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Em Pessoas Decentes há dois romances dentro de um. “Dois pelo preço de um”, como costumas brincar.
Quando começo a trabalhar numa ideia ou num conceito, sinto que o espaço do presente não é suficiente, preciso de ter uma visão da história. Aconteceu-me em Hereges, que tem três histórias, e no anterior com Mario Conde, A Transparência do Tempo, que tem uma história passada no presente e outra que é uma reflexão sobre o passado. O passado ajuda-nos a compreender melhor o presente e é uma forma de universalizar determinadas ideias, conflitos, situações pelos quais pode passar uma sociedade ou um indivíduo. Pessoas Decentes é um romance que se desenvolve em dois tempos históricos separados por cem anos — no princípio do século XX e no início do século XXI —, dois momentos de grande efervescência na vida cubana, especialmente na cidade de Havana, com personagens bastantes típicas de cada um dos períodos. O livro fala do sonho cubano de chegar a algo, e como essa perspetiva se vai afastando, afastando, e se dissolve.
Havana é também uma personagem nas duas histórias?
Havana é um espaço que não é apenas físico, mas também é cultural e histórico. A cidade está sempre presente na minha literatura, ao ponto de estar a preparar neste momento um livro sobre ela. Não gosto de dizer que é um ensaio, porque não é bem, mas é uma obra onde conto a minha apropriação da cidade e como essa apropriação se reflete na minha literatura. É, de certa forma, uma homenagem à cidade, mas, também uma análise bastante dura de um processo de destruição de muitos dos seus referentes.
Essa reflexão já se sente um pouco neste romance.
Sim, como em todos os meus romances, o espaço urbano está presente. Preciso de dominar o espaço físico em que se movem os personagens para poder representar os seus conflitos pessoais, psicológicos e existenciais. Ter um domínio do espaço físico da cidade é fundamental no desenvolvimento das personagens.
Havana é a tua cidade de sempre.
Nasci lá e lá continuo a viver. Vivo na mesma casa em que nasci, imaginem. No mesmo bairro em que nasceu o meu pai e os meus avós. A minha relação com aquele lugar não se traduz em nenhum adjetivo. Há, sim, um sentimento de pertença a um lugar que é o de muitas gerações.
Como é que imaginas a cidade dentro de cinquenta anos?
Não sei. Porque se podem passar muitas coisas e fazer previsões do futuro é um grande risco. Repara, este romance fala de uma imagem possível do futuro. Em 2016, pensava que a política do Obama em relação a Cuba iria ser continuada por Hillary Clinton e aconteceu tudo ao contrário, Donald Trump foi eleito e reverteu todas as políticas. Fazer previsões do futuro... Um dos grandes escritores do presente, de quem gosto bastante, um bestseller, o israelita Yuval Noah Harari, dizia num dos seus livros - o 21 Lições para o Século XXI - que, felizmente, já tinham acabado as grandes epidemias e as grandes guerras. E enganou-se por completo, estamos a viver um período com guerras muito complicadas que não sabemos quando vão terminar, e como vão terminar.
O que resta dessa efervescência, depois da primeira visita oficial de um presidente norte-americano a Cuba em mais de oitenta anos, do concerto dos Rolling Stones e até de um desfile da Chanel?
Nada. Vou dar um exemplo: nessa época havia um cubano que dizia “esta sexta vou num voo da American Airlines a Miami; à noite janto com amigos num restaurante; no sábado vamos a Orlando à Disney e no domingo vamos até ao sul, aos Cayos; passamos aí o dia e na segunda-feira, pela manhã, apanho o avião para voltar a Cuba e trabalhar”. Isto acontecia, o que estou a contar é apenas um caso, mas as pessoas iam e vinham. Em 2022, quase 250 mil cubanos cruzaram a fronteira do México com os Estados Unidos depois de terem feito a viagem de Havana para Manágua, na Nicarágua, e depois toda a rota dos coiotes para passar a fronteira. Como podem imaginar, daquela efervescência para a realidade de 2022 não sobrou nada.
Nem a esperança?
O que mais falta em Cuba é esperança. Mais do que a comida, a medicina, a eletricidade ou os transportes, o que mais falta em Cuba é esperança.
Houve alguma mudança na relação EUA-Cuba com a administração Biden?
Não, mudou muito pouca coisa. Remediou algumas coisas, mas, no essencial, não se voltou à política que existia no tempo de Obama.
Regressando a Pessoas Decentes, chegaste a alguma conclusão sobre o que é ser uma pessoa decente?
