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O que te tira o sono?
O que me tira o sono neste momento? Olha, é… É a ascensão da extrema-direita no mundo. É a mentira normalizada, a crescente insensibilidade das pessoas em relação às outras. Ver que há guerras que parecem valer mais do que outras… Isso incomoda-me muito.
Como surgiu a ideia para Aquilo que o Sono Esconde? Quando é que o começaste a escrever?
Comecei a escrevê-lo antes do livro que saiu há um ano, antes do Enquanto o Fim Não Vem. Na verdade, esse livro surgiu depois de um bloqueio criativo com Aquilo que o Sono Esconde.
Gosto de universos surreais, absurdos. Acho que as pessoas ainda não fizeram bem as pazes com o facto de vivermos num mundo que, por si só, já é muito absurdo. Estamos aqui, neste berlinde a girar no espaço, em guerra uns com os outros… Por isso, para mim, a ficção tem de refletir essa estranheza.
E o sono… O sono fascina-me porque, quando estou a escrever, todas as noites deito-me com as histórias e as personagens a navegar na minha cabeça. Fico sem dormir pelo menos uma ou duas horas, ali no escuro, a abrir e fechar portas. O sono é um universo do qual sabemos muito pouco. Gosto da ideia de pensar: e se, quando sonhamos, estivermos a atravessar um portal para outro lugar, um sítio que não controlamos e onde somos apenas espectadores?
Quando era criança, achava que vivia num sonho e que, a qualquer momento, podia acordar.
Pensava algo parecido. E talvez tenha sido isso que me levou pelo caminho do teatro. Lembro-me de imaginar: e se tudo à minha volta for uma encenação? E se os meus pais não forem mesmo os meus pais, mas apenas atores a representar um papel, e eu for a única que não sabe que isto é tudo falso? Fantasiava muito com essa ideia…
A história de Aquilo que o Sono Esconde tem alguma base verídica?
Sim. A inspiração para o livro começou com uma grande amiga minha, que é advogada, e que me contou a história de uma mulher que sofreu um acidente de viação gravíssimo e ficou tetraplégica. Depois disso, enfrentou um processo kafkiano contra uma seguradora horrível e um analista de seguros diabólico, que parecia decidido a tornar-lhe a vida num inferno. Agia como se o dinheiro da indemnização — ordenada até por um juiz — fosse sair do seu próprio bolso.
Achei esta história fascinante, porque sempre me interessaram personagens profundamente defeituosas. Mais do que histórias bonitas e heroicas, porque acho que o mundo não funciona assim. Interessa-me explorar o que tem defeito, a ferida. E o que me espantou foi imaginar como é que alguém, convencido de que está apenas a fazer o seu trabalho, consegue ir para a cama todas as noites e dormir tranquilo, sabendo que está a impedir uma indemnização a uma mulher que só mexe do pescoço para cima e que não teve qualquer culpa no acidente.
Esse homem, que não conheço — não sei sequer o nome da seguradora, nem mais pormenores além destes —, começou a ganhar vida na minha cabeça. E comecei a perguntar-me: o que pode levar alguém a ser assim? O que aconteceu na sua vida para o tornar tão incompleto em termos humanos? Foi assim que surgiu o Jaime, uma personagem profundamente incompleta, cuja história revela, aos poucos, o porquê de ser assim.
Alguma das personagens te fugiu do controlo?
Sempre. Aliás, eu controlo muito pouco quando escrevo. Há um processo que acontece naturalmente, sem que eu o procure. Quando começo, tenho apenas a ideia central da história — o que chamo de coração, o motor. De resto, sei muito pouco. Sei, talvez, onde quero chegar e o que desejo explorar, mas não sei de onde parto, por onde passo, que personagens vão surgir ou sequer onde vou acabar. E é precisamente isso que me dá prazer na escrita: a viagem. As personagens acabam sempre por me surpreender, começam a escrever-se a si próprias. É uma dança onde sou mais o veículo que lhes dá voz do que o maestro que as conduz. Deixo-me ir com elas.
Disseste que houve um bloqueio. Em algum momento pensaste em não retomar a escrita do livro?
