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TOY EM ENTREVISTA
NEWSLETTER 68 - 15 AGO 2026 - TOY EM ENTREVISTANEWSLETTER 68 - 15 AGO 2026 - TOY EM ENTREVISTA

“A cultura e a política são a melhor mistura de todas” 

 

Toy não é homem de ficar calado. Na música, na televisão, em palco ou quando fala de política, diz o que pensa e aceita as consequências. Em Coração Não Tem Idade, revisita uma vida que começou nos palcos aos 11 anos e que já soma mais de cinco décadas. À Cultura FNAC, fala da família, de Setúbal, da música, da liberdade e da cultura como espaço de pensamento, mas também da coragem necessária para continuar a dizer aquilo em que acredita. 

 

O QUE TENS DE SABER: 

 

  • Coração Não Tem Idade recupera a história de Toy na primeira pessoa, desde as suas raízes familiares e a infância em Setúbal até à carreira na música. 

  • Entre memórias pessoais e episódios de carreira, o livro inclui fotografias, letras manuscritas e testemunhos de pessoas próximas. 

  • Em 2027, Toy sobe ao palco para assinalar mais de 50 anos de carreira, com dois concertos já marcados para Lisboa e Porto. Na entrevista, recua aos 11 anos, quando começou a subir ao palco, e recorda a madrugada de 25 de Abril de 1974, quando o pai lhe disse: “A partir de hoje podemos falar.” 






 

Este livro é uma biografia? O que te levou a escrevê-lo? 

 

De certa forma, é, embora esteja muito mais ligada ao meu início de vida, aos meus pais, à voz. A partir daí, está mais ligada à minha vida profissional e menos à vida pessoal, porque há coisas que são demasiado pessoais e que envolvem terceiras pessoas... Gosto mais da minha vida profissional 

 

Qual foi o ponto de partida? Foi um convite da editora? 

 

Houve uma insistência muito grande, de mais do que uma editora, para fazer um livro. E eu sempre a dizer: "Não, não tenho tempo, não vou escrever." O Miguel [Cardoso Pereira, editor-executivo do Grupo Infinito Particular], que já conhecia há muito tempo, insistiu: "Epá, mas devias fazer. Eu ajudo, eu escrevo e tu só vais-me dizendo coisas." Ele foi uma das quatro ou cinco pessoas que me perguntaram se queria fazer um livro ou não, e eu disse sempre que não... Foi ele quem conseguiu. Insistiu, e em boa hora o fez, porque está aqui realmente um produto do qual me orgulho muito. 

O Miguel ajudou-me imenso. Eu ia-lhe dando as dicas, ele ia escrevendo, eu ia lendo o que escrevia. Íamos limando arestas, aparando algumas coisas. E chegámos a isto, que é fantástico.  

 

És fã de biografias? Costumas ler sobre outros artistas ou personalidades? 

 

Gostava muito mais de ler no passado, tinha muito mais tempo. Depois há um problema: para ler já tenho de pôr os óculos e ter uma luz à cabeceira. Sou preguiçoso... Lia muito Eça de Queirós, de quem gostava muito. Ultimamente, tenho lido muito pouco, com muita pena minha. Acho que o último livro que li foi Ensaio sobre a Cegueira, do Saramago. A partir daí, não terei lido assim tanto, o que é pena. 

 

Mas hoje temos muita informação sobre aquilo que precisamos de saber através da Internet. Às vezes, quase que lemos um livro através da Internet; outras até o lemos. Torna-se mais fácil. De qualquer maneira, acho que nunca li nenhuma biografia. Já vi filmes biográficos: o do Ray Charles, que tive o prazer de ver ao vivo, o do James Brown... 

 

O que é que os leitores vão descobrir sobre ti que ainda não conheciam? 

 

Acho que há três pontos neste livro que são fixes. O primeiro é saberem exatamente a origem da minha família, os meus pais, como é que eles se conheceram, como é que a coisa aconteceu, até eu nascer. Acho que essa parte é muito bonita, porque é quase um romance. A vida dos meus pais é complicada... 

