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Até que ponto Filho da Mãe, publicado em 2019, é fundamental para a compreensão de Filho do Pai? Se o primeiro reflete sobre o luto, qual é o tema central deste?
Eu tinha bem claro que não queria escrever uma sequela do livro. Era uma obra completamente diferente. Até tivemos algumas dúvidas quanto ao título, se não seria uma colagem. Mas, entre todas as opções, este era o que fazia mais sentido. Está lá tudo: a relação entre um filho e um pai; eu enquanto filho e pai.
Se há algo que marca o meu percurso, ou pelo menos aquilo a que me proponho — se depois o realizo ou não, já é outra questão —, é a ideia de não repetir fórmulas. Quero encontrar uma voz para cada livro que escrevo, uma forma diferente de contar as coisas. É muito tentador para um escritor fixar-se numa voz única. Mas, se penso nos artistas que mais admiro (e nem sempre são os que mais gosto, porque são coisas diferentes), vejo que são aqueles que, depois de fazer algo que funcionou, arriscam em algo completamente novo. Penso, por exemplo, no Kubrick, que fez filmes tão distintos como 2001 e Barry Lyndon. Ou no Bob Dylan, que nem sequer é um músico que ouça com frequência, mas lembro-me de, quando deixou de ser exclusivamente um cantor folk e passou para o elétrico, ser quase deserdado pelos fãs. E depois há o Philip Roth. Se olharmos para os primeiros livros dele, para O Complexo de Portnoy, percebemos que não têm nada a ver com os da fase final, como O Animal Moribundo. Claro, continua a ser Roth, há ali o humor e tudo o mais, mas são universos distintos.
Essa ideia do risco e da mudança cativa-me. É a génese do que faço: criar algo novo, evitar repetir-me. E por isso, para mim, não fazia sentido escrever um segundo Filho da Mãe — isso não existe. A história é outra. No fim, há até uma pequena nota sobre isso: os livros tocam-se, comunicam entre si. Haverá repetições, talvez até algumas imprecisões, porque o lugar de onde recordamos está sempre a mudar. Mas sabia que este livro não seria exclusivamente sobre o luto e a morte, como Filho da Mãe tende a ser. Claro, é um livro sobre uma família, mas também sobre essa justaposição entre morte e vida, sobre alguém que perde um pai quando está prestes a ser pai.
Além da história da família, da infância e das relações pessoais — esse arco que me interessa, essa ideia de que a família é um ser vivo em constante mutação —, há dois temas que perpassam o livro e que fazem parte do tema maior da identidade: a paternidade e a masculinidade. São questões que me fascinam e que, de certa forma, estruturam a narrativa.
Essa voz que muda entre os dois livros… No Filho da Mãe, é a voz do filho; no Filho do Pai, já é uma voz de pai?
Inevitavelmente, sim. O livro foi escrito quando eu já era pai há três anos e tal, com essa experiência acumulada. Há uma parte do diário que começa antes de eu ser pai, quando ainda me estou a preparar para isso, e outra parte já depois, quando essa transição aconteceu. Essa diferença está lá.
Tal como todas as outras experiências da vida, a paternidade é mais uma. Não apenas um baú onde vou buscar coisas, mas também uma nova forma de ver o mundo. As viagens, os romances, tudo isso interfere na forma como olhamos para a vida. A paternidade não é exceção. E há aqui outra questão importante. Sendo livros muito pessoais, ambos carregam um peso emocional. Isso foi algo que tive muito presente em Filho da Mãe e também aqui, embora de maneira diferente. No primeiro, era essencial para mim evitar a comoção fácil. É muito fácil suscitar compaixão num leitor quando se escreve sobre um menino que perdeu a mãe, mas eu não queria que fosse um livro sobre isso. Não queria a lágrima fácil.
