Escolhe a tua loja FNAC

Todas as lojas

FNAC Alameda
FNAC Alfragide
FNAC AlgarveShopping
FNAC Almada
FNAC Amoreiras
FNAC Av Roma
FNAC Aveiro
FNAC Braga
FNAC CAMPO PEQUENO
FNAC Cascais
FNAC Castelo Branco
FNAC Chiado
FNAC Coimbra
FNAC Colombo
FNAC Évora
FNAC Faro
FNAC Gaia
FNAC Guimarães
FNAC IST
FNAC Leiria
FNAC Loulé
FNAC Madeira
FNAC Mar Shopping
FNAC Montijo
FNAC NorteShopping
FNAC NOVA SBE
FNAC Oeiras
FNAC Penafiel
FNAC Setúbal
FNAC Sintra
FNAC Torres Novas
FNAC UBBO
FNAC Vasco da Gama
FNAC Viana do Castelo
FNAC Vila Real
FNAC Viseu
ANDRÉ HENRIQUES EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A ANDRÉ HENRIQUES ENTREVISTA A ANDRÉ HENRIQUES


"Tenho duas ou três canções influenciadas pela Bíblia de Frederico Lourenço"



A palavra leveza é recorrente nesta conversa com André Henriques, guitarrista dos Linda Martini, que editou recentemente o seu segundo álbum a solo - com esse mesmo títuloDe uma fotografia tirada pelo pai, que resultou na capa do disco, à trilogia de vídeos da responsabilidade de Paulo Segadães, por quem sentia uma admiração comparável a ver os Nirvana na MTV: as histórias, o processo e as influências deste novo trabalho são contadas nesta entrevista com a FNAC.



 



Gostava de começar pela capa deste disco, qual a história por trás dela?

 

Na verdade, é uma fotografia com que convivo há muitos, muitos anos. Não tenho memória do acontecimento em si que ela retrata. O meu pai era fotógrafo, não profissional, mas tem um espólio bastante considerável de slides, ainda à antiga. E tenho uma memória muito presente daquelas tardes em família, em que se apagava a luz da sala e se ligava o projetor. Ele tem um set de fotografias, de onde tirámos a da capa, que retrata um acontecimento meio trágico, o contrário até do que o nome do disco indica. É uma história muito conhecida, talvez mais para pessoas da minha geração ou para pessoas mais velhas. Um navio de carga, acho que inglês, chamado Tollan, chocou contra outro navio e naufragou [em frente ao Terreiro do Paço, em Lisboa, em fevereiro de 1980]. Por questões relacionadas com as correntes e com as marés, não o conseguiram retirar imediatamente. Acabou por ficar ali durante três anos, um mamarracho de metal que acabou por se tornar paisagem da cidade de Lisboa. Eu tinha essas fotografias, como disse, presentes na minha memória e já há alguns anos que andava a namorar a ideia de que um dia as iria utilizar para alguma coisa. Até porque tenho esta memória afetiva, é uma fotografia que o meu pai tirou. Porque não a utilizar num disco a solo?

 

O nome do disco [Leveza] acho que saiu mais para o final, os nomes são coisas um bocadinho difíceis de deitar cá para fora. A última música do disco chama-se precisamente Leveza e fala de um sentimento que atravessa o disco todo, esta minha procura de fugir da confusão, da cidade, de encontrar um outro espaço, um outro vagar, não só a título pessoal e de bem-estar da minha família, mas também na forma de fazer canções e de me dedicar à música. Quando embati de novo com aquela imagem, achei que o contraste era lindíssimo. A pessoa que vemos ali, na imagem, é um mergulhador da Marinha Portuguesa que estava à procura de sobreviventes. Não sei precisar, mas aquilo devia ter acontecido há muito pouco tempo quando o meu pai o fotografou. A história da capa é essa. Nesta vida a solo dá-me gozo puxar por coisas que me são mais próximas afetivamente.

 

Leveza também por não haver o peso da responsabilidade da estreia a solo?

 

Há sempre essa ideia, que o segundo disco tem um peso diferente. Acho que tem, na verdade. Não é uma coisa que se diz assim levianamente. Primeiro, porque no primeiro disco tens a vida toda para o fazer e ninguém está à espera de nada.

 

Não sei se no teu caso isso seja inteiramente verdade. Tendo uma bagagem de quase duas décadas de uma banda de culto, não sei se, quando anunciaste esta empreitada a solo, tal não gerou uma grande expectativa. 