 

O segundo, penso que é extremamente importante para quem... Eu todos os dias recebo mensagens, e-mails, perguntas nas redes sociais sobre como é que uma pessoa se pode tornar cantor ou artista. Mandam-me vídeos, áudios... Há pessoas que querem seguir esta vida e eu acho que, neste livro, podem aprender muito sobre aquilo que é a resiliência, a força, a vontade, o nunca desistir. O saber engolir os sapos, saber levar pontapés no rabo. Nunca desistir. Não me incompatibilizar com as pessoas que, no início da minha carreira, me disseram "não". Tentar entendê-las, perceber o porquê e chegar a esta fase da minha vida e perceber que, às vezes, já não há tempo para atender toda a gente, às vezes é preciso dizer que não. Ainda bem que nunca me incompatibilizei com pessoas que, mais tarde, ficaram minhas amigas e que me disseram "não" no início. 

 

O terceiro é perceberem o que é que as pessoas pensam de mim. Há muita gente, aqui, que escreve sobre aquilo que eu sou, e eu fico assim um bocadinho estupefacto, fico sempre sem jeito. Eu costumo dizer que gosto muito de dar presentes, mas não sei receber um presente.  

 

Pegando nesses depoimentos de familiares e de músicos que te acompanham, foram feitos a teu pedido ou da editora? 

 

Fiz questão que o Miguel me acompanhasse, porque ele estava a escrever e eu disse: "Não te vou dizer tudo. Se me acompanhares, vais saber mais coisas." E o facto de ele me acompanhar, falar com os meus músicos, com os meus amigos, com algumas pessoas da família, acabou por resultar nisto. Foi, para mim, quase uma surpresa quando li aquilo que tinham escrito sobre mim. É emocionante, é sempre muito complicado falar disso... 

 

Voltando a ti, houve alguma coisa que tenhas decidido não incluir, ou que tenhas hesitado em incluir? 

 

Não hesitei. Há uma preocupação que tenho: evitar incluir terceiras pessoas que possam ficar melindradas, não porque tenha falado mal delas, mas porque não quero ferir suscetibilidades. Por isso, evitei falar de terceiras pessoas. Logo aí, evitei falar da minha vida pessoal. Estou num segundo casamento, por exemplo, pelo que falar do primeiro casamento não seria muito interessante para a pessoa em questão. Portanto, tentei evitá-lo. 

 

Agora, a minha vida foi sempre muito exposta. Há aqui pormenores muito interessantes, mas, quanto à minha vida pessoal, eu fiz o Na Casa do Toy, toda a gente conhece a minha vida, e ainda bem que não tenho nada a esconder. Costumava dizer, na altura: não sou pedófilo, não andei a roubar bancos, portanto, não tenho nada a esconder. Se disser alguma coisa que não seja do agrado de algumas pessoas, não é certamente para ferir nem para marginalizar ninguém; são apenas opiniões, é uma maneira de estar na vida. E eu gosto que olhem para mim, gostem ou não de mim, considerando aquilo que eu sou e não aquilo que eu possa eventualmente parecer. 

 

É por isso que dizes também que esta é uma biografia com uma verdadeira sensação de futuro, porque olha mais para o futuro do que para o passado? 


Exatamente. Descrevemos aqui o início de tudo, mas o que mostramos é uma vontade de continuar a subir montanhas e a trepar muros. 

 

Não gostas de narrativas nostálgicas? 

 

Não vou dizer que não gosto, até porque escrevo muitas canções e muitas delas são nostálgicas e românticas. Gosto, de certa forma. Mas acho que as pessoas têm de ler o livro, ficar bem-dispostas e perceber o que são as emoções em relação a uma pessoa que é uma figura pública. Isto é incontornável, não consigo dizê-lo de outra forma. Há sempre muita curiosidade do público em descobrir algo sobre as figuras públicas e, aqui, podem descobrir muito. 

 

Ao ler o livro, creio que se ouve a tua voz: na forma como falas, como abordas os assuntos e como a biografia está organizada. 

