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Como é que nasce o projeto Cara de Espelho? Já percebi que resulta de vários encontros felizes.
Pedro da Silva Martins (PSM): Acho que o Sérgio é a melhor pessoa para explicar.
Sérgio Nascimento (SN): Aconteceu um bocadinho sem querer. Estávamos em plena pandemia e tive de ir aos CTT enviar qualquer coisa. Estavam fechados, mas esbarrei com o Carlos Guerreiro. Já não nos víamos há muito tempo, estivemos na conversa... Tínhamos feito um projeto uns anos antes, um cruzamento entre músicas da Deolinda e dos Gaiteiros de Lisboa, no festival Misty Fest. Na altura eles tiveram uma ideia engraçada: em vez de cada um fazer o seu concerto, fizemos um cruzamento das músicas. Os Gaiteiros interpretavam umas da Deolinda, e ao contrário, mas todos juntos. E isso deixou alguma saudade. [Nesse encontro nos CTT] O Carlos disse: "eh pá, temos que desafiar o Pedro para fazer umas canções, para nos encontrarmos e fazermos qualquer coisa". Pronto, "ligas tu ou ligo eu?". Foi assim.
Normalmente, esse é o tipo de conversa que não tem seguimento. Felizmente, aqui teve.
Pedro da Silva Martins (PSM): Esta teve. Eles ligaram-me e disseram: "eh pá, gostava que fizesses umas canções. Era fixe pegar nas tuas canções e fazer qualquer coisa". E eu disse que fazia as canções, mas tinha de participar na banda. Foi assim. Depois juntou-se o Luís [J Martins], que já vinha de Deolinda, e a voz da Mitó fazia sentido no grupo de canções que tínhamos.
Depois fomos ver um concerto ao teatro do Bairro Alto e encontrámos o [Nuno] Prata, que tinha vindo do Porto. Isto foi num sábado e na terça-feira recebo uma mensagem do Nuno a dizer: "eh pá, ouvi dizer que tens uma banda, que há aí uma nova banda, eu gostava de fazer parte, se precisares de um baixista...".
Sérgio Nascimento (SN): E na quarta respondeste: "por favor".
PSM: Não, acho que respondi logo na terça-feira: "claro que sim".
Isso parece aquelas histórias das bandas que marcam gerações, cujos encontros parecem ter sido todos fortuitos.
PSM: São pessoas que que admiramos, receber um convite do Sérgio e do Carlos é incrível. Depois, trabalhar com pessoas que admiro e de quem sou amigo já há alguns anos, como é o caso da Mitó e do Nuno. Só ele é que toca aquele baixo. Ele tem um som muito característico, tem uma forma de abordar o baixo muito original. Éramos todos fãs do Nuno...
SN: Claro que sim.
PSM: Então venha ele. De certeza que isto ia ficar ainda mais incrível do que já era.
O vosso currículo é extenso, têm todos uma marca na música nacional. Se fizer uma lista dos projetos com o vosso nome, ela será longa.
PSM: Temos uma carreira extensa, sem dúvida. Mas até digo na brincadeira que isto tinha tudo para ser um desastre.
Porquê?
PSM: Porque eram elementos muito distintos, apesar de já termos trabalhado juntos. Uma das coisas que tinha receio é que isto soasse um pouco àquelas coisas de fusão, que não têm assim uma linha definida. Mas acho que isso não aconteceu porque toda a gente tem uma sensibilidade super apurada.
Isso é o que muitas vezes acontece ao que se chamam de supergrupos.
PSM: Sim, sim. Às vezes cada um tenta trazer ou impor a sua ideia e perde-se a unidade. Aqui, ouvindo o disco, acho que se percebe que não é isso que acontece.
Ao primeiro trabalho é uma coisa complicada de se conseguir. Não se ouve a influência de Deolinda ou d’A Naifa, neste ou naquele tema, ouve-se Cara de Espelho. Já agora, de onde vem este nome?
PSM: Já tínhamos as canções, todas elas já tinham títulos, mas não tínhamos nome para este projeto. Tivemos sempre uma atitude um pouco...
SN: ... serena.
PSM: “Eh pá, quando nos sentarmos a trabalhar, isto há de desaparecer, o nome há de surgir”. E assim foi. Tínhamos uma canção, que na altura se chamava Cara de Espelho, agora é a Cara que é Tua. É a canção que abre o disco e que, de certa forma, apresenta este conceito, esta ideia. Esta figura que tem um espelho em vez de cara e que espelha os outros. Isso era um bocado aquilo que aconteceu com estas canções. Estas canções espelham a nossa sociedade, espelham, ao mesmo tempo, aquilo que somos e o que o outro é.
