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De onde vem a expressão “meus desacontecimentos”, que dá título ao livro?
É um analogismo que crio. Porque sempre me interessei mais pelo que não é notícia, pelo que não está no palco, pelo que está ao redor, pelo que está atrás. No início, como jornalista, davam uma pauta e eu acabava fazendo a coisa que estava ao redor, que achava mais interessante. Às vezes trazia as duas coisas, o que nem sempre deixava os meus chefes felizes.
Mas eu fui, devagarinho, conquistando esse lugar. Em 1999, quando já era jornalista há 11 anos, me deram uma coluna de reportagem, publicada ao sábado, que se chamava Vida que Ninguém Vê. Essa coluna era só sobre desacontecimentos. A partir daquele momento, passei a me apresentar como uma repórter de desacontecimentos. E o que defendo é que não existem vidas comuns, que toda a vida é extraordinária. O que há são olhos domesticados, e os jornalistas não podem ter olhos domesticados. Sou jornalista há 36 anos e sempre me movi pelo que desacontece.
Também pelas histórias e pelas pessoas que não são ouvidas e não são contadas?
Sim, porque essa escolha do que é acontecimento, a escolha do que é notícia, no caso da imprensa, ela não é uma escolha baseada num... Ela é uma escolha política. Uma escolha política, baseada em privilégios de raça, em privilégios de classe, em privilégios de género e também privilégios de espécie. Quem é notícia? O que é notícia? Não conheço a realidade de Portugal, profundamente, mas quando fui repórter de polícia, há algum tempo, a gente fazia a ronda. Fazer ronda passava por, de manhã cedo, ligar para todas as delegacias de polícia e para os hospitais para saber se tinha acontecido algo importante que virasse notícia. Ouvi dezenas de vezes, centenas de vezes, os policiais dizerem que não aconteceu nada, só morreu “chibungo”, que é uma expressão lá da região onde nasci, que significa pobre. Então, isso queria dizer que pobre não é notícia, as pessoas negras não são notícia. Contar os desacontecimentos, contar os não contados, de várias maneiras — não contados porque não são contados e não contados porque não têm espaço — é uma escolha política.
Este livro não é bem uma autobiografia, mas tenho visto muita gente a catalogá-lo como um livro de memórias. Como é que o definirias?
Eu não defino. Eu fujo de classificações. Quando alguém me pergunta “que repórter você é, o que você cobre, que tipo de matéria você faz, que tipo de livro é esse?”... Não me interessa classificar. Espero que seja um livro inclassificável.
Dizes que da infância somos todos sobreviventes. O que é que isso significa?
Bom, a infância é muitas coisas. Eu acho que a minha infância, a infância da minha geração, é diferente da infância da geração de hoje. O que acho que a infância não é, é um período maravilhoso da vida. Esse mito da infância feliz atrapalha muito.
Atrapalha o adulto em que nos tornamos.
Eu acho que sim. Essas mitificações, como o mito da infância feliz, o mito da maternidade, todos esses mitos nos encarceram muito, nos amarram, nos impedem de fazer das nossas experiências uma invenção mais interessante. Eu vou buscar as experiências da minha infância, mas a vida é o que faço dessas experiências. É como eu me invento com essas experiências.
Qual foi o acontecimento na tua infância que mais impacto teve?
O mais determinante foi a morte da minha irmã. Ela foi sempre muito presente para mim e para toda a minha família. Porque nasci numa casa enlutada, onde ela esteve sempre muito viva para todos nós.
Porque é que dizes que este livro é uma busca por retomar os sentidos da palavra escrita?
A minha escrita é uma escrita encarnada, uma escrita corpo. Eu sou feita de palavras escritas e este livro nasce de uma paralisia que tive. De perder os sentidos da palavra escrita, de achar que não valia mais a pena escrever. Por isso digo que a palavra escrita me salvou.
Isso aconteceu depois de uma reportagem com os Médicos Sem Fronteiras na Bolívia?
Sim.
Em algum momento pensaste dedicar-te exclusivamente à ficção?