 

Isso é bom, era essa a ideia. Já disse que lia muito o Eça de Queiróz e ficava sempre com a ideia, quando fechava os olhos passado algum tempo, que tinha visto um filme; ele era muito descritivo, e eu acho muita piada a isso. 







 

Escreves, a certa altura: "notem que não servirá também esta biografia para que eu venha dizer que vim do nada, que era um absoluto desgraçado e que não tinha onde cair morto, e que inventei um artista a partir disso". Este livro não é, portanto, uma forma de, como hoje se diz, controlar a narrativa. 

 

Não, de forma nenhuma. Tive uns pais fantásticos. Não eram ricos, quer dizer, depende do conceito de rico; se calhar eram ricos, tinham pouco dinheiro, porque há pessoas que são tão pobres que só têm dinheiro. Mas tive uns pais fantásticos, tive uma educação fantástica. O meu pai era um homem de bem, era alfaiate e músico amador. A minha mãe era muito bem-disposta, muito divertida. O meu pai não dizia asneiras, a minha mãe dizia sempre muitas asneiras... 

 

Fui criado numa família de classe média, dentro da normalidade, com um pai que dizia que a música não era futuro e que eu tinha de estudar. Tive de estudar contabilidade, mas a música foi o meu futuro. 

 

Há pouco, dizias que a história dos teus pais foi complicada. Mas é também uma história de amor. 

 

Uma história de amor, sim. Quando o meu pai conheceu a minha mãe, era um homem casado. E, naquela época, uma mulher andar com um homem casado... foi muito complicado. Houve ali umas fugas, umas pessoas que esconderam a minha mãe... Leiam, porque a história é maravilhosa. 

 

Há alguma ideia que as pessoas tenham sobre ti que gostarias de contrariar com este livro? 


Bem, o livro não diz nada que não seja verdade. Portanto, se alguém tiver alguma interrogação, alguma dúvida, penso que, ao ler o livro, fica a conhecer-me bastante melhor, sendo que eu já sou uma carta aberta. 

 

As pessoas têm, às vezes, ideias erradas. Por exemplo, eu gosto muito de vinho, sou quase um escanção, digo que sou um escanção amador. Tenho o meu próprio vinho de Viseu e costumo dizer, na brincadeira, que percebo mais de vinho do que de música. E as pessoas confundem isto com ser alcoólico, o que não tem nada a ver. É rigorosamente o contrário: quem gosta de vinho não é alcoólico, o alcoólico é aquele que gosta de álcool. É uma doença. 

 

Inclusivamente, durante os meses de verão, para respeitar o meu público, não bebo uma gota de álcool, exatamente para manter uma determinada postura. Estou todos os dias a trabalhar e o álcool, o vinho, não são a melhor coisa para as cordas vocais. Não quer dizer que um copo à refeição faça mal, mas optei por não beber, porque são muitos concertos, é muito trabalho. É uma coisa que as pessoas confundem e acho que, a partir daqui, as pessoas vão conhecer e perceber melhor a situação. 

 

Vão também perceber bastantes coisas sobre a tua música. Uma delas, talvez mais geracional, é que o tema Começar no A, interpretado pela Ana Malhoa, foi escrito por ti. 

 

Esse, e outros 2999 temas [risos]. 

 

Que outros temas é que o público desconhece que são teus? 

 

Posso dizer-te que escrevi canções para a Ágata, para o Tony Carreira, para o José Malhoa, para a Ana Malhoa. Um cantor que, se calhar, nunca teve a dimensão que deveria ter tido, o Fernando Santana, teve quatro ou cinco discos de ouro com temas totalmente meus, letra e música. Trabalhei com o Bonga. Já fiz muitíssimas marchas, nas Marchas de Lisboa. Fados. Escrevi canções para sete telenovelas, só a Amor Amor foram 40... 

 

Compus para cinema e para peças de teatro. Por exemplo, musiquei a última peça do Romeu Correia, Um Grito no Outono. Foi apresentada pelo Teatro de Animação de Setúbal e foi bastante interessante: há uma das personagens, o Álvaro de Campos, todos sabemos quem é, é o Fernando Pessoa, que ia àquele bar onde se tocava violino. A música foi influenciada pela que se fazia nos anos 30. 