Claro que sim, sei perfeitamente o que é uma pessoa decente, como sei o que é uma pessoa indecente [ri-se]. Neste romance há uma pessoa decente, Mario Conde, e outras três ou quatro personagens que convivem harmoniosamente na sociedade, ocupando o seu espaço sem pretender causar danos aos outros. Mas neste romance também há muitos incidentes, de todo o tipo. Oxalá houvesse mais pessoas decentes, porque isso seria uma garantia de que nos respeitávamos mais uns aos outros.
Por falar em Mario Conde, já tinhas saudades dele?
Nem por isso, porque entre a Transparência do Tempo e Pessoas Decentes há um só romance [sem ele].
Até quando é que pensas continuar com essa personagem?
Não sei, mas espero que ainda durante muito mais tempo.
Onde é que começa Mario Conde e termina Leonardo Padura? Não se confundem por vezes?
É uma linha bastante difícil de definir, porque há muitas coisas que o Conde me deu e muitas outras que eu lhe dei a ele. Até muitas coisas de caráter pessoal, muito íntimas. Mas bom, Conde tem sido os meus olhos nestes livros, a minha forma de ver e de entender a realidade cubana, ou o mundo no geral. É um homem da minha geração...
Até são da mesma idade.
Conde é um ano mais velho. Apenas por uma questão que não pensei no primeiro romance, porque nessa altura não imaginava que viesse a ser um personagem de tantos livros e que iria evoluir com o tempo. É um homem da minha geração, que vive num bairro parecido com o meu, com aspirações literárias — eu sou escritor, ele quer ser escritor, e até está a escrever. Em muitos aspetos, sobretudo como entendemos o mundo em que vivemos, somos parecidos.
E para quando um romance em que Mario Conde não seja somente o protagonista, mas um autor?
Apenas no fim, que não sei quando será. Ainda falta muito tempo, ou assim o espero.
É um plano?
Não é bem um plano, mas sim um sonho.
O que é que mais gostas no género policial?
A necessidade de contar uma história, que para mim é algo fundamental na literatura. Além disso, o policial também tem uma enorme capacidade de espelhar a sociedade. Quando se olha para um contexto social específico a partir dos seus lados mais obscuros, tudo se revela.
E nele há mais liberdade para alterar a realidade? Numa nota final, assumes que por “necessidades dramáticas” há uma ligeira alteração na cronologia real de alguns dos acontecimentos.
O romance é o reino da liberdade. O que nunca farei é mentir sobre a realidade cubana, posso trabalhá-la, sintetizá-la, ampliá-la, mas nunca mentir sobre ela.
Qual a importância da amizade para Mario Conde?
Neste livro é muito importante, como o é em todos. Conde é um personagem que precisa do apoio de outras, que o rodeiam e o complementam. Esse grupo de amigos que encontramos em Pessoas Decentes já tinha aparecido noutros romances, mas a sua relação foi sendo reforçada à medida que o tempo passa. Para mim, seria impossível escrever um romance em que essa relação de Conde com esse grupo de pessoas não estivesse presente.
Essa relação é uma projeção das tuas amizades?
Talvez esteja a projetar em Conde como gostava que fosse a minha relação com os meus amigos. Porque, por muitas razões, como o tempo, a distância, ou questões económicas, ela fica mais complicada. E Conde tem conseguido manter essa amizade da mesma forma, sem se alterar, resistindo a todas essas razões.
Já falámos de esperança e Conde é um "pessimista histórico".
Um total pessimista. Mas, bom, é a realidade que o faz pessimista.
Importa falar de outro personagem central em Pessoas Decentes, Reynaldo Quevedo. Ele representa a repressão cultural que Cuba viveu nos anos setenta. Conheceste alguém como ele?
Felizmente não tive contacto com ninguém como esse personagem, mas conheço a existência de vários como ele, que pretendiam ter o controlo da criação, da cultura, do comportamento das pessoas. Quevedo é uma síntese de algumas dessas pessoas e, como uma síntese, é ainda mais terrível.
Foste alvo dessa repressão ou conheces quem o tenha sido?
Felizmente, não. Começo a escrever nos anos 80, quando se começa a sentir uma mudança. Mas sofri repressões, trabalhava numa revista e dela fui enviado para um jornal onde alguns textos nunca chegaram a ser publicados porque foram censurados. Não é possível viver e escrever em Cuba sem alguma vez ter sentido o fantasma desse fenómeno. Felizmente, também, o meu editor está em Espanha e isso permite-me escrever com muito mais liberdade e entregar os meus livros diretamente à editora sem passar por nenhuma instituição cubana.
Só assim podes escrever?
