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Este livro nasce de um convite da Universidade de Oxford para as prestigiadas Conferências Weidenfeld de Literatura Europeia Comparada. Como foi essa experiência?
A experiência foi maravilhosa. O conferencista é convidado a ficar no campus do St. Ann’s College, em Oxford, durante um mês e meio ou dois. É uma oportunidade para refletir sobre as Conferências, escrevê-las e conhecer os estudantes, os assistentes e os professores. As conversas que surgem desse convívio são fantásticas. Foi um privilégio viver nesse espaço, partilhá-lo com pessoas intelectualmente vivas, mas também com a memória das já mortas. Desde Isaiah Berlin, um filósofo muito importante para mim, até amigos como Javier Marías, que passou dois anos muito importantes em Oxford, e que faleceu pouco antes das minhas Conferências.
Porque é que decidiste editá-las em livro?
Essa intenção esteve sempre presente, porque este é um género de que gosto muito como leitor. Gosto de livros com reflexões sobre o ofício de escrever ficção, sobre a natureza da ficção, e gosto quando esses livros são Conferências. Seis Propostas para o Próximo Milénio, de Italo Calvino, foi um livro muito importante para mim.
As Conferências Weidenfeld de Ali Smith ou o livro de Javier Cercas [El punto ciego: Las conferencias Weidenfeld 2015] acabaram por me convencer de que também tinha de publicar as minhas. Admiro muito o Javier Cercas, não queria ficar atrás.
A Tradução do Mundo reúne quatro ensaios, a partir de várias questões. Há alguma central?
A grande questão, que depois se divide em outras, é: o que faz a ficção que mais ninguém consegue fazer? O que faz com que a ficção seja insubstituível? O que perderíamos se a ficção desaparecesse?
A ficção é a única maneira que inventámos para romper com a camisa-de-forças da nossa identidade e do nosso lugar no mundo, para nos aproximarmos de ser outra pessoa, de viver outra vida. Isso só se pode fazer num romance, porque os romances são feitos de linguagem e a linguagem é um recipiente vazio no qual colocamos a nossa própria experiência. Há lugares da nossa consciência, das nossas emoções, a que só o romance pode chegar.
Depois, dá a capacidade de conhecer o passado do ponto de vista do privado, do íntimo. Se quisermos saber o que aconteceu nas guerras napoleónicas, podemos ler todos os fantásticos livros de História que foram escritos. Mas se quisermos saber como se viveu, qual era a experiência de estar vivo nesse momento, temos de ler Tolstói, o Guerra e Paz.
Onde procuraste as respostas?
Procurei na minha experiência de leitor, tentando perceber por que razão a literatura é importante para mim, como é que ajudou a construir o meu mundo, a minha visão do mundo, a minha identidade; como é que tem sido um refúgio, de que forma me ensinou a lidar melhor com as incertezas, com as dúvidas, com as agressões. Foi aí que fui buscar as respostas.
E foi fácil?
Bem, não. Escrevi estas Conferências durante o mês e meio que estive em Oxford, mas, na verdade, elas são o produto de anos e anos a pensar sobre este ofício fascinante. O leitor pega num livro do Javier Marías, Os Enamoramentos, por exemplo, sabe que é dele, o nome está na capa, mas logo na primeira página já não é ele quem fala, mas sim uma mulher. E ninguém dúvida disso, acreditamos que é uma mulher que nos está a falar.
Isso leva-nos a um debate atual: em que momento a valorização da representatividade e do lugar de fala na literatura se intensificou e como tem posto em causa a legitimidade de um homem escrever sobre a experiência de uma mulher?
Podemos chamar-lhe uma questão identitária, e ela está a afetar a qualidade da literatura. Não sei exatamente qual foi o início, nem qual o detonador. Eu tomei conhecimento dessas conversas durante uma temporada de seis meses que passei em Nova Iorque, porque estavam muito vivas na altura, em 2019. Uma das manifestações mais marcantes dessa discussão foi um ensaio extraordinário de Zadie Smith, uma escritora que aprecio imenso.
