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CAPICUA EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A CAPICUAENTREVISTA A CAPICUA


“Estamos a ver o fim do filme e não fazemos nada para mudar o guião”



Capicua propõe um intervalo. Uma pausa para cultivar o olhar poético, a beleza e a esperança, como forma de combater o cinismo e os desafios que enfrentamos. Nesta conversa com a Cultura FNAC, serve-se Um Gelado Antes do Fim do Mundo. Um disco “profundamente enraizado no seu tempo”.



 



Um Gelado Antes do Fim do Mundo termina com a frase: “Triste é o povo que não consegue imaginar um futuro. Nós somos esse povo”. Apesar do título apocalíptico, este não é um disco que atira a toalha ao chão.

 

Não, de todo. Nem essa frase final pretende ser pessimista ou de desistência. Muito pelo contrário. Este disco, ainda que fale dessa sensação de fim do mundo e da complexidade do nosso tempo — dos enormes desafios que enfrentamos —, propõe uma pausa. Um intervalo. Um tempo para um gelado, digamos assim. Sugere um minuto para recuperar o olhar poético, o encantamento, aquilo que nos recarrega a esperança e nos move para salvar o que ainda temos de belo, com B grande — e que ainda é muito.

 

Portanto, sendo um disco que pretende aguçar o espírito crítico, pensar, denunciar e trazer para cima da mesa os temas que, infelizmente, são as grandes preocupações, pretende cultivar esperança. É, de certa forma, um antídoto contra o adormecimento vigente, contra um certo cinismo que paira sobre nós, como se a tecnocracia do mundo nos desaconselhasse a ter ímpetos de transformação ou a pensar em uma nova utopia. Terminei o disco com essa frase porque, honestamente, uma das coisas que mais me inquieta no nosso tempo é essa dificuldade em imaginar outros futuros. Conseguimos mais facilmente imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Quando pensamos no futuro, pensamos numa distopia orwelliana ou numa grande catástrofe ambiental. Não conseguimos pensar em nada que seja uma alternativa positiva, sustentável, otimista, ao modelo social e económico que temos hoje.

 

Podemos dizer que este disco são aqueles cinco escudos que os nossos avós nos davam para um gelado?

 

É isso mesmo. Depois de um dia de escola, cansados da vida, havia aqueles minutos de prazer a olhar o parque, a praia, o jardim ou o quintal. Deixávamos o pensamento fugir, reconciliávamo-nos com os pequenos prazeres, com a beleza do mundo, com os amigos.

 

É precisamente nesses momentos que a arte, a música e a palavra nos convocam. São momentos onde praticamos esse olhar poético que tanto nos falta. Vivemos com as lentes embaciadas, muito foscas, e precisamos urgentemente desse encantamento, dessa esperança. Porque, se não encontramos beleza no mundo, para que é que lutamos por ele? Ninguém salta da cama de manhã pronto para transformar o mundo se não acreditar que ele pode ser um lugar bonito e pelo qual vale a pena lutar. E acho que esse cinismo, esse niilismo, ou este adormecimento, não nos ajuda a contrariar o espírito da época.

 

Dizias que há uma ideia de futuro distópico, mas parece que, hoje, a distopia é mais o presente do que o futuro.

 

Sim, exatamente. O presente já é distópico. As alterações climáticas, que pareciam algo do futuro, já estão cá. Venderam-nos um “fim da história” que se revelou falso — e, afinal, as guerras, os conflitos, as ditaduras, os autoritarismos e os autocratas estão todos aqui prestes a fazer os anos 30 great again.

 

Fazes parte de uma geração que cresceu com a promessa de que o futuro seria melhor. Quando é que percebeste que isso não seria verdade?

 

Acho que esse é mesmo o busílis da questão. A geração dos nossos pais acreditava que íamos ter uma vida melhor do que a deles, e nós próprios crescemos a acreditar que o futuro seria ainda mais próspero. Mas, quando se começou a perceber que isso não era garantido, instalou-se uma espécie de desencanto. Um espírito de desistência em relação ao nosso modelo de organização político e social.

