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Não é a forma mais convencional de começar, mas: e o romance?
Estou a trabalhar nele. Ganhei uma bolsa [de criação literária] da DGLAB em Ficção Narrativa e estou a trabalhar nisso. Apresentei um projeto e estou a segui-lo. Mais uma vez, vai um bocadinho para autoficção, mas estou a tentar dar um toque diferente.
Imagino que esta seja uma pergunta recorrente.
Sim, tem sido. Por culpa minha, também, porque falo bastante e sempre disse que queria escrever um romance.
Preferes o termo autoficção ou biográfico?
Eu prefiro autoficção, porque são duas coisas diferentes. A autobiografia é quase um testemunho em tribunal, no sentido em que o autor se compromete cem por cento com a verdade. O romance pressupõe um pacto ficcional e a autobiografia um pacto com a verdade. A autoficção navega entre um e outro, e eu gosto disso.
Fazia esta pergunta porque a Annie Ernaux, que sei que é uma inspiração, prefere o termo autobiográfico.
Sim, porque ela rejeita totalmente a parte da ficção. Eu não.
Quando é que começaste a escrever crónicas?
As crónicas surgem quando fui viver para o Brasil. Tinha acabado de estudar literatura na faculdade e estava com medo. Achava que a escrita era uma coisa muito séria, e é-o num certo sentido, mas o meio académico fez-me paralisar e não conseguir escrever mais. Achava que tudo o que eu fosse escrever nunca iria chegar aos calcanhares de tudo o que eu estudava e lia.
Chego ao Brasil e percebo que existe uma literatura, como eles costumam dizer, que se assemelha a uma conversa sentada no meio-fio — meio-fio é passeio. Ou seja, existe uma literatura semelhante a um bate-papo, uma conversa boa. Que pode ser alegre e despretensiosa sem ser má. As crónicas são isso.
Aliás, foi no Brasil que descobri grandes cronistas, como o Carlos Drummond de Andrade, o Paulo Mendes Campos ou o Rubem Braga. Bati à porta e perguntei se podia entrar: "Posso escrever qualquer coisa?". Foi com a crónica que entrei, timidamente, mas feliz, na escrita, e onde descobri um sítio onde há liberdade para experimentar.
O meio académico pode terminar com carreiras de autores logo à nascença?
Aqui tenho algum cuidado, porque eu gosto mesmo muito de estudar. Mesmo! Aliás, já estou inscrita, vou começar um Mestrado em Literatura Comparada e ainda quero fazer o Doutoramento. Sou mesmo fascinada com este tema em específico e acho muito importante o estudo. Até porque o estudo da literatura é muitas vezes ler, e ler é fundamental para escrever. Por outro lado, sim, pode paralisar e pode intimidar. E vi isso acontecer a quem foi dito "vocês nunca vão escrever nada".
No entanto, acho fundamental [a crítica] quando é para agregar e não para destruir. O medo traz humildade e noção. Pode ser catastrófico uma pessoa achar que pode ir logo publicar a primeira coisa que escreve.
O que é uma boa crónica?
Como dizem os brasileiros, não é um discurso em cima do caixote, é o tal bate-papo no meio-fio. Para mim, uma boa crónica não é uma lição de moral e, em princípio, deve ser anacrónica. Não deve estar subjugada à atualidade, deve ser intemporal e sobreviver ao tempo. Uma boa crónica resulta das coisas pequeninas, dos assuntos aparentemente irrelevantes. A capa deste livro, do Deriva, tem uma rapariga com uma candeia, e ela está debruçada. Eu imagino-a debruçada sobre um assunto pequenino com a candeia para fazer luz sobre esse assunto. Isso para mim é uma boa crónica.
A crónica também é um jogo muito interessante entre o privado e o público. As crónicas nascem em jornais, não é? E nos jornais é o imperativo do quotidiano e da atualidade que se impõe. A crónica é uma fuga a isso, não tem esse compromisso com a verdade. Há uma crónica do Carlos Drummond de Andrade, que foi um escândalo no Brasil, onde ele escreve sobre um encontro, um date, com a atriz Greta Garbo. Descrevia tudo, até detalhava o beijo, mas nada disso era verdade. Ele escreveu aquilo de propósito para mostrar o que é uma crónica.

Isso quer dizer que não há boas crónicas em Portugal? A grande maioria incide sobre a atualidade.
É preciso distinguir e esses textos são artigos de opinião, que são muito importantes e dos quais sou leitora. Mas existem boas crónicas em Portugal. As do Mário de Carvalho, as do Miguel Esteves Cardoso... O Governo a cair e ele a falar sobre as andorinhas... As do António Lobo Antunes, o meu cronista preferido, as do Ricardo Araújo Pereira, as da Dulce Maria Cardoso, há muitas.
