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THE LEGENDARY TIGERMAN EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A THE LEGENDARY TIGERMAN ENTREVISTA A THE LEGENDARY TIGERMAN

“Cada álbum que edito influencia o modo como toco as canções antigas”



Escrito em Paris e editado o ano passado, Zeitgeisto seu sétimo álbum, está “numa fase de crescimento ao vivo”. Vais poder confirmá-lo este sábado no FNAC Live, nos jardins da Torre de Belém, com entrada livre. Em conversa com a Cultura FNAC, Legendary Tigerman (ou Paulo Furtado?) promete o concerto de uma “banda muito rodada e muito feliz em palco”.

 





Já passaram alguns meses desde o lançamento de Zeitgeist. Qual é hoje a tua relação com o disco?

 

O disco e as canções estão numa fase de crescimento ao vivo. Os arranjos já são diferentes do que ficou registado em disco porque, para mim, as canções são sempre organismos vivos. Cada álbum que edito influencia o modo como toco as canções antigas. Eu sei que não há muitos artistas e muitas bandas a fazer isto, mas gosto de o fazer. Então, há canções mais antigas, de outros álbuns, que estamos a tocar com sintetizadores e com outro tipo de arranjo. A tour tem sido super bonita, acho que nunca tive uma tour em que sentisse que havia uma conexão tão grande entre o público e o palco. Acho que não são só as canções, também é o sítio onde estou que, de alguma maneira, provoca isso.

 

Já lá vão mais de vinte anos de relação com o público, isso não ajuda também?

 

Pode, pode, mas acho que a minha energia antes era mais... Como é que posso explicar? Sempre tive uma veia punk e provocatória, que levava o público um bocadinho além da sua zona de conforto. Agora, mantemos o espírito punk, mas, com esta formação, acho que é mais um momento de empatia, de celebração. Num mundo cada vez mais digital, precisamos de experiências comunitárias, que verdadeiramente nos toquem. É incrível quando isso acontece do palco para o público, e vice-versa. E tem acontecido.

 

Pensaste nisso ao transpor este disco para os espetáculos?

 

Acho que este foi o disco mais difícil de transpor para palco. Havia muita coisa que tinha de ser feita de maneira diferente e também não queria repetir o processo do Femina, com convidadas virtuais. Iria limitar o improviso e a liberdade de tocarmos as coisas de outra maneira ao vivo. Miraculosamente, descobrimos a Sara Badalo. A estreia aconteceu no Coliseu de Lisboa, no Super Bock em Stock.

 

Como é que se dá esse encontro?

 

Já estava um bocado desesperado por não encontrar ninguém que eu achasse que se enquadrava. Liguei ao Mike Ghost — “eh pá, é impossível não conheceres ninguém” — e foi ele que me deu o nome da Sara. Duas semanas depois, tivemos o primeiro ensaio e já estava tudo a fluir.

 

“A génese terá de ser sempre eu e a guitarra. Se for eu e um sintetizador tem de se chamar outra coisa qualquer”. Já te arrependeste desta resposta, dada numa entrevista ao PÚBLICO em 2018?

 

Não, não me arrependo. Acho que foi uma coisa infantil que disse na altura, mas adoro enganar-me e não tenho qualquer problema em retratar-me. Mas não me arrependo, acho que sentia isso naquele momento, estava a fazer um disco de guitarras e tive essa epifania. De facto, o Rock n’Roll precisava de outras coisas que não guitarras. Para mim, pelo menos.

 

Quando é que percebeste que os sintetizadores poderiam ser um novo caminho?

 

Foi numa noite que em que fui ver alguém a tocar ao Lux. Estava a ouvir o PA e a pensar que, de facto, faltava ali um espetro sonoro enorme que no Rock n’Roll normalmente não é utilizado. Porque não fazer como os Suicide faziam nos 70 e 80, por exemplo?

 

Achei que era o momento certo para, enquanto Tigerman, entrar no universo dos sintetizadores modulares, que normalmente usava mais em bandas sonoras. Cada vez mais faço música para cinema e para teatro. Hoje, é 70% do meu trabalho.

 

Este disco nasceu em Paris.

 

Zeitgeist foi todo escrito durante um período que passei em Paris, no ano em que o Femina estava a 10 anos [2019]. Estava a fazer uma residência que terminou num espetáculo e numa instalação chamada FeminaX. Paralelamente, o disco foi nascendo assim de uma maneira muito, muito natural.

