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O que te levou a participar nos Novos Talentos FNAC?
Já acompanho os NTF há bastante tempo, tendo aí conhecido o trabalho de vários fotógrafos que passei a admirar. Pelo que também sempre tive vontade de participar num prémio que já é um marco na divulgação de talentos emergentes nacionais.
O que sentiste quando soubeste que tinhas sido distinguido com uma menção honrosa?
Bem, não tendo podido estar presente na cerimónia, foi com grande surpresa, mas também orgulho, que me vi entre os trabalhos escolhidos. Confesso que não o esperava no momento da candidatura, dado o número de participações que imagino terem existido, mas foi de facto muito especial para mim ter esta distinção.
De que trata o projeto Delta?
O Delta é um projeto que comecei a desenvolver nos últimos dois anos e que representa um trabalho de reaproximação ao Ribatejo, região de onde são as minhas origens, e que esteve presente de forma muito marcante na minha infância, mas da qual me afastei bastante já em idade adulta, até agora. Decidi fazer um trabalho de exploração do Ribatejo tentando evitar julgamentos e guiando-me por ele sem rumo definido, quase como numa viagem sem outro propósito que não o de perder-me pelas suas particularidades, gentes e tradições, tão característicos do mesmo e ao mesmo tempo tão comuns a qualquer lugar.

Este projeto pôde ser visto no Celeiro da Patriarcal, no âmbito da bienal de fotografia de Vila Franca de Xira. Essa foi a tua primeira exposição, como correu? Para quando uma em nome individual?
No último ano concorri ao prémio da bienal de fotografia de Vila Franca de Xira, tendo sido um dos selecionados para a exposição final. Na exposição havia trabalhos fotográficos bastante distintos, o que de certa forma me causou alguma estranheza ao ver o meu trabalho exposto dessa forma. Obviamente que foi um orgulho também ser selecionado, mesmo com as limitações a que uma exposição conjunta tem inerente. Para já não tenho ainda planos para uma exposição do trabalho a título individual, penso que antes gostaria de avançar para um livro, mas ainda está tudo bastante no ar.
Como é que a fotografia surge na tua vida?
A fotografia surgiu relativamente tarde na minha vida, enquanto me dedicava já ao curso de engenharia, no IST, em Lisboa. Surgiu como hobby nessa altura, mas rapidamente tomou um espaço enorme na minha vida e desde aí nunca mais larguei, quer a nível profissional quer como atividade que procuro desenvolver a título mais pessoal.
Que fotografia te arrependes de não ter tirado?
Este projeto tem vindo a ser desenvolvido de acordo com a minha disponibilidade, com grandes pausas pelo meio, pelo que estou sempre na dúvida se ponho termo ou não. Neste momento já me sinto mais realizado com o que desenvolvi, mas gostava de ter fotografias de ainda maior intimidade com as pessoas que fotografo e, nesse sentido, penso que são essas as fotografias que ainda tenho um pouco em mente, mas são sempre imprevisíveis e espero ainda conseguir fazer.
Fala-me sobre os The Framers.
Os Framers surgiram no seguimento de querer experimentar trabalhar em fotografia. Eu e a Filipa, a minha companheira, decidimos lançar a marca já em 2012, quase à experiência, e a verdade é que todo o percurso tem sido uma surpresa muito agradável, chegámos a sítios que nunca esperávamos e temos tido bastante sucesso, felizmente. É um projeto todo nosso, criado de raiz e isso dá-nos grande satisfação.
Os casamentos foram um dos setores afetados pela Covid-19 e obrigou ao cancelamento de todos os trabalhos. A pandemia colocou também algum tipo de obstáculo ao desenvolvimento da tua linguagem autoral?
Sim, na verdade estivemos um ano e meio completamente bloqueados da nossa fonte principal de trabalho, claro que foram surgindo algumas coisas, mas muito pequenas e que não chegavam para tapar a perda. Ainda assim, acabei por aproveitar para dedicar mais tempo aos meus projetos pessoais, que normalmente só posso realizar numa fase muito curta no início do ano, na época mais baixa de trabalho, pelo que assumo que o período da pandemia foi até bastante interessante para mim em termos de desenvolvimento e aproveitamento de outras oportunidades. Foi quando comecei o projeto Delta.
Quais são as tuas referências?
Tenho uma série de referências bastante distintas umas das outras, uma vez que inicialmente era fascinado por fotógrafos de rua, com composições mais elaboradas e uso de cor entusiasmante como Alex Webb, Harry Gruyaert, Saul Leiter, Matt Stuart, com quem fiz um workshop em Londres pouco antes da pandemia. Entretanto, sentindo que me faltava algum propósito na fotografia pessoal, comecei a procurar outras coisas, e nesse sentido comecei a interessar-me por fotógrafos como Alex Soth, Gregory Halpern e Bryan Schutmaat, que muito me inspiraram no Delta, por exemplo.
Que material usas?
Gosto muito de experimentar bastante equipamento e formatos, pelo que uso de tudo, sendo que neste projeto utilizei essencialmente médio formato, quer em filme, com uma Mamiya RZ67, quer digital, com uma Fuji Gfx 50sii.
Que outros projetos tens para o futuro, podes contar algum? Por exemplo, o que estás a desenvolver com a Bolsa Master em Fotografia Artística 2021-2022, do IPCI (Instituto de Produção Cultural & Imagem)?
Na bolsa do IPCI foi onde desenvolvi uma boa parte do projeto Delta, foi uma grande oportunidade que tive para desenvolver o projeto e ter o acompanhamento de professores fotógrafos que foram dando a sua opinião sobre os resultados que ia tendo. Penso que é um processo bastante útil principalmente nas alturas em que nos sentimos mais perdidos na realização de um projeto fotográfico e estou bastante grato ao apoio que me deram.
Conta-nos uma coisa que mais ninguém saiba.
Este projeto foi uma grande quebra em relação à linguagem fotográfica que tinha até aqui, e isso resultou do sentimento que tive no projeto anterior, também de fotografia de território, mas em que o meu afastamento das pessoas que fotografava era enorme e me causou bastante desconforto, sentia que estava a "roubar" algo às pessoas sem lhes dar nada em troca. No Delta, optei por uma aproximação muito maior, daí ter-me decidido por retratos mais formais às pessoas que fui encontrando e me disponibilizaram algum tempo, acabando por desenvolver uma relação de confiança com elas. Este acesso à intimidade das pessoas que fotografei acabou por se revelar umas das partes mais interessantes do projeto.
Onde podemos seguir o teu trabalho?
Vou publicando o meu trabalho, nomeadamente os meus projetos, no meu website, ou então de uma forma mais leve, através da minha conta de Instagram (@rodrigomsvargas).
Vê AQUI o trabalho vencedor e as duas menções honrosas na categoria de Fotografia dos Novos Talentos FNAC 2023.