As vossas letras são assustadoramente atuais.
PSM: Isso é bom, gosto do assustadoramente.
Se o projeto nasce durante a pandemia, acredito que elas não tenham sido escritas há duas semanas. Ou quando soubemos que iríamos para eleições novamente. Ou quando se soube que iria existir uma manifestação contra a imigração. É daí que vem o lado assustador e atual. Falem-me um pouco mais sobre estes temas.
PSM: Eu acho que alguém andou a ouvir o disco e esteve a congeminar isto tudo para tudo bater certo. Mas é mesmo uma coincidência, como tu dizes, um bocado assustadora. De repente, estas canções tocam uma série de feridas que estão abertas, e têm vindo a crescer ao longo do tempo.
Algumas delas pensávamos já saradas.
PSM: Exato, e estão em carne viva agora. A música tem destas coisas. Falando da sociedade e tentando ser pertinente com a atualidade, às vezes parece que estamos a falar de coisas que são de hoje, mas que já há algum tempo se sentiam e estavam latentes. Foi isso que levou a este grupo de canções, que agora parecem muito certeiras.
Pode dizer-se que são, de alguma forma, canções de protesto ou de intervenção?
PSM: São canções com uma consciência social.
Pergunto em jeito de provocação, porque a carga que esses termos trazem não agrada a todos.
PSM: É uma canção com uma carga, não é? Tem essa carga polarizada, no sentido... Tem ali um lado consciente, mas também de urgência. É urgente falar de determinado tipo de temas, como autor sinto essa necessidade. Não é um exclusivo Cara de Espalho, há mais coisas a acontecer e que também estão com esse lado mais aceso, mas [este] é assumidamente um disco com essas características.
Como é que foi juntar estas vontades todas, magicar este projeto, numa altura de incerteza, como era o período da pandemia?
SN: Cada um tinha a sua vida já organizada e, de repente, aparece aqui uma coisa de que todos vamos fazer parte, portanto foi preciso alguma disponibilidade. Como não havia nenhuma urgência de lançar, não havia perspetiva de como é que as coisas iriam estar... Parecia que, passados três meses, estaríamos todos bem, mas depois não foi bem três meses. Deu-nos este tempo para nos organizarmos e para pensarmos as coisas com alguma calma. O principal é que as coisas nos soem bem, que a gente goste do que tem nas mãos, e depois lança-se quando está pronto. A pandemia pode ter trazido algumas dificuldades no contacto, e muda um bocadinho a maneira de construir, não é? O Pedro lançava as canções, o Carlos lançava umas ideias já mais musicais; nós montávamos, depois o Luís fazia uma coisa... E andávamos neste ping-pong. Todos nós nos adaptámos.
Quando é que foi a primeira vez que se juntaram e deram forma àquilo que estavam a preparar?
SN: Fomos arrumando a coisa de uma forma que fosse sempre muito confortável para todos.
PSM: Foi um pouco antes de gravarmos, talvez um mês antes. É difícil juntar estas pessoas, porque têm todos uma agenda muito completa. E quando nos conseguimos juntar já tínhamos uns caminhos esboçados de arranjos, que tínhamos feito em casa...
SN: ... com ideias já bastante concretas.
PSM: Mas, de repente, sentimos a energia de grupo. Sentimos que aquilo deu um salto grande para o que depois resultou no disco. Foi um trabalho diferente daqueles que eu estou habituado a fazer até aqui. Com Deolinda íamos para estúdio com um ano de trabalho, a tocar em conjunto, e aqui não houve espaço para isso. Mas o que se sente agora é que temos um som. Já começámos a trabalhar em novas canções, porque estas não chegam para um espetáculo ao vivo. Já surgiram novas, e já se sente uma ginástica de banda. É muito engraçado, lança-se uma canção e, de repente, a canção tem a forma de Cara de Espelho.
Os concertos de apresentação têm início no final do mês, sendo o primeiro no Theatro Circo, em Braga. Ficamos já a saber que podemos ouvir mais alguns temas que não estão incluídos no disco. Como será a transposição do álbum para palco?
SN: Há sempre uma adaptação. No estúdio podes ter mais do que duas mãos, não é? É um disco que tem algumas camadas, mas que é relativamente simples de o pôr a tocar ao vivo com os elementos da banda. Tem outra magia, é diferente viver aquilo fisicamente.