Não, porque um bloqueio, para mim, é um desafio. Quando me deparo com um, imagino-me visualmente em areias movediças. Quanto mais me mexo, mais me afundo, mas ao mesmo tempo sei que quero sair dali, sobreviver. E esse desafio interessa-me.
Quando isso acontece, agarro-me ao que faço em teatro. Leio em voz alta e pergunto-me: o que é que não está a funcionar? Porque, mesmo numa história surrealista, onde o absurdo domina, a verdade tem de estar lá. Tem de haver coerência. Preciso de acreditar que, dentro daquele universo, por mais louco que seja, tudo faz sentido, que não estou a ser desonesta com as personagens, nem a forçá-las a seguir um caminho imposto por mim. O que peço a mim mesma é o que peço aos atores quando enceno: não representem, encontrem a verdade e deixem-na emergir. Se estivermos atentos, a verdade encontra sempre uma forma de furar numa história.
Por falar em ler em voz alta, tens uma belíssima voz. Já pensaste em narrar os teus livros e lançá-los em formato audiolivro?
Adoraria. O Ano da Morte de Ricardo Reis, do Saramago, tem um audiolivro onde participo, eu e outro ator. Eu dou voz às personagens femininas.
Este livro obrigou a algum trabalho de pesquisa?
Sim, obrigou. Não quero fazer um grande spoiler sobre o tipo de pesquisa que tive de fazer, mas implicou investigar teorias ancestrais sobre o sono. E surpreendi-me, não esperava encontrar tantas. Da China à América Latina, dos Incas aos Maias, há uma série de mitologias fascinantes ligadas ao fenómeno do sonho e do sono. Foram uma grande inspiração para este livro.
Há uma teoria que é desenvolvida no livro…
Sim, há. E, se fosse verdade, mudaria completamente a forma como encaramos o ato de dormir.
Também há uma crítica a uma sociedade adormecida, alienada?
Bom, diria que a crítica social está sempre presente em tudo o que escrevo. Vivemos numa sociedade acelerada, onde queremos tudo para ontem e não temos paciência para aquilo que nos obriga a pensar ou a refletir profundamente. Isso é perigoso. E sim, essa crítica está lá, ainda que encapotada.
O livro tem um lado muito cinematográfico… Isso vem do teu trabalho para teatro e televisão?
Sim, sem dúvida. Quando escrevo, estou sempre a visualizar a cena na minha cabeça. Vem tanto do trabalho de encenação como da escrita para televisão. São processos indissociáveis para mim. Não consigo escrever sem imaginar. O tempo que passo na cama, à noite, às escuras… É aí que faço o filme todo na cabeça.
És guionista de teatro e televisão, atriz, encenadora e professora. Consegues separar as várias Mafaldas?
Consigo. No teatro e na televisão, mais ainda. Escrevo sempre por encomenda. As produtoras e companhias pedem-me textos, e eu sigo uma direção específica. Ajusto-me à personalidade de cada companhia, de cada produtora e, claro, ao público a que se destinam. Moldo a linguagem conforme essas exigências. Mas há sempre muito de mim no que escrevo. A crítica social está sempre lá — seja numa comédia completamente disparatada, seja num espetáculo como Num Abril e Fechar de Olhos, a peça que tenho agora em cena em Almada, que celebra os 50 anos do 25 de Abril.
Nos livros, a liberdade é total. Escrevo apenas para me agradar a mim própria. Não penso no leitor, não penso em vendas; penso apenas no prazer que me dá ler aquilo de manhã. Todos os dias, ao acordar, leio em voz alta o que escrevi no dia anterior. Se não gosto, apago. Sem pudor. Se for preciso, apago tudo. E faço-o muitas vezes. É um processo quase artesanal, como as senhoras que fazem os tapetes de Arraiolos. Se se enganam num ponto, têm de desmanchar tudo e recomeçar.
O sono tem um papel no processo criativo?
Tem um papel profundo. Muitas vezes, algo que me parecia perfeito num dia, no seguinte já não faz sentido. Há qualquer processo que acontece durante o sono. Leio e percebo: não, não é por aqui. Ou então vejo que aquela personagem nunca faria ou diria aquilo, pelo menos não naquele momento. Ainda não está preparada. Seria um disparate forçá-la só porque me dava jeito. Há sempre este jogo de avanços e recuos.