 

Esse desencanto acabou por abrir espaço ao populismo, à extrema-direita, como forma de revolta. Há um sentimento de que fomos enganados, desamparados pelo Estado Social, e que afinal a tal prosperidade exponencial era um mito. E, ao mesmo tempo, esta tecnocracia, o neoliberalismo vigente, impõe-nos o there is no alternative — a famosa “TINA” —, que nos impede até de discutir outras possibilidades. Que faz com que, por um lado, tenhamos essa sensação de que fomos enganados — essa grande mágoa, essa desilusão — mas, por outro, além desse voto de protesto na extrema-direita, que alguns optam por fazer, há outros que estão simplesmente zangados e descrentes. Acho que seria interessante mobilizar essa indignação — tal como a extrema-direita tenta fazer do lado extremo da força — e canalizar essa revolta, essa sensação de que fomos enganados e estamos descontentes, para pensar novas possibilidades.

 

Ao contrário da geração dos nossos pais, que durante o PREC passavam noites a discutir projetos de organização social — alguns tentados, outros falhados, outros ainda por experimentar —, hoje em dia não se fala de ideologia, de organização social. E quando aparecem jovens ativistas climáticos ou pessoas que desafiam o capitalismo, a resposta é uma sobranceria geracional, quase cínica. Um “chamem os adultos à sala”, ou então mandam-nos para Cuba “para ver o que é bom”. Esse tipo de resposta fecha logo a porta ao debate. Boicota à nascença a possibilidade de imaginar algo novo.

 

Como é que a nossa civilização, que inventa tudo e mais alguma coisa no campo da tecnologia, é incapaz de inventar um sistema de organização social e económica que funcione, que não seja suicida? É algo que eu não consigo compreender. Como é que as pessoas, os nossos governantes e as empresas não conseguem simplesmente sentar-se à volta de uma mesa e pensar em possibilidades de futuro menos suicidas? Parece-me um paradoxo, e é precisamente isso que considero verdadeiramente preocupante.

 

E eu pergunto-me: perante isto, o que é que vai na cabeça dos adolescentes e jovens de hoje?

 

A verdade é que muitos querem emigrar. Mesmo com emprego, sabem que dificilmente será bem pago, que não terão condições para comprar uma casa ou ter filhos antes dos 40. Falta estabilidade. E por isso, muitos optam por sair. É o que está a acontecer, e o que as estatísticas nos dizem. Desde o 25 de Abril que construímos uma escola pública de qualidade, e agora vemos essas pessoas a irem trabalhar para fora. Perdemos o investimento em educação. A fuga de cérebros é real. E isso é triste. Triste a nível coletivo, mas também individual, para as famílias e para cada pessoa que tem de deixar a sua casa só para poder ambicionar um futuro mais risonho.

 

E tudo isto está a agravar-se. Não é só a questão laboral, a falta de estabilidade financeira, a dificuldade no acesso à habitação. É também a crise climática. As próximas gerações, além de enfrentarem tudo isto, nem sabem se chegarão aos 50 com água potável. Isso é muito preocupante. Fala-se muito dos mega-milionários, dos oligarcas, dos “donos do mundo”, mas a verdade é que é muito mais provável que as próximas gerações venham a ser refugiados do clima do que o próximo Elon Musk. É muito mais provável que tenham de fugir por causa de uma catástrofe ambiental, da escassez, da seca ou da fome, do que fazerem fortuna. Se nós já nos sentimos enganados pelas promessas que nos fizeram, os que vieram a seguir já vivem nesse niilismo blasé — “nem reforma, nem casa, nem filhos antes dos 40”. E os que virão a seguir vão pensar: “nem água, nem comida disponível”. Vai-se agravando a perspetiva de futuro, a tal ponto que já nem conseguimos imaginar o futuro como algo positivo. E o mais preocupante é que, sendo nós uma espécie conhecida pela sua capacidade de adaptação, não estamos a adaptar-nos. Estamos a caminhar para o abismo em filinha. Não estamos a fazer o trabalho que devíamos estar a fazer. Não estamos a reagir, a mudar a forma como vivemos, a preparar-nos para o que aí vem.

