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O que significa para si o Prémio José Saramago?
Era um sonho para mim, tenho uma relação bastante afetiva com o Prémio Saramago. Depois de o ter ganho, algumas pessoas escreveram-me e percebi que não sou o único. Li quase todos os livros do Saramago, alguns deles são mesmo os meus livros preferidos. Só o nome do Saramago já faz o meu coração bater mais rápido.
Esta não foi a primeira vez que concorreu. Em 2017 já o tinha feito com o livro Rebentar, que será editado em Portugal ainda este ano. O que sentiu quando soube que ganhou?
Na altura, o prémio era para livros já publicados e o limite de idade era 35 anos — e eu já tinha 35. Concorri com aquele sentimento de que essa seria a minha última hipótese, não iria ter tempo de escrever e publicar um outro livro antes de completar 36 anos. Nesse ano, o Prémio Saramago foi ganho pelo livro do Julián Fuks, que também é brasileiro e um amigo. Fiquei triste, claro, mais por saber que não haveria outra hipótese e que teria de viver com a ideia de que não teria um Prémio Saramago.
Passou um tempo, escrevi o Dor Fantasma, e não o consegui publicar no Brasil. Estava com alguma dificuldade em lidar com esse fracasso quando ouvi uns rumores de que o prémio ia mudar e que o limite de idade ia ser alterado. Mas, lá está, não passavam de rumores. No final de 2021 saiu um novo edital e esses rumores confirmaram-se, as candidaturas passaram a ser apenas para livros inéditos. Era a minha última chance, de novo. Até pensei escrever outro romance, mas acabei por enviar o Dor Fantasma, um livro que sentia que não tinha dado certo, que algumas pessoas não gostaram, que algumas editoras recusaram. Um dia estava em casa, em teletrabalho, e ligam-me. Não sei como é que é aqui em Portugal, mas no Brasil as empresas de telemarketing são muito chatas. Já nem atendo as chamadas de número desconhecido porque penso que são propaganda. Quando vi um número diferente pensei não atender, mas atendi, ouvi um burburinho de fundo, bem típico de telemarketing, e desliguei. Só que fiquei com aquilo na cabeça, pesquisei o número no Google, não apareceu nada, mas dizia que o indicativo era de Portugal. Portugal? Liguei de volta...
Nesse momento pensou que poderia ser uma chamada do Prémio Saramago?
É curioso como a nossa mente tem subterfúgios. Nunca pensei: “deve ser do Prémio Saramago”. Quando liguei atendeu-me a Guilhermina Gomes, que se apresentou como a presidente do júri do Prémio. Pensei que ela fosse dizer: “recebemos o seu livro, mas desculpe, não foi dessa vez”. Quando ela disse que tinha vencido, foi como uma bomba atómica, eu desmontei no chão. Comecei a chorar e a rir ao mesmo tempo, não era uma performance, porque eu estava sozinho em casa. Foi uma reação física muito grande. Nessa jornada, de muita derrota, de muito fracasso, até pensei que a literatura já tinha terminado para mim... De repente, num lance de palavras, saí do fundo do poço para o meu maior sonho. Foi muito forte, muito impactante.
Tem tatuada no braço a frase "ninguém lho tira". Ela está relacionada com esse telefonema?
De tudo o que a Guilhermina me falou, essa é a única frase que me lembro. Não me lembro de ela ter dito que tinha ganho, que o livro tinha ganho. Estava a chorar e a rir ao mesmo tempo, a falar coisas sem sentido. Contei toda a minha vida, começou a sair tudo, a importância do Prémio, tudo. Aí ela falou: “É seu, ninguém lho tira”. Isso foi muito forte. Eu lido com depressão e sabia que estava a entrar numa fase complicada, porque quando a gente tem depressão, sentimos o cheiro da coisa se aproximando. Quando ela me deu essa notícia, isso teve um impacto tão grande, que quero guardar essa sensação.
Teve o seu primeiro livro de contos rejeitado por várias editoras, este livro também o foi. Itamar Vieira Junior dizia, numa conversa com a FNAC, que sempre gostou dos concursos literários porque são mais justos com autores não publicados. Também sente isso?
Eu gosto disso, concordo. Recebi o Prémio SESC de Literatura também através desse modelo de candidatura. Até gostava que existissem mais prémios desses. Quando entramos ou tentamos entrar em editoras, há outras questões que têm uma grande influência no processo: o mercado, compadrios...
O Itamar falava até na geografia, no eixo Rio-São Paulo.
Exato, até a sua posição geográfica. São tudo coisas que não deviam importar para a edição de um livro. Digo-o como leitor, não como escritor. Quando leio coisas do Itamar, do Celso da Costa (que venceu este ano o Prémio Leya), da Clarice Lispector, da Lygia Fagundes Telles, da Adriana Lisboa, que diferença faz onde nasceram ou onde moram? Não vejo nenhum leitor a dizer "esse escritor não é do eixo Rio-São Paulo, eu não o vou ler". São só as editoras que falam isso, é só marketing. Acho legal quando o critério é só o texto porque é só o texto que importa. Quando faço oficinas de escrita falo sempre nisso, “atenção aí a esse prémio, pode valer concorrer”. Vão receber centenas de inscrições, sim, mas talvez seja uma chance em quinhentas, e numa editora é uma num milhão.
