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“Regredimos em vez de avançarmos. Não somos o século do conhecimento”
O QUE TENS DE SABER:
Um novo ciclo para Valter Hugo Mãe. O século dos imbecis inaugura a tetralogia Crimes e Vindouros e marca uma nova fase na escrita do autor, que assume uma maior presença do humor, da ironia e do sarcasmo para abordar temas profundamente humanos.
Entre a sátira e a alegoria, O século dos imbecis reflete sobre o culto da ignorância e o lugar do conhecimento na sociedade contemporânea.
2026 marca os 30 anos de escrita de Valter Hugo Mãe e os 20 anos desde que recebeu o Prémio José Saramago por O Remorso de Baltazar Serapião.
Numa publicação recente no Instagram escreveste: "Este livro começa uma vida para mim. Começa-me de novo. Talvez o entendam ao ler.” O que querias dizer com isto? É também o início de um novo ciclo na tua escrita?
Para além de inaugurar uma nova série — eu funciono muito por tetralogias, por conjuntos de livros, e este inicia Crimes e Vindouros —, há neste romance um tempo diferente. Surge depois de algumas catástrofes pessoais, de algumas perdas e da publicação de Educação da Tristeza, um livro que não era previsto nem desejado. Muito pelo contrário: adoraria nunca ter tido motivos para o escrever.
Há, em O século dos imbecis, uma vontade de seguir em frente. É uma decisão consciente de entrar em territórios sarcásticos e humorísticos, onde a ironia possa inspirar alguma alegria sobre o estudo da tragédia. Sou um indivíduo atento ao pior, mas muito interessado em caminhar numa espécie de resistência que imponha também alguma alegria.

Como nasceu este livro?
Este livro tem muitos anos. Foi sendo cozinhado durante muito tempo. A forma como acabaria por chegar a ele foi mudando, foi sendo adiada. As primeiras notas, ligadas aos episódios das costureiras, têm 19 anos. São ideias muito antigas. Escrevi várias páginas, algumas das quais até perdi. Não sei onde as deixei. Mas o livro deixou em mim uma imagem recorrente: duas mulheres a tentar sobreviver, a tirar medidas às pessoas, a fazer bainhas e a vender uns panos desajeitados como se fossem alta-costura.
Ele tem uma ideia de recomeço porque vem de muito longe, de um tempo em que talvez perspetivasse a vida de outra maneira. Depois a vida fez-se distinta. Agora é um começo, mas também um regresso a uma convicção: precisamos de fazer um esforço para que as coisas sejam felizes, mesmo quando acontece o pior.
Apesar de partir da tragédia, o livro termina com uma ideia de esperança. Era importante que fosse assim?
Sim. Todo ele fala de uma tragédia iminente, mas é suficientemente cómico. Há uma comicidade que parece obrigar a tragédia, pelo menos, a ser ridicularizada. A tragédia vai acontecer, mas nós rimo-nos dela.
O ano passado disseste, numa entrevista ao Diário de Notícias, que estavas a escrever um livro sobre duas costureiras, patroa e empregada, "as duas muito falidas, muito sem futuro", que não iam ter nome porque "as mulheres valem pelo que fazem". Onde é que ficou esse livro? São a Criada e a Marquesa?
São. Nenhuma mulher neste livro tem nome. São chamadas por aquilo que fazem, pelo papel que ocupam, pela função que desempenham. Já os homens têm nomes, mas esses nomes são roubados a um livro de Italo Calvino. São todos nomes de um único homem, de O Cavaleiro Inexistente.
É por isso que dedicas o livro a Italo Calvino?
O Cavaleiro Inexistente, como o título diz, é um cavaleiro que não existe. Os homens têm nome, mas, eventualmente, não existem. O Calvino é a inspiração para esta alegoria, para este absurdo, para esta liberdade de usar o absurdo.
