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JOËL DICKER EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A JOEL DICKERENTREVISTA A JOEL DICKER

“Dou muito espaço à imaginação do leitor”



true crime rouba leitores ao thriller policial? Joël Dicker, considerado o mestre deste género, não vê os formatos como adversários, mas tem algumas coisas a dizer. O autor suíço esteve na Feira do Livro de Lisboa para o lançamento do seu último livro, Um Animal Selvageme conversou com a Cultura FNAC. A primeira pergunta veio do escritor espanhol Javier Castillo.





 

Pedi ao Javier Castillo uma questão para ti e é por aí que começo. “O Marcus Goldman vai voltar ou vai viajar para outro país?”, perguntou.

 

É uma ótima pergunta. O Javier Castillo é um homem muito inteligente, gosto muito dele. Será que o Marcus Goldman [protagonista da trilogia iniciada com A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert] vai voltar? Não sei, e não gosto de dizer se sim ou se não. Não se trata de fazer disto um mistério ou segredo, mas por agora não tenho planos. Veremos.

 

Mas essa pergunta vinda do Javier... Inspira-me. E se tirássemos o Marcus da América e o levássemos a outro sítio, o que é que aconteceria? É assim que um livro começa. Com questões como 'o que irá acontecer?' ou 'porque viajaria?'. Não é o Marcus viajar para algum lado, é o onde vai, o porquê, qual a ocasião. Se viaja cedo, se é por algum motivo em especial. Todas essas questões estão presentes no início. É assim que um livro começa.

 

Um Animal Selvagem é o primeiro livro publicado depois de terminada a “trilogia Marcus Goldman”. Sentes que é um novo começo?

 

É uma boa pergunta, porque decidi que seria uma trilogia antes de A Verdade sobre o Caso Harry Quebert ter tido o sucesso que teve. À altura, tinha escrito cinco ou seis livros, e todos eles foram rejeitados pela editora. E pensei: nunca tive a oportunidade de terminar algo que fosse muito importante para mim. Não me guiei pelo sucesso, por uma qualquer exigência, por um contrato, pelas expectativas, pelos leitores. Foi algo que queria muito, e que entendi que tinha de fazer. Passar por este processo, e terminá-lo. Tudo isto para dizer que foi muito importante para mim ser fiel a mim mesmo. O Joël autor, que trabalha sozinho na sua secretária, é o mesmo que escrevia livros que não eram lidos, e que escreve livros que são lidos por todo o mundo. Os sentimentos, as dúvidas por que passo são os mesmos. Escrevi livros que ninguém lia e que eram recusados pelas editoras e escrevi livros que são lidos por milhões de pessoas: o que senti foi exatamente o mesmo em ambos casos. O que é ótimo.

 

Qual o significado do título?

 

Há muitas interpretações possíveis, mas, no fim de contas, é sobre como devemos escutar um animal selvagem. Todos temos o nosso animal selvagem: chama-se instinto. Nós somos animais; somos parte do reino animal. Partilhamos ADN com os animais, com os macacos. Há um animal, um lado selvagem em todos nós, que devemos por vezes escutar porque os animais têm um instinto que nunca lhes mente. O instinto que diz a uma tartaruga que acaba de chocar numa praia que tem de ir para o mar durante vinte anos, e depois desses vinte anos voltar ao local exato onde nasceu. Isto é instinto, e nós partilhamo-lo.

 

Mas também temos o Instagram, que nos diz: 'não faças isto'... Ou temos os nossos amigos, que nos perguntam porque haveríamos de nos despedir do nosso emprego e começar de novo. 'Ah, queres escrever um romance totalmente diferente do anterior? Não faças isso'... Ouvimos demasiado as pessoas e não o devíamos fazer. Devíamos confiar no nosso instinto.

 

Depois de O Enigma do Quarto 622, voltas a escrever sobre Genebra, a tua cidade. Isso torna a escrita mais fácil ou dificulta-a?

 

É muito diferente. Ao início, foi-me muito difícil escrever uma história passada em Genebra, e é por isso que A Verdade sobre o Caso Harry Quebert se passa nos Estados Unidos. Percebi, comparativamente aos meus romances anteriores — e, há pouco, falava de entretenimento —, que eu escrevo ficção. Não é a minha vida, é ficção pura. É isso que adoro fazer. E percebi que colocar a ação a desenrolar-se nos Estados Unidos, que conheço muito bem, passei lá muito tempo, foi-me mais fácil do que colocá-la em Genebra. A distância permitiu-me sentir-me livre na ficção.

 

Não tive qualquer problema ao criar o A Verdade sobre o Caso Harry Quebert, ao criar uma cidade fictícia na Costa Leste. Criar uma cidade fictícia na Suíça foi-me impossível, porque a Suíça é a minha realidade. Pelo que a distância foi uma grande ajuda.

 

O Enigma do Quarto 622 foi o meu primeiro livro em que a história se passava em Genebra; este é o segundo. Agora sinto que consigo decidir em absoluto se a história se passará nos Estados Unidos ou em Genebra. O que preciso mesmo é de estar num sítio que conheça bem. A diferença agora é que, na minha cabeça, Genebra é como caminhar num lugar que conheço, e os Estados Unidos é como uma viagem de trabalho.


