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TÂNIA MARQUES EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A TÂNIA MARQUES - MENÇÃO HONROSA NTF 2023- CINEMA ENTREVISTA A TÂNIA MARQUES - MENÇÃO HONROSA NTF 2023- CINEMA

“Queria que a minha curta fosse mais do que a minha dissertação de Mestrado”



Tânia Marques, menção honrosa da categoria de Cinema dos Novos Talentos FNAC 2023, gosta de meter as mãos na massa. A futura arquiteta aprendeu a técnica de stop motion de forma didata e cometendo erros. A curta O Senhor do Porto faz uma crítica ao mercado imobiliário da Invicta, mas não só.

 


O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC? 


Foi uma oportunidade. Quando vi as candidaturas pensei: 'porque não?'. Tinha a curta pronta, foi perfeito. Fi-la para a minha a dissertação de Mestrado de Arquitetura.

 

O que sentiste quando anunciaram o teu nome? 


Fiquei muito feliz, não estava nada à espera. Porque não tenho muito à-vontade em Cinema; o meu curso, como já disse, é de Arquitetura. 

 

A ideia é tua, o guião, o storyboard e a realização também. Não tiveste ajuda? 


Trabalhei nesta curta durante dois anos, entre 2021 e 2022. Foi tudo feito por mim, sozinha, apenas com ajuda do meu namorado nas gravações. Mas não me dediquei exclusivamente à curta durante esse período, também estava a trabalhar num estúdio de arquitetura. A minha rotina era esta: trabalhava, chegava a casa, comia e estava a trabalhar até às tantas da manhã na curta.

 

stop motion requer algum conhecimento técnico. Onde é que aprendeste? 


Foi uma coisa bastante autodidata. Desde cedo que gosto de mexer em coisas, meter a mão na massa. Aliás, fui para o curso de arquitetura com intenção de ser uma trolha. Aquilo que queria mesmo era construir, com as mãos, não bastava desenhar. Com o tempo comecei a habituar-me aos materiais e o curso também me ensinou a fazer maquetes, coisas como as regras básicas de cortar cartão. De resto, aprendi cometendo erros. 

 

Esta curta é uma crítica ao mercado imobiliário da cidade do Porto? 


Sim. A minha ideia original era construir uma curta-metragem em stop motion. Depois, em conversa com o meu orientador, chegámos à conclusão que seria muito mais interessante retratar um tema mais ligado à Arquitetura, até para os meus arguentes terem mais facilidade em comentar. Isto aconteceu numa altura em que queria mudar-me para o Porto e claro que fui exposta a todo este problema associado ao mercado imobiliário: do alojamento local, de ser cada vez mais complicado comprar uma casa, dos despejos, da migração para as periferias, da morte do centro das cidades. Quando andava à procura de inspiração, apareceram-me aquelas três casinhas que pareciam ter sido esquecidas pelo tempo. Uma coisa levou à outra. A história já estava lá, não foi preciso procurar muito.

 

Este Senhor do Porto existe? 


Não, ele representa os muitos senhores do Porto, não é inspirado em alguém em particular. Das três casas, a que inspirou a deste Senhor do Porto é habitada por uma senhora, que é artista, mas que não conheço a história. A casa que fica do lado direito está realmente à venda, em ruínas; a outra não é um Airbnb, mas na mesma rua existem cinco. 




 



A curta faz também uma crítica à descaracterização das cidades? O projeto do novo edifício não tem a traça que estamos habituados a ver na cidade do Porto. 


Sim. Quando desenhei o projeto que ia dar lugar aquelas três casas pensei muito na arquitetura que iria criticar, tudo aquilo que achava que aquele lugar não deveria ser, mais uma caixa com umas varandas...  Até me inspirei num edifício em concreto [no cruzamento entre a Avenida da Ponte e da Rua do Loureiro, perto da estação de São Bento], que deu polémica há uns tempos. Grandes arquitetos de renome até se juntaram para falar no assunto. 

 

Este é o teu primeiro trabalho deste género ou tens outros? 


Há uns anos fiz um pequeno videoclip, com uma música dos Imagine Dragons, para um concurso da Control. Para ganhar bilhetes para o NOS Alive fiz quatro bonequinhos, dos elementos da banda, e eles iam tocando. 

 

Que caminho gostavas que esta curta percorresse? 


Já andei a tentar perceber se era possível colocá-la num festival de curtas. Gostava muito que isso acontecesse, mas ainda tenho alguma insegurança. Queria que ela fosse mais do que a minha dissertação.

 

Quem são as tuas referências, qual foi a tua inspiração para este trabalho?


Tenho algumas referências visuais, porque desde muito cedo que sou fã de stop motion. Até mesmo sem saber o que era. Por exemplo, via o Bob, o Construtor e já achava que os bonecos eram diferentes. Gosto muito dos trabalhos do estúdio da LAIKA, alguns até nem parecem ser stop motion tal a qualidade. Para fazer o boneco do Senhor do Porto também me inspirei em alguns trabalhos, como o The Coin. Mas a minha grande referência é mesmo o Wes Anderson. 

 

Que outros projetos tens para o futuro, podes contar algum? 


Gostava de me desviar um bocadinho da arquitetura e experimentar ser designer ou algo desse género.

 

Conta-nos uma coisa que mais ninguém saiba.


Vou dizer um facto sobre mim que contei recentemente aos meus colegas de trabalho — porque surgiu em contexto de trabalho — com o qual ficaram incrédulos. Um pouco de contexto sobre a situação, o escritório onde trabalho faz recurso de modelos 3D e renders realista utilizando para tal imagens e texturas reais. Foi tirada uma fotografia a um vinílico que imita tecido para colocar no modelo, contudo, não se escalou a fotografia, fazendo com que a textura ficasse gigante, evidenciando um padrão irregular de círculos irregulares. Este processo não foi feito por mim. Em reunião, no fim do dia, a equipa reuniu-se para ver os trabalhos de todos os colegas, é então que imagens com este padrão gigante aparecem no ecrã. Eu viro imediatamente o olhar, começo com arrepios e a transpirar. Os meus colegas estranham.

Nunca tive alergias ou fobias, nem medo de qualquer atividade radical, desde montanhas russas malucas a saltar de paraquedas, mas descobri que tenho tripofobia, uma fobia a padrões irregulares que envolvam círculos, mais parva do que ter medo de balões. Penso até que ela nem é bem aceite na comunidade científica, mas a verdade é que existem certos tipos de padrões, como o Apple Mac Pro ou pior, as sementes da flor de lótus, que mais do que repulsa, me causam ansiedade. No outono passado uma loja de vidros, que fica no caminho entre a minha casa e o meu trabalho, decidiu expor na montra, dentro de um frasco de vidro sementes de flor de lótus, passei um mês a circular no passeio oposto. Ainda hoje os meus colegas gozam comigo quando surge um padrão semelhante pelo escritório.

 

Onde podemos seguir o teu trabalho?


Neste momento ainda não tenho um sítio. No futuro, espero publicar no YouTube.

 

Vê AQUI o trabalho vencedor e as duas menções honrosas na categoria de Cinema dos Novos Talentos FNAC 2023.

ENTREVISTA A TÂNIA MARQUES - MENÇÃO HONROSA NTF 2023- CINEMA
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