O uso do absurdo é profundamente sarcástico e facilmente jocoso. Era exatamente isso que eu queria. E, neste momento da minha vida, era exatamente disso que precisava.
Este romance inaugura uma nova série, Crimes e Vindouros. O que é que podemos esperar dela?
Eu funciono por ciclos de quatro. Se viver o suficiente, serão quatro livros.
Vivemos no século dos imbecis? Qual é a função da alegoria em O século dos imbecis?
Eventualmente, todos os séculos tiveram os seus grandes imbecis. A minha perplexidade nasce de assistir a um certo fascínio pela incultura, pelo desconhecimento, a um elogio fácil da estupidez e do torpe, à eleição dos torpes.
Numa época em que tanta mais gente estuda, é curioso assistir à desinibição daqueles que se vangloriam de ser contra a ciência e o ensino. Depois de tanto esforço para que as gerações se instruíssem e se fortalecessem através do conhecimento, é estranho chegarmos a um ponto em que os menos preparados fazem disso motivo de orgulho e parecem escolher, inclusive, representantes políticos que estejam ao nível desse desconhecimento.
Antigamente também havia ignorantes, mas a ignorância fazia-se acompanhar de alguma humildade, até de alguma vergonha. O ignorante não perdia a dignidade porque tinha consciência dos limites da sua condição e reconhecia o valor do conhecimento do outro.
Hoje, a derrocada assenta nessa estranha convicção de que quem não sabe acha que está certo ao opor-se a quem sabe e prefere a emoção, o preconceito e a estupidez ao conhecimento e à ciência.
Quem é o ignorante de hoje?
O ignorante de hoje é o indivíduo que opta pela facilidade, pelo instrumento que aldraba em vez de conferir genuinamente uma capacidade. É alguém que se mostra capaz sendo incapaz, porque recorre à mentira e a instrumentos que imitam competências.
Infelizmente, estamos todos convidados a piorar.
É claro que todos somos ignorantes. O mais douto dos indivíduos também o é, porque, quando aprendemos alguma coisa, aprendemos sobretudo o tamanho daquilo que ainda não sabemos. Quanto mais aprendemos, mais percebemos quanto nos falta aprender.
Mas, de um modo geral, estamos a ser seduzidos por uma facilidade que resulta de termos gadgets sempre ao nosso alcance, quase como próteses, onde encontramos, em princípio, todas as respostas. E iludimo-nos ao pensar que a possibilidade de perguntar e obter uma resposta basta para robustecer o pensamento e a existência. Isso não é verdade. Podemos ter milhares de enciclopédias em casa e, se nunca as lermos, continuaremos sem saber o significado das palavras e sem sair da ignorância absoluta.
Quanto mais caminharmos no sentido de nos demitirmos do conhecimento porque a informação está ao nosso alcance, mais regrediremos. Tenho a sensação de que estamos a arriscar uma desumanização paulatina, entregando-nos de novo a uma existência mais animalesca, em vez de caminharmos para esse ideal humano que passa pela sofisticação e pela complexidade do pensamento.
No livro, escreves que "somos do século da informação, mas não somos do século da felicidade". A luz de mil ecrãs não consegue iluminar uma alma?
Exatamente. E, por isso, não seremos humanos por inteiro. Talvez nunca o tenhamos sido, mas a esperança era caminharmos nesse sentido. Agora, pela primeira vez, tenho a sensação de que, entre mortos e feridos, regredimos em vez de avançarmos. Não somos o século do conhecimento. Saber que a informação existe não me adianta nada. Só posso fortalecer-me, só posso robustecer quem sou, se transformar a informação em conhecimento. Não há felicidade nenhuma em saber que, algures, existe informação. Se não lhe acedo, se não a aproveito, continuo a ser o mesmo imbecil de sempre. Continuo, no fundo, a exercer a ignorância. Isso não melhora a minha vida.
