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ELIZABETH STROUT EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A ELIZABETH STROUT ENTREVISTA A ELIZABETH STROUT

“As redes sociais e a pandemia criaram uma nova forma de solidão”



Em “Conta-me tudo", nomeado para o Women’s Prize for Fiction, Elizabeth Strout traz de volta Lucy Barton e Olive Kitterridg, duas personagens bem conhecidas dos leitores. Pela primeira vez em Lisboa, conversou com a Cultura FNACA escritora norte-americana reflete sobre a importância de ouvir o outro e do impacto do atual contexto político na sua escrita.




 

Os leitores abordam-te para contar histórias, na esperança de que te inspires nelas?

 

Não, de todo. Talvez, há uns anos, alguém o tenha feito em tom de brincadeira, mas nunca é algo sério. O que acontece, na realidade, é dizerem-me: "Eu sou a Olive". No fundo, acho que toda a gente tem um pouco da Olive.

 

Conta-me tudo: porquê este título?

 

A minha editora sugeriu o título e achei brilhante. Soa apelativo, como um convite aberto ao leitor: "Conta-me tudo". E, de facto, é algo que a Lucy diz ao Bob: “Conta-me tudo. Estive fora. Conta-me tudo”. Depois, quando comecei a refletir sobre o título, percebi que, ao pedir para alguém contar tudo, existe uma expectativa da parte de quem ouve de ser realmente ouvido. A Lucy ouve, o Bob ouve, a Olive ouve. Eles ouvem de uma forma que muitas pessoas não conseguem fazer. E, quando alguém nos ouve de verdade, sentimos que finalmente somos vistos. E isso é raro. À medida que escrevia o livro, percebi que a maior parte das pessoas não ouve com a mesma atenção com que o Bob e a Lucy se ouvem. Até os cônjuges deles não se ouvem com tanto cuidado. O título, no fundo, carrega uma mensagem: “Por favor, ouve-me e deixa-me ser visto, mesmo que seja só por cinco minutos.”

 

O livro traz de volta Olive Kitteridge, Lucy Barton e Bob Burgess, personagens que conhecemos bem de outros livros. O que te levou a juntá-los?


Bem, não foi bem uma decisão planeada. Mas lembro-me de, um dia, estar a caminhar e de repente me ter dado conta de que a Lucy e a Olive estavam na mesma cidade. Não tinha dado conta disso, não sei porquê. A Olive estava lá e, com o fim da pandemia, pensei: "Porque não juntá-las? Ia ser tão interessante ver a Olive com alguém como a Lucy". E foi assim que tudo começou, com a curiosidade de ver como seria a interação entre elas.

 

A primeira cena que escrevi foi a primeira do livro, em que a Olive chama a Lucy e começa a contar-lhe a história da mãe, do casamento... Foi divertido escrever, porque, como era de esperar, a Olive não ia gostar da Lucy logo de início. E, de facto, não gostou. Mas, aos poucos, a Lucy vai sendo... apenas ela própria. Então pensei: "Ok, e se, a cada 30 páginas ou assim, elas contassem uma história uma à outra?". Assim nasceu a relação entre elas.

 

Esta talvez seja uma dúvida comum: é necessário ter lido os anteriores para compreender esta história?

 

Não, não é necessário. Nunca escrevo com a intenção de continuar a história de um livro anterior, embora acabe sempre por voltar às mesmas personagens. No entanto, tenho plena consciência de que nem todos os leitores leram todos os livros. Por isso, tento fazer com que cada livro seja autónomo. Dou informações suficientes sobre os livros anteriores para que qualquer leitor consiga perceber a história, quem são estas personagens.

 

O Bob é o protagonista ou há um protagonista coletivo?

 

Boa questão. Diria que é um romance coral, mas com o Bob a ter um papel mais central. Embora a história seja contada por várias vozes, é o Bob quem acaba por ter uma presença mais significativa.

 

Durante a escrita, e no regresso a estas personagens, descobriste algo novo sobre elas?

 

Não, sinto que conheço a Olive muito bem, mas ao mesmo tempo, sinto que não. Quanto a como iriam reagir uns aos outros, só soube depois de começar a escrever. No entanto, já tinha uma ideia de como seria a interação entre eles.

 

A Olive e a Lucy são muito queridas pelos leitores. Também tens uma ligação especial com elas?

 

É normal que os leitores tenham personagens favoritas, mas eu gosto de todas. Até do Jim Burgess!

 

Notas que os leitores se dividem entre a Lucy e a Olive?

 

Sim, sim. Especialmente depois de a Lucy ter aparecido. Tanto me dizem “eu gosto mais da Lucy” como “eu gosto mais da Olive.” E está tudo bem.

 

Em que medida o passado das personagens condiciona a sua capacidade de se reinventarem?

 

Bem, depende da personagem. Deixa-me perguntar: acreditas que a mudança é sempre possível, ou há pessoas que ficam presas àquilo que são, apesar da vontade de mudar? Acho que depende de cada um. Neste momento da minha vida, acredito que nascemos de uma certa forma. Temos uma natureza com que viemos ao mundo. Depois, há o ambiente… A velha discussão da natureza versus criação, blá, blá, blá. Personagens como a Lucy: liberta-se, mas isso não significa que o passado não a afete. Ou o Bob, por exemplo, que acha que matou o pai e passou a vida inteira a carregar essa culpa.

 

Ou o Matt.

 

Precisamente.

 

Há futuro para o Matt? A sua história merecerá um novo livro?

 

Que ideia interessante. Nunca pensei nisso, obrigada.

