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2020 ou 20-20, que disco é este?
2020. Foi um ano que não sei se já terminou na cabeça de muita gente. Não só na cabeça como no corpo, porque é capaz de ter deixado algumas mossas. Dá-me a sensação que sim, deixou. A Covid-19 teve coisas más, muito más, ainda estamos a lutar contra algumas, mas também teve coisas boas. Eu tive tempo para a minha família, falámos, e estivemos à mesa, coisa que, de um modo geral, não era possível; lá havia um dia ou outro, mas era sempre, sempre a correr.
Este 2020 é o resultado desse ano em casa, em que fui fazendo músicas. Exceto uma, são tudo originais. Fui fazendo e fui passando ao meu companheiro de música de há muitos anos, o Fernando Abrantes, que é também o meu engenheiro de som nos espetáculos. Passava-lhe as ideias através do telemóvel, e ele devolvia a dizer: "está perto" ou "está pronto". E assim fomos desenvolvendo o trabalho.
Então quer dizer que está a ser ‘cozinhado’ há quatro anos?
Sim, há bastante tempo. Com gente de quem eu gosto e que convidei para cantar; gente muito boa, com quem habitualmente não trabalhava. E esta gente mais nova, felizmente, tem o seu estúdio em casa e tem hipótese de gravar as suas coisas.
Foi a primeira vez que trabalhaste neste registo, com trocas à distância? Alguns músicos já tinham passado por essa experiência e adaptaram-se mais facilmente a esse processo durante a Covid-19.
Foi uma necessidade absoluta, não costumávamos fazê-lo. Talvez devido à minha forma de ser, eu sou muito de tocar nas pessoas e de falar, não é pelo telefone ou pelos e-mails, e não sei quê. Não quer dizer que não entenda, não quer dizer que não utilize, mas francamente não me agrada muito.
És o tipo de pessoa que liga a um amigo a perguntar como é que ele está?
Sim, sim. São poucos, infelizmente. Estou a chegar aos meus 77 anos e começo a olhar para o lado e há uma série deles que já não estão cá. Bem me diziam que isto tinha a ver com o avançar da idade. Eles vão-se embora, e um dia destes hei de ser eu. Mas tudo bem, enquanto não for, há muita vontade de fazer, muita vontade de trabalhar e de fazer coisas. Tudo isto dá-me prazer e alimenta-me.
A capa do disco simboliza um ano que ficou em branco?
Não tem o meu nome, não tem nada, nem à frente nem atrás. Para mim, acabou por não ser, mas para a maioria das pessoas foi um ano em branco. E continuo a dizer, como disse no princípio da nossa conversa: ainda estamos a aprender muita coisa. Estamos a aprender a viver depois de aquilo que nos aconteceu.
E estamos a perceber, sobretudo, que não ficou tudo bem.
Eu acho que não, ficaram maleitas. Não é o meu caso, felizmente, mas há quem tenha desenvolvido problemas complicados de saúde depois de 2020.
Havia a esperança de que seríamos melhores pessoas depois da pandemia, e não foi bem assim.
Penso que não tem só a ver com a pandemia, mas com os desenvolvimentos no resto do mundo. Guerras que eclodiram e que não dá para entender. São guerras de estupidez. Não consigo entender como é que gente com o poder que tem na mão provoca tanto mal ao seu semelhante. Mas há lugares onde não há guerra e as coisas estão a acontecer da mesma maneira entre os habitantes, como nos Estados Unidos. Como é que é possível... Quanto mais andamos para a frente em termos de desenvolvimento, temos este desenvolvimento.
Esse ficar em casa com a família levou a que dois dos temas tenham como título os nomes das tuas filhas mais novas, Maria e Flor?
Não são dois, são três. O Do Amor foi feito para a minha companheira. A Maria e a Flor são as nossas crianças mais pequenas. Bem, [isso] é uma forma de dizer, que a Maria já tem 20 anos e a Flor vai fazer 16. Numa canta comigo o Tó Cruz — TC —, na outra é o filho dele, o Midas. O que é que se tira daqui? Tira-se um prazer muito grande e ao mesmo tempo uma certa expectativa. O que é que o júri vai dizer? Ou seja, o público. O público, quando conhece, quando sabe que existe, tem a sua opinião. Negativa ou positiva, mas tem sempre uma opinião muito forte.
“Quando sabe que existe”, porque hoje é mais difícil fazer chegar ao público novos trabalhos?