 

Quando a notícia está cá fora, claro que sim. Acho que senti isso num primeiro momento, mais neste contexto: o que é que eu posso fazer diferente. A voz era reconhecível. Enfim, posso mascará-la com efeitos, mas sou eu também que canto nos Linda Martini. Há obviamente alguns vícios de composição, as métricas, as melodias, os próprios temas, ainda que traga também assuntos que não falo na banda. Sim, se calhar esse tal peso do segundo disco também o senti um bocadinho no primeiro, mas foi uma coisa que eu lidei comigo. Até a notícia estar cá fora, ninguém sabia que ia lançar um disco a solo. No segundo, sim. Já abriste uma gaveta e as pessoas já sabem mais ou menos o que esperar, ou pelo menos acham que já sabem o que é um disco meu a solo.

 

Ainda por cima, tenho sempre esta coisa de tentar não me repetir, de tentar fazer coisas diferentes, de me rodear de outros músicos, ter outros timbres e outras cores no disco. A composição e a gravação também coincidiram com uma mudança: mudei de casa, saí da cidade, e mudei-me para o campo. O disco foi feito nos pingos desta chuva grossa. Tinha de me readaptar, tinha uma casa em obras, tinha muita poeira a levantar e as dores todas que uma mudança, ainda que desejada, implica. Portanto, o disco teve também esse peso todo, de tentar redescobrir-me; o meu ambiente, olhando à janela, é outro. Tirando a família mais próxima, toda a gente está na cidade. Os meus dias eram um bocado mais solitários, e acho que, de alguma forma, isso até beneficiou a composição. A escrita, sobretudo a solo, é um processo muito isolado, e até me fez bem estar dias inteiros no campo enquanto os miúdos estavam na escola. 

 

Cajarana existe porque largaste um contrato de trabalho e um horário fixo por amor à música; Leveza existe porque trocaste a cidade pelo campo. Há aqui um padrão?

 

O padrão da fuga, é verdade. O Cajarana era claramente um disco de muitas fugas. Quando compus esse disco, já tinha saído desse trabalho mais corporativo, digamos assim, mas ainda era uma memória muito presente e muito marcada, porque passei alguns 15 anos da minha vida num trabalho das 09h00 às 18h00 que não tinha nada a ver com a música. Obviamente que isso te marca, que influencia e inspira a escrita. Até em Linda Martini há muitas coisas que vêm daí. Portanto, era muito natural que esse disco fosse muito marcado por aí. Neste [novo] disco há o depois de fugir. Ainda falo da cidade... Houve uma altura, depois de fazer uma das primeiras canções, que até disse que não queria falar mais da cidade, que ficava lá atrás. Mas este é um disco que ainda tem um olhar sobre a cidade, só que esse é o olhar de alguém que já está a tentar vê-la de fora e a perceber, neste movimento de saída, o que ficou e o que posso trazer, deste meu novo ambiente, para as canções.

 

Musicalmente, qual é a principal diferença entre o Cajarana e o Leveza?

 

Diria que há muitas diferenças. Falávamos, há pouco, da tal pressão por ter uma banda há 20 anos. Devo confessar que eu não tinha guitarras acústicas em casa, só tocava com guitarras elétricas, porque Linda Martini é uma banda elétrica na sua essência. Quando comecei a compor as canções, arranjei uma guitarra acústica só para tentar mudar o timbre, a paleta de cores. Para que não fosse automaticamente associado à minha banda. O Cajarana era um disco onde essa preocupação, o tentar perceber quem eu era sem eles, estava muito vincada. Este é um disco onde me dei muito mais liberdade para esquecer essas preocupações todas e para ser quem eu queria ser. Também por essa paisagem ter mudado, senti que era o momento de trazer uma componente mais orgânica. O disco foi todo gravado com uma guitarra clássica de nylon, sem efeitos. O Cajarana, ainda que tivesse muitas guitarras acústicas, muitas vezes elas estavam muito processadas e ainda havia assim um lado meio elétrico, que ao vivo ainda era mais visível.

 

Leveza é muito mais orgânico na sua instrumentação. Temos sopros, que é uma coisa que sempre adorei, mas que, por alguma razão, foi sempre difícil trazer alguém em que confiasse e que conseguisse partilhar a escrita dos arranjos. Desta vez consegui-o com o Adriano Dias Pereira. Tem também segundas vozes, da Anna Grabner, uma amiga que fez a gentileza de participar e de encontrar umas harmonias interessantes. Este também é um disco mais despido, queria a tal leveza, tem um lado mais orgânico, mais lento e com uma atmosfera mais etérea.