 

Já fiz um bocadinho de tudo na música. Gosto muito de compor e gosto de cantar, desde Pavarotti até Trivium. Gosto de estar em todas as frentes musicais, porque essa questão de dizer "ele é um bom cantor de fado", "ele é um bom cantor de rock"... Treta! Um bom cantor é um bom cantor: é um que não desafina, que sabe colocar a voz, que canta qualquer coisa. Se uma pessoa se cingir apenas a um estilo, é limitada. É a minha opinião. 

 

Também dizes que não tens canções na gaveta. 

 

Não consigo! Estou sempre a compor, e vou compondo para mim ou para outras pessoas. Por exemplo, há um cantor que me diz que gosta muito de, sei lá, canções do Frank Sinatra e que gostava de gravar um disco daquele género. Eu vou ouvir Frank Sinatra, inspirar-me nesse género e compor originais. E assim sucessivamente. Normalmente, são sempre encomendas. 

 

Costumo dizer que se faz música ou com inspiração ou com transpiração. Inspiração é quando tu acordas a meio da noite, ou quando vais no carro e te surge uma melodia e não sabes de onde vem. Isto é qualquer coisa... Para um ateu é complicado, mas é qualquer coisa divina, não é? Que chega e tu dizes: "Pá, espera aí..." Transpiração é quando me ligam e dizem: "Preciso de duas canções a falar de uma parede azul e de duas câmaras de filmar." E eu esforço-me e faço uma canção a falar disso. 

 

É um processo rápido e natural? 

 

Não há nada que seja efetivamente fácil, senão as pessoas pensam que é só estalar os dedos e já sai uma canção. Agora, que sai, sai. 

 

Nos teus concertos, costumas improvisar. 

 

Sim, gosto de pegar em tudo aquilo que está a rodear aquele concerto, porque acho que as pessoas gostam de sentir que quem está em palco está a comunicar e a dedicar-se. Portanto, tento personificar o concerto em 5%, 10%, relacionando-o com a comissão de festas, com o executivo da Câmara, com o padre, com o que surgir, com aquilo em que eu possa pegar e inventar. 

 

A estrutura do livro, a sua divisão, têm por base os teus temas. 

 

Sim, combinámos que seria giro cada capítulo ter um título. Nada melhor, para tal, que o título de uma canção. 

 




 


Há pouco, numa resposta, mencionaste a cidade de Setúbal. Ao longo do livro, são muitas as vezes em que ela é referida. Era impossível escrever a tua vida sem a mencionar? 

 

Obviamente. Setúbal é a minha terra, onde nasci, onde passei a minha infância, a minha juventude, os meus primeiros amigos, os meus primeiros grupos, o teatro, os conjuntos de baile, as primeiras brincadeiras com a guitarra ao pé das docas, as férias em Tróia, na Figueirinha. Setúbal é parte integrante de mim, tenho sempre a minha cidade no coração. 

 

Uma das coisas que me dá muito prazer é que as pessoas que me conhecem, e são muitas, sabem que eu sou de Setúbal porque faço questão de o dizer. Sabem que sou adepto do Vitória de Setúbal porque faço questão de o dizer. Sabem que gosto das coisas da minha terra. Acho que, se cada um de nós defender a sua terra e a promover, tal como eu faço com a minha, é uma maravilha para todos. 

 

Porque eu costumo dizer que sou de Setúbal, mas hoje em dia já adotei uma série de terras como sendo também minhas, porque sou muito bem tratado, porque conheço as pessoas. O facto de viajar muito, não só no país como pelo mundo, faz realmente com que algumas terras sejam muito minhas também. 

 

Agora: Setúbal viu-me nascer... 

 

Mencionas, no livro, que não te importavas de ser um dia presidente da Câmara, ou que não o negas à partida. 

 

Gostava. E gostava porque gosto da minha terra. Gostava de deixar qualquer coisa positiva, de fazer mais pela minha terra. Esse é o cargo em que tu mais podes fazer pelo concelho. Estando a presidir, penso que seria uma maneira, enfim, de tentar melhorá-lo. 