Nesse texto, Zadie Smith estava preocupada com uma nova 'regra', ou melhor, com esta nova norma que se queria impor à ficção: a ideia de que só podemos contar o mundo que nos diz respeito, de acordo com a nossa identidade racial, sexual, nacional ou religiosa. E eu entendo de onde vem essa preocupação. Vem do facto de as nossas histórias serem importantes para nós e de não querermos que alguém conte a nossa história.
Mas, ao mesmo tempo, isso limita a maravilhosa liberdade de imaginar o outro e transmite-nos a ideia de que tentar imaginar o outro de forma correta é moralmente errado, algo a que me oponho totalmente. Defendo que a grande virtude do romance reside na tentativa de viver na pele de outra pessoa. Depois, essa tentativa pode ser feita bem ou mal. John Updike, num livro chamado Terrorista, fê-lo muito mal. Escreveu a partir do ponto de vista de um jovem árabe e falhou redondamente, porque a sua imaginação não foi suficiente para construir um personagem credível. Portanto, é legítimo criticá-lo quando o resultado não é bom, mas sancionar o ato de tentar parece-me um erro gravíssimo. Surpreende-me profundamente que venha de campos que se dizem progressistas, porque é, na verdade, profundamente reacionário e conservador.
O que perderíamos se a ficção literária desaparecesse?
Perderíamos imenso. Perderíamos conhecimento, deixaríamos de compreender como funcionam por dentro os seres humanos. Nada nos revela tão bem as nossas contradições, o nosso lado subconsciente, como um romance de Dostoiévski. A Metamorfose ou O Processo, de Kafka, são obras fundamentais para entender o século XX. O que nos dizem não pode ser contado num ensaio, num livro de história ou de jornalismo.
Se não tivéssemos ficção, romperíamos com uma forma essencial de compreender os outros, uma forma que tem, além disso, consequências políticas. Existe uma relação direta entre o nascimento do romance moderno e o impulso democrático de contar as vidas de pessoas que, na sociedade, parecem não importar — pessoas sem poder, sem riqueza. São esses os protagonistas da ficção moderna, do romance moderno, desde Dom Quixote. E essa relação está intimamente ligada à nossa invenção da democracia, dos direitos humanos, da igualdade. A ficção ensina-nos a imaginar os outros, a compreender que todos, até a pessoa com menos poder na sociedade, têm uma história que é interessante, que é misteriosa. E essa sugestão, a de que todos possuem um universo oculto que vale a pena explorar, conduz diretamente às ideias de tolerância e empatia, que são essenciais numa sociedade.
Portanto, a ficção é mais indispensável do que nunca?
Bem, eu acredito que sim. Vivemos num mundo tremendamente atomizado com as redes sociais. Cada indivíduo vive no seu próprio mundo, fechado na sua câmara de eco, que não só confirma os seus preconceitos, mas também excita as suas emoções mais obscuras. As redes sociais habituaram os cidadãos a entender que a única maneira de existir no mundo é julgando os outros e, frequentemente, condenando-os. Elas estimulam o nosso lado mais negativo, os nossos ódios, as nossas antipatias. E neste universo em que estamos imersos 24 horas por dia, acredito que a ficção pode abrir um espaço onde aconteça o oposto, onde não se julgue, mas se procure compreender. Onde possamos trocar o ódio, o preconceito e a violência das palavras pelo reconhecimento de que a diferença pode ser tolerada. Portanto, sim, é extremamente importante.
Ser escritor hoje é mais perigoso?
Não, não. Acho que as agressões à literatura têm sido constantes ao longo da história e assumiram várias formas. O que se passa é que acreditávamos que essas agressões tinham ficado no passado. Pensávamos que, depois dos totalitarismos do século XX, tínhamos compreendido e chegado a um acordo, enquanto sociedade, sobre a importância de defender a imaginação, o direito de imaginar o mundo como quisermos e, acima de tudo, que questões como a liberdade de expressão estavam firmemente estabelecidas. E, então, vem a fatwa contra Salman Rushdie, a perseguição e o assassinato de jornalistas, os regimes que prendem ou forçam os seus romancistas ao exílio.
