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Como surgiu a ideia deste encontro?
Já há algum tempo que a APEL estava a tentar encontrar uma forma de criar um espaço de discussão pública, com todos os intervenientes do setor, à volta do futuro da edição e da educação. No ano passado, em conversas com o Presidente da República, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa considerou que isto era um elemento absolutamente necessário para podermos começar a construir índices de leitura e de literacia mais aproximados aos da União Europeia, e sabendo da Festa do Livro em Belém, que o Presidente organiza em conjunto com a APEL, achámos que seria uma ideia feliz associar um ao outro. Isto é, tendo nós, a partir do dia 31 de agosto, a Festa do Livro em Belém, nos Jardins do Palácio - uma Feira muito centrada nos escritores e escritoras portuguesas - achámos que podíamos ter previamente dois dias de conversa, de discussão e de debate.
A quem se destina?
Um dos primeiros objetivos era que este fosse um encontro que tivesse a presença de todos os intervenientes do setor, de escritores a escritoras, de executivos, de pensadores nacionais e internacionais, homens e mulheres, que estão de alguma forma, direta ou indiretamente, ligados aos grandes desafios que o setor enfrenta. Foi a partir de aí que começámos a construir um pouco este programa, que consideramos que está muito feliz.
O setor enfrenta hoje mais desafios do que no passado, ou a dimensão dos desafios é agora maior? Como a Inteligência Artificial, por exemplo.
Desde a invenção da rádio que se vaticinou a morte do livro. Depois foi a televisão, depois foi o cinema, depois foram as plataformas de streaming... O que é certo é que o livro continua aqui. Depois declarou-se o óbito do livro em papel, mas nunca se venderam tantos livros em papel como hoje — pelo menos no mundo ocidental, onde temos mais dados. Desde o final do século XIX até hoje, os desafios foram sempre muitos. O que é importante é a forma como olhamos para eles. Se os encararmos como uma ameaça, obviamente que temos muita dificuldade em navegar aquilo que se defronta, mas se olharmos para estes desafios como uma oportunidade, então provavelmente podemos continuar com o livro na base do desenvolvimento de uma sociedade.
A Inteligência Artificial apresenta uma série de questões. A APEL e a Federação Europeia de Editores, onde estou também no comité executivo, têm trabalhado com a Comissão Europeia para perceber como é que podemos proteger os direitos dos autores, e de que forma. É uma conversa que está a ser tida, mas isso não significa virar as contas às enormes possibilidades que a IA pode trazer ao trabalho do dia-a-dia de um editor. Que pode ir de trabalhos muito invisíveis, como otimizações na área logística, até à tradução de um texto ou aos audiobooks. Já temos audiobooks feitos com essa tecnologia, mais centrados na mensagem do que na qualidade da leitura, com resultados muito meritórios, e que permitem, por exemplo, o acesso de pessoas com deficiência visual a uma série de obras que antes não estavam disponíveis.
E qual o papel dos leitores no Book 2.0 Apel?
Obviamente que os leitores têm de ter um papel fundamental. Como referia antes, o objetivo deste Book 2.0 é ter presentes todos os agentes do setor. Do escritor à escritora, do leitor à leitora. Aliás, vamos ter, em variadíssimos painéis, grandes leitores — como o Paulo Portas, o Anselmo Crespo, o Ministro da Educação e o da Cultura. E na audiência, idem. O evento está aberto a todos os que queiram estar presentes. Neste momento já temos muito poucos lugares, por isso quem quiser ir que se inscreva rapidamente.
Qual o papel da leitura nos dias de hoje?
