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“Olá, o meu nome é Maria Francisca Gama, sou escritora, e o meu último livro, A Cicatriz, já está disponível em todas as livrarias do país.” Esta é a frase com que inicias a maior parte dos teus TikToks. Pretexto para perguntar quando é que te assumiste, pela primeira vez, como escritora.
Acho que só este ano, até então fazia muitas outras coisas e a minha profissão principal não passava por escrever. Quando dizia qual era a minha profissão, acrescentava que também escrevia. Mas agora, como tudo aquilo que faço é relacionado com a palavra, quando me perguntam o que é que eu faço profissionalmente respondo que sou escritora.
A palavra escritora é pesada?
Tem o peso de sentir que estou a trabalhar naquilo que sempre quis, mas não é mais pesada do que qualquer outra profissão.
A Cicatriz já está na sétima edição. Esperavas este sucesso?
Não. Quando publiquei A Profeta, em 2022, creio não ter chegado a muitos leitores. As pessoas não conheciam o meu trabalho, e ainda que eu e a editora tenhamos tentado reverter isso, acho que não fomos especialmente bem-sucedidas. Portanto, quando entreguei A Cicatriz na [editora] Penguin Random House, não tinha motivos absolutamente nenhuns para achar que ia ser diferente da última vez. É com muita surpresa que sei que A Cicatriz vai na sétima edição.
O que pode ter mudado? Foi o livro, foi alguma estratégia de promoção — nas redes sociais, por exemplo —, ou foram os leitores que só agora te descobriram?
Em primeiro lugar, acho que os tempos são outros, ainda que só tenham passado dois anos. Há cada vez mais pessoas a ler e isso potencia, naturalmente, para qualquer escritor, o seu número de leitores. Mas acredito que no caso de A Cicatriz tenha a ver com a intimidade que é exposta e com a procura cada vez mais pelos leitores, principalmente os da minha geração, de histórias com as quais se possam relacionar e nas quais se consigam facilmente encaixar e pôr no papel da personagem. Depois, tenho a certeza que ajudou o trabalho que desenvolvi nas redes sociais, ao longo destes dois anos em que partilhei as minhas leituras, em que me fui tornando, de alguma maneira, um perfil a seguir quando não se sabia o que ler. Em terceiro lugar, e o mais importante, estão os leitores; é graças a eles que o livro está na sétima edição.
Numa entrevista posterior à publicação de A Profeta, reconhecias que havia algum preconceito por seres mulher e jovem, ao ponto de equacionares retirar a tua fotografia de um futuro livro. Mas, quando abrimos A Cicatriz, ela está lá.
E estou com ar muito sério.
Ainda sentes esse preconceito?
Sim, acho que é difícil não sentir. A única coisa que posso fazer é esperar que os anos passem e que envelheça. Relativamente a ser mulher, falo sobre estes temas numa ótica de grupo e olhando para a sociedade. Ser uma jovem mulher continua a ser um fator que não entusiasma a maioria dos leitores. E muitas das mensagens que recebo até começam por aí: 'ouvi falar deste livro e fiquei tão surpreendida por ser uma menina, uma miúda'. Pelos vistos, parte-se do pressuposto de que sendo uma miúda o leitor não pode gostar do livro.
Porque é que fizeste questão de destacar que estás com um ar sério na fotografia? Não podias estar a sorrir?
Fiz uma sessão fotográfica para o livro e na maioria das fotografias estou a sorrir, até porque é essa a minha posição de descanso. Selecionei esta fotografia porque acho que me faz parecer mais velha. Foi propositado. De alguma maneira, pode fazer com que um leitor mais velho que agarre no meu livro não o pouse por causa da minha fotografia.
Já debateste esse tema com outras escritoras?
Sim. É ponto assente que aspirar a qualquer reconhecimento, nomeadamente a prémios, antes dos 45-50 anos, é demasiado ambicioso. Apesar de achar que as coisas estão a mudar, ainda há mais homens a serem premiados em Portugal do que mulheres. E a média de idades está bastante longe da idade que eu tenho hoje.
Como é que te sentiste por ser a primeira escritora a fazer parte da lista da Forbes Portugal 30 Under 30 2024?
Bem, aí foi uma das situações em que ser jovem é ótimo. Não era um sonho meu, para ser honesta, mas fiquei muito contente de ter sido nomeada e de poder levar a literatura, que não costuma ser abordada nesta lista, aos encontros que o grupo de nomeados faz.
Um livro perde mérito por ser popular nas redes sociais?
Percebo a pergunta, até porque eu já tive esse preconceito com determinados livros. Parece-me que a popularidade nas redes sociais é cada vez mais um indicador de que o livro está a ser muito vendido. Se antes associávamos as partilhas aos mais jovens, hoje já toda a gente o faz. Há grupos com milhares de pessoas de partilha de leituras.