Por isso, Filho da Mãe tem um registo literário mais cristalino, limpo, sem excessos. Foi escrito por um adulto, um escritor, e não pela criança que perdeu a mãe. Já neste livro, a escrita seguiu outro caminho. O diário foi um elemento central, e a justaposição dos registos tornou-se fundamental. De um lado, há os textos na segunda pessoa, como se fosse um jogo de espelhos, alguém que se observa diariamente, num tom mais descarnado, emotivo e imediato. Do outro, há o escritor que, três anos e tal depois da morte do pai, olha para essas memórias com a distância necessária para transformá-las neste livro.
Quando é que começaste a escrever o diário e o que te levou a fazê-lo?
Na verdade, nunca tive grande aptidão para escrever diários, nem sequer na adolescência. Mas, antes da pandemia, já tinha tido a ideia para um livro, que não tinha nada a ver com este, sobre o nosso dia-a-dia e a forma como ele contrasta com o turbilhão de informação que recebemos. Os grandes eventos, atentados terroristas, as eleições presidenciais… Havia algo nessa oposição que me interessava. Comecei a tirar pequenas notas sobre isso, às vezes até guardava links de notícias, mas acabei por perceber que aquilo não ia a lado nenhum.
O diário, tal como o conheço neste livro, começou no dia em que fui visitar o meu pai, que acabou por ser a última vez que o vi. Lembro-me de pensar: é melhor ir vê-lo. Ele tinha um cancro e estávamos em plena pandemia. Nesse momento, percebi que ia começar a escrever um diário, provavelmente sobre ele. Não sabia exatamente o que iria acontecer, mas senti essa necessidade. Pouco tempo depois, a minha mulher ficou grávida, e aí tudo se tornou mais claro. Soube da gravidez cerca de dois meses depois dessa visita ao meu pai, se bem me lembro. Quando estava a escrever esse diário, já sabia que ia escrever um livro sobre ele e, possivelmente, sobre o meu filho.
A certa altura escreves: Eu não queria ser como o meu pai, mas eu queria ser como o meu pai. O que significa “ser como o meu pai”?
Bem, nesse caso, isso tem a ver com a questão da raiva, com aquele episódio... Eu queria escrever, mais do que tudo, sobre as ambivalências. As ambivalências de ser filho, de ser pai, de ser homem… E falo muito disso, não é? Por exemplo, em relação à masculinidade, acho que há um ponto em que cito duas fontes completamente diferentes. O Rocky, em que ele diz, ‘a melhor coisa que podes fazer é não pensar para deixar de ser homem’; e depois, há um verso do poeta gay Harold Norse, num poema lindíssimo, em que ele diz ‘eu não quero ser homem, não quero destruir-te’. Para mim, a ambivalência é super importante, porque vivemos nela. Em contraste com um tempo de certezas absolutas e polarizações. Falo sobre masculinidade, paternidade e ideologias, sobretudo.
No início de Filho da Mãe, há uma nota que diz que, com exceção do nome da tua mãe, todos os outros foram alterados. O teu pai só ganha nome neste livro.
Sim.
É intencional? Qual a razão?
É intencional, porque sou uma pessoa diferente agora. Já não é a primeira vez que escrevo um livro assumidamente biográfico. Daquela vez, estava a fazer isso pela primeira vez. Portanto, tinha talvez ainda algumas dúvidas, estava a experimentar este terreno. Achei que era a melhor forma de contar aquela história. Nem sei se foi tanto para proteger as pessoas envolvidas, porque elas sabem quem são quando leem o livro. Talvez tenha sido mais um recurso literário, uma espécie de âncora, uma boia de salvação qualquer. Neste caso, a situação é diferente. Primeiro, porque o meu pai já morreu. Segundo, porque o nome dele — e falo disso aqui no livro — tem um peso, é uma assinatura, faz parte da cosmologia da família. Já não fazia sentido esconder o nome. Portanto, as dúvidas que eu podia ter ao escrever o meu primeiro livro biográfico já não existiam neste. Para este, comecei com outra segurança, sem precisar desse recurso.
Foi por isso mais fácil?