 

Os Sex Pistols já cantavam no future, no future for you. Precisamos todos de ser um bocadinho mais punk?

 

Acho que sim. O adormecimento é outro dos traços da nossa época. Para além do cinismo e do desencanto, as redes sociais dão-nos dopamina rápida — ficamos ali, hipnotizados, num scroll infinito, que é programado para nos viciar. E vamos ficando cada vez mais dessensibilizados, porque, no mesmo feed, numa espécie de montanha-russa absurda, misturam-se as grandes catástrofes — guerras, genocídios, crises climáticas — com vídeos de rotinas de skin care, gatinhos fofos, tostas de abacate e todo o tipo de frivolidades. É como se tudo valesse o mesmo. Habituamo-nos a esse fluxo contínuo e hipnótico, cada vez menos sensíveis, menos empáticos. E mesmo quando nos indignamos, muitas vezes parece uma indignação performativa — só para seguir uma trend — e não um verdadeiro impulso para mudar as coisas ou fazer parte da solução.

 

As redes sociais alimentam essa dinâmica, e isso, aliado à erosão das nossas democracias — também provocada pela desinformação, das bolhas dos algoritmos e câmaras de eco —, cria um ambiente em que estamos cada vez mais isolados com quem pensa como nós. E, além disso, o debate tornou-se tóxico, de repente tudo é uma trincheira. Resultado: estamos adormecidos, desmobilizados, com a saúde mental comprometida e com a saúde da nossa democracia em decadência. É a tempestade perfeita.

 

Achas que olhar para trás pode ajudar-nos a encontrar um novo tipo de futuro?

 

Sim. Acho que olhar para trás, para aprender e evitar os erros, é fundamental. Até porque, como digo na canção Danúbio, "não há quem não sinta o cheiro a anos 30". Já muitas coisas que encaramos quase como profecias que se repetem, como se fossem inevitáveis, e acabamos por nos conformar com a ideia de que se vão cumprir, em vez de reagirmos. Por mais que tenhamos uma consciência histórica do que aconteceu, parece que já estamos a ver o fim do filme e não fazemos nada para mudar o guião a meio.

 

Por isso, embora seja fundamental olhar para o passado e tentar não repetir os erros, não sei se, mesmo com essa consciência, temos realmente capacidade para os evitar. E, ao mesmo tempo, parece-me que temos hoje mais carência de futuro do que de passado.

 

Este é um disco que, como já referimos, reflete muito os dias de hoje. Isso dificultou o processo de escrita e composição? Gerou ansiedade ao abordares tantos temas, sabendo que, a cada dia, surge um novo problema?

 

Não, não teve. Um disco é sempre o retrato de um tempo, mas não é um tweet, nem uma reação instantânea, como as minhas crónicas no Jornal de Notícias, que são escritas semanalmente. É um retrato da época, mas também uma tentativa de criar uma obra que seja o mais intemporal possível. Apesar de ser um reflexo do nosso tempo, queremos que ele perdure, que dure muito além do momento em que foi feito. E não está tão preso à espuma dos dias, está mais preso ao Zeitgeist. Claro que o disco tem algumas referências a acontecimentos mais atuais, como em Brava ou Chiaroscuro, mas essas referências estão ali quase como título ilustrativo, não para datar o disco.

 

Não é uma cápsula que, daqui a 50 anos, vamos desenterrar e nela encontrar um retrato fiel do ano em que foi lançado?

 

Acho que sim, é um disco que está profundamente enraizado no seu tempo. Mas, ao escrevê-lo, não senti a ansiedade de documentar o dia a dia. Para isso, já tenho as minhas crónicas semanais, onde faço esse exercício e estou presa à atualidade. No disco, fui até ler as crónicas dos últimos anos para perceber quais eram os temas mais recorrentes, aqueles que se destacavam, que eram centrais tanto na minha vida como nas preocupações do momento.