 

Ele passou mais ou menos pelo teu controlo, em relação ao Cajarana. Conseguiste abrir mão dele no processo de estúdio?

 

Os processos em si não foram assim muito diferentes. Mudaram as pessoas com quem trabalhei, só há um repetente, o Ricardo Dias Gomes, que também assegurou a coprodução do Cajarana comigo. E juntámos à equação o Domenico [Lancellotti], que morava na casa onde gravámos o disco.

 

Dois músicos brasileiros.

 

Com uma carreira que nem vale a pesa referir, [que colaboraram] com músicos gigantes no Brasil. Caetano, Gal Costa, etc. Pessoas que têm feito umas coisas interessantes.

 

...

 

[O processo] é muito orgânico. Quando chego ao estúdio, as canções já estão todas feitas. A estrutura e a melodia, voz e guitarra, está tudo. No fundo, foi parecido. Acho que a grande diferença do meu percurso a solo para o contexto da banda é a presença do texto. As letras aparecem sempre à cabeça, antes de sequer pensar no arranjo. Enquanto em Linda Martini, a letra e a melodia aparecem mais no final. O que aconteceu aqui, e aconteceu no Cajarana, é quase estarmos a fazer uma banda sonora. É isso que parece, temos o mote, a melodia e a letra, depois é tentar perceber como é que os instrumentos vão suportar aquela ideia de canção. Agora, há liberdade, como também houve no outro, para as pessoas que chamei para o disco colocarem o seu cunho pessoal. Se não, nem sequer os chamava... Claro que há um trabalho de partilha de ideias. Há muitas canções que também têm um resultado com os inputs que vou recebendo. 

 

Sobre as letras. Onde é que te inspiras, quais são as tuas referências? São musicais, são literárias, de algum género em particular?

 

É muito difícil perceber de onde vem a imaginação. A maior parte das vezes o que acontece é estar com a guitarra no colo e passar dias e dias a peneirar. E, de repente, aparece uma coisa qualquer que te faz sentido: uma melodia, uma frase. Muitas vezes, a letra de uma canção surge quando estou a lavar loiça. Daí começo a puxar pelo novelo, para tentar perceber sobre o que é que essa ideia fala, porque é que aquela frase apareceu.

 

Há uma coisa que me inspirou muito e há umas quantas canções do disco onde isso é mais notório. Não sei por que razão, mas cruzei-me com uma entrevista ao professor Frederico Lourenço, que fez recentemente a tradução da Bíblia a partir do grego. Fiquei fascinado com aquilo, não sou católico nem tenho propriamente uma fé num Deus, pelo menos à imagem da Igreja Católica, mas achei muito interessante haver uma tradução, não teológica, mas quase que histórica, de todos os textos da Bíblia. Para curiosos, para crentes e para não crentes. Mandei-me para aquilo de cabeça, e ainda são uns livros jeitosos. Comprei a coleção na totalidade, mas ainda só li os quatro Evangelhos. Tenho duas ou três canções influenciadas por isso [pela tradução da Bíblia]. Estou a lembrar-me da Falava em línguas, que é uma expressão que está muito na Bíblia, por exemplo.

 

Depois andei a ler outras coisas. Há nomes que são incontornáveis, mas que, por uma razão ou outra, não tive o tempo para me debruçar sobre eles. Entrei pela primeira vez na Clarice Lispector, adorei ler o Laços de Família. Não sei se me inspirou, mas era com esse tipo de coisas que andava na cabeça. Como não há um conceito único nas letras, é muito difícil dizer qual a inspiração direta.

 





Nem estava a pensar em inspirações diretas com esta pergunta. Queria saber quais as tuas referências.

 

Tenho muitas. Na poesia, tenho várias, como o Herberto Hélder ou o Manuel António Pina. Já li tudo, mas volta e meia abro umas páginas e vou lá ver coisas que tenho sublinhado. Não devoro livros, nem de poesia nem romances. Já li mais, houve uma altura na minha vida, em que tinha de apanhar transportes públicos, que passava muito tempo de volta de livros.

 

Essa frase é muito repetida entre pessoas que, em algum momento, fizeram o uso frequente do comboio.

 

Era o meu caso.

