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O QUE TENS DE SABER
Arturo Pérez-Reverte nasceu em Cartagena, Espanha, em 1951. Foi repórter de guerra durante vinte e um anos e é membro da Real Academia Espanhola. Com mais de vinte milhões de leitores em todo o mundo, viu vários dos seus romances serem adaptados ao cinema e à televisão. Em 2017, recebeu o Prix Littéraire Jacques Audiberti.
O Capitão Alatriste regressa 15 anos depois. Missão em Paris é a oitava aventura da série e encontra o espadachim em França, no século XVII, envolvido numa missão secreta que o coloca no centro de intrigas políticas e conspirações internacionais.
Nesta nova aventura, o capitão surge mais amargo, lúcido e desencantado, marcado pelo peso das escolhas e dos fantasmas do passado
Saldaste a tua dívida com Alexandre Dumas?
Dumas foi fundamental. Passei toda a minha vida a tentar cumprir os códigos que aprendi com ele: a amizade, a lealdade, a aventura... Marcou-me em criança, acompanhou-me em adulto. Dediquei-lhe O Clube de Dumas [publicado em 1993] e saldo as minhas dívidas para com ele com este livro.
Que dívida era essa?
Devo a Dumas duas coisas que marcaram a minha vida e obra, e ambas estão neste livro. Uma é a ideia da mulher perigosa: aquela Milady de Os Três Mosqueteiros acompanha-me desde sempre. A outra é a lealdade aos amigos.
As leituras que fazemos dão-nos uma visão do mundo, formatam-nos. Tudo o que fui lendo e vivendo depois foi-se construindo dentro desse território que Dumas traçou para mim.
E tens outras dívidas literárias pendentes?
Sim, mas continuo a resolvê-las. Sabes o que acontece? Os autores são como os limões: vais espremendo-os. Há uma altura em que lês Thomas Mann, A Montanha Mágica, três vezes, ou Balzac, ou Dostoiévski cinco vezes, ou Tolstói, e dizes: "Não, já me deu tudo o que me podia dar." Não é que os tenhas ultrapassado. É que já os espremeste.
Mas há autores que envelhecem contigo. Poucos. Joseph Conrad é um deles. Cada vez que o releio, encontro coisas que não tinha visto antes. Há livros que li cinco, seis, dez vezes, como O Resgate, Lord Jim, Juventude, e continuo a encontrar coisas novas. Há autores que continuam ali, enquanto outros vão ficando para trás.
O Capitão Alatriste regressa aos livros 14 anos depois de A Ponte dos Assassinos e quase 30 anos depois de O Capitão Alatriste, o primeiro volume da série. Os leitores pediam-te este regresso?
Havia como que uma seita do Alatriste que me insultava: “Filho da mãe, anda daí, eu não quero um romance, quero outro Alatriste.” Demorei catorze anos, mas, no fim, tanta foi a pressão que acabei por fazê-lo.
Deixa-me dizer que o Alatriste que regressa agora é um Alatriste um pouco diferente. Envelheci e há agora amarguras, lucidezes e ceticismos que estão presentes no romance e que não podia retirar. O Alatriste herda essa forma de olhar para o mundo, mais triste, mais amarga, com mais remorsos.
Estou numa idade em que já tenho mais passado do que futuro. Por isso, olho mais para trás do que para a frente, tanto nos romances como nos meus artigos. Estou como que a fazer uma espécie de revisão intelectual e moral da minha vida. E, de certa forma, o Alatriste também.
O que é que mudou, então, entre o primeiro livro da série e este novo romance?