 

Todas as canções do álbum são então resultado desse período?

 

Sim. Fiz outras depois, mas parecia que não faziam sentido neste bloco de canções. Se calhar por ter estado tantos meses sozinho em Paris com esse foco. Tudo o que escrevi fora desse período, dessa bolha, já não se enquadrava.

 

Porquê?

 

À medida que as canções foram sendo finalizadas e determinadas, num período de quase dois anos, as canções foram se tornando mais universais. É quase como se houvesse uma reflexão sobre o mundo. Este foi um disco que também foi muito maturado, até ao nível dos arranjos, teve mais tempo.

 

É isso que explica o título?

 

Sim, embora este zeitgeist seja também pessoal. Não posso dizer que a sonoridade do disco reflita o espírito desta época, mas, sim, talvez o meu.

 

O contexto de celebração do Femina contagiou algumas destas canções? A presença de várias vozes femininas é um ponto em comum entre discos.

 

No Femina, as canções foram escritas para as convidadas ou a pensar nelas e no seu universo artístico. No Zeitgeist foram as canções que me pediram os convidados.

 

[Asia Argento em Good Girl, Delila Paz em One More Time, Best Youth em New Love, Ray e Sean Riley em Bright Lights, Big City, Sarah Rebecca em Keep it Burning, Jenny Beth em Everyone, Calcutá em Once I Knew Pain e Anna Prior em Losers]

 

Faz sentido separar o Paulo Furtado, que assina bandas sonoras para filmes ou podcasts narrativos, do Legendary Tigerman?

 

É uma pergunta bastante pertinente. Já o discuti comigo mesmo, sobre o que, filosoficamente, é que faria sentido. Já o discuti também com management nacional e internacional, porque acho que é um bocado confuso, de facto. Acho que é uma pergunta super legítima e não tenho uma resposta neste momento. Se calhar, haverá um futuro onde, de facto, faz sentido assinar coisas como Paulo Furtado e outras como Tigerman.

 

Podemos dizer que o Zeitgeist é um disco menos Tigerman?

 

Não sinto isso. Escrever canções é uma coisa, compor bandas sonoras é outra completamente diferente. Escrever canções é uma coisa tortuosa, passam dias em que não acontece nada e outros em que as coisas acontecem de uma maneira muito veloz e de forma compulsiva. Escrever bandas sonoras vem de uma outra energia, vem com tranquilidade, com trabalho sobre imagens, com menos ego, não tem diretamente a ver comigo, mas com uma coisa muito maior.

 

Onde eu brinquei mais às bandas sonoras foi nos arranjos do disco, não foi na escrita das canções. Se calhar é por isso que há canções que não têm guitarras, mas também não sinto falta delas.

 

Li que a certa altura dizias que tudo soava a Suicide ou a Nine Inch Nails. A inclusão de uma versão da Ghost Rider é, de certa forma, uma homenagem a essas influências?

 

Os Suicide são para mim uma banda importantíssima. Sempre me identifiquei muito com o punk de Nova Iorque, com bandas como os Suicide, os Talking Heads, os Ramones. Todas com sonoridades completamente diferentes, mas que ficavam debaixo do guarda-chuva do punk e com um certo do it yourself com o qual me identifico. A postura punk não tem a ver com o fazeres as coisas com guitarras ou sem elas. Não tem absolutamente nada a ver com isso, e os Suicide deixaram-no bastante claro há muitos anos. Era impossível fazer um disco como este e não lhes prestar homenagem. Acho que é importante manter os repertórios vivos, sobretudo se os admiramos.

 

Já mencionei os Nine Inch Nails e o Trent Reznor tem dedicado os últimos anos exclusivamente às bandas sonoras. Mencionaste que hoje esse é 70% do teu trabalho, equacionas ou ambicionas que venha a ser 100%?

 

Provavelmente nunca será 100%, mas eu estou claramente a ir nessa direção. E eu adoro o palco...

 

Assumo que seja complicado em Portugal viver exclusivamente dos direitos dos temas de bandas sonoras....

 

Eu acho exatamente o contrário. É mais difícil ser um artista independente de música popular em Portugal.


Foi importante teres começado a produzir discos de outros artistas?

