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ANA BÁRBARA PEDROSA EM ENTREVISTA
ENTREVISTA A ANA BÁRBARA PEDROSAENTREVISTA A ANA BÁRBARA PEDROSA


“O Instagram é grátis, um crítico literário não é”



Viagens com o Mehdi, o novo livro da escritora Ana Bárbara Pedrosa, é um “olhar lento” por um conjunto de viagens guiadas por uma bússola que aponta sempre para a amizade, ou para um próximo destino. A obra foi o ponto de partida desta conversa, com várias paragens para observar o que nos rodeia, da crítica literária à leitura em português.



 



O que separa Viagens com o Mehdi do texto publicado na revista LER, em 2020, com o mesmo título?

 

Esse texto publicado na revista Ler é um resumo muito resumido do livro. No fundo, esse texto destaca só os pontos altos das viagens; o livro é um olhar muito mais lento. Enquanto no artigo o leitor lia sobre a viagem, no livro tento que ele faça parte dela. Dá-me tempo, não só para falar da minha relação com o Mehdi, mas também sobre sítios e sobre o papel que a literatura tinha nas viagens.

 

O livro já estava escrito quando o artigo saiu?

 

Não, não, comecei a escrevê-lo no ano passado. O livro surgiu de uma conversa na editora. Eu tinha acabado de fazer uma viagem com a minha mãe a Marrocos, que correu pessimamente, e o Francisco José Viegas disse: 'olha, podias fazer um artigo chamado Viagens com a minha Mãe'. Fui para casa com aquilo na cabeça, só que eu não fiz muitas viagens com a minha mãe, portanto não tinha assim muito material. Então, cheguei a casa, sentei-me e escrevi o artigo Viagens com o Mehdi. Escrevi aquelas 12 páginas de rajada.

 

Porquê estas viagens? Nesse texto na LER há relato de outras, como as pela Europa de Leste.

 

No livro listo essas viagens, só não me foco nelas. Há viagens sobre as quais não tinha nada a dizer. É um livro publicado em Portugal, sobre uma portuguesa e um dinamarquês com ascendência marroquina e francesa. O que é que eu vou dizer sobre uma viagem a Paris? Que a Torre Eiffel é muito bonita? Não tem interesse. Tentei escolher sítios que fossem impactantes, fosse pela diversidade da paisagem, como a Islândia, fosse pelas questões sociais, como a Bolívia ou o Brasil.

 

O Mehdi existe?

 

Já me perguntaram isso. Não sei, se calhar deixo isso para o leitor responder.

 

E existe como Mehdi ou é ficcionado pelo significado do nome? “Guiado para o caminho certo”, numa tradução livre.

 

Não fazia a mínima ideia disso mas o Mehdi, se existir, gostou dessa descrição.

 

Este livro não é um guia turístico.

 

Não, porque tem muitas impressões de viagem, e as impressões de viagem às vezes são péssimas. Por exemplo, o capítulo da Bolívia é um capítulo quase sufocante, mas sufocante porque realmente era muito difícil de respirar. Eu tinha lido, altitude, e tal, que é difícil de respirar, e não levei aquilo a sério. Pensei, estou a respirar há 20 e tal anos, não vou ter qualquer desculpa. Mas realmente é terrível. Ou seja, se fosse um guia turístico, eu apontava só as coisas bonitas ou os melhores lugares, ou o que seja, que eu também não os conheço. Porque, principalmente em viagens longas, há alturas de um cansaço tal em que já nem para a beleza se tem paciência. Eu sinto muito isso com arte; se estiver cinco dias a ver museus, passa um bocado, mais Picasso, menos Picasso, é absolutamente indiferente. Em Lima, houve uma altura em que nós ficámos dois dias sem sair do quarto a comer iogurtes, porque não nos podíamos mexer.

 

Qual é a tua viagem ideal?

 

Para mim, a viagem ideal é a tal montanha gelada, é solidão, frio absoluto, 20 graus negativos. Para a maior parte das pessoas é uma caipirinha à beira-mar.

