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SOMA marca um novo ciclo na tua carreira?
Acho que sim, este é o início de um novo ciclo. Não é que seja uma coisa tipo Lady Gaga, com alterações a nível estético ou conceptual, mas o disco traz uma nova abordagem musical, mais orgânica, principalmente ao vivo, com os concertos com banda. É quase como se fosse uma graduation do DJ, que até agora esteve sozinho em palco. Por isso, sim, talvez sinta que esta é uma segunda fase do projeto Branko. Também já passaram 10 anos desde que lancei a primeira música enquanto Branko (Time Out, 2013).
Como é que nasce o conceito deste novo disco?
Hoje em dia a produção musical e tudo isto de que se fala... Será que a Inteligência Artificial vai atingir a produção musical? Será que os serviços que já existem ou alguns plugins, como um, chamado Arcade, de uma marca chamada Output, que dá uma fonte inesgotável de samples e de coisas que estão já no tempo certo, e na nota certa da música do que estás a produzir?... Sinto que a produção musical passou quase de um segredo bem guardado entre algumas pessoas, para virar uma coisa superacessível a todos. Os fotógrafos e os designers se calhar sentiram a mesma coisa... E, no meio desse processo todo, é muito fácil uma pessoa perder-se naquilo que realmente é a base de trabalho, e no que é realmente é importante. Para voltar a encontrar essa estrela polar, senti que tinha de voltar um bocado à criação social, às pessoas e ao estar numa sala com músicos, que eu admiro e nos quais confio.
O primeiro passo foi ligar a uma pessoa que eu admiro imenso, o João Gomes, um teclista incrível e das pessoas, para mim, mais importantes de ter numa sala quando estou a fazer uma canção. Disse-lhe que gostava muito de fazer uma jam session — que acabou por durar três dias — em que diferentes músicos pudessem tocar por cima de alguns beats que já tinha. Sem regras, só a ideia de criar uma base de trabalho, o ADN que viria a dar origem ao disco. Esse foi o desafio. Sem regras; só soltei os beats para que os músicos pudessem tocar por cima. Resultou em horas intermináveis de música, mas estava nas jam sessions e já estava a ouvir os segmentos que iria cortar para fazer as canções.
Foi logo nas jams que percebeste que já tinhas o disco?
Foi logo lá, sim. Na minha cabeça, não tinha como dar errado. Não sei se é da confiança nas pessoas, se em mim, mas não havia dúvidas que iria dar certo. Sabia-o desde que reservei os estúdios Namouche para as jam sessions. Só podia dar certo, com as linhas de guitarra incríveis do Jorge Almeida e do Danilo Lopes, com as linhas de teclados do João Gomes, com os baixos do Francisco Rebelo, com o Iúri Oliveira na percussão. São tudo pessoas que estão ligadas ao som de Lisboa, que cresceram juntas a tocar umas com as outras.
Se calhar quando falo disto assim, as pessoas pensam o SOMA é um disco de improvisação. Nada disso, nem é esse o meu background. Só o processo é que foi diferente, mais orgânico e mais humano. Saí do estúdio cheio de informação musical incrível, que depois levou ao convite dos vocalistas e deu origem às canções.
Tens uma foto atrás de ti; és tu nos estúdios Namouche?
Por acaso, sim. No fim de semana de lançamento do disco fizemos um evento na Soma House, em Alfama, do qual fez parte uma exposição de fotografias. Esta fazia parte.
Se consigo perceber bem, tens o computador no colo. Em algumas entrevistas antigas disseste que só precisavas "de um laptop para fazer música". Essa frase está um pouco desatualizada...
Qualquer percurso musical não faz sentido se não tiver algumas contradições a meio do caminho, e algum crescimento. Este disco começa com essa contradição e acho que isso torna o processo ainda mais interessante. Se calhar até fui copiar um pouco ao início dos 1-UIK Project, com o Kalaf, ou ao início da Enchufada, onde estávamos muito mais rodeados de músicos.
Tens um tema favorito? Ou há um que te deixe mais feliz por se ter concretizado?
Os meus favoritos do SOMA são a Intro (Voar/Sal) e o Outro (Voar/Balanço), porque foram os dois temas que deixei mais próximos das jam sessions. Onde o lado orgânico das jam sessions se sobrepõe à produção. Também acabam, sobretudo a Intro, por preparar bem quem vai ouvir o disco. É quase como uma passagem secreta para um mundo sonoro específico. Pensando no Pinterest, num moodboard, esses são os temas que acabam por definir esteticamente o som do disco.
E que pedem uma coisa que cada vez se faz menos, que é ouvir o disco de uma ponta à outra.
Felizmente, por acaso, acho que tenho a sorte... Recebo muitas mensagens, e ainda há pouco recebi uma, de pessoas que dizem que o ouvem de uma ponta à outra, várias vezes ao dia. Quando estou a estudar, quando estou a treinar, quando estou não sei o quê... Conquistar esses espaços é muito importante para mim. Não é pop, não toca na rádio a toda a hora, por isso acaba por ser uma pequena vitória no meio do ruído.