Eu sei que Setúbal tem sido, ultimamente, muito bem chefiada pela autarquia e por alguns presidentes que lá passaram. Mas gostava de ter também essa possibilidade de poder ajudar. Não deixo de parte essa possibilidade, mas só daqui por muitos anos. Eu acho que vou durar até aos 125, portanto, quando tiver 90... 

 

Que medidas estariam no teu programa político? Na área da Cultura, por exemplo. 

 

Neste momento, não faço ideia. Nós já temos a Casa da Cultura, já temos a Casa da Baía, são tudo projetos que a Maria das Dores Meira fez muito bem feitos. Daí que eu tenha apoiado esta candidatura outra vez, porque acho que foi realmente uma presidente fantástica. Fez muito pela terra, e eu sou da terra; o meu partido é a minha terra, o resto é tudo inteiro. 

 

Mas dizia: preservar, acima de tudo, a Serra da Arrábida e o Sado, sempre com esses cuidados. Na Cultura, acho que há muito talento na cidade de Setúbal, há muita gente que canta bem. Temos agora A Garota Não, por exemplo, o Slow J... Temos uma data de qualidade na cidade. Não sei o que faria neste momento; penso que teria de me dedicar, antes de exercer o cargo, a pensar, a escrever e a ter um plano para aquilo que iria fazer. 

Mas, naturalmente, apoiaria todos os cantores e cantoras de Setúbal, músicos e coletividades, porque o coletivismo é importante. Eu comecei numa coletividade. Costumo dizer que as coletividades são a escola do povo. Provavelmente, o que aprendi na escola foi extremamente importante, mas o que aprendi na coletividade foi igualmente importante. Não vou dizer que foi mais importante ou menos importante, mas igualmente. 

 

Eu aprendi, na Sociedade Musical Capricho Setubalense, coisas que nunca aprenderia na escola. Fiz lá teatro amador durante cinco anos, convivi com pessoas sempre muito mais velhas. Ouvia as conversas de camarim; em 1975, no pós-25 de Abril, muita coisa sobre política. A política é a nossa vida. É aquilo que nos interessa seguir, é aquilo que é importante. 

 

Se as pessoas não forem egoístas, porque o egoísmo é um problema da sociedade, em vez de pensarem em si próprias... As pessoas dizem assim: "Com aquele governo ganhava mais, com aquele governo perdia mais..." A questão não é o que é que eu perdia ou ganhava, é o que a sociedade ganha ou perde. É isso que é importante, e isso eu aprendi no teatro: a não ser egoísta, a pensar num todo e não apenas em mim. 

 

As pessoas pensam só no seu umbigo. Por exemplo, um governo aumenta a reforma, vão votar nele. Mas, se calhar, ao aumentar a reforma, prejudicam uma série de gente... Não sabemos, temos de estudar isso. Se calhar, há governos liderados por partidos aos quais não acho muita piada e com os quais até sou beneficiado na minha vida. Mas não é a minha vida que é importante, é a nossa vida que é importante. O meu pensamento está em pensar sempre num todo. 

 

Abordas sempre essa questão política, seja nos teus concertos, seja na apresentação de um prémio, seja num programa da manhã. Não te inibes de dar a tua opinião, mesmo quando isso pode significar perder concertos ou ligações com marcas. 

 

Não, eu quero estar bem comigo e com a minha consciência. E, quando tenho de dizer algo que é importante, haver uma voz que grite as coisas, para que as pessoas ouçam... Não é para elas pensarem igual a mim, mas pelo menos para perceberem porque é que eu disse aquilo. Tenho amigos que não têm o mesmo pensamento que eu, não são obrigados a isso. Conversamos sobre as coisas e trocamos opiniões, vamos aprendendo uns com os outros. 

 

Agora, há coisas que são completamente irrevogáveis. Eu não posso dizer que o Netanyahu é um gajo bom, não posso, é impossível. Portanto, tenho de expor a minha opinião. Se calhar, há pessoas que gostam dele que não me vão contratar; que seja! Não me importa. Tenho é de estar bem com a minha consciência. 

