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Há uma cena em Tudo é Rio que levou a que o livro ficasse na gaveta durante 14 anos. Não sabia disso quando o li e, curiosamente, também eu o pousei durante uns dias depois desse momento. Tens relatos semelhantes de outros leitores?
É uma cena muito dolorosa, não é? Já me contaram, sim. Que foi muito duro, que tiveram de fechar o livro e esperar um pouco. Para mim, também foi. Fiquei 14 anos sem conseguir lidar com essa cena, sem ter recursos para continuar a história.
O que motivou o regresso ao livro?
A perturbação foi muito grande, e eu costumo dizer que parei de escrever, mas o livro não parou de ser escrito. Analisando em retrospetiva, voltei para o livro depois de ver uma poetisa que me impressionou muito no Festival de Publicidade de Cannes. Chama-se Sarah Kay, e ao contrário de tudo o que eu estava vendo, com muita tecnologia, ela chegou só com microfone, simples, e contou uma história (If I Should Have a Daughter).
O livro teria tido outro final se tivesse sido escrito de rajada, se não tivesses esse intervalo de 14 anos?
Acho que seria outro livro, seria um livro menos complexo, mais do impulso, menos maduro. Porque nesses 14 anos eu tive uma experiência de maternidade e um segundo casamento. Acho que toda essa maturidade me ajudou.
Percebes que o final, a ideia do perdão, faça alguma confusão a alguns leitores?
Claramente. O Brasil tem um número altíssimo de feminicídio, de violência doméstica — fiquei a saber que em Portugal também —, e ao mesmo tempo lidamos com números imensos de impunidade. Então, é natural que se confunda perdão com impunidade, mas perdão não é isso. O perdão não é uma coisa simples de aceder. Depende do tempo, não se chega de manhã e fala: "hoje vou perdoar". É uma coisa muito profunda, mas talvez a grande ideia no livro, a grande perspetiva, seja essa ideia de a vítima sair da paralisia e conseguir prosseguir a vida.
Depois do primeiro livro, não tivemos de esperar muito tempo para o segundo, A Natureza da Mordida, e o terceiro, Véspera. Tomaste-lhe o gosto? Esses 14 anos de pausa ajudaram?
Na verdade, em Portugal foram publicados quase que em simultâneo, mas eu levei um pouco mais. Lancei o Tudo é Rio em 2014, a Natureza em 2018 e o Véspera em 2022. O tempo de gestação de cada um dos livros foi de três anos, três anos e meio. O interessante é que eu saí de Tudo é Rio a imaginar que não escreveria outro livro. Falei: “já disse tudo que eu precisava dizer, 'tá dito”. O processo de criação é realmente apaixonante, envolvente, e eu até brinco num texto [onde escrevi]: Deus fez o mundo em sete dias, mas se fosse eu teria levado a vida inteira.
A primeira edição de Tudo é Rio chegou ao mercado numa edição de autor, com apenas 700 exemplares. O que dirias hoje a essa Carla? Faz mais?
Faz mais, errou para baixo. Foi um lançamento independente, com uma pequena editora de Belo Horizonte, chamada Quixote+Do, que tem uma livraria de rua muito bacana, muito especial. O dono, o Alencar Perdigão, é um grande leitor e um grande livreiro, com um olhar sensível. Ele viu no livro, ainda encadernado, que tínhamos uma bela história e abraçou esse desafio. A partir de então, o livro só cresceu, cresceu, cresceu. Tem sido uma aventura incrível.
Tens conhecimento de livros que estejam a ser vendidos em segunda mão a preço de colecionador, por valores exorbitantes?
Quando fui para uma editora maior, a Record, através de um convite da Roberta Machado, soube que A Natureza da Mordida, com duas edições esgotadas, estava a ser vendido assim a preços... Mas uma vez um alfarrabista disse-me que lá não chegava o Tudo é Rio, parece que as pessoas não têm coragem de o vender.
És publicitária. O passa a palavra, ou boca-a-boca, é essencial no marketing, porque uma boa recomendação tem mais efeito do que um anúncio pago. Os teus livros podem ser encarados como um case study?
Pode, [mas] o livro acontece no leitor. Se você não tem uma boa estratégia de distribuição, de divulgação, isso pode impedir que um livro aconteça, mas só ter uma boa estratégia não garante que o livro aconteça no leitor. Se o leitor gosta... No caso de Tudo é Rio, já tive vários livreiros a dizer que as pessoas que o compram voltam depois para agradecer, para comprar mais, porque querem presentear alguém ou querem que outras pessoas o leiam, para que possam conversar. Essa é uma força inigualável. E hoje, com as redes sociais, isso ganhou uma amplitude imensa.