Para nós, APEL, a leitura é essencialmente uma ferramenta crítica. A leitura não é apenas um hábito que nos preenche o tempo, que usamos para entretenimento ou para aumentar o nosso conhecimento. Também o é, mas, acima de tudo, a leitura é a ferramenta básica que nutre a nossa língua, que nos permite conhecer a nós mesmos e transmitir aos outros os nossos sentimentos. Além disso, e igualmente importante, é uma ferramenta que forma um espírito crítico perante a realidade. O que é especialmente importante num momento em que o mundo apresenta uma complexidade difícil de discernir, onde as fake news imperam, onde as teorias da conspiração tornam-se verdadeiras, onde os factos são confundidos com opiniões. Se nós não formos leitores, se não cedermos aos grandes livros, teremos uma enorme dificuldade em conseguir nutrir a nossa língua, de lutar e ginasticar a nossa imaginação e, perante isso, teremos mais dificuldade em perceber qual o nosso papel no mundo.
Mais do que nunca, pelo tempo que vivemos e pelas incertezas que enfrentamos, isto é absolutamente fundamental. É por isso que juntamos, nestes dois dias, muita gente que vem apresentar o seu ponto de vista pessoal ou profissional. Como é o caso do Tim Oates, investigador da Cambridge University Press & Assessment, que tem um profundo conhecimento estatístico do que são os modelos educacionais, quer do presente quer do futuro, que estudou em detalhe o que hoje acontece em Hong Kong e em Singapura, que apresentam sistemas educativos com resultados extraordinários, mas também outros, com resultados mais deficientes, como o modelo português, italiano ou grego. Isso permite ter um insight muito importante daquilo que é o modelo de aprendizagem que temos de dar às próximas gerações, se queremos formar uma sociedade mais evoluída, mais empreendedora, mais capaz, mais democrata, mais inclusiva.
Estamos muito contentes com os painéis. Acredito que mais do que meras conversas, em que cada um vai debitar uma série de informações, vamos tentar encontrar soluções, ideias, projetos concretos que, no final, resultem naquilo que tenho chamado de o Livro Branco da Educação e da Cultura. Isto é, ações concretas que os decisores políticos, a sociedade civil e todos os atores envolvidos, desde os escritores aos editores, podem tomar de forma a capacitar e dotar os portugueses de ferramentas que permitam uma evolução muito mais capaz.
Esse Livro Branco será divulgado depois do evento?
Sim, vamos ter um relatório muito detalhado, não só sobre aquilo que foi debatido nos vários painéis, mas de todas as ideias concretas apresentadas. Vamos ter pessoas que, ao longo do evento, vão estar única e exclusivamente a tirar as tais ideias que forem apresentadas. Dou já um exemplo: ainda agora tive uma call muito interessante com o Ministro da Educação, que estará no evento, e que já apresentou um conjunto de ideias muito interessantes que, se forem bem executadas e chegarem a tempo, podem permitir que a escola volte a ter um papel fundamental.
Um papel fundamental na promoção da leitura?
A escola tem um papel fundamental, tanto como a família e o agregado familiar. Por isso, foi muito interessante nesta call ouvir o Ministro. De facto, há ideias muito interessantes, algumas já em fase de implementação, que podem fazer com que a escola seja um motor de promoção da leitura e não, como hoje é, um motor de canibalização da leitura. Se chegamos ao Ensino Superior ou à vida profissional sem ter a capacidade crítica de interpretação de texto, como é que vamos interpretar a realidade? Se nós não formarmos o nosso espírito crítico, baseado em factos, como é que vamos conseguir viver? Não estou a dizer que a escola substitui a família, mas é um processo linear; a partir dos onze, doze anos, as crianças passam mais tempo na escola do que em casa, e é fundamental que os professores, e a escola, nomeadamente a escola pública, consiga continuar o trabalho das famílias.
O que é que é preciso fazer mais?