“Os leitores também estão cansados de ler crónicas ‘formais’ e com estruturas semelhantes. (...) É uma linguagem que não nos toca. Existe a falta de humanização em crónicas, como as dos políticos”. Esta é uma resposta da Inês Meneses, autora de Máquina de Escrever Sentimentos e também cronista no PÚBLICO (O Coração Ainda Bate), numa entrevista ao SOL. Concordas?
Não sei se os leitores estão cansados, eu estou. Embora, como referi, há muitos cronistas a escrever de forma bastante humana e essa, para mim, é a génese da crónica. Há espaço para tudo, para as que analisam determinados acontecimentos e para as que falam sobre as birras dos nossos filhos.
O que te faz escrever?
Nas crónicas? Qualquer coisa, o que me dá uma grande liberdade. Na restante escrita... Talvez o que me dói.
Como no humor, a autocrítica também gera bom material de crónicas?
A Inês Meneses disse-me, quando fui ao Fala com Ela, que eu sou muito exigente comigo. Talvez vá buscar os meus defeitos e os use como matéria.
Este livro reúne todas as crónicas publicadas no PÚBLICO?
Não são todas, foi feita uma seleção e algumas foram melhoradas. Tem também uma boa quantidade de crónicas inéditas.
Foi fácil fazer essa escolha?
Sim e não, havia algumas que sabia que tinha de incluir. Mas o trabalho da editora também foi muito importante ao selecionar quais faziam mais sentido e quais destoavam. Não há um tom, não há um uníssono, por isso é que é uma Deriva, mas há uma harmonia.
“Faz tempo que leio tudo o que Madalena escreve, de cá do outro lado do oceano. Ela consegue erigir uma ilha de poesia em meio ao oceano insosso das informações e análises”, escreveu Gregorio Duvivier no prefácio. Como é que acontece este encontro?
No Brasil. Eu lia as crónicas do Gregorio, gostava muito. Ficámos amigos e desde então que as nossas conversas são como crónicas.
Gostavas de enveredar por outros géneros?
Ando a ler muito ensaio, é um género que me fascina. A poesia também.
Escreves rápido ou levas algum tempo?
Não escrevo muito rápido, demoro-me sobre a página. A escrita permite-me gerir alguma impulsividade e é um imenso prazer reler e limar o que escrevi.
Regressas muitas vezes ao Leme?
Já não posso com ele! Estou a brincar, gosto muito, é o meu primeiro bebé literário. Há mesmo qualquer coisa de filho, no sentido em que é uma criação nossa. Por exemplo, estou a vê-lo ali [aponta para uma estante nos escritórios da Penguin Random House em Portugal, local da gravação da entrevista]. Reparo sempre nele nas livrarias, há um encantamento do primeiro livro. É engraçado.
Qual foi o último autor ou autora que te apaixonou ao ponto de quereres comprar toda a obra?
A Anne Carson. Comprei tudo o que há em português e português do Brasil, faltam-me alguns, que já encomendei, em espanhol.
Qual é hoje a tua relação com o Brasil?
Leio muitos autores brasileiros, oiço muita música e podcasts brasileiros, sofro muito com as notícias. Eu ainda vivo um bocadinho lá.
Que novos autores sugeres?
A Andréa del Fuego, o Geovani Martins, o Jeferson Tenório... O José Henrique Bortoluci ainda não li, mas já estive a folhear e parece mesmo muito bom.
E cronistas?
Gosto muito do António Prata, do Gregorio Duvivier e do Julián Fux.
Foste uma influencer digital. Sentes que essa fase possa gerar algum tipo de preconceito da parte dos leitores?
Que me chegue, não. Foi um período [com que] já não me identifico, mas também não tenho vergonha.
E como encaras agora as redes sociais?
Eu não demonizo nada as redes sociais, e já não dá para falar do mundo atual sem redes sociais, é impossível. Acho que dá para fazê-las aliadas da literatura. Dá para demonizar e pensar só no lado fútil, que existe, obviamente, mas através das redes sociais os leitores podem descobrir novos livros e novos autores. Agora, não podemos perder a batalha do tempo, que para a escrita e para a leitura é fundamental.
Que batalha é essa?
É uma batalha constante da minha geração. Do domínio do ecrã sobre tudo o resto, onde se inclui os livros.
Como olhas para fenómenos como os booktokers?
Foram muito generosos comigo, com o Leme. Chegaram-me apresentações e trabalhos nas aulas de português. Isso deixou-me muito comovida, porque eu era essa aluna.
O que é que estás a ler?
Estou a ler Eu Canto e a Montanha Dança (Irene Solà), O caderno proibido (Alba de Cespedes) e Alfabeto (Inger Christensen).
Lês vários livros ao mesmo tempo?
Se o meu trabalho é escrever, tenho de estar sempre a ler coisas. A minha ordem normalmente é esta: ensaio e crónicas de manhã, ficção à tarde e poesia à noite. Sou muito desorganizada e condensei toda a organização para a leitura. Até tenho uma ficha onde coloco os livros já lidos.
Por Rita Sousa Vieira