O termo thriller-surrealista está sempre associado aos teus livros. Como é que surgiu?
Fui eu que o inventei.
É melhor do que quando um rótulo nos é imposto.
Os meus livros não são thrillers clássicos, nem policiais, mas há sempre uma tensão constante, um mistério que os aproxima desse género. Ao mesmo tempo, têm um lado surrealista, absurdo, mas onde tudo acaba por fazer sentido. Criei esta categoria porque nenhuma outra me servia. Acho que cada um tem de encontrar o seu próprio caminho. Como disse antes, se me agradar a mim e for honesta no que escrevo, acredito que isso passará para os leitores.
No final do livro, deixas uma mensagem para os leitores com as tuas redes sociais e um e-mail, convidando-os a escrever-te e a trocar ideias. No que é que já resultou esta iniciativa?
É o segundo livro em que faço isso, e da primeira vez resultou muito bem. Os leitores escrevem-me com perguntas, com dúvidas, alguns partilham textos que escreveram inspirados no livro, outros querem saber mais sobre o processo, porque também têm vontade de começar a escrever. Tem sido uma partilha muito enriquecedora, que faço com o maior prazer. Aliás, o melhor elogio que me podem dar é procurarem-me depois de lerem o livro, para me dizerem algo sobre ele.
O livro vem acompanhado de um QR code para uma peça musical composta especialmente para ele. Fala-me sobre ela.
Foi composta pelo Artur Guimarães, um extraordinário compositor e músico para teatro, com quem tenho a alegria de trabalhar há já algum tempo. Ele criou esta peça especialmente para o livro. É uma música que funciona como uma moldura, envolvendo o ambiente de determinada parte da história.
Quando escrevo, faço-o sempre com música. Mas apenas instrumental, não consigo ter outras vozes na cabeça além da minha. E a cada livro, ouço sempre a mesma música, em loop, do início ao fim. Para Do Outro Lado, foi Philip Glass. Para Enquanto o Fim Não Vem, Ludovico Einaudi. E para Aquilo que o Sono Esconde, Ryuichi Sakamoto.
Em 2023 falámos sobre o Clube das Mulheres Escritoras, do qual fazes parte. Uma das coisas que me diziam é que o seu grande propósito é não existir. A sua existência ainda é uma necessidade?
É, ainda muito recentemente vimos o cartaz do primeiro festival literário de Penacova, onde só há homens. Portanto, infelizmente, é. Queríamos que não fosse, queríamos que estas coisas já fossem impensáveis, que fossem até caricatas — que as organizações não precisassem de chegar a este ponto para olhar para um cartaz e perceber que não faz sentido, especialmente num país onde há tantas mulheres a escrever, a vender. E autoras para todos os gostos, que escrevem todos os tipos de categorias literárias, de todos os géneros.
Esperamos que no próximo ano façam melhor, mas infelizmente não são os únicos. Há outras situações em que vemos esse desmérito das mulheres em detrimento dos homens. Um passo de cada vez, sentimos que estamos a caminhar na direção certa. Há cada vez mais pessoas atentas, alertas e sensibilizadas para este preconceito. Não devemos ter medo das palavras, é o que é.
O que estás a ler?
Neste momento, estou a acabar de ler O Mestre e a Margarita, de Mikhaíl Bulgákov. Gosto muito dos escritores russos e nunca tinha lido Bulgákov, e estou a adorar. Que magnífica surpresa, é espetacular. É um universo muito surrealista, como eu gosto, muito crítico da sociedade da época, que se passa no início do século XX na Rússia, mas tem uma abordagem muito satírica e engraçada, com personagens absolutamente surpreendentes.
Tinha interrompido a leitura por um tempo, e acabei por passar outros livros à frente, o que não costumo fazer. Não gosto de trair um livro; se estou com um, vou até ao fim. Mas este foi ultrapassado por outros, porque neste momento já comecei a escrever outro livro. Estou a escrever uma distopia, então senti necessidade de ler distopias. Li o Nunca Me Deixes, do Kazuo Ishiguro, e o Fahrenheit 451, do Ray Bradbury...