Eu penso que sim. Há muita gente nova, e não só, em Portugal a fazer boa música e a cantar bem. Portanto, sendo muitos, cada vez é mais difícil divulgarmos o nosso trabalho. Digo nós porque eu estou no grupo. Sou mais velho, mas estou no grupo. É-me tão difícil a mim, com os anos que tenho disto, como a uma pessoa que está a começar. Tentamos... Olha, é o que estamos a fazer aqui. Estamos a falar do meu trabalho. Vocês dão-me essa oportunidade, que eu agradeço.
Num documentário da RTP dizias que, a dada altura, se gravavam discos ao ritmo que os jornais saíam. Qual é o de hoje?
Nós, ali por alturas de 1975-76, e não tinha nada a ver com política partidária — mas tinha a ver com política, para mim tudo é política —, fazíamos as músicas, gravávamos à noite, o disco era fabricado pela madrugada e saía logo de manhã. Eram singles, logicamente, portanto uma música de cada lado. Hoje é diferente, pois é, mas hoje muita coisa também é diferente.
Esses anos foram vividos intensamente?
Intensamente, a correr, com muita coisa boa, muitos disparates pelo meio, mas foram anos maravilhosos.
O que se perdeu nessa corrida?
Já disse isto muitas vezes. O que é que não se ganhou? Uma coisa que para mim seria importantíssima e nunca se fez. Vão-me desculpar, ou não, em relação a esta minha ideia, mas a revolução cultural nunca se fez. E era essa que me interessava, basicamente. Porque é essa que leva, depois, as pessoas a procederem de uma forma correta, não só com a Terra onde vivem, mas com o seu semelhante.
Há várias ideias do que é a revolução cultural. Qual é a tua?
É aquela que desenvolve, fundamentalmente, a educação, a fraternidade e o humanismo. Isso, acho, nunca foi feito. Imediatamente nos meteram na cabeça que a economia é que era. Dinheiro, dinheiro, dinheiro, automóvel melhor... E as pessoas deixaram-se ir. Se houvesse revolução cultural, provavelmente não nos tinham conseguido meter isso na cabeça.
Já que estamos em 1976, nesse ano lançaste o M.P.C.C - Manuel Paulo de Carvalho Costa. “Vivíamos numa de elevada politização, em que me colocavam frequentemente a este ou aquele partido. Com esse título, disse que o meu partido era eu próprio, e que a sigla era aquela”, contas na tua biografia — 60 anos de cantigas. Que bandeiras é que o M.P.C.C. hoje defenderia, o que é que estaria no seu programa político?
Era o mesmo, exatamente o mesmo. Deixa-me dizer uma coisa, que assim fica já dito. Cada vez que que alguém chega ao pé de mim, de jornais ou da informação, porque provavelmente foi à minha ficha técnica, diz que fiz o hino do PSD.
Do PPD.
Eu não fiz o hino do PSD, fiz o hino do PPD. Um partido com o qual me identificava na altura. Se me perguntarem hoje: "o que é que tu és?", eu estou mais próximo de ser um social-democrata do que outra coisa qualquer. Isso não invalida, atenção, que de 1980 a 87, numa época da nossa vida coletiva em que achei que era necessário estar ali, eu tivesse sido militante do Partido Comunista Português. Agora dirás, mas tu és comunista? Não, não sou. Mas era útil estar ali, quis participar e foi ali que estive durante sete anos.
Curiosamente, filiaste-te depois da vitória da Aliança Democrática (AD).
Filiei-me na segunda-feira de manhã depois da vitória da AD. Foi a primeira vez — para não falar de agora — que o PCP, que na altura era a APU, a Aliança Povo Unido, sofreu uma derrota grande. Se calhar, muita gente é capaz de dizer: "então, quando estão a perder é que tu vais...". Pois, nessas ocasiões é que se veem as pessoas, não é quando se está a ganhar, quando se está a ganhar é fácil.
Fizeste vários hinos, não foi só esse do PPD, como também várias músicas para causas sociais. Porque é que nunca fizeste um para o Benfica?
Sei lá, nunca falei com ninguém nem nunca ninguém falou comigo.
Mas és sócio vitalício do Benfica.
Andei lá a jogar à bola quando era miúdo. Não tem importância nenhuma, as pessoas é que querem dar essa importância. Tens razão, nunca fiz [um hino], mas o Benfica tem hinos muito bons e muito bonitos, e que fazem todo o sentido. Aqui há tempos fui ao Estádio da Luz ver um desafio, fui convidado por esta nova Direção do Rui Costa, e, inclusive, deram-me um prémio como músico, vamos dizer figura pública, que também foi atleta. Fiquei muito satisfeito e até foi um amigo que me chamou a atenção para o que se estava a passar. [Estava a dar] Uma música, que era, nem mais nem menos, do que a Lisboa, Menina e Moça, só que orquestrada para que os benfiquistas que estavam no estádio pudessem, a determinada altura, dizer Benfica. Fiquei todo satisfeito.