 

Havia várias questões que se repetiam: as questões climáticas, as redes sociais, a violência de género, a habitação, o crescimento da extrema-direita, essa sensação de fim do mundo, o cinismo, o adormecimento vigente, a tecnocracia, a falta de esperança. Estes foram os grandes temas que definem, de certo modo, a nossa época. Estes eram, em traços largos, grandes temas inseridos sob um guarda-chuva ainda maior, que, na minha opinião, define profundamente o nosso tempo. Mas, como disse no início da resposta, trata-se muito mais do Zeitgeist — o espírito da época — do que propriamente da espuma dos dias.

 

Acho que umas das frases que mais li e ouvi nas tuas entrevistas recentes é: “renovar os votos com a esperança”. Isso faz-se como? É a partir da palavra, da poesia, da música?

 

Eu acredito que é a partir de tudo aquilo que nos humaniza. Como seres humanos, temos essa capacidade de empatia, temos um olhar poético. Quando somos crianças, encontramos encantamento em tudo. Temos um olhar poético em dia. E, à medida que vamos amadurecendo, vamo-nos tornando mais cínicos, e, com isso, vamos perdendo esses recursos. Uma das formas mais poderosas de reacender esse olhar poético e esperançoso é através da música, da poesia, das artes. E, claro, também através da natureza. Mas, no meu caso, tentei fazer isso a partir da palavra e da música. Tenho recebido muitas mensagens de pessoas a dizer que, embora o disco fale de questões muito sérias e algumas frases sejam fortes e impactantes, no final se sentem mobilizadas a cultivar esse lado empático, humano, comunitário. Algo que nos motiva a mudar, a ter esperança. E era isso que eu queria cultivar. Porque a arte pode ser um atalho importante para resgatar a nossa capacidade de encontrar a verdadeira beleza ao nosso redor. E, como disse antes, se não conseguimos encontrar beleza à nova volta, para quê lutar por algo? Não faz sentido.


 



Há vários registos, da palavra cantada à poesia dita, passando, claro, pelo rap. Este disco foi um espaço para a experimentação?

 

Sem dúvida. Eu sentia que, já tendo feito vários discos, e sendo que em cada um procuro um exercício criativo, poético e musical diferente, tinha chegado o momento de mudar. Durante os anos que antecederam este disco — um hiato considerável desde o Madrepérola — senti que, quando voltasse a lançar um novo trabalho, queria alterar o método criativo, explorar outros registos, para não sentir que estava a repetir-me. E, quando percebi que a força da palavra, a força da poesia, era quase a espinha dorsal deste disco, fez todo o sentido incluir também a palavra dita. Já o fazia em concertos, em sessões de declamação, mas nunca a tinha integrado desta forma num disco, e senti que tinha de o fazer. A partir daí, fez-me sentido que o bloco de rap deixasse de ser o centro da canção. Ao mesmo tempo, fui explorando algo mais cantarolado, como já tinha feito no projeto Mão Verde, com a música para crianças, ou na minha versão de Que Força É Essa Amiga, do Sérgio Godinho. E também houve o trabalho com o Luís Montenegro — músico que já me acompanha em palco há muitos anos, mas com quem nunca tinha colaborado de forma tão intensa em estúdio, na composição. Ele domina muito bem não só a linguagem da música eletrónica, mas também vários instrumentos.

 

O Luís, de SALTO.

 

Exatamente. E Rapaz Ego, com a Cuca Monga, ele tem vários projetos... Domina a música eletrónica, mas também toca vários instrumentos. Conseguimos construir um processo experimental que começava, às vezes, com um beat, mas que outras vezes começava com um poema, uma melodia de voz. Desenvolvíamos isso no piano, na guitarra. Às vezes, eu trazia uma ideia maluca e começávamos a montá-la quase como se fosse um quebra-cabeças. Isso permitiu-me sair do método que já vinha usando nos discos anteriores, que era funcional e eficaz, mas que sentia que precisava abandonar para obter resultados novos. O Luís foi fundamental nesse processo, ajudando-me a concretizar essas transformações.

 

Entre o Madrepérola e este disco, não estiveste parada. Mas, como os flamingos, foste perdendo a cor...  [Flamingo]. Sentiste algum desencanto relativamente ao meio musical, à indústria?