Escreves ainda que "a amena maioria é parasitária. Não pensa senão no consolo dos dias, como se fosse um coletivo de crianças sem perder vigência". O que acontece a uma democracia quando a maioria deixa de cultivar o pensamento crítico?
Cortam-se os elos de identificação e de representatividade. As pessoas acabam por sentir necessidade, até por uma questão de confiança, de eleger quem lhes parece semelhante. Há uma passagem do livro em que a Pasteleira exclama: "Mas porque é que a inteligência nunca se entende?" De facto, as coisas muito inteligentes raramente se entendem. Se perdermos a sofisticação do pensamento, a sua complexidade e a capacidade de elaboração e de abstração, a tendência será eleger figuras que se expressem ao mesmo nível, que existam ao mesmo nível de instrução e que imponham como normal uma ampla ignorância. Acho que esse é um dos riscos que estamos a correr.
Vemos políticos eleitos que apostam na ignorância porque, afinal, a ignorância é muito mais democrática: abunda em toda a parte. A partir do momento em que se quebra o tabu da ignorância, torna-se muito mais fácil conquistar o favor dos ignorantes.
Por isso, apelar à inteligência deixa de ser particularmente interessante. Parece haver pouca gente a atribuir verdadeiro valor à sofisticação do pensamento. Estamos todos a ser conduzidos para uma dimensão mais lúdica da vida. Os adultos tornam-se cada vez mais infantilizados. Vemos pais com os mesmos interesses e os mesmos passatempos dos filhos, a jogar os mesmos jogos e a querer receber no Natal exatamente a mesma prenda.
A distância entre a criança, o adolescente e o adulto é cada vez mais curta, porque parece apetecível viver nessa brincadeira que, enquanto nos livra de grandes medos, também nos livra de grandes responsabilidades. Vivemos anestesiados, numa espécie de mundo de brincar, enquanto a realidade avança e nos vai deglutindo a todos.
Poderá uma sociedade sobreviver à indiferença coletiva? O que pode romper esse ciclo?
Ganhar consciência. Ler livros. Procurar informação verdadeira. Distinguir a comunicação falsa e manipuladora daquilo que é jornalismo. Procurar jornalismo. Procurar menos especulação. Hoje, quase todos os canais de notícias se transformaram em fóruns de especulação. À mínima hipótese de qualquer coisa, debate-se infinitamente aquilo que ainda não se sabe, aquilo que ainda não é verdadeiramente notícia. É apenas uma hipótese. Passamos os dias a ouvir pessoas a construir cenários sobre factos que não estão confirmados. E parece que o objetivo já nem é confirmar nada. É manter uma conversa permanente sobre o que poderá acontecer. Seria magnífico que as pessoas procurassem plataformas onde a notícia é realmente investigada e transmitida.
A opinião interessa-me muito, mas apenas quando assenta num acontecimento, num facto minimamente comprovado. Caso contrário, estamos todos a fantasiar. Hoje vivemos mais num mundo de perceções do que de evidências. E as perceções nascem precisamente dessa especulação, que não faz outra coisa senão inventar cenários.
Vivemos também no século das perceções?
Também. As perceções só não são mais irritantes do que o século dos sentimentos.
É quando as pessoas dizem: "Foi o que eu senti." Acusam alguém, diagnosticam situações e constroem uma realidade não a partir do que é comprovado, mas daquilo que sentem. Como se a ciência tivesse de acomodar os sentimentos de alguém. O que é concreto não se compadece com aquilo que eu possa sentir. Quantas vezes senti a maior das magias em instantes a que só eu tive acesso? O meu mundo e a minha fantasia são-me muito caros e alimentam toda a minha poética. Mas não podem legislar. Acho que este é o século das perceções, que é também o século dos sentimentos e das emoções. Acreditamos mais naquilo que sentimos do que naquilo que é científico, demonstrado e sabido. Se assim for, estamos condenados. Deixaria de ser preciso estudar. Bastaria sentir, como se fôssemos uma espécie de seres mediúnicos perante a vida.