Havendo uma enorme desigualdade no acesso ao livro entre as várias classes sociais — a partir da classe média baixa para baixo, sobretudo —, têm de existir políticas públicas que corrijam isso. Aí entra a medida que a APEL trouxe para Portugal: o cheque-livro. Essa pode ser uma forma de alisar um pouco as desigualdades e garantir acesso ao livro a quem não o tem. Da mesma forma que é importantíssimo que as bibliotecas, quer as públicas quer as escolares, tenham também esse papel. Por um lado, porque fora de Lisboa e do Porto, e até de muitas capitais de distrito, não existem livrarias e o acesso ao livro é complicado. Muitas vezes aqui, em Lisboa e no Porto, parece que é normal sentarmo-nos a falar sobre livros, mas a realidade fora destes dois centros urbanos é outra completamente diferente. Aí as bibliotecas públicas e escolares têm um papel fundamental. Nos últimos anos fez-se um trabalho extraordinário na construção e renovação de bibliotecas, temos espaços extraordinários do ponto de vista físico, mas que, depois, estão vazias de livros. Preferia a altura em que as bibliotecas quase não tinham janelas, mas tinham livros. Não podemos continuar a achar que o betão é que vai permitir que a cultura possa desenvolver-se. Podemos reconstruir o Teatro D. Maria II, como estamos a fazer agora, mas se não tivermos uma programação que dê acesso a toda a gente, não vale de nada. É mais um edifício para os turistas verem.
Este é um evento sobre o futuro do livro e da leitura, mas também da educação...
Estamos a focar a questão da leitura, mas a questão do futuro da educação é relevantíssima. É um setor que está a passar por enormes desafios, desde o envelhecimento dos professores à utilização ou não de formatos digitais em sala de aula. Muitas vezes olhamos para a educação e para a cultura, neste caso para a leitura, como algo acessório, quando para nós está na base. A leitura é uma coisa tão importante como beber água todos os dias, não é uma coisa que fazemos quando estamos duas semanas de férias.
Tal como um livro, o evento está organizado por grandes capítulos.
Está organizado em três grandes pilares. O futuro da educação, o futuro da leitura e do livro e um terceiro, para mim muito importante, que é o pilar da inclusão e sustentabilidade. O setor do livro tinha a obrigação de ser um setor progressista, mas, paradoxalmente, somos um setor muito conservador. Cerca de 80 a 81% dos editores são mulheres, mas olhamos para os quadros executivos e elas não estão presentes. Portanto, vamos ter uma série de conversas importantes, mas desconfortáveis para os editores. Porque é na altura em que causamos desconforto que as coisas evoluem, de forma civilizada e moderada.
No evento vão ser revelados os resultados de um estudo, conduzido pela GFK, sobre os índices de leitura em Portugal. Podem ser antecipadas algumas conclusões?
Vamos começar o evento no dia 31 de agosto com a apresentação de um estudo detalhado sobre os hábitos de leitura, algo que não é feito desde 2004. Recebemo-lo há poucos dias e, de facto, os resultados são muito surpreendentes. E ainda bem que o são. Temos informação muito concreta, por exemplo, sobre as desigualdades regionais, económicas e da forma como as pessoas acedem ao livro. As discrepâncias entre faixas etárias e de género também são muito interessantes. Estamos muito entusiasmados, acho que faz falta trazer esta conversa para o centro do debate e de deixarmos de olhar para a leitura e para o livro como mais um objeto de luxo.
Em 2022, o INE fez um estudo que dizia que 58% dos portugueses não tinham lido um livro no último ano. Fui ver o estudo e a temática era a do consumo de bens de luxo. Achei extraordinário que o Instituto Nacional de Estatística tivesse classificado o livro como um bem de luxo. Isto dá uma ideia muito clara do que temos de desconstruir: o livro não deve nem pode ser um bem de luxo.
O evento é gratuito, mas só há 340 lugares. Quem não conseguir a entrada ou não tiver forma de se deslocar a Lisboa, como pode ter acesso? Vão transmitir o evento ou pensam depois disponibilizar estas conversas?
Estamos muito surpreendidos com os resultados, as inscrições estão a superar as nossas expectativas. No pós-evento vai sair um relatório, que vai ser público, e vamos disponibilizar as conversas em áudio, em formato podcast. Vamos agora reunir e avaliar outras possibilidades, como a gravação de vídeo.
Que leitura fazem desta adesão?