 

É a primeira vez que é feita esta pergunta?

 

Sim, sim. Uma ideia muito interessante. Não sei se vou fazer isso, mas é uma ideia interessante. Deixaste-me a pensar nisso, e agradeço-te.

 

Mas podemos esperar, pelo menos, o regresso da Lucy, do Bob ou da Olive? A Olive já está com 91 anos...

 

Acho que não. Provavelmente não. Mas a Olive nunca irá morrer.  Jamais mataria a Olive. Ela não vai morrer enquanto eu for a autora.

 

O que te faz decidir que é a altura certa para uma personagem, como a Olive ou a Lucy, regressar, mesmo quando não foi planeado?

 

É simples: são as personagens que não me saem da cabeça. A Olive, por exemplo. Não planeava voltar a escrever sobre ela, mas ela apareceu. Simplesmente apareceu. E, claro, tu prestas atenção, porque, bom, é a Olive. A Lucy Barton também não me largava. Comecei a pensar no marido dela, no ex-marido, e percebi: “Ok, tem de ser contado pela voz dela”. Não o planeei, mas elas são mais fortes. E é por isso que continuo a escrevê-las.

 

No rescaldo da pandemia, não ficámos imunes à solidão. Será essa a maior epidemia do século XXI?

 

Não sei. Nunca vivi noutro século... Bem, vivi no século XX mas, percebes, não tenho como comparar. Não me atreveria a afirmar isso. Mas ainda uma destas noites lia sobre o Carl Jung, o psicólogo. Ele tem uma definição de solidão que acho interessante. Diz que a solidão não tem nada a ver com a falta de pessoas. Tem a ver com ter pessoas à nossa volta, mas com quem não conseguimos falar da forma que queremos, não conseguimos dizer o que nos vai na cabeça. É tão óbvio quando ele o diz, mas isso sempre existiu. Mas as redes sociais e a pandemia criaram um mundo novo. E, de alguma forma, isso gerou uma solidão diferente da que Carl Jung descreveu. As redes sociais e a pandemia criaram uma nova forma de solidão.

 

Se pudesses conversar com uma das tuas personagens e contar-lhe uma história, qual escolherias e o que lhe contarias?

 

Escolheria o Bob, porque a Olive assusta-me um bocadinho. E a Lucy seria... um pouco competitiva. E que história lhe contaria? Talvez algo como: o tio do meu primeiro marido casou-se pela segunda vez com uma mulher, porque a primeira fugiu. Casou com a segunda, que parecia amá-lo, mas que o colocou numa casa de repouso muito antes de se tornar incapaz. E depois tornou-se incapaz. É uma história a que volto muitas vezes. Não é nada de especial, ninguém se interessa por ela, além de mim. Mas o Bob ouviria e diria: "Uau".

 

A propósito, porque é que a Lucy diz tantas vezes: "Oh, Bob"?

 

Porque isso é uma espécie de tique. Ela é nervosa, muito nervosa. “Oh, Bob, oh, Bob...” é a forma dela de lidar com a ansiedade.

 

Os teus livros têm sempre um olhar sobre o presente. O próximo irá explorar as consequências das políticas da nova Administração de Donald Trump?

 

Tem de ser. Se escrevo no presente, tenho de incluir o Trump. E isso deixa-me bastante triste e preocupada sobre como abordá-lo, porque o país está tão dividido. Metade adora-o, a outra metade odeia-o. Portanto, independentemente do que eu disser, as pessoas vão sentir que estou de um lado ou de outro. Infelizmente.

 

Concordas com a Lucy, que acredita que os EUA estão à beira de uma guerra civil?

 

Não, não acho. Mas para onde caminhamos, quem sabe o que nos espera... Cada dia há uma nova surpresa. Não acho que estejamos a caminho de uma guerra civil, mas concordo com ela num ponto: o país está dividido. É inacreditável. Nem a minha imaginação preveria isto.

 

Qual é o papel da literatura em períodos tão desafiantes como o que estamos a viver?

 

Tenho pensado sobre isso. [Enquanto escritora] Tenho de ser responsável e escrever com a maior verdade possível sobre o que está a acontecer. Preferia que o Trump não tivesse de fazer parte disso, mas é impossível. Não se pode retratar alguém a viver neste período da América sem mostrar o impacto de tudo o que ele está a fazer, e ainda vai fazer. É aterrador.

 

O que é que estás a ler?

 

Acabei de ler a biografia do Elon Musk, escrita pelo Walter Isaacson. Porquê? Bom, primeiro porque o Walter Isaacson é muito inteligente, é um bom escritor, e ele tornou a leitura bastante interessante. Infelizmente, o livro termina demasiado cedo, porque não chega até o momento em que Musk começa a tentar controlar o governo. Mas li porque queria saber quem ele é, o que o motiva. Não me interessa ler a biografia do Trump, porque, bem, o Trump é o Trump. Mas o Musk... Quem é ele? O que o impulsiona? E, honestamente, foi assustador.

 

Agora estou a ler Este Lado do Paraíso, o primeiro livro do F. Scott Fitzgerald. Já o li três vezes. A primeira vez foi há mais de 50 anos, quando tinha 18. Agora, com 69, voltei a pegar nele.

 

Costumas viajar com livros?

 

Sim. Li a biografia do Musk no Kindle, mas também trouxe alguns livros comigo. Como o The Children of Dynmouth, do William Trevor, que acabei de ler no avião e foi simplesmente maravilhoso. Adoro o William Trevor. Não sei se os leitores portugueses conhecem a sua obra.

 

Por Rita Sousa Vieira

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