Qual a melhor mensagem que já recebeste?
Não sei se a palavra melhor se aplica ou não, mas eu fico sempre meio emocionado quando alguém vem dizer que a música foi útil para alguma coisa, e há dois temas que se repetem nessas mensagens. Escrevem-me a dizer que o Reserva para Dois foi a canção do casamento e eu acho incrível como um tema ocupa um lugar na relação amorosa entre duas pessoas. Com o Tudo Certo é um pouco diferente, com vários relatos de pessoas que dizem que a música os ajudou a superar alturas mais difíceis, como numa doença ou numa perda.
Esse é o trabalho da música e quem me dera que todas as minhas canções conseguissem, de alguma forma, transmitir algo. Na música não tens medalhas, como nos Jogos Olímpicos, nem ninguém — ou nem toda a gente — vem dizer se estou a fazer um bom trabalho. O índice comercial, o chamarem-me para dar mais concertos, é um indicador, certo, mas isso quer dizer zero quando o objetivo é a música chegar às pessoas. Essas mensagens são a minha medalha de ouro.
O sucesso internacional dos Buraka Som Sistema foi muitas vezes comparado ao de Madredeus. Entre as vozes de SOMA, em Cinzas, está a de Teresa Salgueiro. Como é que este convite aconteceu?
Desde muito jovem que ouvia Madredeus, foi-me apresentado quando tinha uns 15 ou 16 anos. Se calhar não era a música mais normal para um jovem ouvir nessa altura, mas também demonstra a força que tinham e que acabou por conquistar quem estava à procura de música alternativa. A Teresa Salgueiro tem uma voz, uma textura, uma forma de cantar e uma abordagem até à própria escrita que acho única. Ela ter aceitado foi a minha verdadeira conquista.
Na minha carreira, sempre fui muito fã de usar a voz como um instrumento. Desde Buraka Som Sistema, em que a voz era praticamente um instrumento de percussão, até ao percurso como Branko, em que vou buscar a voz da Mayra Andrade e brinco com isso — não é um sintetizador, é a voz dela, e até acabou por virar uma técnica a seguir, e isso faz com que a música se distinga de outras. Ter a Teresa Salgueiro a cantar foi uma grande realização. Não soa a um sample nem a fado, não soa a passado nem a futuro, é uma canção bonita, de duas pessoas a fazer uma canção numa sala.
As pessoas envolvidas na criação de SOMA foram tantas que na ficha técnica de um dos temas, Mood 111, até bateste o recorde nos créditos. Quantas foram?
Esse tema com o Dino D'Santiago e com o June Freedom tem 13 nomes nos créditos. Além deles tem, obviamente, todos os músicos que participaram nas sessões e os quatro autores de um trecho de uma música que até pensava que era do Nelson Freitas, mas que depois percebi que é de um grupo dele.
Esse é um detalhe sublinhado em várias entrevistas, mas é uma coisa relativamente normal, ou não? Talvez mais lá fora.
Para ser cem por cento sincero, eu acho que Portugal está a aprender um pouco. Obviamente temos artistas incríveis e pessoas excecionais haverá sempre. Mas a realidade é que nem todas as pessoas que cantam e escrevem música são excecionais e começamos a ter por cá outras profissões, porque nem todas as pessoas querem ser o artista. Algumas pessoas podem ser quem escreve as letras para o artista, o produtor ou o técnico. Sinto que é um universo que está agora a começar a ganhar forma em Portugal.
Quando vou para Londres ou para São Paulo, muitas vezes, no estúdio estão pessoas que participam na sessão só para escrever o que outra pessoa vai cantar. Saber escolher a palavra certa e dar valor a quem o faz é o caminho. Um caminho que estamos a percorrer.
Quer dizer que as salas começam a ficar pequenas para a profissionalização do meio em Portugal?
Que é o meu caso, eu tenho um estúdio pequeno. Às vezes tenho aqui quatro ou cinco pessoas na sala e meio que morremos todos de calor.
Os títulos dos teus discos são todos curtos e de uma só palavra. Há alguma razão para isso?
Vou ser sincero, foi uma coisa em que reparei a meio do processo, não foi uma coisa planeada. Eu acho que tem muito a ver com a capacidade de síntese na comunicação. Como é que uma palavra-chave consegue dizer uma série de coisas ao mesmo tempo, principalmente quando alinhada com o percurso de um artista... O nome do disco é Atlas? Ok, dá para perceber mais ou menos a razão. O nome do disco é Nosso? Também dá para perceber. Estas palavras-chave associadas àquilo que eu sou, digo, faço e toco — não canto, mas outras pessoas cantam por mim —, são de fácil associação.