Vou dar uma leitura otimista e uma mais pessimista. A otimista é mais fácil, o mercado do livro tem crescido em Portugal nos últimos anos. Depois do confinamento, houve um novo interesse à volta do livro, temos mais pessoas a ler e a comprar livros. É uma tendência que é muito clara em quase todos os países da Europa Ocidental, nos EUA ou no Canadá. As pessoas já não conseguiam mais ver Netflix ou estar com a família, olharam para o lado e viram a sua salvação no livro. O confinamento trouxe muitos leitores, e as redes sociais, nomeadamente o TikTok, também. O mercado continua a crescer, em termos de compra — e no evento vamos perceber o que é que isso significa, se a compra continua a ser para oferta ou para consumo próprio. Do lado mais pessimista, diria que o facto de ser no Picadeiro Real, no Palácio de Belém, e gratuito, ajuda. Se, ainda assim, 30% ou 40% das pessoas saírem do evento a pensar e a refletir, é uma aposta ganha.
É um evento de uma só edição ou é para ter continuidade?
Queremos que seja anual, queremos que todos os anos o Book 2.0 seja o momento da apresentação de um estudo anual dos hábitos de leitura, algo que nunca foi feito em Portugal.
Sobre os oradores, o leque de nomes é bastante amplo e vai do mais político ao mais académico. Do escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez à booktoker Maria João Faria, passando pelos ministros da Educação e da Cultura. Foi uma preocupação, a diversificação das vozes?
O grande objetivo era ter todos os intervenientes no setor, desde os tais intelectuais ou académicos, passando por escritores e escritoras de variadíssimas gerações e modelos, alguns no cânone e outros que nunca lá estarão. Aliás, teremos a Yasmina Laraudogoitia [Responsável de Políticas Públicas e Relações Governamentais do TikTok Espanha e Portugal] e o Michael Tamblyn [CEO da Kobo], que virão a Portugal apresentar novos formatos e novas formas de consumir conteúdos literários. Como também teremos a Maria Neira [da OMS] a falar sobre a questão da sustentabilidade, que também é outro tema crítico neste setor, que gasta muito papel e é um setor que, na sua base, poderá ser considerado poluente e tem uma missão para melhorar esse processo. Essa diversificação responde ao propósito de ter todos os intervenientes do setor. Não quero ouvir só os escritores e as escritoras, não quero ouvir só os executivos. Temos de falar todos em conjunto, que é o que acho que falta nesta área. Há muitos festivais literários onde se encontram escritores, reuniões à porta fechada com os executivos... Aqui o objetivo é juntarmo-nos todos e dialogar.
Podemos esperar alguma novidade sobre a entrada em vigor do cheque-livro?
Para nós, o mais importante é que a componente operacional do cheque-livro seja pensada, refletida e definida com tempo. Obviamente que é uma medida que consideramos urgente, sabemos que há muitas famílias que estão a passar por situações complexas e o cenário macroeconómico não é o mais favorável. No entanto, o sair este ano ou no princípio do próximo é irrelevante. É irrelevante, calma: se todo o processo for simples e não um pesadelo burocrático. Um miúdo de 18 anos deve aceder a um voucher, ir a uma livraria, comprar e descontar; do outro lado, o livreiro terá de ter capacidade para o transmitir a quem de direito e receber esse valor. Isso para mim é o mais importante, não são os grandes anúncios. E recordo, o cheque-livro não é uma medida para um ano, é uma medida para ficar.
O que estás a ler neste momento?
Na verdade, estou a reler. Estou a acabar a Trilogia de Smiley, do John Le Carré, um dos meus escritores favoritos. Comecei por A Toupeira, depois o Ilustre Colegial e estou agora a terminar A Gente de Smiley. Para mim, o George Smiley talvez seja uma das personagens literárias mais fascinantes alguma vez criadas. Acho que todos temos um pouco de George Smiley. Tinha lido tudo em separado, mas, desta vez, com férias, resolvi pegar nos três quase como uma espécie de missão. Antes tinha feito o mesmo com a Berta Isla e com o Tomás Nevinson, do Javier Marías, que também li tudo de seguida, mas estes pela primeira vez.
Por Rita Sousa Vieira