Como é que reages à trend de leitores que se filmam a ler as últimas páginas do livro?
Começo por dizer que não fui eu que criei essa trend. O primeiro vídeo foi publicado por uma jovem mulher chamada Maria João Faria, criadora de conteúdos digitais no TikTok. Não quero estar a exagerar, mas nos últimos meses já fui identificada em mais de 700 vídeos. Para ser honesta, a maioria das vezes fico só preocupada e a sentir-me bastante desconfortável. Nenhum dos objetivos do meu livro, em primeira, em segunda ou em décima quinta linha, é fazer as outras pessoas chorar. Não é assim que eu me identifico enquanto artista. Eu sei que as emoções que a história provoca podem levar ao choro, mas não é essa a reação que eu quero que o leitor tenha. Por isso, quando vejo choros mais intensos, costumo escrever a pedir para respirarem fundo e para lerem uma coisa diferente, mais feliz.
No entanto, por outro lado, no tempo em que vivemos, em que há um certo dramatismo associado àquilo que vemos e ouvimos, e há uma maior exposição do nosso íntimo publicamente, eu percebo o porquê da trend existir e não posso dizer que não é também graças a esta parceria dos leitores que eu consegui chegar a tantos outros.
Escreves a quem partilhou o vídeo?
Sim. Não consigo responder a todos, mas respondo a muitos.
Qual a tua relação com o Rio de Janeiro?
É uma relação de admiração, durante muitos anos ao longe e por duas vezes ao perto. É uma cidade muito bonita e com uma personalidade muito forte. N'A Cicatriz quis personificá-la e torná-la uma personagem, com as suas coisas boas e más, tal qual cada um de nós.
Então há três personagens principais: "eu", "ele" e o Rio de Janeiro?
Sim.
Porque é que só o Rio tem nome?
Porque achei que esta história pedia a empatia do leitor, tal qual pediu a minha. É mais fácil o leitor substituir-se a um pronome pessoal do que ao nome de uma pessoa. Foi por causa disso que não nomeei as personagens.
Não receaste ser mal interpretada ou de o livro poder ser visto como um ataque aos brasileiros?
Enquanto escrevia, não. Felizmente, escrevi sempre só a pensar naquilo que eu queria e não naquilo que os outros querem — e espero manter-me assim. Depois, quando o reli na íntegra e durante todo o processo de edição com a editora, questionei-me. Acima de tudo porque essa má interpretação está mesmo muito longe dos meus valores e da forma como eu vejo o mundo. Mas decidi correr o risco de poder ser mal interpretada, porque é uma história que deve ser contada e porque estou de consciência tranquila.
Gostavas de editar A Cicatriz no Brasil?
Sim, gostava. Gostava que os meus livros pudessem ser lidos em todo o lado, e vou trabalhar para isso.
É impossível ler A Cicatriz sem pensar no Vista Chinesa, de Tatiana Salem Levy. Curiosamente, esse é um dos livros referidos ao longo da história. Pensaste nele quando o estavas a escrever?
Foi tanto uma referência quanto os outros que referi, e outros que não nomeei, mas que também li nos últimos anos de autores brasileiros. Aquilo que eu tentei ir buscar a cada um deles, não sei se com sucesso ou não, é o desprendimento da formalidade na escrita. Gosto muito de ler autores brasileiros exatamente por isso, porque sinto que me falam.
Podes nomear alguns autores?
A Tatiana Salem Levy, a Carla Madeira, o Jeferson Tenório, a Aline Bei ou a Maria Esther Maciel — que ainda não está publicada em Portugal, mas tem um livro maravilhoso chamado Essa Coisa Viva.
A Cicatriz não é um livro autobiográfico, mas tem vários apontamentos que o são, como o detalhe de “eu” ter participado num concurso de talentos. Isso não pode confundir o leitor? Acredito que já te tenham perguntado várias vezes o que é ficcionado e o que é biográfico.
É verdade que quando era jovem fui a um concurso de talentos, sem qualquer talento para aquilo que fui lá fazer, mas n'A Cicatriz a história que é referida não é a minha, mas de uma pessoa que conheço, que também foi a um concurso de talentos. É muito difícil escrever um livro na primeira pessoa, com este grau de exposição de medos e de intimidade, e não deixar escapar algumas coisas onde me revejo. Mas outras, muitas mais, que caracterizam a personagem principal, são diametralmente opostas à forma como eu sou e às coisas em que acredito. Propositado, porque acho que não há a necessidade de os leitores me conhecerem profundamente.