 

Sim, sem dúvida. Não só porque os meus primeiros tempos de maternidade coincidiram com a pandemia, o que foi um choque muito grande para mim, mas também porque fiquei muito tempo — quase três anos — dedicada exclusivamente à maternidade. Mas também porque o Madrepérola, que terminei com um bebé muito pequenino, ficou preso no limbo da pandemia, e foi difícil gerir essa frustração.

 

Depois, quando retomei o trabalho, as coisas estavam muito diferentes e muito difíceis. Foi um período complicado para todos os trabalhadores da cultura e, durante algum tempo, não tinha vontade de fazer um novo disco, dado todo o esforço, investimento e dedicação que isso implica. Também estava a gerir a ressaca de todos esses anos, entre o puerpério e a pandemia. Dois P’s, que, combinados, são bastante complexos.

 

Por isso, precisei de um tempo para fazer outras coisas. Até digo isso na música Flamingo, que é como se fosse um casamento desgastado entre mim e a música, mas que, no meio disso, tivemos uns “amantes” — fiz música para crianças, escrevi literatura infantil, livros de crónicas, curadoria para o disco de homenagem ao Sérgio Godinho, escrevi um álbum para a Aldina Duarte. Essas experiências trouxeram-me muito prazer e reconciliação com a criação. Foi como se as minhas penas voltassem a ser cor-de-rosa e, assim, ganhei vontade de fazer outro disco.

 

Making Teenage Ana Proud foi o primeiro single do disco. Como é que a Ana adolescente reagiria aos tempos de hoje?

 

Se ela já era tão combativa e contestatária nos anos 90 e princípios dos anos 2000, acho que agora estaria muito mais enfurecida, sem dúvida, com estas questões. Desde logo, com a questão da violência contra as mulheres, que é especialmente preocupante no nosso país, com a questão do crescimento da extrema-direita, que por todo o mundo é, de facto, muito grave, e com as questões das alterações climáticas. Acho que só essas três questões seriam motivo para muitas manifestações, muito ativismo, muita mobilização. Hoje, canalizo esse espírito para o meu trabalho, também para a minha atividade artística, e tento honrar esse espírito de compromisso a partir das minhas ferramentas e do meu tempo de antena.

 

Convidaste a Gisela João, que se ouve em Danúbio, as Sopa de Pedra, que fazem o coro de Souvenir, e o Toty Sa'med, que canta o refrão de Ao Ocaso. Como é que nasceram estas colaborações?

 

Olha, como nascem sempre: quando estou a compor uma música, ela puxa uma determinada voz e eu convido essa pessoa. E costumo dizer sempre: há imensas pessoas com quem eu gostava de colaborar e que ainda não surgiu a música que pedisse por elas.

 

Há pessoas, como por exemplo a Gisela, com quem já tinha colaborado e que tinha mesmo que colaborar neste disco, porque aquela música pedia a Gisela e a sua voz grave. Tal como precisava de Sopa de Pedra, porque precisava da força do coro, do coletivo, e do Toti naquele refrão, porque, quando o escrevi, ele soou na minha cabeça com a voz e o sotaque do Toti. E, felizmente, ele aceitou o convite, porque quando ele gravou em estúdio parecia que tinha concretizado a minha imaginação. Tive imensa sorte.

 

Recentemente começaste a comunicar com os teus fãs por via de uma newsletter, através da plartaforma Substack. Qual foi a gota de água que te fez perceber que as redes sociais não nos pertencem e, se um dia desaparecerem, vão levar consigo a maior base de comunicação que os artistas têm?

 

Não foi uma gota de água, foi mesmo um acumular. Não houve nenhum episódio final, foi um acumular de coisas. Não só pelo que as redes sociais têm de injusto e tóxico, pela forma como nos obrigam a jogar um jogo perverso, onde temos de nos promover na nossa intimidade para as pessoas gostarem de nós e depois terem interesse no nosso trabalho, o que é totalmente contrário ao que deveria ser. Mas também o facto de os meios de divulgação de cultura estarem cada vez mais escassos. Ou seja, é muito difícil… Quando olhas para a televisão portuguesa, praticamente não há nenhum programa com música ao vivo. São raríssimos.

