Escolhe a tua loja FNAC
Todas as lojas

Estamos a falar no dia em que os Rolling Stones anunciam um novo disco, 18 anos depois do último de originais.
São piores do que eu, são mais preguiçosos! Já tive dois períodos de 12 anos, o último antecedeu este disco, sem gravar um álbum de estúdio. Nem me lembro qual é que eles lançaram em 2005, mas já os vi muitas vezes ao vivo em vários sítios do mundo. Sou fã.
Bem sei, e sei que aos 14 anos a descoberta da música dos Beatles e dos Stones fez mudar muita coisa.
Comecei por esses, sim. Ouviam-se nas jukeboxes, apesar de estarmos no tempo de Salazar. Havia uma numa tasquinha em frente ao Liceu Camões, onde andava, e comecei a faltar às aulas para ir lá. Não era bem faltar às aulas. Quando o professor faltava, tentava sair, por vários truques, porque o porteiro não tinha ordem para deixar os putos saírem. Mas sempre que podia ia para essa tasca ouvir rock and roll. É nessa fase que abandono a ginástica, as aulas de piano, chumbei no quarto ano. [Tosse] Isto é o tabaco, um dia destes deixo isto.
O rock and roll mudou muita coisa.
Completamente, virou-me a cabeça. Eu estava farto de Chopin, de Beethoven, e dessas coisas.
Não farto o suficiente, porque acabas por voltar aí uns anos mais tarde.
Farto da disciplina... Até aos 10 anos fui um menino disciplinado, sem irmãos e sem grandes amigos. Passava muito tempo sozinho, com pessoas mais velhas, e até ir para o liceu fui muito atinado. Depois comecei a procurar a companhia dos mais velhos e mais malandros. O que originou com que fosse para um colégio interno daqueles severos.
Porque é que ainda se vaticina a morte do rock and roll?
Como diz o Neil Young: rock and roll can never die [Hey Hey, My My (Into the Black)]. Não morre e já existia antes de se chamar rock and roll. É uma atitude. Mais do que a própria música, é uma atitude. Ao longo da minha vida tenho tido períodos em que me apetece ouvir mais um género ou outro, apaixono-me mais por um estilo de música do que por outro. Houve uma altura, que foi uma inspiração para o meu primeiro álbum [Com Viagem na Palma da Mão], de 1975, em que fui muito influenciado pelo rock sinfónico. Pelos Genesis, sobretudo, mas também pelos Yes ou pelos Gentle Giant.
Este Vida foi influenciado por algum género em particular?
Não, este Vida... Durante esses períodos em que não gravei álbuns de originais, nunca estive parado. Na década de 80 saíram seis álbuns de originais, um deles duplo; na década de 90, em meu nome, não saiu nenhum. Mas retomei os estudos de música clássica e, em 1990, acabei, já com 40 anos, o curso superior de piano no Conservatório Nacional. Já tinha sido sugerido por muita gente, pessoas de editoras, amigos, que gravasse um álbum só de piano e voz... Aproveitando que as minhas mãos, tudo estava a funcionar muito bem, gravei um álbum só piano e voz que, ao fim de 22 anos, é um clássico [Só]. Mesmo nos concertos, apesar de serem com banda, as pessoas gostam do momento em que só toco piano e canto.
Depois veio uma segunda adolescência... Com 40 e tal anos comecei a dar-me diariamente, ou noturnamente, com o Zé Pedro e com o Kalú, dos Xutos, e com o pessoal dos Rádio Macau, o Alex e o Flak. Com o Flak, sobretudo. Ao longo dos anos ele tem trabalhado muito comigo, já produziu álbuns meus. O período do Rock Rendez-Vous foi o meu período de Paris. Cheguei a ir, mas coincidiu com o momento em que não estava em Portugal. Quando estava cá, abre o Johnny Guitar. Comecei a frequentá-lo diariamente e alguém se lembrou — acho que foi o Zé Pedro — de abordar canções minhas, mas com uma roupagem rock and roll. Em 1993 gravámos o álbum Ao Vivo no Johnny Guitar e, no ano seguinte, andámos por aí a fazer concertos.
E quem não teve idade nessa altura para ver um concerto de Palma's Gang pôde, em 2022, vê-lo no Capitólio.
Exatamente, duas gloriosas noites no Capitólio. Sem a presença do Zé Pedro...
Física, porque a guitarra dele esteve lá.
Uma gravação da guitarra. Aliás, foi a música que abriu o concerto. Fomos buscar o som original da guitarra do Zé Pedro. Ele fazia muita falta aos Xutos e aos Palma's Gang. Mas, voltando aos anos 90, trabalhei muito em teatro. Trabalhei com um encenador irmão do Luís Miguel Cintra e com a Maria Velho da Costa. Grande senhora, grande poetisa. Também trabalhei com a Companhia de Teatro de Braga, com o Rui Madeira, no Theatro Circo.