Li que passaste um dia com a polícia de intervenção de Genebra. Como foi essa experiência?

 

Essa foi uma experiência que tive após ter escrito o livro. Nunca fiz pesquisa; nunca o faço para um livro. Nos meus livros as personagens estão em primeiro lugar, depois vem o enredo. Não é como em livros escritos por polícias, ou ex-polícias, que só se focam na investigação, nos métodos policiais. É por isto que nunca perguntarei a um polícia se algo é real, ou não, ou sobre o que devo escrever. Isso pode distrair do enredo. Fiquei contente por conhecê-los e por discutir essas coisas depois de ter escrito o livro.

 

O que faz de um livro, um livro de Joël Dicker? Qual é a tua assinatura?

 

A existir, é o envolver o leitor. Fazê-lo recordar. Não sei se tenho sido bem-sucedido, mas é o que almejo. Entretê-lo, no melhor sentido da palavra – porque, por vezes, sentimos que o entretenimento não é bom. O entretenimento é a essência da vida, porque é o que nos faz sonhar, o que nos faz suportar os nossos dias. É o que dá um gostinho de algo maior, mais forte. É por isto que adoramos bons filmes, porque nos fazem viajar, nos fazem sonhar. Com livros passa-se o mesmo. É o que pretendo, muito modestamente.

 

O que esperas de um leitor depois de ler a última página de um livro teu?

 

Não espero muita coisa. Não costumo dar conselhos sobre escrita, porque há tantas formas de escrever quanto há escritores. Toda a gente tem a sua maneira. O que posso dizer é: não esperem nada dos outros. A escrita é algo muito pessoal, mesmo sendo feita para ser partilhada. É algo sobre ti, que queres partilhar.

 

É como se fosses cozinheiro: estás num restaurante, não sabes quem vai entrar, vais limitar-te a cozinhar da melhor maneira que sabes, com toda a tua alma, procurar fazer os pratos de que gostas e partilhar algo através disso. Mas não podes ter expetativas acerca disso. E se alguém entra e quer comer um prato de esparguete, e não tens esparguete no menu? E se alguém é alérgico a nozes, devo retirar todas as nozes do menu? Não: faço o que tenho a fazer. Alguém virá ao restaurante, dizer que é alérgico, e tu vais dizer-lhe para que prove outra coisa.

 

O ponto também é esse. Acho que uma coisa que nunca é mentira, e que os leitores entendem sempre, é a alma que colocas no trabalho que fazes. Os leitores sentem-na.

 

Quando trocas pontos de vista com os teus leitores, ainda ficas surpreendido?

 

É sempre uma surpresa, e é muito interessante. Escuto-os, mas muitas vezes não respondo às suas questões, porque os livros pertencem-lhes — apesar de eu os ter escrito. As coisas que não menciono nos livros, por exemplo, não descrevo fisicamente as personagens, não descrevo os lugares, por vezes nem dou nomes às personagens... Há alguém que me diz que certa personagem é loira, ou morena, ou que a casa é assim, assado, que o nome devia ser este, aquele. E eu digo-lhes que os leitores são eles, que o livro é deles.

 

Falei recentemente com a escritora brasileira Carla Madeira que diz que o livro acontece no leitor.

 

É verdade. Todos estes livros à nossa volta, este livro em cima da mesa [refere-se à biblioteca da Penguin Random House, local da conversa], não existem até alguém os ler. Não passam de objetos, de papel. Podes atirá-los a alguém ou fazer um monte. Só é um livro quando alguém o abre e o lê.

 

Este interesse em histórias de true crime, com o aumento exponencial de séries e de documentários do género, tem-te garantido novos leitores? Ou, pelo contrário, a televisão é um inimigo.

 

Não há inimigos... Não os devemos ver como nossos adversários. No mundo das proteínas há carne e há peixe: são duas coisas diferentes! Não estou preocupado com isso, de todo. Preocupam-me o TikTok e o Candy Crush. Preocupa-me a estupidez, muito. Mas as pessoas dedicarem-se a um bom filme, a uma boa série, a um bom documentário ou a um bom livro... Isso é ótimo. Aprendes algo, fazes algo.

 

Mas acredito, também, que no que toca a true crime, se vês um, vês todos. É o que sinto. É a minha opinião pessoal: não estou a tecer quaisquer julgamentos de valor. Acho-os algo aborrecidos. E a maioria são histórias tristes, horríveis... Alguém que estava correr num parque e foi assassinado, alguém da família que mata alguém... Não gosto disto.

 

A última série de true crime que vi foi na MAX, chama-se The Staircase; à medida que a via, li sobre ela e percebi que era uma história real. Não só isso, como tinha havido um documentário, que foi realizado primeiro. Vi ambos e achei muito interessante entender como a série era fiel. E também achei interessante o facto de não saberes nada até ao final da série. Devia acontecer o mesmo com os livros, ou com qualquer coisa que faças. Vocês são leitores ou telespetadores: nós somos responsáveis, a dada altura, por uma tomada de decisão. Eu gosto disso. Gosto que seja do género, 'o que devemos fazer?', 'o que teria eu feito?', 'foi o juiz ou foi este tipo?', 'e se eu conhecesse este tipo?'. Levanta muitas questões e eu acho isso interessante.