Qual foi o primeiro livro que leu do Saramago, recorda-se?
Lembro, claro, porque é, até hoje, uma referência gigante para mim. É o meu livro preferido, foi o Ensaio Sobre a Cegueira. Mudou a minha forma de olhar para o mundo, e não tem elogio maior que se possa fazer a um livro do que esse. Engraçado como se perguntar a 10 pessoas diferentes qual o seu livro favorito do Saramago, vamos ter 10 livros diferentes como resposta. O que é incomum, com outros autores a resposta costuma ser semelhante.
Até nisso o Saramago não é consensual.
E em geral, acho que o livro favorito é sempre o primeiro que se leu dele.
Como é que essa referência se manifesta na sua escrita?
Depois de ganhar o Prémio, muita gente me perguntou qual influência do Saramago na minha escrita, e não conseguia responder, não a conseguia rastrear. Decidi reler alguns livros, como o Memorial do Convento, e começar outros pela primeira vez, como o Levantado do Chão, que estou a ler neste momento. Na verdade, o Saramago influenciou-me tanto que eu deixei de perceber em que medida. É um pouco como aquela história de que os peixes não sabem o que é a água, porque a água é tudo, não existe outra coisa. Mas acho que há uma influência na escolha de um narrador mais participativo, quase intrusivo, e no nome das personagens. Na obra do Saramago os nomes das personagens são muito marcantes da sua personalidade. Rômulo Castelo foi um modo Saramaguiano de batizar uma personagem. Quando falamos no Memorial do Convento pensamos logo na Blimunda; no Ensaio Sobre a Cegueira na mulher no médico. Na minha literatura, como na do Saramago, as personagens são muito fortes.

Dor Fantasma fala sobre um artista que não pode criar, foi esse o ponto de partida para o livro. Não é autobiográfico, mas era assim que se sentia quando começou a trabalhar como escrevente num tribunal?
É um livro muito pessoal, na verdade. Utilizo-me de uma personagem muito diferente... Porque iria ser chato se escrevesse que o protagonismo é um rapaz, entre os 35 e os 40 anos, que trabalhava com música, que passou num concurso e começou a trabalhar no Tribunal de Justiça... É quase como se utilizasse uma máscara onde me revelo mais do que a expor o meu rosto. Um pianista que passa aquilo que o Rômulo passou fala muito mais sobre a situação que eu atravessava naquela altura do que eu a tentar narrar a minha história. O plano até era escrever outro romance, que não era o Dor Fantasma, e no meio aconteceu isto, que mexeu muito comigo. Eu não mudei apenas de emprego, a minha vida mudou, senti que estava a perder parte de mim.
Pensou em alguém específico ao criar a personagem do Rômulo Castelo? De Paul Wittgenstein, que perdeu o braço na I Guerra Mundial, e que refere no livro, ou no caso do pianista brasileiro João Carlos Martins, que por motivos de doença refez a sua carreira?
A princípio não, tinha apenas uma ideia de um pianista que deixou de tocar, de alguém que deixou de ser quem era. Alguém para quem a sua identidade era vital e não aceitava outra. Ele só consegue ser aquilo, só consegue tocar. O Rômulo não é sobre essas pessoas, mas claro, essas histórias entraram um pouco no meu escopo de referências. Ainda que o Paul Wittgenstein seja citado no livro.
Sem querer revelar muitos detalhes do livro, o Rômulo tem também algumas semelhanças com o João Carlos Martins.
O que vou contar acho que ainda não disse a ninguém. Havia uma cena do livro em que o João Carlos Martins era mencionado, sem referir o seu nome, mas percebia-se de quem se estava a falar. Alguém falava para o Rômulo sobre o João Carlos Martins, e ele desancava-o completamente. Acabei por retirar esse trecho porque era uma cena desnecessária. Na personagem do Rômulo as duas questões essenciais são a perda da identidade e a paternidade. É dessa fusão que nasce a história.
Como aconteceu com o Rômulo, também lhe foi incutida essa ideia da perfeição?
Em algum grau, sim. É um dos temas do livro e foi uma luta pessoal. As pessoas podem ou não gostar do livro, podem criticar e dizer que é chato, mas ninguém vai olhar e dizer que o texto é desleixado. Há um certo zelo e rigor na minha escrita. Essa exigência vem da minha família, sim. Uma exigência muito implícita, a mensagem subliminar era sempre a de que precisava de ser excelente, de ser o melhor, porque o mundo é difícil, e se não for o melhor, se sair da linha, é o caos, é a perdição. Um pouco como no livro.
Estudou música, teve bandas, e até é frequente partilhar interpretações à guitarra de canções no seu Instagram. Recorreu às suas experiências musicais para escrever este livro?