Como se conversa com alguém que faz da ignorância uma escolha?
Tenho a sensação de que não consigo. Fujo. Sinto muita frustração, até pela violência que normalmente está associada a isso. Ser a favor da ignorância é muito fácil, sobretudo quando o objetivo é vencer um debate. Basta destruir a conversa. A ignorância, quando é mal-intencionada, propõe-se destruir a conversa — e é isso que faz. Na minha perspetiva, não há muito a fazer. É como tentar ajudar alguém que não quer ser ajudado. O ignorante orgulhoso não quer conhecer. Por isso, não há debate possível.

Voltando a O século dos imbecis. O que representa a Malandrinha, o palacete do marquês?
Para mim, a Malandrinha representa uma ancestralidade. É uma espécie de herança perpétua, qualquer coisa que nos mostra que, independentemente do nosso poder, da nossa dignidade ou da nossa grandeza, somos ínfimos quando comparados com o tempo do mundo, com o tempo das sociedades e das comunidades. A dada altura diz-se que a Malandrinha é como um parente extraordinário. A casa é um parente extraordinário.
E nela habitam ainda os seus mortos.
Exatamente. E até mais mortos do que vivos. Numa casa tão antiga como a Malandrinha, são sempre mais os mortos do que os vivos que passaram por ela. Gosto desta ideia de chegarmos a casa e de a casa ser uma companhia, mais do que um lugar que ocupamos; de ter uma dimensão quase entitária. Se não chegarmos a esse ponto de relação com as nossas casas, teremos sempre uma relação pobre com elas. No livro procuro também simbolizar o quanto somos mesquinhos na gestão das coisas e até na própria ideia de propriedade. Nunca seremos proprietários de nada ao ponto de levarmos connosco, agarrados à alma, os granitos de qualquer Malandrinha.
Somos passageiros e somos humilhados por essa condição passageira. É por isso que o livro abre com a ideia de que a vida nos é dada por Deus, mas o tempo pertence ao diabo. A vida oferece-nos a maravilhosa oportunidade da consciência, mas o tempo é cobrado. E é cobrado porque é essa coisa do diabo que acaba por nos mostrar que, no fim, somos todos derrotados. Ninguém atravessa o tempo levando coisa nenhuma.
O que pode simbolizar essa ideia de a casa ser um parente?
Nós, em português, podemos dizer "lar", mas não nos é completamente natural. Não significa exatamente a mesma coisa. Quando falo da casa como um parente, não estou propriamente a falar de um lar. Um parente pode ser incómodo, pode ser sinistro, pode assustar. O parentesco é um património muito mais intrincado. Não existe apenas para proteger e acolher, como acontece com a ideia de lar. A Malandrinha não é propriamente um lar. É um organismo de conspiração. É um organismo estranho que nunca se entrega por inteiro, que nunca se explica completamente. E, de algum modo, vence. Ela vence. Enquanto isso, todas as pessoas acabam derrotadas.
A montanha e a vila funcionam quase como uma alegoria de duas formas de estar no mundo: uma que favorece a lucidez e outra que a sufoca. O que queres dizer, através de Agilulfo, sobre a forma como uma sociedade trata os mais vulneráveis?
O Agilulfo, e todos os homens deste livro, têm nomes roubados ao O Cavaleiro Inexistente, de Italo Calvino. Nesse romance, todos esses nomes pertencem ao mesmo homem, que, por sinal, não existe. Ao escolher essa nomenclatura, quis reuni-los sob a hipótese de não existirem verdadeiramente, de serem fantasiosos, improcedentes, de talvez não valerem o suficiente para uma conquista verdadeiramente humana. Foi uma forma de os ferir na identidade e na função. As mulheres, pelo contrário, são conhecidas pelo papel que desempenham. Não têm nome, mas existem. São concretas. Os homens têm nome, mas o nome pertence a alguém que não existe. Talvez eles próprios não existam, ou talvez não valha a pena que existam. O Agilulfo leva esse jogo ao extremo. É uma figura puramente absurda, de pura fantasia, que me permite construir uma alegoria a partir da qual talvez seja mais fácil refletir sobre este fascínio pela facilidade, pelo riso, pela estupidez e pela ignorância, em vez do esforço do conhecimento.