No primeiro romance, a minha intenção era fazer com que os jovens espanhóis da idade da minha filha compreendessem melhor o Século de Ouro, um período fundamental, para o bem e para o mal, sem o qual não se explica a Espanha atual. O objetivo era didático. Alatriste nasceu com essa intenção. Agora, no oitavo romance, é diferente. É um livro mais triste, mais desencantado. Já não há lições para dar. É uma reflexão sobre a decadência e a passagem do tempo. Já não quero educar, quero fazer refletir, olhando para trás, sobre o ser humano e sobre a Espanha de então. Uma Espanha onde há dois grandes autores que se refletem muito no país: Cervantes, com a bondade, a honra, a decência, a honestidade, a fidalguia, o cavalheirismo, a valentia, aquilo que há de melhor no espanhol; e Quevedo, pelo contrário, cortesão, amargo, de grande talento, rancoroso, brilhante, venenoso, que apunhala. Essas duas figuras, Quevedo e Cervantes, pairam sobre Alatriste. Mas a Espanha de Alatriste já é menos de Cervantes e mais de Quevedo. É uma Espanha mais amarga, mais picaresca, mais perigosa.
E o que é que Paris acrescentava, enquanto palco, à história que querias contar?
Bom, a Paris dos Mosqueteiros era vital para mim. Em criança, imaginava aquela cidade e movia-me por ela. Esse Paris já não existe, porque a modernidade, sobretudo no século XIX, eliminou quase por completo a cidade antiga. Mas, para mim, continuava a existir.
Usei mapas antigos e livros antigos para a reconstruir: as ruas, as pontes, os lugares. Queria poder fazer aparecer as minhas personagens naquele espaço com toda a documentação necessária. Foi um enorme prazer voltar a mergulhar em tudo isso. Saber que, do lado direito da ponte, estava isto; que, se uma ponte estava ali, a outra tinha de estar mais adiante; que uma delas era de madeira...

A escrita de Alatriste também é uma forma de compreender o presente?
Há duas formas de contar a História através de um romance. Uma é contar como era nesse tempo: descrever os barcos, as pessoas, a roupa. Isso é uma espécie de arqueologia histórica. Mas há outra História que me interessa muito mais: a que nos permite compreender o presente.
Nos meus romances, a História é sempre uma chave, uma ferramenta para compreender o que está a acontecer. Acho que é a disciplina fundamental na educação de um ser humano. Com ela, podemos identificar, reconhecer, encontrar explicações e até fazer previsões. O que se passa em Ceuta? Porque é que há migração na Europa? Porque é que a Turquia é como é, a Alemanha? Está tudo na História. Por isso, quando retiramos a História das escolas, quando a reduzimos a uma espécie de papa de amor desnatada, estamos a privar os miúdos de uma ferramenta fundamental para compreenderem o mundo. E isso é muito perigoso. Quando não compreendes o mundo, qualquer pessoa pode manipular-te e enganar-te. Estamos a deixá-los indefesos. A falta de memória histórica torna-nos indefesos.
Eu próprio percebi isso muito cedo. A primeira vez que estive numa guerra foi no Chipre, em 1974. Eram os turcos a atacar os gregos. Ia pela rua... Uma mulher dizia qualquer coisa e, de repente, aquilo que eu tinha lido estava diante de mim. Era Heitor e Andrómaca, era Troia. As minhas leituras projetaram-se sobre aquilo que estava a ver e permitiram-me compreendê-lo, ultrapassá-lo, digeri-lo, sobreviver-lhe. É isso que a História e as leituras, quando se projetam sobre o presente, nos permitem fazer. Tornam-nos donos. A ausência delas torna-nos escravos.
Quando escreves sobre a História de Espanha, procuras mostrar o país em toda a sua complexidade, com as suas virtudes e os seus defeitos?
Há uma coisa que, em Espanha, me gerou muitos inimigos, embora também tenha muitos amigos: não sou equidistante, sou equânime. Tenho as minhas ideias, mas sento-me a falar com qualquer pessoa. Tenho amigos de todas as tendências políticas. E, quando escrevo, escrevo, mas não sou um fanático. Pelo contrário. Sou capaz de pensar que o adversário tem razão nisto ou naquilo. Isso hoje não é o normal. Estão a tentar convencer-nos de que tudo o que é nosso é bom e tudo o que é do outro é mau. Ninguém admite um erro do seu lado, nem reconhece uma virtude no adversário. E isso é muito perigoso, porque cria barreiras e impede-nos de olhar para o outro com alguma liberdade.