 

Portanto, não só nós estamos muito sujeitos às redes sociais, que acabam por ser quase o único veículo de divulgação do nosso trabalho, como esse veículo nos tolhe em alcance e tem uma lógica muito perversa. É como se nos obrigassem a jogar um jogo que já envolve perder alguma privacidade ou baixar a qualidade dos conteúdos ou postar apenas porque tem de ser, para alimentar um algoritmo. Coisas que não têm nada a ver com o nosso trabalho e num tempo em que o tempo da arte está cada vez mais distante do tempo do mercado. Em que tudo é uma voragem e um disco é novidade durante dois dias e depois já é outro. E andamos todos lá nas redes sociais a dizer que temos um disco novo, no meio de mil outras coisas, estímulos: abacates, pratos de sushi, gatinhos fofos, selfies.

 

Tudo isso é muito ingrato e eu já tinha consciência disso. Quando o disco estava pronto, comecei a pensar: como é que vou promover este disco? Como é que falo para as pessoas que me querem ouvir? Porque, muitas vezes, postamos o cartaz de um concerto e as pessoas não sabem que o concerto aconteceu, porque o post desaparece, e já se perdeu a coisa dos cartazes na rua. Ou é muito caro e os teatros não investem muito. Então, comecei a perceber que eu tinha que ter uma forma de comunicar com a minha comunidade mais fiel de ouvintes. E se a newsletter também podia ser uma forma mais justa de estabelecer essa relação. E estou a experimentar. Ainda sou nova nas newsletters.

 

E não tens de te preocupar com o uso de certas palavras, porque o algoritmo vai censurá-las automaticamente.

 

Já para não falar disso. Eu acho que isso já é outra questão, vejo muitas pessoas a queixar-se. Pessoas que trabalham em informação ou até em conteúdos feministas ou até às vezes de educação sexual, que são totalmente boicotados, porque não podem usar termos como "violência sexual".

 

Como vês o facto de uma rapper integrar a lista de um partido para a Assembleia da República, e ainda por cima ocupar um lugar elegível?

 

Fico muito feliz, porque sou muito amiga da Eva Rapdiva, muito amiga mesmo, há muitos anos. E, não sendo eleitora do PS nem votando em Lisboa, fico feliz que ela participe e que mais pessoas como ela participem, hoje ou no futuro. Acho que as listas dos partidos, e sobretudo nos lugares elegíveis, têm que ser as mais diversas possíveis. E acho que temos tido pouca diversidade, não só étnica, mas também em origens profissionais, meios sociais, culturas e experiências diferentes. A Eva, além de ser uma pessoa com formação universitária no âmbito das relações internacionais, ter colaborado com a União Europeia e com muitos projetos de cooperação na área do desenvolvimento, tem um currículo muito interessante. Ela é uma mulher muito comprometida com as suas causas e, portanto, faz toda a diferença na Assembleia da República, sobretudo em tempos como os que vivemos, em que é preciso cada vez mais diversidade e mais vozes combativas contra os discursos de ódio e misóginos.

 

Já pensaste em envolver-te mais diretamente na política?

 

Não, eu não. Muitas pessoas dizem-me: "Ai, tens muito jeito para a política" Não, não tenho. E é por isso que também agradeço tanto às pessoas, como à Eva, que têm essa coragem. Quando vais pela motivação certa, é uma generosidade e um esforço que não é qualquer pessoa que está disposta a fazer. Sobretudo num momento em que a tua vida vai ser sujeita a escrutínio intenso.

 

O que é que estás a ouvir?

 

Olha, tenho ouvido o último disco do Rael e o da Marina Sena. Esta semana estive a ouvir o Tiny Desk do Benito [Bad Bunny], que é maravilhoso. É incrível, ainda mais com aquele sotaque porto-riquenho. Eu nem era fã do Bad Bunny e fiquei muito fã do disco. O que me deixou feliz, porque acredito que muitas vezes as pessoas têm resistência em se deixar surpreender por um artista que não gostam, e, neste caso, rendi-me.

 

Por Rita Sousa Vieira

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