E o Carlos do Carmo também ficaria?
O Carlos do Carmo era um benfiquista escondido atrás da camisola do Belenenses, digo eu. Ele gostava dos dois clubes.
Voltando ao 2020. Todos os temas são originais, à exceção de um, O Cacilheiro, para o qual um jovem, que muitos conhecem por Agir, escreveu novos versos.
Isso tem uma história. Aqui há uns bons anos — curiosamente, no dia em que estamos a gravar [o Bernardo] faz anos — ele andava comigo na estrada e cantava duas músicas. Uma das coisas que ele fazia era rappar com este texto n’O Cacilheiro, que eu já cantava de uma forma que não era fado. Aproveitei esse texto e acrescentei uma coisinha ou outra. Até para dizer à malta mais nova, sobretudo à do rap, que já se dizia poesia na música, mesmo na cantada. Isso não é uma novidade.
O José Cid anda há uns valentes anos a dizer o mesmo.
Ainda bem, para ele e para mim. Quer dizer, se há pessoa que sabe do que é que está a falar é ele.
Rodeaste-te ao longos destes anos — mais de 60 — dos melhores de cada geração: Ary dos Santos, Pedro Osório, Bernardo Costa... Consideras o Agir um dos grandes nomes desta nova geração? Esta pergunta não é para o pai.
Eu consigo distinguir as coisas, até pode ser para o pai. O pai também tem ideias em relação aos filhos, e às vezes até sou demasiado duro. Eu acho que ele já provou o valor que tem. Não é preciso estar para aqui a dizer que ele é bom a fazer isto ou aquilo. Ainda por cima, é uma pessoa que tem uma forma de ser e de mostrar o que faz que me dá algum prazer. No sentido em que é um provocador, e eu gosto que o seja; atira-se às coisas que faz e as pessoas atiram-se a ele. Umas gostam muito, outras não gostam nada. É natural.
Alguém que agrada a todos...
Eu costumo dizer que a unanimidade é uma chatice.
Os pais normalmente não dizem que têm filhos favoritos, mas os músicos dizem-no.
Mátria.
Ainda é esse o favorito?
Não posso dizer que não tenha feito uns quantos discos giros, engraçados, bons até, mas esse é aquele de que gosto mais. Por variadíssimos motivos. Para já, porque é um CD feito com textos de mulheres portuguesas. O próprio título leva-nos para a Natália Correia, o Mátria é dela, ponto. Depois, há uma pequena história que a maior parte das pessoas não sabe: a minha atual companheira, com quem já vivo há 25 anos — 25 anos e duas filhas —, apareceu justamente para fazer a capa desse disco. Ela tem o curso superior de Belas Artes, convidei-a para fazer, e olha: dura até hoje.
No 2020, é dela um desenho no booklet. 25 anos depois...
Exato, mas não foi de propósito. Juro que não foi.
Na tua biografia, que foi lançada pelos 60 anos de carreira, dizes que havia duas formas de se ficar conhecido: ou era pelo Festival da Canção, pelo qual passaste por várias vezes, ou era sendo proibido. A censura, de certa forma, deu-te algum descanso.
Deu-me um descanso completo, nunca me chateou. Provavelmente porque eu, infeliz ou felizmente, nunca dei motivos a isso. Eles preocupavam-se mais com gente como o Zeca Afonso, o Adriano Correia de Oliveira, o Zé Mário [Branco], o Sérgio [Godinho]. Nunca fui perseguido, nunca fui antifascista, vamos dizer assim.
O que não quer dizer que não eras contra o regime.
Antifascista é um lutador, e eu nunca fui lutador nesse sentido. Logicamente que não estava a favor da opressão... Repara, eu era muito mais da música do que dos textos, vamos dizer assim. Na altura andava a tentar aprender a tocar bateria, cantávamos em inglês [com os Sheiks], tentávamos imitar as bandas que vinham de fora.
Fizeste parte de várias editoras (MoviePlay, Orfeu, Valentim de Carvalho) e foste um dos fundadores da cooperativa artística Toma Lá Disco. Hoje és um artista independente?