Não sei se "fácil" é a palavra, mas há sempre, como disse há pouco, a preocupação de não repetir a mesma coisa. Então, passei algum tempo a pensar em como contar esta história da melhor forma. Por exemplo, uma das alterações que fiz foi escrever o diário na primeira pessoa, em vez de na segunda. Quando olhei para ele e repensei, tive de reescrevê-lo, claro, editar algumas coisas. Uma coisa é escrever no momento, o que importa é o que está lá; depois, é preciso trabalhar isso literariamente. Não sei se isso tornou mais fácil, mas diria que exigiu menos trabalho de arqueologia emocional, no sentido de que era algo mais próximo. Claro que falo da minha infância, de outras fases da minha vida, como as viagens e o tempo que passei fora, mas o diário traz-lhe uma sensação de imediatismo, algo mais próximo. A minha mãe vai fazer 40 anos que morreu. A presença dela era, na verdade, ausência. Já no caso do meu pai, não. Com ele, desenvolvi uma relação ao longo de toda a minha vida, até quase aos 45 anos. Portanto, havia muito mais matéria para explorar. Era algo mais próximo, mas não sei se isso torna a tarefa mais fácil.
Sinto que no Filho da Mãe conhecemos mais a história do teu pai, e no Filho do Pai a vossa relação.
Sim, aliás, uma das coisas que eu... Bem, como eu digo, os livros podiam até tocar-se, e há algumas repetições. Mas eu não ia contar a mesma história, porque seria redundante, chato para mim e para os leitores. No Filho da Mãe, a história do meu pai está também muito ligada à morte da minha mãe, e à história dos dois. Aqui, recupero parte dessa história, mas também conto coisas que não contei. Por exemplo, a relação dele com a minha madrasta, que aqui está muito mais presente do que no outro livro. Portanto, acho que no Filho do Pai, ele existe mais em função da nossa relação e do pós-morte da minha mãe. No Filho da Mãe, ele aparece mais na relação com a minha mãe, como marido e viúvo. E aqui, ele existe em outras dimensões, que não só essa.
O teu pai chegou a ler o Filho da Mãe?
Acho que sim.
Nunca falaram sobre isso?
Nunca.
A certa altura dizes que este livro não é um ajuste de contas.
Sim.
O que é?
O Christopher Hitchens diz que todos têm um livro dentro de si, mas isso não significa que o publiquem. E eu tinha isso muito presente, tanto no Filho da Mãe como neste livro. No caso do Filho da Mãe, não era eu alguém que tivesse perdido a mãe e achasse que essa perda merecia um livro. Era, na verdade, um escritor que, por acaso, perdeu a mãe e que queria explorar esse tema da mesma forma que explorei outros ao longo da minha vida. Ou seja, são temas que são suscetíveis de serem trabalhados literariamente. E este, especificamente, é um tema muito próximo.
Eu queria arrancar a verdade possível, as reflexões, as dúvidas e as perguntas que isso levantava. E esse é o mesmo caso aqui. As relações familiares, a família, são um tema recorrente na literatura, muito ligados à identidade, que também é um tema literário central. E, neste livro, era isso. Começa com uma dúvida quase insanável: nunca vou ser pai e filho ao mesmo tempo. É como um deslocamento das placas tectónicas da existência. Então, vem daí. Vem dessa curiosidade, dessa dúvida. E depois, claro, explorar a relação com o pai, que é a relação primordial. A família, como já falei, é o lugar onde formamos o nosso caráter, onde nos criamos, onde surgem os nossos traumas. E, por mais que cortemos laços com ela, acompanha-nos para o resto da vida. Portanto, o livro é sobre isso. Sobre identidade, sobre um jogo de espelhos. Olhar para mim, para a relação com o meu pai, com o meu filho, e tentar desmascarar ou desenterrar aquilo que muitas vezes fica enterrado. A literatura permite-nos isso. É aquilo que o Somerset Maugham chama de Painting the Veil (O Véu Pintado). Ver o que está atrás do véu, não ficar apenas contente com o que está à nossa frente, por mais belo que seja. É isso que me cativa.
Em ambos os livros, são narrados vários episódios de fuga ao longo da tua vida — desde as mudanças de país à relação com as mulheres. Que pacto fizeste com a escrita para que ela se mantivesse isenta de filtros ou subterfúgios?
