Escolhe a tua loja FNAC
Todas as lojas

De que é que tem medo um escritor de thrillers?
Tenho medo de duas grandes coisas, uma é delas é a solidão, outra é que aconteça alguma coisa à minha família, especialmente aos meus filhos. Esse é o meu maior pesadelo e é algo que, sem me aperceber, tenho vindo a transmitir nos meus livros.
A solidão é o grande problema do século XXI?
Vivemos numa época em que pensamos que estamos acompanhados, porque estamos sempre a ver pessoas, mas na realidade estamos sozinhos. Pensamos que estamos acompanhados pelo telemóvel, pelos ecrãs, mas estamos sozinhos. Acredito que os livros têm um poder que os ecrãs não têm. Os ecrãs criam uma falsa sensação de que estamos conectados com outras pessoas, os livros permitem ao leitor conectar-se consigo mesmo.
O que te levou a começar a escrever?
Comecei a escrever quando tinha cerca de 9 anos. A minha mãe dava-me dinheiro e eu comprava livros que se supõe serem para adultos. Quando terminava, escrevia um conto inspirado no que tinha acabado de ler. Recordo-me que o primeiro foi o Encontro com a Morte da Agatha Christie. Li muita coisa dela, depois passei para o Stephen King.
O mistério sempre te atraiu?
Questões como ‘de onde surge o mal?’ ou ‘temos todos algo de errado?’ sempre me fascinaram.
A verdade é que acabaste por seguir a via dos números. A validade de um escritor mede-se pelo seu volume de vendas?
Antes de ser escritor pensava que sim, mas agora penso exatamente o contrário. O valor de um escritor é definido pelos riscos que está disposto a correr a cada livro. Ser original, explorar novas ideias e ter uma voz única é muito mais corajoso e valioso do que o número de vendas.
Teres estudado Gestão Empresarial deu-te algumas ferramentas ou estratégias para a escrita?
Bem, estudei Gestão apenas para ter uma carreira. Não era algo que me apaixonasse muito, mas precisava de dinheiro e essa era uma forma fácil e rápida de arranjar emprego. A minha paixão era outra e durante esse período nunca deixar de escrever. Por outro lado, ter estudado Economia fez-me ser muito mais analítico e organizado na escrita. Antes deixava-me levar pela história, agora planeio tudo muito bem. Durante três ou quatro meses trabalho no planeamento de todo o enredo, depois sento-me a escrever.
Porque é que dizes que a escrita de O Jogo da Alma, agora editado em Portugal, foi a mais difícil?
Ainda é o livro que senti mais dificuldade a escrever, sem dúvida, e por muitas razões. Ser o segundo livro, depois de um grande êxito, também contribuiu para isso. Já tinha tudo planeado, sabia o que queria escrever, mas sentia uma enorme responsabilidade. A Menina de Neve foi a companhia de muitos espanhóis durante o confinamento. Tinha medo de manchar a imagem que os leitores tinham do livro.
Como é passar de um desconhecido para um dos escritores mais populares em Espanha?
Honestamente, é esmagador. Estou super grato, mas encaro-o com muita humildade. Tenho muitos amigos escritores que não têm tanta sorte como eu e vejo como eles têm o mesmo talento, ou mais, do que eu. Sou um sortudo!
Porque é que as tuas histórias são ambientadas nos EUA e não em Málaga, onde vives?
Tudo começou com o meu primeiro romance, O Dia em Que Perdemos a Cabeça. Tinha uma história tão explosiva e surpreendente que quando estava a escrever pensei: "Isto não se pode passar em Málaga, ninguém vai acreditar". Os romances devem ser ambientados nos locais onde funcionam melhor.
No A Menina de Neve, e depois n’O Jogo da Alma, queria abordar a queda do jornalismo e fazer uma crítica ao jornalismo sensacionalista. Só fazia sentido criar um jornal fictício, o Manhattan Press, nos Estados Unidos, com jornais como The New York Times ou o Boston Globe como uma referência universal do bom jornalismo.
"Um país disposto a deixar morrer a imprensa é um país disposto a deixar morrer a sua democracia", lê-se a páginas tantas n'O Jogo da Alma. O jornalismo ainda é o quarto poder?
Perdeu poder, obviamente, com as redes sociais, mas especialmente com esta tendência para ler apenas os títulos. Antes o jornalismo tinha o poder de nos fazer pensar ou refletir, agora o imediatismo retira o sentido crítico às pessoas.
A Miren Triggs é uma boa jornalista?
Quando falo com jornalistas, todos me dizem a mesma coisa. Na universidade querem mudar o mundo, fazer isto ou aquilo, contar toda a verdade, mas quando chegam às redações percebem que não é assim tão fácil, há coisas que não se podem escrever ou que têm de ser contadas de outra forma. A Miren foi essa estudante, mas com o tempo nada mudou, os seus valores continuam intactos.
Os teus livros têm mulheres como protagonistas. Como é trabalhar essa voz?
