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Velar Por Ela recebeu o Prémio Goncourt 2023. Podes explicar aos leitores portugueses a importância desta distinção?
Para os franceses, mesmo para aqueles que não leem, este prémio é muito importante e tem um enorme significado. Quem o recebe, torna-se numa estrela da noite para o dia. É como fazer música e lançar um hit que toda a gente quer ouvir. Além disso, tem um enorme impacto nas vendas. Este livro já era um sucesso, mas, depois da distinção, a procura disparou. É uma loucura.
A certa altura questionei-me se as pessoas estavam a comprar o livro só por ter recebido o Prémio Goncourt. E se estivessem? É bom ver que a literatura está viva e que um escritor pode ser tão popular como a Taylor Swift — bom, talvez não tanto. É bom saber que um prémio literário gera esse entusiasmo nos leitores, mesmo entre aqueles que não leem. Acho que ainda somos dos poucos países onde isso acontece. E não são só os escritores que beneficiam, é a literatura que ganha.
Qual foi a reação ao saber que o livro tinha vencido?
Desde 1914 que a decisão é tomada no restaurante Drouant, em Paris. Sente-se o peso da história quando esperamos pela chamada. Isto porque apenas o vencedor é que recebe o telefonema. Até à véspera da decisão não acreditava que tinha hipóteses, só nessa manhã é que pensei que podia bem acontecer.
O anúncio é feito por volta do 12h50, porque a seguir há um almoço. Estava muito nervoso e pelas 12h00 já assumia a derrota. Mas a minha editora disse-me para aguardar mais um pouco. Já convencidos de que não tinha ganho, lembro-me perfeitamente da hora, eram 12h37, decidimos abrir uma garrafa de champanhe. Faço um discurso, as caras são de derrota, mando mensagem à minha família... E depois oiço gritos. O relógio marcava 12h43. Sei porque tenho uma mensagem enviada a essa hora. Tenho as imagens todas na minha cabeça. Vejo a minha assessora de imprensa a correr na minha direção, lembro-me perfeitamente da cara da minha editora, de várias pessoas a chorar, e alguém diz: "foste tu". “Como assim, sou eu?” Sento-me nas escadas ainda sem perceber o que se estava a passar. Chorávamos e ríamos. E, de um momento para o outro, alguém me mete dentro de um táxi. "Para onde vai?", perguntou o taxista.
Tudo isso é muito cinematográfico... É um guião que se escreveu sozinho.
Tivemos de procurar a morada, não sabíamos. À chegada... bem, foi uma loucura. Já tinha visto imagens na Internet, mas passar por isso é totalmente diferente... Há câmaras, microfones na tua cara. É como entrar num filme. Nunca na minha vida pensei que ia passar por essa experiência. Demorei meses a assimilar tudo. Leio a lista de autores que já receberam o prémio e sinto-me tão pequeno.
Agora também fazes parte dela.
Sim, sim. É de loucos. Sinto-me tão grato e orgulhoso por saber que faço parte de uma família e de uma história com 121 anos.
O vencedor recebe um cheque simbólico de 10 euros.
Que não me deram no dia, esqueceram-se. Só o enviaram depois.
O que é que fizeste com esse valor?
Emoldurei-o e coloquei na parede. Na história do prémio, acho que ninguém levantou o cheque.
O teu primeiro romance, Ma Reine, publicado há sete anos, foi rejeitado 40 vezes por várias editoras. Alguma vez pensaste em desistir?
Não, não. Na verdade, quando escrevi esse romance, nem sequer pensei que ia ser publicado. Escrevi-o porque estava farto do mundo do cinema, estava farto das limitações que me eram impostas. Tive uma discussão com uma plataforma de streaming, que me disse "adoramos o que fazes, mas é demasiado original". E, de repente, tinha este romance na cabeça, mas sem saber o que fazer com ele, como escrevê-lo. Quando finalmente o escrevi, senti-me tão bem, percebi que era isso que queria fazer. Sabes, quando tinha nove anos queria ser escritor.