Sim, também. Eu vim da música popular, tocava rock'n'roll, bossa nova, MPB, jazz. Mas no Brasil, as Universidades, pelo menos nas públicas, elas são voltadas para a música clássica. Na Universidade onde estudei quase não se falava sobre música popular, era quase como se não existisse. Se há um país onde isso não devia acontecer é o Brasil... Não podemos fazer isso num país que tem o Chico Buarque.
O Rômulo não é um professor meu em específico, mas também não é muito diferente da maioria deles. Tive professores ótimos, mas também tive alguns que eram essa figura. Toda essa experiência... Não toco bem piano, mas não precisei de falar com pianistas para saber como funciona o piano, como é o estudo, eu tinha esse estofo. A música clássica está muito ligada a um certo conservadorismo, a essa ideia do desempenho, de tocar de maneira perfeita. É um ambiente propício à tirania, o caldo que precisava para criar o Rômulo.
Como é que o meio da música clássica reagiu ao Rômulo, alguém lhe disse algo?
Uma pessoa escreveu-me a dizer que leu o livro e que ficou muito tocado por ele. Essa pessoa tinha estudado música, feito o Conservatório e tocado numa Orquestra. Toda a gente lhe dizia para seguir essa vida, para se tornar um maestro, mas saiu porque não conseguia lidar com esses Rômulos. É meio triste ver que há essa tirania no meio. Eu entendo que tenha de haver dedicação, mas a música precisa de ser uma fruição. Essa foi a única reação que tive, mas talvez nos bastidores do meio alguém esteja a falar mal do livro, a dizer que o Rômulo está certo.
Por que razão escolheu a obra de Liszt, que é quase uma personagem do livro?
Eu estava naquela fase... A fase da criação de uma história é meio angustiante para mim. O Rômulo podia ter três filhos, podia ser solteiro, podia ser mil Rômulos diferentes. Há que fazer escolhas, escolhas que são difíceis. Foi aí que me lembrei da Rondeau Fantastique, dessa lenda que corria há muito tempo, uma peça que ninguém tocava, só o Liszt quando era vivo. Isso era uma conversa que circulava em alguns meios musicais, na era pré-Internet. No início a ideia não era que o Rômulo se focasse num compositor em específico, mas quando comecei a juntar as peças, pensei que seria legal que ele tivesse esse ídolo, que o seguisse quase de forma religiosa. Era a história perfeita para o Rômulo.
O livro está dividido em quatro partes. Essa divisão está relacionada também com a música, de que forma?
São sessões típicas de peças musicais, da música clássica. Na música popular há o refrão, a estrofe, a introdução; a música clássica também tem essa organização estrutural. Pensei que seria interessante brincar com isso, quase como se o romance fosse uma peça em quatro movimentos. A primeira parte do livro é a Coda, que em geral é o final, quando já aconteceu tudo, mas ainda há um trecho a encerrar. Pensei que seria interessante porque marca o fim da vida da vida do Rômulo tal como ela era. Numa composição, a segunda parte é a Exposição, onde se entrega o tema principal; no livro é o acidente. A terceira é o Desenvolvimento, onde a música é desenvolvida; no livro é o pós-acidente. O final é a Cadenza, que seria o típico momento a solo de um artista; no livro é quando o Rômulo fica sozinho. Todas as partes têm uma certa ironia, e são o oposto do que se preveria numa peça.
O Rômulo perde várias oportunidades de refazer a própria vida…
O Rômulo é uma figura do "não", é quase como se fosse o negativo de uma fotografia, com as cores invertidas. Há frases que em vez de escrever na forma afirmativa, como poderia ser até o mais comum, como "deixa a porta fechada", eu escrevo "não abre a porta". É intencional. É difícil escrever um romance que sabemos que o leitor não vai torcer pelo protagonista, em que este não vai ser o seu herói. Então, como engajar? Não do ponto de vista comercial, mas como fazer que essa história tenha validade, que as pessoas achem que vale a pena ler. Não queria que as pessoas tivessem pena, por o Rômulo ter tido o acidente. Ele já era amputado antes, já era um monstro. O trauma releva algo que já estava latente, o acidente agravou, mas ele sempre foi assim.
Já li que adoraria ter o Dor Fantasma adaptado ao cinema. Que ator gostava que aceitasse fazer de Rômulo Castelo?
Depois de assistir ao Tar, adorava que a Cate Blanchett fizesse de Rômulo. Se ela fez de Bob Dylan... Seria o Rômulo perfeito.
Já tem planos para um novo livro?
Estou a juntar as peças do próximo livro. Tendo o coração da história, as personagens começam a desenhar-se, surgem nomes, os rostos...
O que está a ler e, já agora, a ouvir?
Estou a ler o Levantado do Chão, um dos poucos que nunca tinha lido do Saramago. A ouvir... Dizem que o nosso gosto musical pára na adolescência, mas por agora estou numa fase de ouvir mais rock, como Rival Sons ou Tyler Bryant & The Shakedown.
Por Rita Sousa Vieira
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