A Tradução do Mundo é um livro para os leitores, não é um livro académico.
Isso é muito importante.
É um livro para quem gosta de ler?
Não é um livro académico nem para escritores. É um livro dirigido aos leitores; leitores apaixonados por ficção. É um livro que quer contagiar outros leitores com a minha paixão por este ofício e mostrar que a ficção é iluminadora, ajuda-nos a entender o mundo, a estar no mundo.
A tradução do mundo e a maturidade literária estão relacionadas?
Boa pergunta. Acho que há algo estranho na relação que temos com os romances; os romances que escrevemos, mas também os romances que lemos. Por vezes, é preciso experiência para os entender melhor. É por isso que há grandes livros, livros muito importantes, que não nos dizem nada aos 20 anos, mas quando os lemos aos 40 mudam o nosso mundo.
Ou que nos dizem muito aos 16 anos e alguns anos depois...
Parecem-nos banais, não é? Por isso, sim, a maturidade do ser humano, mas também a maturidade do leitor, a capacidade de apreciar outras coisas na literatura, estão ligadas. A maturidade do romancista também é importante, porque para escrever romances é necessária uma certa experiência. A Marguerite Yourcenar dizia que não teria conseguido escrever as Memórias de Adriano aos 20 anos.
Já passou mais de meio século desde o ‘boom’ da literatura latino-americana, que conquistou o mundo pela ficção. Alguns críticos e jornalistas já falam de um segundo. Partilhas dessa visão?
Na realidade, não, porque não pode haver um segundo ‘boom’. Só há um ‘boom’, assim como o Big Bang só aconteceu uma vez. A ‘explosão’ daquela geração maravilhosa aconteceu porque, antes disso, a ficção latino-americana era praticamente inexistente. Havia alguns exemplos notáveis, mas não havia uma tradição literária sólida, e é aí que se dá a revolução. Já aconteceu e não se pode repetir.
Acredito, sim, que estamos a viver um momento de grande riqueza e produção literária. Há uma quantidade imensa de escritores, muito mais do que nos anos 60 ou 70, que ocupam um lugar de destaque na literatura global, atraindo a atenção de leitores noutras línguas. Carlos Fuentes dizia-me que, quando começou a escrever, os escritores mexicanos traduzidos para o francês eram apenas três ou quatro; agora são 30, ou até 40.
Há quem diga que o segundo ‘boom’ é das mulheres.
Isso é notável. Talvez a principal diferença entre esse período e o de hoje seja essa geração maravilhosa de mulheres escritoras. Na primeira linha da literatura latino-americana dos anos 50 não há uma única mulher; hoje, felizmente, isso já não acontece. Não é possível fazer um inventário dos grandes livros dos últimos 20 anos sem mencionar vários nomes de escritoras muito importantes. Temporada de Furacões, de Fernanda Melchor, Valeria Luiselli, os contos de Samantha Scheweblin, o jornalismo de Leila Guerriero...
Que livro na tua estante surpreenderia mais os leitores?
Acho que só surpreenderia se não me conhecessem como pessoa. Mas o que provavelmente causaria mais espanto seria a quantidade de livros sobre futebol que tenho. O futebol não é apenas uma paixão de infância; Javier Marías dizia que o futebol é a recuperação semanal da infância. Além disso, como fenómeno político, social e até histórico, o futebol sempre me interessou. É o desporto mais político, o que mais se relaciona com a nossa vida, mesmo nos seus aspetos mais negativos. Há um autor chamado David Goldblatt que escreve maravilhosamente sobre futebol.
O que estás a ler?
Estou a ler muita literatura italiana para um projeto do Instituto Italiano de Cultura de Bogotá, na Colômbia. Fui convidado para gravar um podcast sobre os meus livros italianos favoritos. Então, estou a ler Italo Svevo, Natalia Ginzburg, Fleur Jaeggy, Italo Calvino.
Por Rita Sousa Vieira
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