Parece-me inevitável. Era exatamente o antídoto para essa fuga. Durante algum tempo, houve a fuga das mulheres, dos romances, das drogas, das viagens. Que não deixam de ter também uma verdade. Não era tudo falso. Eu gostei dessas pessoas. Quis morar nesses sítios. As coisas não são únicas. Não era uma espécie de fantoche ou de um boneco de ventríloquo. Havia autenticidade, mas também havia fuga, alheamento. Mais uma vez, as ambivalências. Não somos só uma coisa. Para escrever sobre isso, ou seja, para sair da dimensão mais superficial, uma vez que fui tendo ao longo da vida vislumbres para algo mais profundo, estes livros só funcionavam se eu os escrevesse assim: sem filtro, sem censura, sem medo do ridículo, sem medo da exposição. O que não significa exibicionismo. Se eu fosse escrever o livro de outra maneira, a tentar esconder coisas ou glorificar outras, o propósito que me levou ali ia ser derrotado. O livro ia ser um falhanço. Então, só me podia atirar de peito aberto, às balas.
Como é que a literatura pode ajudar a compreender relações familiares complexas? A ideia de família é dinâmica.
Não sei. Tenho dificuldades, ou uma certa desconfiança, em ver a literatura como um remédio para algo. Antes de mais, é prazer, é conhecimento — não no sentido académico do termo, mas de autoconhecimento, de fruição, de prazer pela leitura. Portanto, nunca procuro a literatura como forma de tentar resolver alguma coisa, mas aconselho psicoterapia. A família, sendo esse ser vivo em constante mutação onde nós nos formamos, é um tema para o qual os escritores convergem, como o amor, como a liberdade, como o luto, porque é inevitável. Mesmo quem não tem uma família, se fores órfão, é isso que te marca, é eu não tive uma família.
Na pesquisa para esta conversa, dei com um Clube do Livro da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, que escolheu o Filho da Mãe para leitura e análise.
Há muitas coisas na minha vida que a literatura me ajudou a compreender. Mesmo na pesquisa para Filho da Mãe, em que investiguei o luto, e também em relação à masculinidade, à paternidade. Claro que tudo isso me ajuda a entender melhor quem sou, o que estou a fazer aqui, e as pessoas à minha volta.
Outro exemplo, o primeiro que vem à cabeça, seria o capítulo em Filho do Pai, que se chama Nave Mãe, que é só sobre a maternidade. Para mim, a minha mãe era uma figura cristalizada no tempo, do pouco que eu me lembrava. Era uma figura idealizada. Depois veio a morte, a doença. Mas era tudo muito binário, muito superficial, não tinha substância. Tinha a substância desses dois universos, a morte e a doença. Quando fui pai e vi o que uma mulher passa durante a maternidade, no pós-parto, a exigência física, o determinismo biológico em muitas mulheres, o vínculo, a culpa social. Sendo homem e pai, por mais presente que esteja, por mais noites que passe acordado, a experiência é diferente. Isso fez-me olhar para a minha própria mãe de uma forma completamente diferente. A mulher que ficou em casa a cuidar de dois filhos, o que seria estar sozinha o dia inteiro com duas crianças, depois só uma, quando o meu irmão foi para a escola. E, nesse aspeto, a literatura, e o que li sobre isso, abre sempre mais uma porta, mais uma antecâmara da existência. Vais conhecendo mais coisas. Vai surgindo mais luz nesses espaços que antes não estavam acessíveis.
A tua escrita permite que os leitores encontrem partes da narrativa com as quais se identificam. Isso levou a que, com Filho da Mãe — e provavelmente também com este — as pessoas te abordem para partilhar as suas histórias?
Sim, nesse aspeto, as pessoas são generosas e pouco invasivas. Muitas me escreveram ou abordaram-me para falar, normalmente sobre a perda dos pais, a relação com os pais... Ou o tema do cancro. Há muitas coisas com as quais as pessoas se identificam. Lembro-me de uma certa geração que evitava até dizer a palavra "cancro" em casa.