A celebrar 20 anos de carreira, dás alguma importância à data ou é só mesmo um número?
Não dou grande importância à data, mas gosto de olhar para trás e de perceber que há um trajeto. Os 20 anos entram na minha cabeça quando começo a pensar no concerto do Coliseu de Lisboa [a 28 novembro, bilhetes à venda na Bilheteira FNAC]. Já estou a pensar no alinhamento e sei que vou incluir música de 2004 até 2024. Quando toda essa viagem consegue caber num concerto significa que não há coisas ao lado. Não encontro melhor termo, mas sinto que não descarrilei muito daquilo que era a minha ideia. Apesar de usar linguagens diferentes e de estar em projetos diferentes.
Consegues identificar o momento em que pensaste: “é isto mesmo, consegui”? Foi quando a M.I.A vos juntou aos amigos chegados no MySpace, ou quando foste o primeiro DJ nacional a garantir uma residência na BBC Radio 1?
É inegável, o momento acaba por ser quando consegui uma certa autonomia financeira: "espera, já consigo viver disto". Felizmente tive a sorte de isso ter acontecido praticamente no início dos Buraka Som Sistema, em 2007 ou 2008. De repente senti-me um profissional, deixou de ser uma coisa que fazia como um hobby. Obviamente que os outros momentos também foram marcantes.
A nível de concertos, foi uma ida ao Japão com Buraka. Quando era mais novo, o Japão era algo distante, onde nunca iria. Sabes quando queres dizer uma coisa exagerada e usas um termo para isso? Para mim era 'tipo ir ao Japão'. A primeira vez que fomos lá tocar, senti que tinha chegado ao meu infinito, que me tinha superado.
Reza a história que 1-UIK Project nasceu num agosto aborrecido, em 2004, em que tu e o Kalaf Epalanga disseram: “Bora fechar-nos e escrever letras e músicas e fazer um disco”. Vinte anos depois, qual é o sentimento?
Fico feliz de termos tomado essa decisão, porque é muito fácil uma pessoa ficar num impasse e não fazer nada. Esse agosto acabou por nos dar uma lição para a vida, percebemos que o importante era parar, pensar e rodearmo-nos das pessoas certas. Daí para a frente sinto que repeti esse exercício de agosto em várias circunstâncias da minha vida e em vários projetos. Basicamente a vida continua a ser uma repetição desse momento, quando sentes que já tens informação suficiente, paramos e concretizamos.
Disseste numa entrevista que tudo começou porque: “Tivemos essa perspetiva de estarmos extremamente aborrecidos na cidade e tivemos de nos entreter e fazer alguma coisa, porque Lisboa era um bocado seca”. Que Lisboa é esta de agora?
O Kalaf dizia que não se passava nada em Lisboa, mas isso também era uma provocação. Passava-se muita coisa em Lisboa e havia todo um universo paralelo de que nem tínhamos muita noção. Felizmente, 20 anos depois, a coisa cresceu e realizou-se. Não totalmente; há muito caminho para andar nesta ideia de música de Lisboa, nesta ideia de som de Lisboa, nesta identidade musical que não é só fado, é de todas as pessoas que aqui se juntam, vindas dos vários países de expressão portuguesa.
Tenho pena que a cidade já não esteja tão fácil para que esses encontros consigam acontecer de forma mais orgânica, mais casual, porque obviamente se tornou numa cidade difícil de viver, e se calhar uma cidade não tão interessante para se viver como na altura. Estou à espera para saber qual é que é o próximo passo. Sei que não vou ser eu a dá-lo; terá de ser alguém que tenha a mesma idade que nós tínhamos nesse verão de 2004.
Em novembro há festão no Coliseu de Lisboa, naquela que será a tua estreia em nome próprio nessa sala. Qual é o sentimento, a três meses de distância?
O Coliseu é sempre o Coliseu. Já vi tantos concertos incríveis lá, e isso acaba por ser um problema. Tenho a fasquia bem alta, o que acaba por ser uma luta interior que tenho de travar. Mas é como disseste, vai ser uma festa, uma celebração. Quero chamar todas as pessoas que me acompanham. Seja desde 1-UIK Project, dos tempos de Buraka, do Tudo Certo ou só de agora com o SOMA. Por isso, quero reunir todas essas pessoas numa sala e oferecer-lhes boa música, convidados, coisas antigas rearranjadas. Não são os 20 anos de carreira o mais importante; o mais importante é reunir amigos e quem me acompanhou nestes anos. O que, obviamente, é muito emocionante.
O que estás a ouvir neste momento?
Deixa-me ir ao telemóvel para ser completamente real. Olha, talvez o Baco Exu do Blues, um rapper de Salvador da Bahia. Tem um tema incrível, chama-se Sodade. Há umas semanas cruzei-me com ele na rua, em Lisboa, e tive vergonha de lhe dizer alguma coisa.
Por Rita Sousa Vieira