 

Cajanara saiu durante a pandemia. De alguma forma, este disco é uma apresentação a novos ouvintes?

 

Quer-se sempre que sim, a cada disco que se lança; quando se faz música há sempre esse desejo. Senão, guardava-o em casa e mostrava-o à família. Este momento em que o disco está cá fora, nos ouvidos das pessoas, é um momento muito entusiasmante porque fico com curiosidade para perceber como é que toca nos outros. Agora, isso não se antecipa; não é possível saber se vai chegar a mais pessoas do que o anterior. É verdade que o timing do outro não podia ter sido melhor, ironicamente, claro. O disco saiu no dia 13 de março de 2020, o dia em que fomos todos para casa, para o primeiro confinamento. Claro que essas circunstâncias limitaram um pouco, a nível de imprensa ou da vida que o disco poderia ter ao vivo. Depois até o conseguimos rodar, de norte a sul do país, quando, finalmente, depois de todos os meses em casa, possibilitaram os concertos. Foi para mim, mas para toda a gente que lançou discos nesse período. Aliás, tenho muitos amigos próximos que adiaram os discos, que estavam na calha, e só os lançaram um ano ou dois depois, quando as coisas já estavam mais calmas. Eu não tinha essa hipótese, porque o disco já estava nas lojas, já estava na FNAC, quando a bomba estoirou. 

 

Gostava que as pessoas dessem uma oportunidade a este, até porque, como já foi falado, é um disco que tem outras cores que o Cajarana não tinha. É um disco mais experimental, não no sentido da doideira, que também tem muitas lá pelo meio, mas no sentido em que nos permitimos brincar mais em estúdio.

 

Há uma publicação no Instagram que revela um pouco esse lado experimental.

 

E que é muito doida. Quando estou em estúdio mexo muito pouco no telemóvel e, se calhar, devia ter mais vídeos. Porque, quando chegas a estes momentos, é giro partilhar. Eu, enquanto ouvinte e espetador de música, também gosto quando os artistas dão um olhar sobre esses momentos mais privados, a que normalmente não se tem acesso. E eu tinha alguns vídeos com poucos segundos, que compilei nessa publicação. Neste disco, acho que me permiti mais à experimentação. Tive mais tempo de estúdio, o outro foi gravado numa semana. Estávamos numa casa, gravei várias coisas sentado no sofá. Foi um processo muito mais relaxado, que acho que se sente no disco. A tal leveza...

 

Por vídeos, onde é que nasce a ideia para a trilogia de videoclipes realizados pelo Paulo Segadães — Os fantasmas de amanhãAs janelas são de abrir e Espanto?

 

Foi uma ideia não planeada, as melhores. Ele soube que eu estava a gravar na casa do Domenico [Lancellotti] e mandou-me logo uma mensagem a dizer que me queria fotografar. São dele aquelas fotografias na cozinha, que muita gente me pergunta onde é que aquilo é. Uma cozinha que fica mesmo ao lado de onde estávamos a gravar, mas como é exterior e tem assim um ar meio exótico, com uma desarrumação bonita...

 

Depois das fotos, quando chegou a hora dos vídeos... Para mim isso é sempre um pouco uma tortura. Sei o que é que estava a pensar quando escrevi determinada letra, o que é que estava a pensar quando meti um sopro ou voz, e quando chega o momento de dividir os créditos com alguém, quando essa pessoa interpreta o que pensaste em imagens... A imagem é um meio muito forte, ficas agarrado àquela interpretação. No passado, já tive experiências boas e menos boas, mas é sempre difícil largar, confiar em alguém, ou identificar-me com o objeto visual que está ali. O Paulo é uma pessoa que conheço há muitos anos. Foi, aliás, uma pessoa que me inspirou musicalmente, porque tinha uma banda de punk, que para mim será sempre a melhor banda portuguesa de sempre, os X-Acto. Eu sou três anos mais novo do que ele, eles eram os meus irmãos mais velhos, cresci com eles, a ir à garagem ver os ensaios.

 

Em 2017 escreveste no Instagram que ele tinha sido o grande responsável por teres pegado numa guitarra.