Na escrita, há que ter a dose certa de dúvidas e uma grande dose de confiança. Depois de o ter terminado, pensei: "por que não enviá-lo para as editoras?". Lembro-me que três semanas depois recebi a primeira rejeição. Foi muito rápido. Lembro-me de estar à frente da minha caixa de correio, estou a visualizar neste momento, e de, ainda antes de as abrir, saber que vinha lá uma rejeição. E dizia à minha mulher: "Não quero saber, um dia alguém vai gostar". Deixei de o enviar para as grandes editoras e concentrei-me nas mais pequenas. Foi aí que me falaram na Éditions de l'Iconoclaste. Gostei logo do nome. Não era muito conhecida, apesar de já editarem, sobretudo, livros de História e de História de Arte há mais de 20 anos. Sem qualquer tipo de expectativa, enviei-lhes o manuscrito do livro.
Um mês depois, estava a sair do set da última filmagem como realizador, um videoclip, e ligo o telemóvel. Tinha uma mensagem da editora a dizer que adoraram, para não mostrar o livro a mais ninguém. "Vem a Paris!". E fui. Eu e a Sophie de Sivry [editora] tivemos uma ligação instantânea, que evoluiu para uma relação de amizade, de confiança e de admiração mútua. Foi assim que tudo começou.
Alguma das outras editoras contactou-te depois de receberes o Prémio Goncourt?
Claro! E até antes. Quem me ligou não foi quem rejeitou o livro, porque provavelmente nunca lhe chegou às mãos. Fui contactado por várias editoras logo após o lançamento do Ma reine, quando começou a ser muito falado. Faz parte do jogo, não me sinto melhor por isso.
Quando é que começaste a escrever o Velar Por Ela? Qual foi o gatilho?
Estava a ver um filme do Paolo Sorrentino sobre o Silvio Berlusconi. Loro [Silvio e os Outros, em português]. Em Itália, o filme saiu em duas partes. Havia uma cena numa Igreja, que não tem nada a ver com o meu livro, e de um momento para o outro... A imagem de uma estátua de Cristo comoveu-me muito. Sorrentino é um génio e aquele momento é muito poderoso. Fez-me querer escrever. Por vezes, as ideias surgem-me quando oiço música ou admiro quadros de que gosto. Se me transmite algum tipo de emoção, desencadeia algo. Não é sempre assim, mas é como normalmente acontece.
Passei dez meses a construir esta história, a puxar o fio à meada. Quanto mais a desenvolvia e estruturava, mais história percebia que tinha para contar. Só depois comecei a escrever. E quando começo a escrever, não paro nem penso muito. O que leem hoje, o que está no livro, não se desviou quase nada da ideia original.
Disseste a uma rádio francesa que querias escrever o livro que gostavas de ter lido quando eras mais novo. O que é que isso significa?
Sempre fui um leitor muito eclético, sempre li de tudo. Desde literatura italiana — Italo Calvino, Umberto Eco — à americana — John Fante —, mas também O Senhor dos Anéis e muita ficção científica. Basicamente, li os livros que toda a gente gosta e lê — ou leu. Livros que nos contam uma história, livros que nos fazem sair da nossa própria vida e nos levam numa viagem para outros mundos.
Quem são as personagens principais de Velar por Ela: Mimo e Viola ou a arte e Itália?
Mimo e Viola, sem dúvida. A Viola surgiu antes de Mimo, porque eu queria escrever um livro sobre uma mulher extraordinária. Sou sensível, como espero que muitos homens sejam, aos direitos, e à luta por esses direitos, das mulheres. A minha mãe era uma mulher muito forte e muito feminista. Por isso, fui educado com esses valores, que hoje mantenho. No entanto, e acho que me apercebi disso ainda mais quando escrevia o livro, as coisas não mudaram assim tanto. Mudaram se compararmos com a Idade Média, mas não mudaram assim tanto desde 1940, por exemplo. De uma forma geral, as mulheres ainda têm de lutar muito mais do que os homens, que provavelmente até são menos competentes, para chegar ao mesmo sítio. Por isso, quanto mais escrevia sobre a Viola, mais a amava.