Eu sou muito inquieta, estou sempre buscando. Se um lugar ficar um pouco confortável, já quero imediatamente sair dele. Já estava há 21 anos no jornalismo quando quis escrever ficção, e escrevi o meu primeiro romance. Queria passar um tempo escrevendo ficção, mas aconteceu diferente. Nem tudo pode ser dito numa reportagem, porque a gente está lidando com pessoas que respiram.
Vives há quase 10 anos no coração da Amazónia, o que é que te fez mudar para lá?
Eu me mudei por coerência, porque defendo que a gente precisa fazer um deslocamento dos conceitos hegemónicos do que é centro e do que é periferia. Ou seja, os centros de um mundo em colapso climático, a extinção em massa de espécies, é onde a natureza resiste. E não onde os centros políticos e económicos, onde a destruição da natureza é decidida. Ou seja, os centros são a Amazónia, as outras florestas tropicais, os oceanos, os biomas, e não Washington, Pequim, Londres, Frankfurt, ou mesmo Lisboa e São Paulo. O centro é onde está a vida e não onde estão os mercados. Isso não é retórica. A gente precisa realmente de fazer esse deslocamento, porque é a nossa única chance de enfrentar o colapso.
Em 2016, estava em Altamira para um projeto e pensei: bom, se defendo que a Amazónia é um dos centros do mundo e sou jornalista, porque é que estou na periferia do mundo, em São Paulo, e não aqui? Levei um ano para conseguir viabilizar essa mudança e me mudei, em 2017, para Altamira. Estou lá até hoje.
Esse contacto com a Amazónia vem também da infância?
Quando escrevi este livro não tinha ideia de que um dia ia morar na Amazónia. Mas a verdade é que é que esse indígena que morou na nossa casa, na minha infância, era do Xingu. E eu vim morar no Xingu.
Como é que a tua escrita é influenciada pela Amazónia?
A minha escrita é muito influenciada pelos livros que li, mas é igualmente, ou até mais, pelas pessoas que fazem literatura pela boca. Pessoas que não são letradas, mas que fazem literatura pela boca, que inventam palavras, que têm ritmos e narrativas. Em nenhum outro lugar isso foi tão rico para mim como na Amazónia.
A minha primeira reportagem na Amazónia foi em 1998. Foi como se os mundos se multiplicassem, porque era tanta diversidade de palavras, de invenções... E todas em pessoas analfabetas. Para mim, a Amazónia tem a literatura pela boca, pela oralidade, que é absolutamente extraordinária.
Há planos para publicar o livro Banzeiro òkòtó: uma viagem à Amazônia Centro do Mundo em Portugal?
Há, sim. Vai ser o meu próximo livro publicado em Portugal. O ano que vem ele já deve estar aqui.
Por falar no próximo ano, em 2025 a Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas terá lugar em Belém, no Pará. Quais os desafios da COP30, que acontece no que chamas de centro do mundo?
Os desafios são enormes... As últimas COPs foram em petroestados. Primeiro no Dubai, agora no Azerbaijão. O principal desafio é a Amazónia não ser só um cenário dessa COP. Se for de novo só um cenário, vai ser uma grande perda no momento limite que a gente vive. O desafio é ela realmente ser uma COP Amazónica, o que significa que os povos da floresta, e não só da floresta amazónica, os povos da natureza, os povos dos biomas, os povos que não se separaram da natureza, tenham realmente voz. Esse tem sido o embate dos movimentos na Amazónia neste momento. Garantir o que até hoje não tiveram nas COPs: voz. Participação política nas decisões e não só a Amazónia como um cenário.
Sem contar que Belém é a capital do Pará, que é um dos estados mais violentos da Amazónia, um dos que mais desmata, um dos que mais incêndios criminosos tem, um dos que tem mais mineração.
Entre 1998, quando fizeste a tua primeira peça, e o presente, o que mudou na Amazónia? Hoje, esse retrato seria a cores ou a preto e branco?
A Amazónia é muito colorida, as cores são muito fortes. A diferença é que o meu primeiro alumbramento da Amazónia foi pelas linguagens, pelas oralidades. Na minha primeira reportagem percorri a Rodovia Transamazônica, que foi uma obra destruidora, emblemática da ditadura militar brasileira. E hoje, vivendo na floresta há quase oito anos, o que mudou foi o meu entendimento do que é uma floresta. Em geral, quase todas as pessoas que não vivem na floresta têm uma ideia de que a floresta é algo, uma coisa com outras coisas dentro: com árvores, com animais, preenchimento. Só que a floresta não é nada disso: se a gente for definir a floresta, a floresta é uma relação, de todos com todos, é colaborativa, é de troca, é também de devoração, de intercâmbio. Não existiria a floresta Amazónica sem os fungos.