Na segunda metade dos anos 90, o Jorge Silva Melo convidou-me para ser pianista e compositor num espetáculo [Aos que nascerem depois de nós], essencialmente constituído por textos de Brecht, com músicas sobretudo do Kurt Weill e do Hanns Eisler. Eu reuni uma banda e tive que estudar 'n' partituras, e ele chamou a Lia Gama e cinco atores-cantores, alunos do Conservatório. Deu bastante trabalho e muito gozo. Estreámos no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, e corremos um pouco o país com estas canções. Aprendi muito.
Ainda nos anos 90, em 1996, gravámos o Rio Grande, com o Rui Veloso, o João Gil, o Tim e o Vitorino que, de repente, se tornou um grande sucesso. Em 1997 corremos o país todo, tudo o que era festival, foi sempre a abrir. Ainda no final da década, esse mesmo grupo gravou um segundo disco, com um projeto chamado Cabeças no Ar. Estive sempre ocupado.
E nestes últimos 12 anos...
Também não parei. Dei muitos concertos e escrevi finalmente a tal canção para o Carlos do Carmo, que ele chegou ainda a conseguir cantar.
Canção de vida.
Que fecha este disco, que se chama Vida.
Um disco que começa com Vida e acaba com a Canção de vida.
Que era devida ao Carlos do Carmo aí há 20 anos. E também descobri uma canção que tinha gravado no Dictafone e riscado uma letra, assim às tantas da manhã, com uma guitarra e tal. É essa a canção que abre o disco. Portanto, é um disco cheio de vida.
...
E tenho participado muito em discos e em espetáculos de outras pessoas, da Mariza à Cristina Branco, passando pela Aldina Duarte, Camané, Mafalda Veiga, Marisa Lis, Márcia ou A Garota Não, que eu não conhecia pessoalmente. Com a Márcia já tinha trabalhado nas Canções do Leonard Cohen, um espetáculo proposto pela embaixada canadiana em tributo ao Leonard Cohen, de quem sou fã. O Leonard Cohen tem sido um dos meus professores de toda a vida. Ele, o Dylan, os Stones, os Beatles, o James Taylor, eu sei lá. Muitas influências. Sem falar dos poetas e da canção francesa, com nomes como Jacques Brel ou Léo Ferré.
E na literatura?
Desde criança que tenho tido períodos de leitura muito intensos. Por outro lado, esses períodos em que leio muito alternam com períodos em que não leio nada. Nem revistas. Não é por perder tempo, até porque vejo imensas coisas, como documentários, na televisão. Sobre escritores franceses, Tennessee Williams, Truman Capote, por exemplo. Há documentários muito interessantes. Às vezes vejo demasiada televisão, sobretudo durante a pandemia. Via os noticiários todos, portugueses, italianos, franceses, da CNN [Internacional] e até da Fox News — esses fascistas!. Mamava as notícias todas.
Isso não causava ansiedade?
Não senti ansiedade nenhuma. Podia ter aproveitado para aperfeiçoar piano e guitarra, para ter escrito, para ter lido, mas isso não aconteceu. Ainda hoje estive com uma grande fotógrafa, grande amiga, a Rita Carmo. Ela foi uma das pessoas que me foi fotografar a casa, em plena pandemia, de máscara e descalça, a cumprir as regras todas. Não tive ansiedade nenhuma. E como já sou ancião, já tinha feito 70 anos, fui dos primeiros a ser vacinado.
Já há muito tempo que ouvia falar num próximo disco de Jorge Palma. Porque é que este Vida demorou tanto tempo a sair?
Quando falava publicamente, e particularmente, dizia: brevemente. Mas fui preguiçando. Não senti... Porque houve períodos em que senti necessidade económica, porque um disco traz trabalho de estrada.
Hoje cada vez mais.
Hoje cada vez mais é para isso que o disco serve. E também é um objeto, uma recordação. Mas os tempos das grandes vendas já foram, agora não se vende nada. Só compra quem de facto gosta de ter o objeto. Mas tem havido uma evolução, científica e tecnológica, tão vertiginosa, que eu... Vou entrar em obras em casa e tenho de despachar e encaixotar dezenas de cassetes daquelas antigas. Sei que numa delas está a gravação do meu último exame de piano no Conservatório, a tocar um concerto de Mozart ou Liszt. Tive dificuldade em encontrar um walkman. Isto tem evoluído tão rápido, a mentalidade humana nem por isso — continua igual à da idade da pedra. Tecnologicamente... Tem sido uma revolução, apesar de haver muita coisa que não me interessa. Tenho um iPhone, mas é para telefonar e para mandar mensagens.
E para enviar temas. Não teríamos canções como a Vida, que se teria perdido, se não a tivesses enviado para a tua equipa.