Fizeste algum trabalho de pesquisa para a escrita ou contactaste com vítimas de violência sexual?
Fiz um trabalho exaustivo de pesquisa, principalmente do relato do agressor. Frequentei a Dark Web porque queria escrever, não diria exatamente, mas muito perto do que é o ato violento em si. Para o leitor perceber a brutalidade e a violência que uma agressão sexual acarreta, esperando que assim haja mais respeito pelas vítimas.
É um livro maioritariamente lido por mulheres?
Daquilo que vejo, e a base empírica é muito fraca, parece-me que normalmente os homens não consomem aquilo que é feito pelas mulheres a nível artístico. Por exemplo, nos concertos de mulheres, nas primeiras filas costumam estar exclusivamente mulheres. Nas apresentações dos meus livros e nas filas dos autógrafos estão maioritariamente mulheres. Os homens são normalmente o namorado ou o marido.
Tens recebido testemunhos de quem passou pelo mesmo que a personagem principal d’A Cicatriz?
Infelizmente, demasiados.
E como é que lidas com esses relatos?
O melhor que consigo, expressando a minha falta de formação para responder melhor do que aquilo que respondo, e agradecendo o voto de confiança. Muitas das histórias que já recebo, foram apenas partilhadas comigo. É uma grande responsabilidade.
As reações de A Cicatriz parecem não ter um meio termo: ou se adora ou se odeia. Consegues arranjar uma explicação para isso?
Com a crítica positiva e com a negativa? Acho que fiz o melhor que sabia. Na arte, o que é morno é facilmente esquecível. Escrevi um livro que tem posto muitas pessoas que não liam a ler. O contexto em que as pessoas já me abordaram faz-me ter a certeza de que estou a ser lida um bocadinho por todo o país e por pessoas de idades muito diferentes, com profissões completamente diferentes, com formas de estar e de ser diferentes. Se todas essas pessoas lessem o livro e achassem exatamente o mesmo, era esquisito. Portanto, estou muito confortável com o positivo, tanto quanto estou com o negativo.
Há várias passagens onde "eu" se dirige à mãe — "mãe, se estás a ler isto...". Como é que a tua mãe, familiares mais próximos e amigos reagiram quando o leram pela primeira vez?
A minha mãe não leu, nem vai ler. Deixando aqui o repto à minha família, gostava de pedir que parassem de ler os meus livros. É muito bom ter o apoio daqueles que nos são queridos, e eu tenho-o, sem dúvida, da minha mãe, principalmente, mas a partir de uma certa altura da minha vida criativa e artística... Eu trabalho livremente e vivo num lugar, num mundo privilegiado, onde posso dizer o que quiser e ninguém me vai censurar. E às vezes a única censura, entre aspas, que sinto é o pensar que alguém de quem eu gosto muito vai ler determinada coisa que escrevi, que é mais triste, que me coloca numa posição de vulnerabilidade, e que muitas vezes é apenas ficcional. Foi por isso que pedi à minha mãe para não ler, como o pedi ao resto da família, mas eles incumpriram.
Dizes que estás “constantemente, mais do que devia ou gostaria, a pensar como as coisas podem correr mal”. Que limitação é que isso te traz no processo criativo?
Por mais que eu goste daquilo que estou a fazer, ou seja, que eu olhe para o que estou a escrever e pense 'isto é melhor do que eu já fiz antes', muito facilmente desacredito o meu trabalho. Honestamente, eu sou a minha maior crítica. E perante a malvadez que me demonstro, aquilo que os outros dizem é bastante soft. No processo criativo, o que mais penso é que nunca mais vou conseguir escrever um livro, que este foi o último livro que eu escrevi, como é que eu me vou reformar aos 26 anos... Não faz muito sentido. Depois tenho pequenos estresses relacionados com isto, mas também com o facto de ser muito desajeitada a nível motor. Tropeço muito, deixo cair coisas, o meu computador já esteve cheio de água, não sou boa a guardar coisas em pens. Então, penso muitas vezes que vou perder tudo. Mas vive-se.
Mas não te vais reformar aos 26, pois não?
Não... Neste momento estou a trabalhar num projeto na área do audiovisual e estou a escrever uma história que pode vir a ser um livro.
Começaste a escrever muito cedo. Tens muitos livros na gaveta?
Tenho um livro que terminei de escrever o ano passado e que não enviei para a editora. Agora estou muito contente por não o ter feito, porque depois saiu um de um autor que eu admiro muito e as temáticas eram semelhantes. Fiquei contente com o meu discernimento.
O que é que estás a ler?
Estou a ler As Aves Não Têm Céu, do Ricardo Fonseca Mota.
Por Rita Sousa Vieira