Quando era jovem, tinha muitas certezas. O mundo estava todo claríssimo. Agora, aos 75 anos, não tenho a certeza de quase nada. E isso é bom. A incerteza torna-te mais sábio porque te obriga a olhar. Quando tens a certeza, já não te incomoda: "Eu sei. Não me interessa. Já sei." Mas, quando não sabes, perguntas: "Não sei. Vamos ver." E então ouves, escutas, perguntas. Eu continuo a perguntar. Tenho 75 anos e continuo a perguntar, continuo a olhar e a ler. É como navegar: tens de estar sempre atento à nuvem, ao vento, a tudo o que acontece à tua volta.
Essa saudável incerteza, essa falta de certezas, é muito boa porque te mantém ligado ao mundo. Não permite que te desligues da realidade. Talvez seja também por isso que continuo a escrever as minhas colunas de imprensa e os meus romances, e que eles continuam a ter leitores. A falta de certezas obriga-me a estar continuamente atento ao mundo.
Leitores, a quem chamas de amigos.
Claro. Não é que um leitor seja um amigo no sentido literal: é alguém que partilha o seu tempo contigo, que gasta o seu dinheiro a comprar um livro teu ou um jornal. É alguém que te conhece, que te desculpa ou não te desculpa, que te ataca, que discute contigo. E alguém de quem também aprendes.
Para mim, um leitor sempre foi um amigo. Nunca vi o leitor como uma figura distante. Nas sessões de autógrafos, por exemplo, embora agora me cansem muito e faça poucas, passo três ou quatro horas de pé, a assinar livros. Assino de pé e nunca aceitei fazê-lo sentado. Não sou um funcionário. Abro-me, tiro fotografias, falo com as pessoas, ouço-as, contam-me coisas. Na internet, no Twitter, tento também responder quando posso. Quero manter essa ligação. Não me sinto fora do mundo, nem acima dele. Às vezes estou à margem, talvez porque a vida que levei não seja igual à de um advogado, de um engenheiro ou de um professor, mas mantenho essa ligação porque o leitor me interessa. Interessa-me aquilo que o leitor me diz. Fala-me da personagem, do romance, do artigo, e eu ouço. Porque sei que essa informação me é útil para aquilo que vou escrever a seguir.
Tenho de te perguntar: o que achas que incomoda na tua forma de escrever e na tua maneira de olhar para o mundo?
O que incomoda é que não me submeto ao politicamente correto. Sabes o que acontece? Se tivesse 20 anos, se fosse um escritor a começar agora, qualquer erro podia valer-me uma condenação pública e acabar comigo. Podiam cancelar-me. Os meus amigos, escritores jovens ou jornalistas, têm medo. Falo com eles, bebemos uns copos, vamos jantar, conversamos sobre estas coisas. Têm medo.
Às vezes basta um disparate. Dizes: "Este copo é azul." Alguém responde: "Para mim, é verde." E, de repente, tens a Internet inteira a chamar-te fascista. Eu não tenho esse medo. Escrevo há muitos anos, tenho uma certa idade, os meus leitores conhecem-me bem e publico em muitos países, não apenas em Espanha. Isso dá-me uma tranquilidade e uma liberdade que um escritor jovem ainda não tem.

Achas que a literatura espanhola está demasiado dependente de etiquetas ideológicas? E o que deveria importar mais na hora de avaliar um livro: aquilo que pensa o seu autor ou a forma como está escrito?
É uma pergunta muito complexa... Mas continua a existir grande literatura. Autores como Javier Cercas e tantos outros estão acima de tudo isto. Há uma literatura verdadeira, que está ali. E há outra mais oportunista, mais ligada ao presente.