Voltando às canções, uma delas fala de um Dr. Coisinho. Corrijam-me, mas acho que já ouvi esse termo dito por outra pessoa.
PSM: Pelo Bruno Nogueira, e foi autorizado. Falei com ele e disse-lhe: "olha, estou a fazer...".
E ele disse que também queria fazer parte da banda?
PSM: Se quisesse fazer parte, acho que arranjávamos um espaço para ele. Precisamos de mais mãos, por acaso. Surgiu-me este nome ao coisificar o medo. Ainda lhe dei o epíteto do Dr.. Mandei-lhe a canção, ainda a maquete, e ele disse "força nisso". Toca ali numa personagem que eu acho que quem ouvir também vai identificar.
SN: Sobre as canções, acho que há uma coisa que também é importante dizer. Na escrita do Pedro há sempre um sorriso, há sempre humor. Toca em feridas, mas não sais triste, sais animado. Apesar de a vida ser dura ou das coisas serem difíceis, sais esperançoso.
O disco teve dois temas de avanço, Corridinho Português e o Político Antropófago. Como é que foram recebidos?
PSM: Ainda são desconhecidos para a maior parte das pessoas, mas temos tido boa receção. São duas músicas muito distintas uma da outra. Sentimos a necessidade de lançar duas coisas simultâneas porque somos uma banda nova, completamente desconhecida, e só uma parecia que nos marcava muito, e a nossa proposta musical é muito plural. Como são duas canções distintas, houve um público específico para cada uma delas e um mais transversal. Com o lançamento do disco é que se vai começar a sentir mais o mergulho das pessoas no conceito.
Não tiveram receio que as pessoas esperassem uma Deolinda parte 2?
PSM: Não, acho que foi percetível. Porque há outros instrumentos...
SN: Também podiam ser uns Gaiteiros parte 2, uns Ornatos parte 2...
Referi a Deolinda por vos ter aqui aos dois.
PSM: Eu entendo isso perfeitamente, é natural. Mas é um bocado essa a nossa bagagem, é a mochila que trazemos às costas. O nosso passado está aqui em pequenos ingredientes.
Cara de Espelho não é uma amálgama de influências de projetos passados. Ouvem-se as vossas influências, como Carlos Paredes ou José Mário Branco. Não se ouve Deolinda, Ornatos Violeta... Talvez apenas haja algo que nos remete para os Gaiteiros de Lisboa?
PSM: Os Gaiteiros têm um som tão característico. Falamos do Carlos Guerreiro, que inventa instrumentos para as canções. É um luxo fazer canções e ter um inventor a criar um instrumento, que não existe, para ela. Vai buscar uma cana de pesca, uma roda de bicicleta. O Carlos traz esse exotismo todo dos Gaiteiros que sobressai e faz a diferença nesta proposta.
O disco coincide com os 50 anos do 25 de Abril. É isso mesmo, uma coincidência?
PSM: É um bocado. Como dissemos, isto nasceu no início do confinamento. Que eu sempre disse que ia ser muito produtivo, as pessoas estavam em casa, a pensar que isto ia acabar e que estavam todas a fazer as melhores obras da vida.
Em jeito de oráculo, vocês anteciparam duas guerras, temas relacionados com imigração e a habitação. Qual é próxima ferida aberta onde vamos querer meter um penso?
PSM: Há uma [canção] que ficou de fora.
Até tenho medo.
PSM: Ficou de fora porque não estava com o balanço certo, foi só uma questão de arranjo. Uma canção que fala sobre as cunhas, sobre pôr a família ou os amigos... Chama-se Dedo de Denúncia e vai fazer parte dos concertos. Estava a tentar lembrar-me de outras... A desertificação do interior é o [tema] de outra delas, é a história de um andor de uma aldeia onde não há pessoas e por isso tem de andar sozinho.
São temas que durante muitos anos estiveram na gaveta da música nacional. É bom que os tirem e os tragam para os palcos e, quiçá, para a rua. O que é que estão a ouvir neste momento?
SN: Estou a ouvir misturas de coisas de trabalho. Estamos a preparar uma coisa nova para a Lena D'Água.
PSM: Tem sido também essa a minha audição. E tenho andado a fazer mais canções para Cara de Espelho. Há períodos em que não ouvimos muita música.
SN: O último que ouvi com um bocadinho mais de atenção foi o [disco] d’A Garota Não.
PSM: No fim de semana, numa festa de família, estivemos a ouvir Stromae.
Por Rita Sousa Vieira