É uma resposta muito longa, eu sei, mas é importante para mim. Já tinha observado nas mulheres que me são muito próximas que, por vezes, e apesar de serem brilhantes e feministas, diziam que não conseguiam fazer algo. E eu sabia que elas conseguiam. Depois comecei a perguntar-me porque é que elas se autoimpunham estes limites, que obviamente não existiam. A minha teoria, e penso que não está errada, é que existe uma forma de tirania, uma opressão antifeminista, com séculos. Que te diz: "O teu lugar não é ali porque és mulher" ou "És uma mulher, não deves fazer isso". Essas vozes, passam de geração em geração. É demasiado poderoso lutar contra algo que não se pode dar um nome, que mudou de rosto, mas que continua a ser um inimigo que deve ser combatido todos os dias.
Por isso é que digo que a Viola é a heroína deste livro. Mas não podia escrever como uma mulher, não queria escrever como a Viola, sentia que, se o fizesse, de alguma forma estaria a trai-la porque sou um homem e não tenho qualquer experiência íntima do que é ser mulher. Foi assim que criei o Mimo e coloquei-me nele. Ele é um bom rapaz, mesmo que às vezes o queira esbofetear.
Qual a tua relação com Itália?
Itália é o país dos meus antepassados, do lado da minha mãe, que vieram para França nos anos 20. Não tinha muita ligação a Itália, mesmo vivendo a 60 quilómetros da fronteira, e isso deixava-me muito frustrado. Nem na escola, quando tentei aprender italiano, me deixaram. Diziam que era uma língua demasiado fácil, havia que aprender alemão. "És bom na escola, tens de aprender alemão." Acho que, de alguma forma, sempre fantasiei em ser italiano. Itália ensinou-me tanta coisa, através da arte, da música, das paisagens, e até dos romances.
O livro tem uma dimensão política?
Claro, a começar na questão feminista. Depois, à medida que escrevia, pensava: "Meu Deus, isto está a acontecer, isto não é assim tão diferente do que se passa hoje em dia". O que se passou há 100 anos é muito atual, mas o futuro não está escrito, podemos impedi-lo. Falando, votando... Votando mesmo naqueles de que não gostamos. Já votei em candidatos de que não gosto, mas sei a diferença entre eles e um candidato fascista.
Mas este não é um romance histórico, ou é?
Nunca o defini como sendo. A História faz parte do livro da mesma forma que faz parte das nossas vidas.
O que Mimo diz sobre a escultura traduz a tua visão sobre a escrita?
A escrita e a arte em geral. E estou muito contente por tê-lo conseguido.
Se o tivéssemos de resumir numa frase ou ideia, podemos dizer que a arte é a melhor forma de lutar contra a tirania?
Sim, completamente. Acredito no poder da arte, acredito que a arte nos liga a algo maior do que nós. Não vais lutar com um quadro ou com uma música na mão, mas eles têm o seu poder. O poder de, a longo prazo, nos educar e nos tornar imunes a ideias horríveis. Funciona como um antídoto.
Há alguma marca dos anos de cinema nos teus livros?
Foram anos muito importantes para mim, mas acho que não. Talvez no ritmo dos livros? Não sei.
O que estás a ler neste momento?
Estou a ler um livro francês que ainda não foi editado, por isso não posso falar dele. Antes li o O Grande Gatsby e adorei. Continuo a ler os clássicos, ou a tentar. E leio-os em inglês e em francês.
Porquê?
Os meus primeiros filmes foram todos escritos em inglês. Desde adolescente que tenho uma relação muito próxima com a língua inglesa. Faz parte da minha vida, a minha mãe era professora de inglês.
Por Rita Sousa Vieira