Há autores e autoras que escrevem para agradar a determinado público. Não escrevem para contar o seu mundo, escrevem a pensar no que o leitor quer ler, procurando agradar-lhe e seguindo uma determinada fórmula. Há menos honestidade em muitos autores porque estão demasiado preocupados em agradar ao leitor. E isso é um erro. O leitor, no fim, é muito mais amplo do que isso. E sabe quando és honesto e quando não és. Não podes enganar o leitor. Podes fazê-lo com um romance, talvez com dois, até com três. Mas ao quinto já não o enganas. O leitor percebe. Por isso, acho que é um erro. O autor deve escrever e aceitar a possibilidade de fracassar. Se fracassares, paciência. Se triunfares, triunfaste.
O que não podes é passar um ano da tua vida a escrever um livro sempre a pensar no que vai dizer a tua vizinha, no que vão pensar as mulheres, os homens, os da direita, os da esquerda... Isso é um erro. E há muita gente a escrever assim. Felizmente, também há os outros.
Quero voltar a Alatriste. Sabemos, desde o início da série, como vai morrer. De que maneira saber o seu destino condiciona a forma como escreves as suas aventuras?
Nada. Todos morremos.
O mundo divide-se entre os que sabem que vão morrer e os que não sabem. Isso é muito importante. Quem sabe que vai morrer aceita de forma estoica os golpes da vida. Sabe que a vida tem momentos bons e maus e vive de uma maneira mais razoável, mais consciente. Há pessoas que não aceitam as regras da vida. A diferença está aí. Quem sabe quais são as regras vive de outra maneira. Desfruta. Tem de desfrutar, porque sabe que amanhã pode já não estar cá.
O problema é que os nossos avós e bisavós sabiam que o mundo era um lugar perigoso e difícil. Viviam de acordo com essa certeza. Nós, pelo contrário, negamos que o mundo seja perigoso e difícil. Educamos as crianças para um mundo que não existe, um mundo de desenhos animados.
Quando é que essa perceção mudou?
No final do século XX.
Os anos 90...
Essa coisa do bomismo, do 'somos todos bons'. Não somos todos bons. Há uns filhos da mãe.
O sucesso de Alatriste em Espanha é tal que há leitores que chegaram a tatuar a personagem. E em Portugal? Como descreverias a relação dos leitores portugueses com o Capitão?
Alatriste podia ser perfeitamente português. A história de Portugal é diferente, claro, mas há muitas coisas semelhantes. E a tragédia de Alatriste é também, em muitos aspetos, uma tragédia portuguesa.
Dou-te um exemplo: os Capitães de Abril. Lisboa devia estar cheia de placas, monumentos, referências a eles. E não está. Foram heróis. Arriscaram a vida para mudar, de uma forma racional e, além disso, nobre, um sistema corrupto e tirânico. Portugal deve-lhes muito. E eu nem sequer vejo muitas referências a eles. Há uma rua Salgueiro Maia em Lisboa? Onde estão os meus Capitães de Abril? Aqueles com que tanto sonhei e que tanto admirei. Esqueceram-nos? Portugal está cheio de Alatristes esquecidos.
Já há uma data para a edição portuguesa de Hipótesis más peligrosa, o teu mais recente livro?
Sai no próximo ano. Na primavera sai um outro livro que se chama Envío especial - Una biografía de guerra, um retrato dos meus anos como repórter de guerra.
E Alatriste? Depois deste regresso, podemos esperar mais um livro?
Acho que este é o último. Tenho 75 anos e já não sei quanto tempo me resta. Tenho vários romances na cabeça e quero escrever alguns. Outros vão morrer comigo...
O que estás a ler?
Estou a ler um calhamaço. Chama-se Codex Templi. Reúne tudo o que foi escrito sobre os templários. Talvez dê um romance no futuro, ainda não sei.
Por Rita Sousa Vieira
* Fotografias da Real Academia Española