Eu vou tirando partido disso, claro. Tenho o Dictafone, porque às vezes não se tem uma caneta e papel à mão.
Mas, finalmente, o ano passado, disse: vamos lá a isto. Tinha meia dúzia de canções. Algumas delas incompletas. Gravámos ainda durante o verão, com alguns dos meus velhos companheiros de estúdio e de estrada. Além da minha banda, de excelentes músicos, grandes pessoas, chamei o Júlio Pereira, o Mário Delgado, o Tomás Pimentel, o Flak, o Rão Kyao, que tocou comigo, em 1971, no primeiro festival de Vilar de Mouros, nos Sindicato.... Com produção do Mário Barreiros, que também toca bateria num dos temas. E chamei um grande músico, muito novo, que nem conhecia pessoalmente, mas que vi tocar com o Salvador Sobral, para tocar saxofone alto. Fomos para os estúdios da Valentim de Carvalho, onde gravei o meu primeiro e segundo álbum [e o Só]. Gravámos quase tudo, só deixámos umas pontinhas para terminar depois.
E resolvi gravar à minha maneira a canção que o Carlos do Carmo me tinha pedido há 20 anos: "escreve-me uma canção, uma canção à tua maneira, não tentes escrever fado, porque não percebes nada". Demorei esse tempo todo porque escrever para o Carlos do Carmo implica uma certa... Não é reverência, mas... Quando a canção saiu...
Em E ainda..., um disco póstumo.
Ele conseguiu gravar já com alguma dificuldade, mas o homem era formidável. Portanto, resolvi concluir o disco só com piano e voz — porque o disco tem muitas sonoridades, cada tema tem o seu estilo e a sua identidade —, e à minha maneira. Não me meti a cantar fado.
No disco, há outros quatro convidados ainda não mencionados: o Rui Reininho e a Manuela Azevedo, mas também os teus filhos.
O Vicente faz parte da minha banda há vários anos. Aliás, é o membro mais antigo desta banda. O Francisco, que tem menos 12 anos, sempre teve aulas de piano e de guitarra, e está a tocar bastante bem, canta muito bem. E tem uma voz muito bonita e afinada. A pensar neles, escrevi uma valsinha, que se chama 3 Palmas na Mão. Cada um toca a sua guitarra.
A voz do Francisco é muito parecida com a tua.
E fisicamente também, só que tem mais metro e meio do que eu. Da Manuela e do Reininho... Sou grande fã de ambos, e amigo!
Esse processo de estúdio ficou registado num mini documentário realizado pelo Bairro da Música, onde ouvimos o Filipe Melo dizer que um “disco do Jorge Palma é um marco na música portuguesa”. Noutro momento, o Mário Barreiros diz “se calhar vamos ter de fazer isto...”, e o Jorge responde: “ou não”. Como é que encaixas a palavra dos outros e até que ponto estás aberto a sugestões?
Em primeiro lugar oiço.
Se não ouvisses nunca teríamos a canção Encosta-te a Mim editada. Foi o Rui Veloso e o Tim que te disseram que essa era para lançar.
Por exemplo, porque não a ia meter no Voo Nocturno. Depois foi o êxito que se viu.
Mas como é que é esse processo de troca de ideias?
Primeiro oiço, depois penso e então discuto com quem deu a ideia. A última palavra é minha ou do produtor. Mas, para todos efeitos, o disco é aqui do ‘je’. E muitas vezes aceito as ideias, mesmo quando penso o contrário. São sempre bem-vindas as opiniões dos outros. Sobretudo vindas de profissionais com a experiência do Mário Barreiros, que já me tinha produzido o álbum Norte, em 2004.
Mas há mais detalhes deliciosos nesse mini documentário, como os teus filhos a dizerem que o teu processo de trabalho é caótico. Não é o que dizem, mas a forma como o dizem. Recomendo, está disponível no YouTube.
E é um pouco caótico. É aparentemente caótico, porque há aqui qualquer coisa que espoleta a disciplina. [Em cima dos] meus pianos há partituras, letras, alinhamentos, jornais, correspondência. Quem vê é caótico, mas se for buscar uma fatura sei onde ela está. Quando estou dedicado a escrever uma canção, consigo concentrar-me e ser organizado.
E já te ouvi dizer que o consegues mesmo que seja numa esplanada ou num sítio muito barulhento.
Tenho escrito muito em perfeita solidão, sobretudo de noite, mas adoro escrever em esplanadas quando tudo à volta gira. Torno-me numa espécie de observador atento, mas ao mesmo tempo solitário naquilo que estou a escrever. É uma prática que tenho desde sempre.
Um detalhe que está imortalizado numa série da RTP, já com uns anos, Os Filhos do Rock, onde a personagem inspirada em ti aparece a escrever num guardanapo de um café.