 

Porque é que não há muito sangue nos teus livros?

 

Não há, verdade. Não tenho problema nenhum com sangue, mas enquanto leitor não gosto. Não acho que faça sentido. Talvez porque nos meus livros os homicídios são, na verdade, um pretexto para a história. Não a história.

 

Tens gerido a tua própria editora, a Rosie&Wolfe. Que tal é ser autor e editor? Sei que dizes que não és editor, mas...

 

Não sou editor [risos]. Não é muito diferente daquilo que fazia antes. Dantes, trabalhava com o Bernard de Fallois, e sentia-me muito contente. Devo-lhe tudo. Mas o Bernard de Fallois era sessenta anos mais velho que eu; aos 92, decidiu seguir outra vida, lá no céu. No seu testamento, pediu para que a sua editora fosse encerrada, porque ele era muito independente e preocupava-o que a editora fosse vendida a um outro grupo e perdesse essa independência. Pelo que a editora fechou e tive que tomar uma decisão.

 

Com o Bernard de Fallois estive sempre muito envolvido em todo o processo. De escrita, de publicação, na escolha do papel, das capas, dos direitos de autor... Lidava com muitas coisas. Fazia muitas dessas coisas sozinho. Criar a minha própria editora foi só o passo seguinte, após ele morrer. Pensei: já estava a fazer quase todo o trabalho sozinho, pelo que mais valia assumir. Não é algo que, no meu caso, seja novo. Diria que agora até é mais fácil.

 

O que vamos poder ler editado pela Rosie&Wolfe?

 

Lançámos agora um livro muito interessante sobre a II Grande Guerra, War in the Shadows, que se foca nos Serviços Secretos Britânicos. Foi traduzido do inglês, é da autoria de um grande jornalista inglês, o Patrick Marnham. É um ensaio muito interessante sobre a relação entre Londres e a Resistência em França, e especialmente sobre o Dia D, cujo 80º aniversário celebrámos recentemente.

 

Este é o teu sexto thriller. Pensas escrever outro género?

 

Fá-lo-ei, certamente. Não sei quando ou que género... Poesia talvez não, porque não leio muita poesia. Mas pode vir a ser qualquer coisa.

 

Depois de A Verdade sobre o Caso Harry Quebert, podemos esperar mais alguma adaptação televisiva?

 

Talvez. Há algum interesse em que isso aconteça, com todos os meus livros. Tenho pessoas da televisão, e do cinema, que me dizem ter ideias para um dos meus livros; eu digo-lhes para trabalharem nisso e depois virem falar comigo, e elas respondem que afinal é complicado, por causa da linha temporal, dos flashbacks... E é de facto complicado. Julgo que lhes chamam cinematográficos porque deixo muito espaço à imaginação do leitor.

 

O que escreves quando te pedem para assinar um livro?

 

Escrevo 'desfruta do livro' ou 'bom ver-te'. O que quer que esse encontro determine.

 

Houve algum pedido especial por parte de um leitor português?

 

Não particularmente. Aquilo que é universal com os livros é que são algo para se partilhar, ou para partilharem consigo mesmos. Um leitor que já tenha lido o livro, ao ser autografado, criará uma ligação comigo, ou com alguém. É como um presente que querem dar a alguém porque querem que essa pessoa descubra o livro, ou porque lhes querem agradecer por lhes terem dado a conhecer o meu trabalho, ou porque é dirigido a alguém que está no hospital... É isso que é tocante nos livros, não só com os meus. É algo que liga as pessoas.

 

Qual foi a tua experiência mais memorável durante a promoção de um livro?

 

Creio que ver a reação das pessoas. A Feira do Livro de Lisboa foi de loucos, havia tanta gente que faziam duas filas... Enquanto continuar a sentir-me surpreendido e agradecido, será bom. Não estava à espera disto, de ter tantos leitores.

 

És baterista. A que soa Um Animal Selvagem? Que batida tem o livro?

 

Já não toco muito, mas é uma bela pergunta. Talvez soe a um solo de bateria, com um bocadinho de contrabaixo. Nervoso, mas orelhudo.

 

Ouves música enquanto escreves?

 

Sim, de todos os géneros. Muito jazz, muito funk, coisas assim. Sei que há leitores que ouvem música para filmes, sons emocionais. Mas não ouço música triste durante cenas tristes. A música dita o ritmo, sabes?

 

Já estás a escrever o próximo livro?

 

Estou sempre a escrever. Terminei este livro em agosto do ano passado. Há sempre algo na calha.

 

O que é que estás a ler?

 

Tenho estado completamente fascinado pelo Vemo-Nos em Agosto. É um bom lembrete do como e o porquê do Gabriel García Márquez é o mais importante de todos os autores contemporâneos.

 

Por Rita Sousa Vieira

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