E em Portugal também. Ficas surpreendida com isso?
Muito. Eu tenho rodado Portugal, já fui a vários lugares, e em todos tive uma audiência muito surpreendente, a maioria eram portugueses. É incrível imaginar que uma história com uma sonoridade muito do meu estado, do meu lugar, tenha uma ressonância tão grande nos leitores. Acho que diz um pouco do caráter universal dessas questões. Da violência de género, da sexualidade feminina, da liberdade de crença e de credo, ou da maternidade.
O facto de não haver uma referência local e temporal em Tudo é Rio levará a que um leitor, esteja em Braga ou em São Paulo, encontre pontos de contacto com a sua realidade? Algo semelhante acontece nas obras de Itamar Vieira Junior. Vocês são os dois escritores mais lidos no Brasil.
Eu e o Itamar somos companheiros nesse movimento de fortalecimento da literatura brasileira. Estamos juntos nisso! A literatura contemporânea brasileira está num momento incrível.
Ambos são escritores fora do eixo Rio-São Paulo.
Isso é interessante, porque temos as nossas vozes, a nossa maneira de contar histórias. Contamos histórias, não fazemos autoficção. Abrimos uma janela diferente — temos tido muitas histórias de autoficção, o que gerou um interesse no que não é. Tem sido uma alegria dividir com o Itamar essa aventura.
O Brasil é um país fácil para se ser escritor?
É um país com desafios grandes. [Por um lado] Tem uma população imensa, mas ainda precisamos de crescer muito no número de leitores. Lemos muito pouco diante do tamanho da nossa população. [Por outro] Acho que as editoras têm o desafio de ouvir novas vozes, de ampliar a escuta, porque estão sempre a tentar equilibrar as questões mercadológicas com as questões artísticas, culturais.
O Avesso da Pele, obra de Jeferson Tenório, foi censurada em algumas escolas de Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul. Não é caso único, é o mais recente. É argumentado que tem linguagem e cenas impróprias para adolescentes. Como olhas para esse caso?
Com muita tristeza. Porque o livro do Jeferson Tenório é incrível, muito bem escrito. Lida com uma questão importantíssima sobre o racismo, a violência policial, questões que precisamos, cada vez mais, compreender e avançar. É um livro importantíssimo, especialmente para as pessoas jovens. Tem uma cena de sexo, porque sexo faz parte da vida. Uma cena que foi tirada do contexto, que não é novidade nenhuma para uma faixa etária para quem se destina o livro. É um absurdo.
Sentes que a literatura contemporânea brasileira é bem recebida no estrangeiro? Tem as portas abertas à tradução?
Estou agora a começar a lidar com isso, e tenho sentido uma velocidade menor do que gostaria em alguns lugares; outros não, estão fluindo bem, como na Itália ou no México. É um desafio, mas espero que o Brasil se torne numa referência, que consigamos chegar a um ponto onde somos procurados. "Vamos lá buscar [autores e livros], porque lá está a acontecer uma coisa legal".
A nomeação do Itamar para o Booker Prize pode ajudar? No comunicado onde foram anunciados os 13 finalistas desta edição, o júri até mencionou um segundo “boom” da literatura latino-americana.
Maravilhoso, maravilhoso. Cada escritor brasileiro que acontece, ele puxa toda a nossa literatura, faz mais gente prestar atenção. Chegar numa posição em que os países procuram saber o que está a acontecer no Brasil para traduzir, porque sabem que vão encontrar coisas de qualidade, é o que temos de almejar.
Como é que lidas com o título de ‘a escritora mais lida no Brasil’? É um peso grande nos ombros?
Quando escrevemos um livro, queremos que ele seja lido, claro, mas essa não é a minha motivação. Claro que sinto muita alegria, é maravilhoso, mas também não me facilita em nada a escrita do próximo livro. A cada novo livro, sei que estou diante do imenso desafio de uma nova obra. A mim interessa-me que ela seja de fato nova, que me proponha desafios diferentes dos que já vivi. Então, é muito importante sentir-me envolvida num novo projeto, porque é a única maneira de todas essas pressões, críticas ou elogios, não me abaterem ou impressionarem demais. Tudo isso faz parte, mas não pode entrar no território criativo.