Sempre fui mais ou menos independente. Na medida em que, de um modo geral, fiz sempre aquilo que queria fazer. Perdi muito com isso. Em determinadas alturas, se eu tivesse estado mais sossegadinho, provavelmente tinha ganho mais. Mas foi uma luta constante, ainda é. Tenho todo o meu material numa editora e gostava muito que este disco tivesse saído por ela, para ficar tudo junto. Só que não quiseram. Portanto, isto também serve para dizer aos mais novos que nós, os com não sei quantos anos de carreira, não estamos à vontade, também temos de ir à luta.
Vai ser complicado esta nova geração conseguir ter uma carreira com a longevidade da dos "rapazes da tua geração”?
Eu acho que é. As circunstâncias levaram a isso e nós fomos fazendo. O tempo foi passando... Já passaram mais de 60 anos. Quando e porque é que começou? Não sei, nem nunca me preocupei muito com isso. Preocupava-me, sim, a música que ia fazendo todos os dias. Com quem é que fazia, o que é que resultava daí, não só em termos culturais, mas também até em termos económicos. Eu vivo disto há 60 anos! Tempos melhores, tempos piores, mas vivo disto há 60 anos. As minhas preocupações eram essas, não eram tanto "e o que é que eu vou ser?" ou " em que direção é que eu vou?".
Foste empurrado para a bateria.
Fui, fui.
E para onde é que a empurraste?
Nunca mais pude tocar, eu não moro numa vivenda. Consigo ter um entendimento muito bom com os meus vizinhos, se tocasse bateria se calhar não tinha. Mas para o que eu toco... Já houve um tempo em que não era mau de todo, neste momento seria mau. E tocar sozinho é uma chatice, pá. Aquilo é para tocar com mais músicos.
É curioso, agora lembraste-me uma coisa. Como diz o outro, as conversas são como as cerejas. Aqui há uns tempos, quis praticar um projeto novo, com dois bons amigos, o André Sarbib, um grande pianista do Porto, e com o Filipe Lucas, um guitarrista do fado. Precisávamos de um local com piano para ensaiar, para desenvolver um bocado as nossas ideias. Sabíamos minimamente o que é que queríamos, mas não tínhamos começado a tocar. Falei com pessoal da direção do Hot [Club] e a resposta foi: "deixa, vou ver se há lá umas salas de ensaio". Vamos embora!
Daí a um tempo, pouco tempo, chegaram ao pé de mim e dizem: "tu já podias ter dito". Dizer o quê? "Falámos com o Binau [Bernardo Moreira] e ele disse que a primeira bateria que o Hot teve foi a tua, deste a tua bateria". Dei? Pronto, ok, porreiro, ainda bem que serviu para qualquer coisa. Isto é viver, e viver às vezes abre portas que nós nem estávamos a sonhar. Para onde é que empurrei a bateria? Olha, empurrei para o Hot.
É um bom sítio.
É maravilhoso, é o melhor de todos.
Há pouco perguntava sobre a censura e queria chegar ao E Depois do Adeus. Foi exatamente pela censura não andar em cima de ti que ele foi escolhido como primeira senha para a Revolução.
É uma cantiga de amor. Ainda que muitas frases daquele texto tenham sido escritas pelo José Nisa em cartas à mulher questionando o porquê de estar em Angola, numa guerra onde não queria estar: Quis saber quem sou / O que faço aqui / Quem me abandonou / De quem me esqueci.
O Movimento dos Capitães precisava de uma música que servisse para avisar o Salgueiro Maia e o pessoal de Santarém — só vim a saber disto anos depois, atenção — que podia sair do quartel. “Quem, quem?” [A escolha recaiu no] Zeca Afonso e no Venham Mais Cinco. Mas não dava, porque a PIDE estava atenta. O Zeca Afonso estava proibido de cantar na rádio... Foram ter com o João Paulo Diniz e [foi ele que sugeriu]: "E se fosse a música deste ano do Festival da RTP?". "Pá, o José Niza até é um dos fundadores do Partido Socialista. O Paulo e o Zé Calvário são malta nova da nova música portuguesa ligeira. Então está bem, mais tarde [passamos] a Grândola Vila Morena...".
Eu aproveito sempre para dizer, quando me fazem essa pergunta, que se alguém deve estar na história, e devia estar até mais do que está, logicamente que é o Zeca Afonso. Pela sua obra, mas fundamentalmente pelo cidadão que foi. Tenho pena que só meia dúzia de professores é que deem o Zeca Afonso nas escolas, porque devia ser do programa oficial. Melhores tempos virão? Não sei. Já passaram 50 anos, essa coisa ‘dos melhores tempos virão’? Hum, a ver vamos.