 

Sim, um deles; ele mais os comparsas. A vida acabou por nos juntar outra vez, até recentemente ele tocava bateria com o Legendary Tigerman e fizemos uma tour muito grande em conjunto, que nos aproximou. O Paulo tem trabalhado mais em fotografia do que em vídeo, e sempre fui muito fã desse trabalho. Lembrámo-nos, para o primeiro single [Os fantasmas de amanhã], de fazer um vídeo num plano contínuo e em slow motion. Foi tudo muito orgânico, não era para ser uma trilogia, não estava nada pensado nesse sentido. Era para ser um vídeo e gostámos da ideia. Tal como o disco, traz uma ideia de leveza.


Nessa publicação de 2017 que já referi, a legenda é longa. A certa altura escreveste: "se alguma vez apanhar um Uber Delorean viajo ao saudoso ano de 1995 para dizer ao jovem Henriques que está tudo bem". Está tudo bem?

 

Nessa altura estava, e estava muito feliz. Isso foi no final da tal tour conjunta com o Legendary Tigerman, que terminou no Coliseu de Lisboa. Para um miúdo de 15 anos (em 1995 tinha essa idade), nem nos sonhos mais selvagens imaginaria algum dia tocar no Coliseu, ou noutros palcos onde já temos tocado. Esse post era mais um momento de felicidade. E, de facto, a minha amizade com o Sega [Segadães] acho que se consolidou muito aí. Agora não se nota a diferença de idades, mas quando éramos mais miúdos importava. Eu era muito fã daquela banda, seguia-os para todo o lado, era groupie, ia aos ensaios e aprendi a tocar quase a vê-los. Mas a idade naquela altura causava um certo distanciamento, para mim era quase como quando chegava a casa e ligava a MTV para ver os Metallica ou os Nirvana. Naquele meio do punk e do hardcore do final dos anos 90, eles arrastavam muita gente. Era uma coisa de nicho, quase marginal, mas mexia muita gente. 

 

Esse jovem André alguma vez pensou em participar no Festival da Canção?

 

Nunca na vida. Também foi daquelas coisas.... Chega-te esse envelope e o que é que fazes? A mudança de formato do Festival acabou por despertar o interesse dos músicos da minha geração, algo que já não via há anos. De repente ligas a televisão e vês pessoas com quem te cruzas durante o ano inteiro em concertos. Acho que tive amigos em todas as últimas edições, alguns mais próximos, outros não, mas são pessoas da minha geração, que estão hoje a fazer música. Isso é muito interessante e muito saudável. Depois, também abriu aquele espaço para: o que é que é uma música festivaleira? A canção do Salvador Sobral ninguém diria que ia ter aquele sucesso e vencer a final. A partir do momento em que essas portas já estão todas abertas, quando convidam e é para fazer uma canção que eu queira, não é uma canção de tirar o pé do chão ou segundo determinados padrões, acho que só o poderia aceitar. E foi uma experiência muito interessante.





 

Falavas de te cruzares com pessoas da tua geração no Festival, mas tu chamaste alguém de outra.

 

Nesta edição, até era dos poucos em que o autor não era o intérprete. A canção —Funâmbula — já estava escrita antes do convite. Ela tinha outro destino, tinha escrito para outra pessoa que acabou por não a gravar. E era uma canção na perspetiva de uma mulher e, se se atentar à letra, percebe-se que não é sobre uma miúda de 20 anos. Fala de uma história de desamor, de uma relação longa, e percebi logo que não podia ser uma jovem a cantar aquelas palavras. Depois de muitas noites mal dormidas a pensar quem é que podia cantar aquela música, lembrei-me da Lara Li. Aí aconteceu-me o que aconteceu com toda a gente: o que é que é feito da Lara Li? Fui ao YouTube, percebi que ela tinha estado recentemente num programa com o Herman José, continuava com uma voz e com uma figura lindíssima. Não a conhecia, arranjei o número e liguei-lhe. Ela aceitou e fomos juntos naquela aventura. Fazia tudo outra vez.

 

Antes já tinhas escrito para a Cristina Branco e para a Ana Moura, vozes femininas.

 

Também já escrevi para homens. Há uns tempos houve aí uma campanha para um canal de televisão e pediram-me uma letra para ser interpretada por quatro artistas diferentes. Os D'Alva eram um dos convidados e acabaram por gravar essa canção, que faz agora parte de um dos discos deles. Portanto, já escrevi sem ser na perspetiva feminina.

 

Há pelo menos dois discos que o provam.