 

E que tipo de viajante és tu?

 

Calado. A viagem ideal é aquela onde muito raramente abro a boca. Não faço aquela coisa de estar a meter conversa para saber a vida das pessoas. Gosto de estar de fones, de levar livros e de sentir que a viagem é uma redoma. Que estou num sítio muito longe, a viver na minha cabeça. O que não significa que não haja uma relação com os sítios. Mas passa também muito pela literatura. Ler coisas de lá, ou ler coisas de outros sítios, mas sentir que não há distrações ou imposições quotidianas.

 

Portanto, viajar em grupo está completamente de lado.

 

O máximo foram três pessoas, e correu bem. Também gosto muito de viajar sozinha.

 

O melhor companheiro de viagem é um livro ou um amigo?

 

Um livro, porque o amigo pode dar problemas. Ou seja, pode haver relações de amizade muito fortes que não funcionam no ritmo de viagem. Seja porque as pessoas não querem fazer as mesmas coisas e uma pode sentir a obrigação de se adaptar ao plano do outro; seja porque muito tempo com alguém também pode ser sufocante. Nas viagens deste livro a coisa funciona porque são duas pessoas que percebem o valor do silêncio. E ninguém se chateia quando um diz que precisa de estar sozinho dois ou três dias, e isso aconteceu. Não houve necessariamente uma conversa, mas houve uma altura em que, 'ok, hoje não vamos jantar, amanhã não vamos almoçar e não vamos juntos à praia'. Dois dias depois, 'ok, vamos jantar?' e ficou tudo normal. Porque a presença constante acho que estraga muitas amizades.

 

Já eras leitora de livros de viagem?

 

Não, nem sou muito leitora de livros de viagem. Li algumas coisas. Na adolescência li aqueles livros, que nem sei se contam, porque são mais romance. Júlio Verne, por exemplo.

 

O que é que a palavra viagem te sugere?

 

Sair, mexer e estar quieta no sítio para onde me fui mexer.

 

Neste livro há uma crítica social e política aos locais visitados. Em Washington Heights (Nova Iorque, EUA), ao sonho americano que se transforma em pesadelo, em São Paulo (Brasil), à prostituição e à mercantilização do corpo da mulher, e em Telavive (Israel), à liberdade, ou falta dela, do povo palestiniano. Querias passar esse olhar ao leitor?

 

Eu ia sem grandes planos, porque depende muito dos destinos. Nesses sítios que mencionaste era impossível não pensar nisso. Em São Paulo, onde morei, a prostituição é uma realidade que não dá para ignorar, principalmente quando nunca se viu como ali. Tinha dezenas de pessoas que se prostituíam na minha rua. Claro que passadas umas semanas aquilo se banaliza, mas mesmo banalizando-se, acho que seria muito difícil não trazer isso para o texto.

 

No caso de Israel e da Palestina, é impossível ir a qualquer lugar sem se ser político. Qualquer escolha quotidiana é uma escolha política. As pessoas entram em Israel e automaticamente percebem um clima político, até pela maneira como perguntam, de forma diferente, a cada pessoa, o que foi lá fazer. Há uma violência evidente; o convívio com as armas é diário, é uma coisa que serve para impor a militarização, e a militarização é uma forma de violência. Saindo de Telavive para Jerusalém, ou para onde quer que seja, todas as decisões são políticas. Em primeiro lugar, se queremos estar a alimentar o turismo israelita, sendo que o turismo israelita alimenta o crime contra o povo palestiniano. Ao contrário do que dizia antes, na Palestina não existe um viajante calado. Não é o mesmo que uma montanha gelada, ali não dá para ser acrítico, não dá para ser apolítico e, sobretudo, não dá para ter a ideia relaxante, egoísta, ou o que seja, de estar a curtir o sítio, sem pôr a mão nele. É impossível não tomar um lado, porque a ideia de ser apolítico naquela zona é ser pró-israelita.

