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O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC?
Trabalho em Farmácia e o meu contacto com a fotografia é relativamente recente. Só em 2020 é que decidi que queria saber mais, aprender e, de alguma forma, encarar a fotografia mais a sério. Quando fiz 30 anos percebi que estava numa fase em que queria lutar por aquilo que me fazia sentido e que me podia fazer sentir realizado. Foi aí que tentei saber mais sobre fotografia. Estudei no IPF [Instituto Português de Fotografia] e depois fiz a masterclass Narrativa. Tem sido um passo de cada vez. Os Novos Talentos FNAC são uma oportunidade para mostrar o meu trabalho.
O que sentiste quando anunciaram o teu nome e percebeste que tinhas vencido?
Senti que aquilo pelo qual tenho trabalhado, o que acredito que faz sentido transmitir através da fotografia, está a chegar às outras pessoas. É muito bom sentir que conseguimos transmitir essas emoções, essa forma de sentir.
De que trata Uma azeitona bordada em Azul?
Decidi fazer este projeto depois de, no início do ano passado, a minha avó se ter tentado suicidar. O que foi uma surpresa para mim e para os meus familiares, apesar de ela já se queixar que se sentia cansada ou que 'já não andava cá a fazer nada'. A minha avó sempre foi uma pessoa muito dedicada à família e nesta fase da vida talvez tenha sentido alguma falta de atividade. Os netos já estão crescidos, as capacidades também já não são as mesmas... Percebi que poderia ser bom utilizar a fotografia para tentar compreender o que a levou a tomar a decisão de meter termo à vida. Também foi uma forma de estar mais presente e de lhe dar mais algum apoio. O projeto passou por estar mais com ela no dia a dia, por ouvir todas as histórias que ia partilhando, e por observar o efeito que a minha presença, que se tornou mais assídua, teve junto dela. Fui sentido, com o passar dos meses, que ela estava mais motivada para desempenhar várias tarefas lá em casa, para cuidar do jardim... Durante estes meses fizemos, e continuamos a fazer, muitas caminhadas. Para mim isso é o principal, não foi só uma troca durante o período em que decorreu o projeto, foi uma aprendizagem que adquirimos e que daqui para a frente se possa manter e se possa continuar a construir.

Que idade tem a tua avó?
77 anos. Durante os últimos meses estive todos os dias com ela, partilhámos muitos momentos, coisas só nossas, onde se inclui a fotografia. Mas a fotografia foi só uma parte desta partilha, fez parte de algo muito maior. A fotografia permitiu-me criar memórias que, de outra forma, não existiriam.
Frequentaste a Masterclass Narrativa 2022. Qual a importância dessa formação para o teu trabalho?
A Masterclass teve um papel essencial, fez-me olhar para a fotografia de outra forma. Algo que já procurava, mas que ainda tinha alguma dificuldade em identificar. Foi essencial na forma como comecei a encontrar os vários simbolismos que pretendia transmitir através da imagem e na forma como fui estruturando o projeto.
Quando é que surge o interesse pelo desenvolvimento de projetos documentais e autorais?
Quando estava a estudar fotografia no IPF comecei a fazer muita fotografia de rua. Durante o segundo ano do curso, percebi que a abordagem que estava a ter era demasiado superficial. Ou seja, aquilo que mostrava era aquilo que era visível. Comecei a sentir que isso era pouco, era oco mesmo, que a fotografia podia ter uma força mais intensa e um impacto bastante maior se a utilizássemos de uma forma mais subjetiva. De uma forma que sugere, que questiona e que, de alguma forma, nos cause desconforto em relação a certos temas. É nessa perspectiva que talvez surja o meu interesse na fotografia documental ou autoral, mas tenho alguma dificuldade em catalogar.
A tua área de formação é Farmácia. Como é que a fotografia pode servir como uma medicação e em que doses a prescreves?
Numa fase inicial, a fotografia era muito um escape. O momento em que eu estava só comigo e com a fotografia. No dia a dia é muito bom termos esses momentos que são só nossos. Obviamente que é bom socializar e partilhar experiências com outras pessoas, mas também é bom termos tempo para estar só connosco e para nos conhecermos melhor. Só assim percebemos qual é o nosso propósito, o que é que pretendemos fazer e como o queremos comunicar. A fotografia cria esse espaço de reflexão.
Quem são as tuas referências?
É uma pergunta difícil. Em termos nacionais, gosto muito do trabalho do Augusto Brázio, do Tito de Morais e, numa perspectiva mais alargada, do Jack Davison, do Christopher Anderson ou do Alex Llovet.
Que material utilizas?
Para fazer este projeto utilizei uma Lumix GX9 e flash.
Já estás a trabalhar noutros projetos, podes revelar quais?
Este projeto é muito recente e sinto que ainda não está totalmente terminado, há algumas coisas que ainda posso melhorar. Pensando em novos projetos... Para mim, sempre fez sentido fazer uma coisa de cada vez e dar um passo de cada vez. Nunca fiz grandes planos a longo prazo, durante este período em que me dediquei mais à fotografia. É mais importante é dar o meu melhor todos os dias do que estar a fazer perspectivas do que é que vou fazer daqui a seis meses.
Conta-nos uma coisa que mais ninguém saiba.
O título. Escolhi-o numa fase mais avançada do projeto e era importante que viesse de mim ou da minha avó, sendo um projeto tão pessoal. Logo desde o início, quando comecei a fotografar e a estar mais presente, comecei a gravar as conversas que tinha com ela. No início isso causou-me algum desconforto, porque parecia que me estava a apoderar de algo demasiado privado, mas comecei a ouvi-las e percebi que não. Essas conversas iriam continuar a ser só nossas e íntimas. Dependeria só de mim se elas viriam a ser partilhadas. Foi muito bom perceber que estava a guardar uma memória sonora, que poderia ser eterna, e foi mesmo tendo como matéria essas gravações que escolhi o título. Comecei a ouvir todas as horas de conversas gravadas na busca de algo que fosse realmente importante para a minha avó. Numa dessas conversas, ela está a descrever o vestido que levou quando fez a Primeira Comunhão, descreve o tipo do tecido e há uma parte onde diz que o vestido tinha vários recortes e dentro de cada um tinha uma azeitona bordada em azul. Quando ouvi esta gravação, tive imediatamente a certeza que era este o título.
Onde podemos seguir o teu trabalho?
Podem encontrar-me através do Instagram, em @rui_costa_pt, e do meu site, em rui-costa.pt.
Vê AQUI o trabalho vencedor e as duas menções honrosas na categoria de Fotografia dos Novos Talentos FNAC 2023.