De 1998 até hoje, a floresta ficou muito perto do ponto de não retorno, bastante perto. A floresta não é algo homogéneo, está comprovado que, hoje, há partes da Amazónia que já emitem mais gases de efeito de estufa do que absorvem. Neste momento, a floresta está numa seca extrema e queimando. Muitos incêndios, a maior parte deles provocados por ação humana. A situação é gravíssima.
O jornalismo tem cumprido a sua missão de denúncia do que está a acontecer?
Não, porque a maior parte do jornalismo está no sudeste do Brasil. Por mais que olhe para a Amazónia, olha a partir de uma determinada realidade. Cobre a Amazónia como se a Amazónia fosse periferia. Para mim, é muito claro que o Brasil é que é a periferia da Amazónia.
Fazer jornalismo na Amazónia é muito caro. Eu, o meu companheiro e outros jornalistas, criámos, há uns anos, o Rainforest Journalism Fund para financiar reportagens na Amazónia.
Criaram também a SUMAÚMA. Qual é a sua missão?
A SUMAÚMA foi criada, em 2022, para fazer jornalismo a partir da floresta, a partir da experiência de quem vive na floresta, a partir da experiência dos povos que não se separaram da natureza, a partir de uma outra linguagem. Um dos principais programas da SUMAÚMA é o Misélio, uma coformação de jornalistas-floresta, onde a gente ensina para jovens indígenas, quilombolas, ribeirinhos, de comunidades tradicionais e das periferias das cidades, o jornalismo que a gente acredita, com rigor, com ética, que respeita os factos. E disso a gente espera que surja um novo jornalismo, com uma outra linguagem, uma linguagem do centro do mundo.
É perigoso fazer esse tipo de jornalismo?
É. O Brasil é um dos lugares mais violentos, inclusive para os defensores do meio ambiente. Por isso, este tipo de jornalismo precisa de ser feito com muitos protocolos de segurança.
Quase como fazer jornalismo de guerra?
Eu me apresento como jornalista correspondente de guerra.
Porque travamos um combate contra as alterações climáticas?
Eu entendo que a gente vive uma guerra contra a natureza. Uma guerra que começou há mais de 500 anos, com a invasão colonial de Portugal, Espanha, etc., que chegou à América e passou a tratar a natureza como um corpo para exploração e extração de mercadorias.
Essa linguagem que é eurocêntrica, patriarcal, masculina, branca, binária, ela continua ativa, ela continua destruindo, ela continua comendo o mundo. E essa guerra vai muito além das nossas vidas. É a maior guerra que a nossa espécie trava na sua trajetória. Só que quem move essa guerra contra a natureza? Acho que é importante nomear, porque quando se diz que foi a humanidade que causou a crise climática, é mentira. Não foi a humanidade que causou. É uma minoria, uma minoria dominante, composta por grandes corporações, cujos sócios maioritários são bilionários e superbilionários, gente com nome e sobrenome, as elites extrativistas locais, os governos e os parlamentos que a servem. É essa minoria que continua explorando o petróleo, que continua... Essa minoria não vai parar de destruir o planeta. Só nós podemos barrá-los.
Hoje falamos muito nas reparações históricas. Também devemos incluir a Amazónia e a natureza nessa lista?
Eu acho que sim, e esse é um dos debates nas COPs. Não dá para entender o colapso climático sem compreender o colonialismo. Tudo isso está entrelaçado, e não é só coisa do passado. A Amazónia continua a ser servida no prato da Europa. O boi do desmatamento da Amazónia é comido aqui, a soja do desmatamento da Amazónia alimenta os porcos da Europa.
É preciso reflorestar a linguagem?
Sim, a gente precisa de se tornar outra linguagem. É difícil, mas acho que é a nossa única chance.
O que é que estás a ler?
Terminei no avião o livro de uma feminista chilena.
Por Rita Sousa Vieira
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