 

Fostes tirando notas durante as viagens?

 

Não.

 

Foi tudo de memória?

 

Sim, de uma recriação da memória.

 

Há alguns elementos ficcionados?

 

Se os tiver, não posso dizê-lo. Por exemplo, nas partes que são mais históricas, tive de estudar, lembrar algumas coisas, procurar percursos. Mas, em geral, é memória / impressão de memória.

 

Que livros leste nestas viagens?

 

Digo sempre o mesmo, por ser algo bizarro: o Junky, do William S. Burroughs. Li-o a primeira vez na Amazónia, o que é uma sensação de dissociação espetacular, porque nós estávamos no meio do mato, uma coisa completamente isolada, com crocodilos à volta, golfinhos cor-de-rosa, e eu estava com a cabeça metida em droga nos Estados Unidos. E quando se tem uma experiência de leitura muito imersiva, sente-se, acho eu, com mais impacto, a saída dessa experiência de leitura, para o que está lá fora. Portanto, eu sentia que estava a viver duas realidades ao mesmo tempo.

 

Compraste o livro no Brasil?

 

De certeza, porque o li em papel. Nessa viagem, logo na primeira cidade, cometi o erro de comprar dezoito livros.

 

Recordas-te de algum?

 

Não me lembro de títulos. Lembro-me que comprei uma ficção escrita por fãs do Harry Potter, péssima, mas divertida. Muitas vezes já levo os livros de Portugal, porque gosto de ler em português.

 

A venda de livros em língua inglesa está a aumentar em Portugal. O que é que se perde na tradução?

 

Para mim, não se perde nada. Eu perco é se ler em inglês. Eu sou escritora, não sou só uma leitora. Na minha opinião, para um escritor lusófono, ler em inglês é o equivalente a um atleta beber uma Coca-Cola. Acaba por prejudicar alguma coisa. Ou seja, um autor português que esteja permanentemente a ler em inglês vai trazer para o seu texto em português, que tem a sua dinâmica própria, o seu ritmo, tem a sua prosódia, um ritmo de outra língua, uma forma de falar diferente.

 

Não é que eu não fale inglês: eu falo inglês, traduzi do inglês, trabalhei como linguista em inglês. Ler em inglês acaba sempre por poluir o meu português, por diminuir a minha capacidade de expressão. E sempre que eu leio um livro em português, eu estou a aumentar a minha capacidade de expressão, a minha capacidade de dizer. Falo do português europeu, mas também de outras variações de português. Ler em português do Brasil ou de Moçambique também enriquece muito. Temos uma língua tão rica que, enquanto autora, não vejo a necessidade de usar outra fonte. Como autora portuguesa, acho que a língua portuguesa é um património que deve ser valorizado.

 

Com a chegada do inglês, a própria língua portuguesa está a ficar maculada de forma artificial, porque estão a entrar, não serão neologismos, mas estão a entrar expressões em inglês na língua portuguesa que não vêm acrescentar nada. Dizer vou ter um meeting, em vez de vou ter uma reunião, não acrescenta nada, porque nós temos uma palavra para reunião. Depois também há outras questões, como eu ter uma relação empática muito mais forte com a minha língua. Um I hate you é banal, um odeio-te já é muito pesado.

 

Escreveste no teu Instagram que "este é o meu último livro, primeiro de literatura de viagens". Podemos esperar mais?

 

Não sei, mas para já não há nada planeado. É factual, este é o primeiro. Pode ser o último.

 

Estarias aberta a escrever um de viagens por Portugal? Como o Afonso Reis Cabral fez com a N2 (Leva-me contigo), ou como o José Saramago o fez nos anos 80 (Viagem a Portugal).