Não sei. Se não estivesse nessa condição, não sei como escreveria, mas certamente escreveria.
Que marcas deixou este período de forte repressão cultural?
Deixou marcas. Há muitos escritores, e artistas no geral, que nunca mais voltaram a escrever. Depois de terem sido reprimidos, acusados ou assediados durante muitos anos, nunca mais voltaram a escrever. E ficou a pairar uma forte ideia de que há que se ter cuidado com o que se diz e como se diz. O que faz com que muita gente se autocensure na hora de se expressar artística ou socialmente no que toca à situação do país.
Alguma vez te autocensuraste?
Faço uso da autocensura constantemente e por muitas razões, não apenas por razões políticas. No que toca à realidade cubana, já disse o que tinha de dizer. Há outras realidades e outros comportamentos em que há que se ser muito cauteloso na hora de falar, muito mais nesta época em que qualquer frase que seja considerada politicamente incorreta — e não estou a falar só de Cuba, é um fenómeno universal — pode criar gravíssimos problemas.
O neto da personagem de Reynaldo Quevedo, que é descrito como um "estalinista confesso", diz que ele só fez o que fez porque estava a cumprir ordens. No livro, comparas essa desculpa com a que os nazis davam depois da Segunda Guerra Mundial. Essa comparação é intencional e coloca os dois regimes em posições similares?
Coloco essa atitude de obediência —'fiz isto porque me mandaram' — ao mesmo nível. Sei que é uma comparação muito forte. Quevedo não mandou seis milhões de judeus para um campo de concentração nem foi o assassino de determinada figura, mas foi uma pessoa que se escudou dizendo que só cumpriu ordens, quando, na verdade, era alguém que desfrutava do ato de exercer esse poder repressivo.
Ao contrário de Quevedo, Alberto Yarini Ponce de León, outra personagem central, mas agora da história passada no século XX, existiu mesmo. Esta não é a primeira vez que escreves sobre ele; no final nos anos 80 já tinhas assinado uma grande reportagem, para o jornal Juventud Rebelde, centrada nele. Porque é que o trouxeste para este romance?
Sim, em 1988 conheço e abordo esta figura pela primeira vez. É um personagem absolutamente novelesco. Escrevi essa parte do romance para ver se compreendia totalmente a sua personalidade, e não estou convencido que o tenha conseguido.
Porquê?
Porque é uma figura muito complexa, e o livro mostra-o. É um personagem que não sabemos se devemos adorar, condenar, repudiar ou entender. Não é possível ter apenas uma leitura do seu caráter.
E de onde vem essa paixão pelos Beatles?
De toda a vida, sempre os ouvi desde muito jovem.
A história que Conde recorda nas primeiras páginas de Pessoas Decentes foi algo que aconteceu?
Sim, é uma história pessoal. De quando ouvi pela primeira vez os Beatles numa placa de vinil onde se gravavam músicas.
Consegues escolher uma canção favorita?
Tenho muitas, mas talvez seja a Strawberry Fields Forever uma das que mais gosto.
Os teus livros estão nas livrarias cubanas?
Não, porque as livrarias cubanas quase não têm livros. Por isso, seria muito estranho que estivessem.
Mas a tua obra é lida em Cuba?
Tenho quase todos os meus livros publicados em Cuba, com editoras estatais ou com editoras alternativas. São tiragens mais pequenas, que não cumprem com a necessidade do mercado. Mas muita gente lê os meus livros por vias alternativas, como o formato digital. Ou, em muitos casos, um livro é lido por 10 ou 15 pessoas. Na Europa, quando alguém compra um livro, ele é lido por quem compra, pela esposa ou marido, ou pelos filhos. Em Cuba a vida de um livro é muito maior, e essa é uma das alternativas que as pessoas encontram para poder ler os meus livros.
Quem são os teus leitores?
São de todas as idades, dos mais jovens aos mais velhos.
O que é que conheces da literatura portuguesa?
Pouco. Há muito pouca coisa traduzido para espanhol e há autores que são difíceis de encontrar traduzidos. Mas dos autores contemporâneos, há uma pelo qual tenho uma grande admiração: José Saramago. Um escritor que me desperta uma certa inveja por não ter sido eu o autor de algumas das suas obras, como O Evangelho segundo Jesus Cristo ou Ensaio sobre a Cegueira.
O que é que estás a ler?
Estou a ler um romance policial espanhol porque vou participar num encontro com a sua autora, Berna González Harbour. Além disso, estou a ler O Ruído do Tempo, de Julian Barnes, sobre a vida de Shostakovitch.
Por Rita Sousa Vieira
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