O Rimbaud fazia isso, e acho que o Paul Simon também.
Outra referência, mesmo não sendo mencionado antes.
O grande Paul Simon, grande professor. Aliás, vi um concerto que, teoricamente, foi o último, em Nova Iorque, no Madison Square Garden. Fazia parte da Homeward Bound – The Farewell Tour, com muitos músicos atrás. E foi dos concertos da minha vida. Fantástico!
Que outros mais?
Ao contrário do Dylan, que já vi em Portugal, já vi em França, na Califórnia, o Paul Simon nunca tinha visto tocar ao vivo. Os Stones já vi quinhentas vezes... Recentemente voltei a ver o Dylan, uma semana depois do Chico Buarque, também um grande professor em língua portuguesa. O Caetano e o Djavan também. Gostei muito do concerto do Chico Buarque, como sempre, mas o do Dylan... O último dele que tinha visto em Lisboa... Nesse eu é que não estava muito bem, acho que estava um pouco ressacado. Desta vez gostei muito, estava com uma grande banda. Grande em qualidade, porque são poucos músicos, uns quatro ou cinco. Uma coisa muito coesa, este último foi um dos melhores concertos que vi do Bob Dylan.
Por concertos, há um que não queria deixar de mencionar: o do NOS Alive, este ano. Não estive, mas várias pessoas o descreveram como algo mágico. Qual foi a imagem vista do palco?
Não sei explicar. Só sei que estávamos todos, eu e os outros quatro músicos, com uma pica. Tudo correu extremamente bem, o som para o público, as luzes, a sequência, não houve ali um momento morto. Eu gravei esse concerto, e não gosto muito de ver gravações, mas no outro dia experimentei começar a ver e vi essa até ao fim. No palco ao lado estava a começar o concerto dos Arctic Monkeys quando a gente ainda estava a tocar, e o público não arredou pé até sairmos de palco. Não sei explicar, esperamos que os concertos corram sempre bem, mas nem sempre isso acontece.
Alguns têm qualquer coisa.
Não sei, umas estrelinhas.
Havia várias gerações no público.
Isso é costume, acontece muito. Vai do avô, para o pai e para o filho. No final dos concertos encontro muitos miúdos adolescentes, que me pedem uma selfie ou levam a guitarra e pedem que escreva qualquer coisa nela.
Por concertos, o de apresentação deste Vida foi em Coimbra, no Convento de São Francisco.
O Vida foi editado numa caixa, numa edição especial. Na capa estou a desfazer a barba pela primeira vez. Foi a primeira vez que fui a um barbeiro desfazer a barba. Não sei de quem partiu a ideia, mas a foto foi tirada numa barbearia muito simpática em Lisboa. Nunca tinha entregado o meu pescoço a ninguém, vejo muitos filmes da máfia.
Nas próximas datas, conta-se duas no Teatro Tivoli, em Lisboa.
A 19 e 20 de outubro no Teatro Tivoli, em Lisboa, e a 17 de novembro no lindo Theatro Circo, em Braga, onde gravei o disco com o Sérgio Godinho [Juntos] e onde trabalhei muito em teatro na década de 90.
Talvez uma das salas mais bonitas em Portugal.
Falando em salas mais pequenas, agora que ando a selecionar papéis, [dei com] alinhamentos que dizem a data e o sítio. Ando há décadas a percorrer este país e a descobrir sempre terras novas. Tenho tocado em teatros muito bonitos, uns mais pequenos e outros maiores. Portugal tem muito para fazer, e muito que fazer, mas também muita coisa feita e muito boa gente.
O que é que estás a ouvir?
Neste momento não sou afeito a nenhum estilo em particular. Os meus filhos mandam-me links de pessoas estrangeiras que não conheço para ouvir. Estou a lembrar-me de uma recomendação do meu amigo Mário Laginha. Eu gosto muito de bluegrass, um tipo especial de música do Kentucky, com ascendências irlandesas. Eu próprio fiz parte de um grupo de bluegrass quando estava a viver em Paris. Eram dois norte-americanos, um sueco e eu. O Mário aconselhou-me um livro de um bandolinista americano, novo, virtuoso, chamado Chris Thile, a tocar com um grande pianista, o Brad Mehldau. Tanto toca uma sonata de Beethoven, como é daqueles pianistas da clássica que sabe tocar jazz. Há muitos grandes pianistas que, quando lhes dizem para improvisar sobre um tema do Miles Davis ou do Coltrane, não sabem. Isso aconteceu-me quando tinha 14 anos, comecei a improvisar para me libertar da partitura. A guitarra aprendi com os discos e com amigos, tenho um bom ouvido. Até hoje continuo a aprender. Gosto de chegar ao fim do dia e de ter aprendido pelo menos uma coisa.
Por Rita Sousa Vieira
Produtos associados