Até tenho uma história engraçada, não sei se já a contei, mas acho que não. Quando o Filho da Mãe saiu, eu sabia que, pelo tema, ia gerar alguma reação emocional. E, sem querer manipular os leitores, sabia que seria inevitável. No início, as primeiras manifestações sobre o livro eram sempre muito emocionais. "Li o livro numa noite!" E eu comecei a ficar um pouco irritado. Porque ninguém estava a falar sobre o trabalho literário, sobre o meu ofício. As pessoas não se preocupam com isso, o leitor deve sentar-se e ler sem se preocupar com o "como" ou o "porquê" da estrutura do livro. O objetivo é que ele se entregue à história. Aliás, o ideal é que o leitor nem perceba as estruturas do livro. Mas, como eu tinha aversão a escrever um livro exclusivamente emocional, sem ser de autoajuda, comecei a ficar preocupado. Até que, num festival literário nos Açores, o Nuno Costa Santos, escritor açoriano e meu amigo, levou-me a dar uma volta pela ilha. E, enquanto falávamos, ele disse: "o teu livro, está muito bom, muito bem escrito."
Filho do Pai é um livro para receber no Dia do Pai?
Eu diria que sim, claro que é! Para pais e filhos. E não exclusivamente para filhos homens. Acho que também para as filhas. Porque, embora este livro seja sobre a minha relação com o meu pai e tenha um filho, isso não é algo exclusivo, e sei que há muitas mulheres que tiveram relações com os pais igualmente tumultuosas como eu tive. Só porque é uma relação pai-filho, não significa que seja um livro só para filhos e pais.
O que significa ser um bom pai?
Ser bom pai é assumir, como diz o Michael Chabon numa frase que eu utilizo no livro, que falhamos todos os dias. E é aceitar isso. Aceitar que ser pai não vem com um manual de instruções, é algo fundamental: tu estás a definir a vida de outra pessoa, mas também a agir em função da tua. A tua finitude, a tua morte, deixa de ser apenas tua, passa a ser partilhada com alguém. Podes ter medo da morte ou não, medo de ficar doente, mas quando tens uma criança dependente de ti, isso muda. O que é ser bom pai? Não sei, acho que estou a aprender todos os dias, mas acho que é isso: reconhecer a falibilidade.
Eu não tenho uma resposta brilhante para isso, nem um manual de paternidade para dar, mas o que posso dizer é que, ao olhar para a vida de alguém a descobrir o mundo de novo, acabas por recuperar uma certa curiosidade e deslumbramento pela vida, coisas que, por vezes, perdemos à medida que crescemos. Ver o mundo através dos olhos de uma criança, que de repente descobre os animais ou os planetas, e te faz perguntas, faz-te sair de ti próprio. Não se trata só das tarefas diárias, como mudar fraldas ou levar à natação, mas da realização que vem ao completar essas pequenas tarefas. Há uma humildade nisso, porque, na paternidade, não precisas de fazer algo grandioso para teres uma sensação de propósito. Esse trabalho quotidiano, essas pequenas tarefas, têm um valor profundo.
O que é que andas a ler?
Tenho lido muito sobre colonialismo, guerra colonial e descolonização, mas mais recentemente, por causa de outro projeto, li A Parábola do Semeador, da Octavia Butler, uma autora de ficção científica norte-americana, recentemente falecida. Li também Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? do Philip K. Dick, que inspirou Blade Runner. Estava a ler este livro na maternidade quando o meu segundo filho nasceu. Outro livro interessante foi Hard Rain Falling, do Don Carpenter, que muitos consideram um Dostoiévski norte-americano. É uma história de dois homens de origens muito pobres, um branco e um negro, que se cruzam ao longo da vida. Um livro pouco conhecido, mas extraordinário. Descobri-o numa lista de favoritos do Richard Price [escritor e argumentista norte-americano]. Além disso, li Nostalgias Canibais, do brasileiro Odorico Leal, que é uma coleção de contos. E também As Pequenas Chances, da Natalia Timerman, que aborda o luto. Aproveitei o mês de licença de paternidade para ler, até no hospital.
Por Rita Sousa Vieira
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