Tento fazê-lo da forma mais honesta. A verdade que leio muitos livros que têm primeiras vozes femininas e, de uma forma ou de outra, interiorizo isso. Sempre fui capaz de sentir empatia e de me colocar no lugar de outra pessoa. Quando encontro uma voz feminina, como a de Miren, que é capaz de exprimir as suas emoções de uma forma tão frágil mas ao mesmo tempo forte, fico fascinado ao ponto de ter a sensação de que ela vive dentro da minha cabeça. E a verdade é que a vida toda estive rodeado de mulheres: a minha mulher, a minha mãe, a minha avó. Aprendi com as melhores mulheres do mundo, que são elas as três.
Há algo delas na personagem da Miren?
Talvez, mas não diretamente. Consigo-a identificar mais nas conversas com amigas da minha mulher, que partilham comigo os medos que muitas mulheres enfrentam. A insegurança que sentem ao sair de uma festa ou os contactos incómodos com outros homens. Isso deu-me muitas ferramentas para escrever.
A personagem da Miren regressa num terceiro volume, La Grieta del Silencio. Quando é que chegará a Portugal?
Em abril do próximo ano, espero.
Esse regresso foi um pedido dos leitores? Pelo meio saiu El Cuco de Cristal (ainda sem edição portuguesa).
Já o tinha planeado quando comecei a escrever, em 2019, A Menina de Neve. Três histórias distintas com três elementos nostálgicos dos anos 80. Em A Menina de Neve um VHS, n'O Jogo da Alma a polaroid, e no La Grieta del Silêncio uma cassete. Pelo meio surgiu a proposta da Netflix para a adaptação em série de A Menina de Neve e eu quis estar muito envolvido no processo. Foi por isso que decidi escrever El Cuco de Cristal, um romance independente.
Isso quer dizer que ela não volta para um quarto livro?
Não, El Cuco de Cristal será o último com Miren.
A propósito da adaptação televisiva de A Menina de Neve, foi fácil deixar Miren e as restantes personagens noutras mãos?
Sim e não, porque não era só pegar na história e nas personagens e criar algo novo. Por exemplo, no livro, o desfile do Dia de Ação de Graças passa-se em Nova Iorque e, com a Netflix, ficou claro que tinha de ser em Espanha. Também decidimos dividir em dois a personagem do inspetor Ben Miller, que no romance passava muito tempo sozinho. Foram feitas ligeiras alterações, mas foram todas muito bem pensadas e todas aprovadas por mim.
Não receias que estas mudanças confundam quem chegou aos livros pela série?
A série funciona maravilhosamente como uma série e o livro como um livro, ambos têm elementos muito diferentes. Claro que se fores ler o livro depois de ver a série és capaz de ficar de coração partido. O livro é outra experiência, mete um dedo em várias feridas.
Haverá uma segunda temporada?
Sim, acabámos de filmar em maio e estamos na fase de pré-produção.
Ela incide na história d’O Jogo da Alma?
Sim, só não sei como se vai chamar. Talvez A Menina de Neve, com O Jogo da Alma como subtítulo.
Tens alguma pergunta para o Joël Dicker?
O Marcus Goldman vai voltar ou vai viajar para outro país? [descobre a resposta na conversa Joël Dicker, para ler aqui].
Vocês são amigos. Sobre o que conversam dois escritores de thrillers?
De tudo menos de thrillers. Dos filhos, de futebol... Quase nunca de livros. Acho que passamos tanto tempo a falar de livros, com leitores ou com outros autores, que chega a um ponto em que, quando estamos com outro autor de thrillers, não falamos do último livro de não sei quem.
Em que estás a trabalhar?
Estou a escrever o próximo romance. Será muito diferente de tudo o que já escrevi e irá surpreender. É um thriller, obviamente. Espero que saia no próximo ano e que gostem.
Os thrillers, mas também os policiais ou livros de mistério, vivem um bom momento em Espanha. Há alguma razão?
Penso que não é tanto o género em si, mas o facto de termos coincidido no tempo com vários autores que conseguiram estabelecer uma ligação com o público. Estou a falar de Dolores Redondo, Eva García de Urturi, o meu caso, ou o fenómeno Carmen Mola. Há também um boom em muitos outros géneros, desde a fantasia para jovens adultos ao romance. É espantoso.
O mundo dos livros está a crescer muito e acho que é porque os jovens estão a ler cada vez mais. Pelo menos, eu tenho esperança nisso. Porque há um fenómeno que não sei explicar, que acho que tem muito a ver com as redes sociais, com o TikTok, com o Instagram e por aí fora, que está a incentivar as pessoas a ler por prazer.
O que é que estás a ler?
Neste momento estou a ler um livro sobre escrita de argumento, Save the Cat, do norte-americano Black Snyder. O último que terminei foi o Alguien camina sobre tu tumba, da argentina Mariana Enriquez, sobre as suas viagens para visitar cemitérios. É muito bom, ela escreve lindamente.
Por Rita Sousa Vieira