 

Acho muito difícil, em parte porque eu tentei convencer o Afonso a não fazer essa viagem, mas ele ignorou-me. O que gosto na viagem, e trago para este livro, é a ideia de uma relação, com o Mehdi, que é uma redoma. De duas pessoas que falam línguas diferentes e que vão para um território onde se fala uma terceira língua na maior parte das vezes. Sem amigos ou referências comuns. Interessa-me na viagem essa ideia de ser outro e de estar em outro sítio. E em Portugal não consigo isso.

 

Não sentes que, nas próximas viagens que farão juntos, te vão cobrar histórias para um novo livro?

 

Não, não. Precisamente porque existe essa ideia de redoma, mas também porque estas viagens são de uma fase particular da vida. Que são os vintes, quando estudávamos, quando não havia créditos de casa para pagar ou filhos.

 

Além de cronista, fazes crítica literária. Como é que um crítico recebe a crítica?

 

Sou parte interessada, porque a crítica é uma relação especializada. Eu gosto muito da crítica que vai à mecânica, à estrutura dos livros, e é essa que tento fazer.

 

A crítica literária é um género em perigo de extinção em Portugal? O que é que podemos fazer para a proteger?

 

A crítica tem vindo a perder algum peso porque esse peso tem sido transferido para impressões de leituras online. O Instagram é grátis, um crítico literário não é grátis. Ter seguidores no Instagram é mais fácil do que ter gente a comprar um jornal para ler uma crítica. E, portanto, eu acho que neste momento temos novos agentes nesta relação dialógica, que não são os que fazem crítica, são os que partilham impressões de leitura. E isso são coisas muito diferentes. Porque uma impressão de leitura é uma coisa meramente subjetiva e uma crítica, por subjetividade que tenha, pode ser objetiva. Ou seja, eu posso fazer uma crítica elogiosa a um livro que detesto ler, porque há outras coisas que podem ser admiráveis. O que não quer dizer que a minha experiência de leitura seja agradável.

 

O que é que se pode fazer? Em primeiro lugar há que se conseguir, politicamente, distanciar as duas coisas. E dizer que uma crítica não é só uma impressão de leitura, não é um gostar, um “vocês vão adorar”. É alguém que perde muito tempo a estudar a mecânica de um livro, a estudar o ritmo de construção da personagem, a estudar a coerência linguística dessa personagem.

 

É fácil atribuir uma pontuação um livro?

 

São requisitos dos jornais, são eles que pedem aos críticos para fazer isso. Se eu mandasse, não havia avaliação quantitativa.

 

Na tua crítica literária, tentas evitar alguns lugares-comuns que não gostas que sejam colados à tua escrita?

 

Por exemplo?

 

O de "jovem escritora", a "promessa literária feminina", "voz feminina"...

 

Eu só falo do livro. Quanto muito tenho um parágrafo introdutório onde digo 'este livro foi escrito por pessoa tal, é a primeira ou a segunda vez que chega a Portugal, ganhou ou não ganhou não sei o quê, foi publicado ou não foi publicado nesses países'. Na minha crítica, olho simplesmente para o livro; acho que os autores interessam pouco.

 

Quando estás a escrever, pensas na forma como é que o livro vai ser recebido?

 

Quando eu estou a escrever, a única coisa em que penso é: 'como raio é que eu vou sair disto?' ou 'como é vou acabar este livro?'. Estou o tempo todo a tentar ganhar-me na batalha de acabar o livro. Claro que eu vou tendo, enquanto escrevo, a ideia de que o texto serve para manipular alguém. Para manipular a expectativa de quem lê o livro. Mas não fico propriamente a pensar numa reação posterior, até porque não há nada que eu possa fazer.

 

Venceste a bolsa de Intercâmbio literário Lisboa-Maputo. Não devias estar em Moçambique neste momento?

 

Vou daqui a umas semanas [a escritora chega a Moçambique no dia em que esta conversa é publicada].

 

O que estás a ler?

 

Estou a ler o Intermezzo, da Sally Rooney [a crítica que publicou no Observador pode ser lida aqui, acesso premium].

 

 Por Rita Sousa Vieira

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