E isso revela também a forma como as sociedades tratam os mais fracos?
Sim. Revela sobretudo como as sociedades se enfraquecem quando predam os fracos, em vez de se fortalecerem fortalecendo quem é fraco.
O Agilulfo é tratado como um "murcão".
Aqui deixei-me levar um bocadinho pelo Norte. O livro não se passa no Porto, mas tem algumas piscadelas de olho ao Porto. Sou do Norte e achei graça. No meio da propensão cómica do livro, foi-me impossível resistir ao vocábulo "murcão". Acho que é das palavras mais imediatamente engraçadas que o Porto usa. Existe noutras partes do país, mas é profundamente portuense. Para mim, simboliza muito esse falhado moral, esse inábil. Foi uma pequena festa portuense que quis trazer para o livro.
Passam 20 anos da publicação de O Remorso de Baltazar Serapião, o romance que te valeu o Prémio José Saramago. O que é que esse livro te deu? E o que te retirou?
Deu-me uma inscrição — para usar um conceito muito em voga na época, vindo do José Gil — no teatro literário português. Foi o meu segundo romance. O primeiro foi bem recebido pela crítica, mas pouco lido. O Remorso de Baltazar Serapião abre-me a porta do Prémio José Saramago, do elogio do próprio Saramago, da Nélida Piñon, do Vasco Graça Moura. A partir daí, muda também o lugar social da minha escrita. Nunca podemos saber o que teríamos sido se a vida tivesse acontecido de outra maneira. Essas perguntas são sempre uma forma de especulação, curiosa de fazer, mas sem grande proveito. O que recordo muito bem é aquilo que o próprio livro representou para mim, independentemente do prémio. Como conquista de linguagem, como exercício literário, foi decisivo.
A escrita de O Remorso de Baltazar Serapião corre um risco enorme. É profundamente abusiva na sintaxe, na forma como usa a língua portuguesa. Era uma proposta que podia ter falhado completamente. O reconhecimento foi importante porque me convenceu de que o meu caminho teria de passar por essa entrega genuína, intuitiva e espontânea à pesquisa da linguagem. Lembro-me de muita gente me dizer que devia simplificar os livros, simplificar as frases, escolher palavras menos raras, menos esquecidas. Mas havia qualquer coisa em mim que não conseguia aceitar isso. O Remorso foi o momento em que percebi que a única maneira de fazer sentido era não me limitar naquilo que me é genuíno, naquilo que me é sincero. Foi um livro muito importante porque me abriu um espaço público, mas também porque me ajudou a perceber que, se não tivesse a coragem de escrever como quero, talvez não valesse a pena escrever.
Se as primeiras notas para O século dos imbecis nasceram precisamente nessa altura, há uma ligação entre os dois livros?
Há. A primeira imagem que tive deste livro surgiu nessa época. Na altura chamava-se A Mulher Torta. Cheguei a escrever umas trinta páginas. Era a história de duas costureiras falidas — ainda não eram a Marquesa e a Criada — de quem eu pouco sabia. Inventavam uma costura impostora e recebiam uma cliente habitual que tinha uma estranha deformação entre as pernas, o que levava a empregada, que era virgem, a começar a suspeitar de que talvez se tratasse de um homem e não de uma mulher. Escrevi tudo isso. Havia nomes, outros nomes, uma lógica própria. A intenção já era seguir um caminho sarcástico e cómico. Mas, por alguma razão, o livro ficou guardado. Interrompi A Mulher Torta e escrevi O Apocalipse dos Trabalhadores, que acabaria por ser, curiosamente, o meu romance mais cómico. Continua a ser uma tragédia, mas é o mais cómico. Também aí há duas mulheres, empregadas de limpeza, que discutem a vida a partir de um ponto de vista muito simples e, ao mesmo tempo, muito pertinente. Entre esse livro e O século dos imbecis existe uma pequena ligação, que o tempo foi diluindo, mas que continua lá. São livros, de algum modo, irmanados.