O rótulo de “demasiado comercial” não parece ser um problema, és lida e aclamada por várias faixas: do académico mais intelectual ao leitor mais emocional. Isso é bom.
É muito bom. Na verdade, eu acho que a minha obra tem uma complexidade, toca em questões profundas e complexas, sem maniqueísmos. Com uma linguagem direta, ela é acessível, mas não se torna superficial. Acho que é isso que dá uma penetração grande.
Os teus livros são muitas vezes escolhidos para Clubes de Livros. Porque é que achas que o são? Gostas de participar e de debater as obras com os leitores?
Gosto imensamente, já participei em vários Clubes. Ultimamente tenho reduzido um pouco a participação, porque estou a tentar escrever o meu quarto livro, e também porque os convites ficaram mais intensos e eu não consigo atender a todos. Mas eu gosto muito de ouvir o leitor, ele reescreve o livro, mostra-me coisas que eu não tinha percebido, faz analogias e vê camadas que às vezes não estão ali de uma forma propositada ou consciente.
Há dois leitores em particular que eu sei que gostavas que tivessem os teus livros: Chico Buarque e Caetano Veloso. Ao Chico já ofereceste um, sabes se leu?
Entreguei para Caetano, também. Para Caetano Tudo é Rio e para Chico o Véspera. Chico disse que leria assim que terminasse a sua tournée, e depois soube por uma pessoa que ele leu e que gostou. Caetano não sei se leu, mas fico na torcida. Sou muito grata aos dois pelo que eles me deram de poesia e porque são dois dos responsáveis por eu me ter apaixonado pela palavra.
Em que fase está a adaptação para filme do Tudo é Rio e para série do Véspera?
Na verdade, tanto Véspera quanto a Natureza têm um projeto para série. Os três livros têm os direitos já comercializados.
E Tudo é Rio já tem realizador?
Já temos combinado que será dirigido por uma mulher.
Li que o nome de Bruno Barreto já esteve em cima da mesa, mas que preferias a visão de uma mulher.
Acho importante, no caso de Tudo é Rio. Gostaria que o filme tivesse o olhar de uma mulher.
Tudo é Rio pode ser traduzido, para outras línguas, por um tradutor homem? Vês um problema nisso?
Não.
Essa questão aplica-se apenas para a transposição para cinema?
Porque eu acho que o cinema é outra linguagem. E, na verdade, é feito um recorte. Não há como colocar um livro inteiro num filme de uma hora e meia ou duas horas. Há sempre um recorte, uma escolha; é uma nova obra, é uma outra obra. Nesse sentido, fica mais claro o desejo que seja uma mulher.
Fiquei muito surpreendida e contente por ver uma referência ao Húmus de Raul Brandão no A Natureza da Mordida. Que outros autores portugueses gostas?
Gosto muito do Saramago, uma jóia que Portugal nos deu. Gosto muito do Valter Hugo, com quem tive a oportunidade de estar na Bienal do Rio; já li dele muitas coisas, gostei imensamente do As Doenças do Brasil, o penúltimo. Tenho um carinho especial pelo Eça de Queirós por causa do O Primo Basílio, um livro impressionante e que teve uma adaptação incrível no Brasil, com a Marília Pêra. Estou a conhecer autores novos, cada vez que venho cá volto com uma mala de livros.
O que é que nos podes contar sobre o novo livro?
Posso falar muito pouco, porque eu sei muito pouco. Na verdade, já estou bem adiantada na escrita, mas não tenho a menor previsão de quando termino. Estou a estruturar a história. Quando terminar, vou fazer várias releituras, que é a parte mais deliciosa do processo. Ajusto a textura, as intenções. Outro dia ouvi o Chico Buarque dizer que descobriu que gosta de ler e não de escrever, e por isso escreve. Eu sinto-me mais ou menos do mesmo jeito. A melhor parte é ler e ficar nesse exercício da leitura. Já sei que o novo livro é uma polifonia, isso não vai mudar. Vou ter várias vozes a ajudar a contar a história. Não tenho previsão de quando sai, nem se ficará pronto ao mesmo tempo em Portugal e no Brasil. Vamos conversando com calma.
O que é que estás a ler neste momento?
A Trégua, de Mario Bennedetti, e o Latim em Pó, do Caetano W. Galindo, que é delicioso. Terminei de ler há pouco tempo o Maus Hábitos, o primeiro livro da escritora espanhola Alana S. Portero. É incrível, amei.
Por Rita Sousa Vieira