 

Eu gosto muito de produzir coisas de que gosto, não sou aquele tipo de produtor que vai produzir qualquer artista ou todos os géneros. Produzo coisas, primeiro, de que gosto muito, segundo, onde eu acho que possa ser uma mais-valia. Há artistas que eu recuso a produção porque acho que não sou a pessoa indicada, não vou acrescentar nada. Hoje tenho a sorte de, quer na produção, quer nas bandas sonoras, e em todo o trabalho que faço, ter a possibilidade de escolher só fazer aquilo que quero e em que realmente acredito. Às vezes é difícil poder fazer isso em Portugal.

 

Disseste numa entrevista que andas há dois álbuns a tentar não fazer CD's, porque odeias o formato. Há artistas que se queixam do contrário.

 

Vou ser honesto, eu nunca gostei do CD, nunca gostei do formato, nunca achei que funcionasse, era um formato da indústria. Sempre gostei do álbum em vinil e agrada-me a possibilidade de com o Spotify ou a Apple Music a minha música chegar a todo o lado — na prática não chega.

 

Mas, de facto, há uma grande crise na indústria, que tem muito a ver com as remunerações bastante ridículas, especialmente no Spotify, que os artistas recebem. É um negócio muito mais interessante para as grandes editoras, para as três grandes majors e para os grandes artistas, do que propriamente para os artistas independentes.

 

O Trent Reznor deu uma entrevista à GQ onde criticou o mundo do streaming, mais concretamente essas duas plataformas. Porque é que os músicos ainda não travaram esta batalha?

 

Há muita gente a tentar negociar melhores remunerações, por exemplo. A Apple Music paga melhor, mas depois há menos gente a ouvir. Esta é uma batalha muito difícil porque a um dos lados não interessa muito que as coisas mudem. A maior parte das editoras, as que têm um grande catálogo, estão bem. Quem não está contente é quem também não tem o poder para mudar as regras do jogo. Estamos também numa ditadura de números, que é um lado chato do digital. Não é um problema dos músicos, os atores queixam-se do mesmo. Se não tiverem números grandes no Instagram ou TikTok, não são contratados para séries e filmes, por exemplo. Há uma ditadura que estabelece a importância das coisas pelo seu alcance e não pela coisa em si. Sempre houve os tops, mas nunca antes tiveram tanta importância.

 

Foste capa da Rolling Stone francesa. Por cá, há cada vez menos páginas de cultura na imprensa e já nem há uma edição em papel dedicada exclusivamente à música. Como olhas para o panorama atual?

 

É muito triste, e mais uma vez isto é transversal a todas as artes. Cada vez temos menos filtros... Eu sempre gostei de crítica, acho que a boa crítica é uma coisa importante, quer para o público, quer para os artistas. Eu como público faz-me falta ter esse filtro, que pode ser excitante: "grande disco", "é capa de" ou "a crítica deu 5 estrelas". Isso faz-me sentido, mesmo quando a crítica é má. Ajudava muito os artistas independentes e quem leva a música um bocadinho mais paro lado da arte e menos para o lado do consumismo.

 

Por crítica, a Blitz considerou o Zeitgeist um dos discos de 2023, destacando que “este é outro Legendary Tigerman”. O que vem depois da reinvenção?

 

Mais reinvenção? Preciso de me sentir realizado com o que estou a fazer e não sentir que me estou a repetir. Essa é uma preocupação que sempre tive em qualquer coisa que faça na vida, mesmo noutras coisas fora da música. Espero ter sempre essa capacidade de me reinventar de uma maneira orgânica e natural. Por isso é que as coisas levam tempo.

 

O que podemos esperar do concerto no FNAC Live?

 

Podem esperar uma banda muito rodada e muito feliz em palco. Normalmente faço as setlists em cima da hora do concerto, o que chateia sempre os técnicos, porque é logisticamente mais complicado, mas eu gosto muito de sentir a vibe do sítio e das pessoas. Espero que se consiga criar essa comunhão, que tem acontecido e que tem sido super bonita nos últimos concertos.

 

O que é que estás a ouvir?

 

Acho que o disco que tenho ouvido mais, ultimamente, é um disco a que volto sempre quando estou feliz (e quando estou triste), e neste momento estou bastante feliz. É um disco que me faz sentido e traz conforto. Falo do Last of the Country Gentlemen, do Josh T. Pearson.

 

Por Rita Sousa Vieira

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