 

Referia-me a quando escrevo para outras pessoas que não eu. Mas, na verdade, é uma coisa que me dá algum gozo fazer. Quando estou a escrever para mim, seja no contexto da banda ou dos discos a solo, sai-me muito mais natural e instintivamente coisas do meu presente, pelas quais estou a passar. Coincidentemente, foram mulheres que primeiro me pediram canções. Não quer dizer que se, de hoje para amanhã, me pedirem não possa escrever na perspetiva de um homem para uma mulher cantar. Gosto desses cruzamentos, o género aqui não deve limitar em nada.

 

Como foi a experiência de submeteres um tema teu à avaliação do júri e do público?

 

Essa é a parte estranha do negócio.


Nunca tinha acontecido antes?

 

Não, nunca tinha participado em concursos. Por uma razão ou outra, ao contrário de outros músicos que conheço, que participaram em miúdos, ou coisas assim, nunca tive alguém a avaliar, a dar uma pontuação ou a dizer se a minha canção era melhor ou pior do que a do lado. Essa é a parte mais difícil pelas razões óbvias, não é uma corrida de atletismo, não é para ver quem chega primeiro à meta; é uma canção e as canções são profundamente subjetivas. Posso adorar uma canção e tu odiares, ou odiá-la num momento da minha vida, mas daqui a dez anos redescubro-a e acho que é a melhor canção alguma vez feita. Amigos que já tinham participado — o Hélio dos Linda Martini, por exemplo, tinha participado no ano anterior ao meu — avisaram-me para não ir ao YouTube ou abrir as caixas de comentários. Mas levei tudo com uma certa leveza, o meu trabalho estava feito, pediram-me uma canção, fiz uma canção de que gosto muito e que, daqui a 20 anos, independentemente do resultado que ela teve no certame, vou continuar a gostar. Só a Lara Li ter ido ao Festival — a primeira vez que ela foi eu devia ter uns 4 anos — com uma canção minha pagou a experiência, independentemente da opinião ou do resultado.

 

Já a cantaste?

 

Já a cantei muitas vezes em casa, mas nunca a cantei em público. Durante o festival acho que fiz um vídeo ou uma story para as redes onde cantei. Houve algumas pessoas que disseram que queriam ouvir o resto, mas ainda não arrisquei cantá-la ao vivo. Talvez um dia, não sei. Ela fica um bocadinho diferente porque os timbres são outros. Quando gravei com a Lara tivemos de meter a canção numa outra afinação porque a voz dela é muito mais aguda do que a minha, por isso ela fica um pouco mais soturna na minha voz, mais grave. É curioso que quando eu a toco lá em casa, dizem-me a minha mulher e os meus filhos, não se nota uma grande diferença para aquilo que são as minhas outras canções. Claro que o arranjo, ela estava ornamentada de uma forma diferente, mas a voz da Lara acaba por abrir uma certa luz que na versão original não teria. Isso também é o prazer de trabalhar com outros intérpretes, que trazem coisas diferentes às canções.

 

E quando é que vamos poder ouvir este Leveza?

 

Dia 15 de novembro no Teatro Maria Matos, em Lisboa, e a 17 no Plano B, no Porto. Haverá mais datas, que vão ser anunciadas a seu tempo.

 

O que é que estás a ouvir?

 

Ui, muita coisa. Vinha para cá [Edifício sede da FNAC] a ouvir uma coisa muito estranha, experimental, mas muito interessante: Xylouris White. O casamento entre o grego George Xylouris e o baterista australiano Jim White, que já tocou com o Bill Callahan e muitas outras pessoas. Tenho ouvido também o último dele, do Bill CallahanYtilaere tive oportunidade de o ouvir quando ele passou muito recentemente pelo Theatro Circo em Braga. O último da FeistMultitudes, também tem rodado muito lá por casa. O Party, da Aldous Harding, não é recente, mas andava a ouvi-lo muito quando compus o Leveza. É de partir o coração, mas sublime nas melodias e nos arranjos. Ouvi umas vezes em formato digital, mas acabei por mandar vir o vinil; é incrível, não me canso de ouvir todos os recantos do disco.

 

Por Rita Sousa Vieira

Produtos associados

ENTREVISTA A ANDRÉ HENRIQUES ENTREVISTA A ANDRÉ HENRIQUES
André Henriques- Leveza- LP
André Henriques- Cajarana- CD
Cajarana - LP - André Henriques
ENTREVISTA A ANDRÉ HENRIQUES
cultura.fnac.pt desenvolvido por Bondhabits. Agência de marketing digital e desenvolvimento de websites e desenvolvimento de apps mobile