa formação literária, artística e cultural tem de ser transversal, abrangente. E portanto, o encontro de gerações, com todas as tensões que isso implica, é muito produtivo. É muito bom.
As tensões dentro da literatura foram produtivas no que toca a qualidade literária.
Sim, acho que em tensão se escreve melhor, é verdade.
E, continuando no campo da literatura, há temas intocáveis?
Não. O que é intocável é, normalmente, o que mais apetece tocar. O que é proibido é o que sabe melhor. O que é talvez intocável é tratar desses temas de forma leviana. Isso sim, não é aceitável. Aliás, em tudo na literatura, a leviandade não serve para nada. Mas se se trata desses assuntos com empenho e profundidade, podem e devem ser abordados.
O meu irmão e Pão de Açúcar viram a tradução negada nos EUA por abordarem temas considerados “problemáticos para o mercado norte-americano”. Essa decisão levou-te a repensar a tua escrita?
Não, mas isso já foi chão que deu uvas. Divulguei o e-mail da decisão de uma editora americana porque se falava muito, naquele momento, de pulsões censórias na literatura e na figura dos autores. Foi apenas uma contribuição para o debate. É evidente que uma editora tem o direito de escolher e publicar o que entender, pelos motivos que entender; posso não concordar, mas respeito. Tenho uma atitude fria e objetiva quanto a isso.
Isto já foi há dois ou três anos. O que me parece é que essa pulsão censória, que certamente existia, está agora bastante suplantada por outra grande pulsão censória, nomeadamente a que se manifesta nos Estados Unidos, de matriz trumpista e por aí fora, e que tem a faca e o queijo na mão. E isso é ainda pior. Na altura era uma questão cultural — e ainda existe, certamente —, mas estamos numa fase em que a contra-ofensiva e a contra-cultura são dramáticas; dramáticas por terem o poder das instituições. Fala-se muito do trickle-down, portanto, do trickle-down económico, mas também existe uma trickle-down culture, em que as coisas vão passando do presidente dos Estados Unidos, numa cadeia de cobardias e de subserviências, dali para baixo, até às universidades. Portanto, estamos a viver uma altura muito dramática nesse sentido. E é pena, é pena que muita gente que alertou para esse outro tipo de censura — e cá em Portugal temos imensos exemplos, o Ricardo Araújo Pereira, Pedro Mexia, tanta gente, eu próprio —, e agora veja que chegámos a um oposto que é igual. E é pena que, na altura, as pessoas que falavam do Pedro e o Lobo... O Lobo existia, e o Lobo agora continua a existir, mas está vestido noutras roupagens, não é? Mas é a mesma coisa: são atitudes censórias, agora com o peso das instituições. O que é realmente dramático.
Como é que sabes que um livro está terminado?
Porque tenho de o entregar. Há um contrato a cumprir... Estou a brincar. O Lobo Antunes costumava dizer que um livro está permanentemente inacabado, e claro que está. Mas, por uma questão de sanidade mental e de continuidade, é bom que acabe e que passemos para o seguinte. Demorei muito tempo com este. A versão final levou mais de dois anos e meio, mas antes disso houve muitas ruminações, outras versões, outras formas de pensar a história.
Este livro já existia antes do Pão de Açúcar?
Não, essa imagem apareceu depois do Pão de Açúcar. Tinha ideias para outros livros — e continuo a ter várias —, mas não sou muito prolífico. Por temperamento e porque acredito que o meu compromisso com a literatura exige calma e tempo. Um livro novo não deve ser apenas “mais um”, nem apenas mais uma lombada numa livraria ou numa biblioteca. Não me interessa ocupar centímetros de estante com nada. Quero que cada livro seja diferente e que saia do pelo. E para sair do pelo não é de um ano para o outro.
Os teus dois primeiros romances, O Meu Irmão e Pão de Açúcar, foram amplamente distinguidos: o primeiro com o Prémio LeYa, o segundo com o Prémio José Saramago. És o único escritor que venceu os dois maiores prémios literários em Portugal. Isso tornou mais complicado escrever o terceiro? As expectativas pesam?
Acho que não. Porque, na verdade, não sei quais são as expectativas dos outros. Quando publiquei o primeiro livro, falava-se da expectativa do segundo. Depois, do terceiro. E, ao quarto, farão a mesma pergunta? O meu temperamento joga muito mais com a dificuldade de escrever. Nos meus livros, vejo o que poderia lá estar, não o que lá está. E, portanto, acho sempre que estou em falta: que podia ser melhor, que podia ser mais. Isto, independentemente de prémios, de ser o terceiro romance, de confirmar o Prémio LeYa, o Prémio Saramago. Isso depois são outras contas. Vamos lá ver, não vou transformar um privilégio, uma coisa tão boa para a carreira, em algo de negativo. Seria muito injusto para tantos outros escritores ótimos. Acho que, de facto, é um privilégio poder ter leitores, um livro ter atenção. E quem sou eu para, agora, dizer que a pressão disso me limita. Simplesmente há uma questão de temperamento.
Como é que vives com isso?
Vivo com algumas paranoias.
É desgastante?
Mas todos os trabalhos têm os seus desgastes. E eu tenho a sorte de ser infeliz naquilo que me faz feliz. Quer dizer, poder dedicar-me à escrita, com as suas dúvidas, tensões e solidão... No fim, sou feliz nisso. Depois de um livro, esqueço o resto. Agora estou na ressaca. O livro saiu há um mês, e é tempo de o deixar caminhar sozinho.
Quem é a primeira pessoa que lê o que escreves?
A minha mulher, os meus pais e a minha editora, a Maria do Rosário Pedreira. São sempre os primeiros leitores. A Maria do Rosário Pedreira é uma grande leitora e uma grande editora, acompanha-me muito e é uma ótima ajuda. Os meus pais também são ótimos leitores, e o meu pai, sendo capitão miliciano, foi essencial neste livro para confirmar detalhes factuais e de época.
E aceitas as críticas dos teus pais?
A dureza é a melhor forma de amar. Lembro-me de o meu pai me dizer que certas passagens não estavam bem, que era preciso alterar, por questões factuais ou de ligação da história. E percebi, antes da entrega final, que o livro que eu achava que tinha escrito não era o mesmo que estava a ser lido. Foi preciso parar, adiar a entrega, e olhar para o texto com frieza, quase com uma atitude assassina. Mudei a ordem de capítulos, cortei outros a meio, alterei facetas de personagens. Numa espécie de vórtice final, dei-lhe a volta e transformei-o no livro que sabia que podia ser, mas que ainda não era.
O que é que estás a ler?
Neste momento, estou a ler o novo Prémio Nobel da Literatura [László Krasznahorkai]. Por pura curiosidade, confesso que nem consigo pronunciar o nome. Não o tinha, pedi-o à Antígona, e foram impecáveis: entregaram-mo à porta, pela Ana Lorena Ramalho. Nunca tinha lido nada dele. Estou nas primeiras páginas de O Tango de Satanás.
Tenho uma alegria enorme quando eu não conheço os Prémios Nobel. É um momento de descoberta pura. Acredito que os membros da Academia Sueca são, acima de tudo, bons leitores, e é com esse espírito que gosto de ler quem eles escolhem.
Por Rita Sousa Vieira
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