És uma das personalidades que assinaram a carta aberta para manter José Saramago como leitura obrigatória no ensino secundário. Este debate é literário ou político?
Acho que é político. Não me convenço de que Saramago saia dos programas por ser um mau escritor ou por ser menos interessante do que outros. O que está por trás deste boicote à sua obra no ensino é político. Acho, inclusivamente, que é uma decisão cobarde. O Saramago já não está vivo e não pode responder. Teria sido interessantíssimo ouvi-lo pronunciar-se sobre o mundo de hoje, este mundo em que regressámos a tanta atrocidade. Sinceramente, acho que continua a ser atacado por ter sido comunista e por nunca ter sido favorável a ideias que hoje voltam a estar muito em voga. A qualidade literária, a importância e a influência de Saramago na literatura e na cultura contemporânea são absolutamente inegáveis. Se os alunos não forem convidados a estudá-lo, não vejo que outro autor contemporâneo deva ocupar esse lugar. Não porque não existam outros grandes escritores, mas porque a questão não é essa. A questão é o impacto extraordinário que a obra dele teve — e continua a ter — na nossa cultura.
Se é um erro, qual é a sua principal consequência para os alunos?
A principal consequência é a tentativa de humilhar a obra de Saramago. Acho que é isso que está em causa. Acaba por se transmitir aos mais novos a ideia de que Saramago estava errado em alguma coisa, de que os seus livros deixaram de ser válidos, como se fossem livros errados. Mas a literatura não trabalha com categorias de certo e errado. É uma forma de o diminuir, de criar a impressão de que, afinal, há outros autores que merecem esse lugar e ele não. É isso que a humilhação faz. Mesmo uma pessoa brilhante, quando é humilhada, fica diminuída.
És o protagonista do documentário O Lugar Nenhum – O Retrato de Valter Hugo Mãe, de Miguel Gonçalves Mendes, apresentado este mês. Que Valter Hugo Mãe é que iremos encontrar nesse documentário?
É um retrato de um Valter antigo. O documentário acompanha o período da escrita de A Desumanização. As primeiras imagens serão de 2011, por isso mostra um Valter ainda muito à procura, talvez menos defendido. Ainda sem se ter definido por completo. Vejo ali alguém com alguns medos, mas também com a coragem própria de quem ainda não passou por determinadas coisas. Ao mesmo tempo, tenho a sensação de que não sou eu. Reconheço aquele rapaz, mas desconfio dele. Não lhe abriria a porta assim à primeira. Parece-me, não sei, uma versão paralela de mim. Não coincidente, apenas paralela.
O que estás a ler?
Estou a acabar Morrer na Praia, do Leonardo Padura, que vou apresentar daqui a uns dias. E tenho andado absolutamente obcecado com Andrei Platonov. Em Portugal só teve dois livros publicados, há muitos anos, mas saiu agora no Brasil, pela primeira vez em português, um romance com cerca de seiscentas páginas. Chama-se Chevengur. Li-o em dois dias. Fiquei completamente obcecado. É uma das obras mais geniais que alguma vez li. Continuo a andar com o livro atrás de mim. Volto a ler passagens. Tenho a mania de que ainda vou escrever qualquer coisa sobre ele. Não o consigo largar. Trouxe também outro livro dele, o Dzhan, e tenho comigo o Moscovo Feliz, numa edição brasileira, porque também não existe em Portugal. Ando, por isso, acompanhado pelo Platonov, como se fosse uma assombração.
Por Rita Sousa Vieira
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