Como é que a tua relação com o E Depois do Adeus mudou nestes 50 anos?
É uma grande canção, mas é uma canção, a meu entender, musicalmente muito datada dos anos 70. É uma peça. Não posso deixar de a cantar — essa e outras —, porque devo isso ao público, sobretudo às pessoas que gostam de mim. Portanto, canto. Agora, como é que eu canto? Tento renovar a forma de cantar. [Recentemente] Tive mais um exemplo, neste último Festival da Canção, com os arranjos do Filipe Melo, que fez um arranjo que me levou a cantar de outra maneira.
Combinámos tudo, mas antes de a ouvir, disse-lhe: "Olha, se não te importas, aquilo é para partir tudo. Faz o que tu quiseres e depois adapto-me". Daí ter respondido ao Vasco Palmeirim, quando me perguntou o mesmo que me estás a perguntar, que cantar é como viver, é um ato de inteligência.
Neste 2020, o tema que encerra o disco responde a alguns dos versos de E Depois do Adeus. Quis saber quem sou – sou o que dou / O que faço aqui – não me perdi / Quem me abandonou – sabe onde esto u/ Porque eu nunca fugi…
É uma autobiografia. Sou eu, servindo-me da música, a responder a uma série de perguntas.
Como é que olhas hoje para o festival da Eurovisão?
Está pior do que era naquela altura, apesar de já não ser muito bom. Ou seja, havia combinações, havia uns acordos. Naquela altura havia um grupo francófono e um grupo de malta do inglês, e era uns contra os outros.
A entrada dos países do bloco de Leste, depois, vai mudar um bocadinho isso.
Completamente. Culturalmente, lá está. É melhor? É pior? Não faço ideia e não gostaria de falar disso.
Já não tens curiosidade?
De um modo geral, não. Aqui há uns aninhos, poucos, vi o Salvador Sobral. Como é que uma cantiga, que é boa, ganhou aquilo? Será que ganhou por cansaço do adversário? A malta não se lembra de várias coisas, mas é muito dispendioso fazer-se o festival no país.
Por isso é que se diz que, em várias edições, quase vencemos, mas...
Não sei se foi só isso, mas enfim, até determinada altura... Na minha, inclusive, e eu tenho provas disso, a questão era política. Depois vinham os amiguinhos, aqueles amiguinhos que eram chatos... A Espanha que deu dois votinhos, o Luxemburgo, onde há muitos portugueses a trabalhar, um votinho, e eu saí de lá com três votos. Quando o melhor era ter saído de lá com zero.
Até à vitória do Salvador, éramos o país com maior número de participações sem uma vitória. É por isso que vencemos pelo cansaço?
Digo isto meio a brincar.
A Eurovisão é política; quem ainda não se apercebeu disso, vive errado.
Política e negócio.
Nesta edição, mais de 200 artistas portugueses apelaram ao boicote da Eurovisão. Os signatários exigem à União Europeia de Radiodifusão (UER) a proibição da participação de Israel. Juntas a tua voz a este pedido?
Eu não sabia disso e, francamente, não me importo de juntar. É lógico que não estou de acordo com o que o Governo israelita, e não confundir com o povo israelita, está a fazer. Sobretudo porque ainda tenho idade para saber o que é que lhes fizeram a eles. O Holocausto existiu.
A tua definição de liberdade mudou ao longo destes 50 anos?
Não, as liberdades é que têm sido diferentes. Quase de ano para ano, de década para década. A liberdade é o respeito, isso é o mais importante.
Onde é que vais estar no 25 de Abril?
Em Grândola. Vou estar a cantar de 24 para 25. Provavelmente, à meia-noite, estarei em cima do palco. E depois de mim canta o Agir. Vai ser bonito.
Quando é que o Agir percebeu que o pai era a voz de uma das senhas da Revolução?
Nunca falámos disso. Francamente, não sei. O momento exato? Não faço ideia quando é que isso aconteceu, nem com ele nem com os meus outros filhos.
O que é que estás a ouvir?
Tenho um herói — tenho vários, mas há um que é o maior de todos, que é o Pat Metheny. Um dos meus cantores preferidos, o Al Jarreau, já nos deixou há muito tempo, mas ainda tive oportunidade de o ver. Depois, [oiço] gente menos conhecida, por exemplo, há um cantor americano, que também já nos deixou, mas era um fulano com uma voz excecional, o Lou Rawls. [Posso mencionar] Tanta gente... O Brad Mehldau, o Chick Corea, o Herbie Hancock. Sou da música instrumental, pronto.
Por Rita Sousa Vieira