 

Há uma coisa que não pode faltar às pessoas: coragem. Estamos fartos de medos. Da pessoa de que falei ainda há pouco, não posso falar mais vezes porque me dá vómitos... Todas as pessoas que pensam daquela forma, que é acabar com todas aquelas crianças para que elas, no futuro, não possam ser aquilo que eles chamam de "terroristas"... Se calhar não são eles, são os outros. Mas nós temos de chamar a atenção das pessoas, porque o medo, até de grandes instituições governamentais, faz com que as pessoas estejam, às vezes, do lado errado da História, porque temem retaliações. 

 

Mas eu digo isto aqui e digo isto aos governantes, se for preciso. Não tenho problema nenhum. Até me dou bem com algumas pessoas do Governo e, portanto, não tenho problema nenhum. E eu sei que as pessoas não gostam, mas têm de fazer a jogada. Temos a NATO, nós pertencemos à NATO... Há aqui uma série de situações que são coisas muito difíceis de desenvolver, e eu percebo isso. Agora, alguém tem de ter coragem. 

 

Os músicos, sobretudo, que têm uma voz e têm plataformas. 

 

Porque a cultura foi sempre a grande arma. Já disse isto na televisão; nos Prémios Play, a única coisa para que chamei a atenção não foi para os rapazinhos [Bandidos do Cante] não irem ao festival, até porque eles cantam bem, merecem ir e não é por aí que vamos resolver o problema. 

 

Agora, não podem é dizer que a cultura e a política não se misturam, quando a cultura e a política são a melhor mistura de todas. A cultura é o ensinamento de tudo aquilo que existe, e a política é a nossa vida. Ora, se nós não aprendermos, não sabemos viver. E, portanto, a cultura é a grande escola para a nossa vida. 

 

É através da cultura que as pessoas podem, efetivamente, ter um pensamento diferente em relação àquilo que se vive, ou ter um pensamento igual, mas ter, acima de tudo, lá está, um pensamento. Porque já o filósofo dizia: "Penso, logo existo." Quem não pensa, não existe. É preciso pensar. 

 

Um quadro faz-nos pensar, uma canção faz-nos pensar, um livro faz-nos pensar, uma peça de teatro, um filme. A cultura é fundamental. Fazer pensar é política. É isso que as pessoas não podem dizer que não se misturam e era só isso que eu queria referir na altura. 


Não tinha tempo para explicar muita coisa, portanto, fi-lo da forma que fiz e ainda bem que o fiz. 

 

E foste muito elogiado. 

 

Sim, muito elogiado e muito vilipendiado, como é evidente, porque, quando tu tens coragem de dizer "não gosto do azul", ou "não gosto do vermelho", ou "não gosto do verde", ou "não gosto do amarelo", as pessoas que gostam, obviamente, ficam chateadas. E as redes sociais, como disseste, são o lápis azul da atualidade. 

 

Na sociedade em que vives, tens de ter coragem. Porque uma frase dita que não agrada a determinadas instituições pode destruir completamente a tua vida, e a isso chama-se coragem. Eu, por exemplo, não sou um crente fervoroso e tenho bispos meus amigos; há partidos nos quais eu não voto e tenho amigos desses partidos e dou-me bem com as pessoas. Todos nós temos o nosso ponto de vista e as nossas ideias. 

 

Tu podes ter um pensamento mais liberal ou mais condicionado. Por exemplo, dizer "liberdade": nos países capitalistas, a liberdade é só para quem tem dinheiro, porque só quem tem dinheiro é que pode viajar. Quem não tem dinheiro não tem liberdade, às vezes nem sequer tem casa, nem sequer tem dinheiro para comer. E, portanto, tu tens primeiro de dar liberdade às pessoas, e isso é dar-lhes uma casa, comida, trabalho, para que tenham estabilidade. 

 

Ter liberdade é muito mais do que dizer "isto é um país livre, podemos viajar". "Podemos", quem? Quem tem dinheiro para viajar, porque quem não tem não pode. Quem não tem dinheiro num país liberal não é livre. O liberalismo pode não significar liberdade. Não estou a dizer que sou a favor ou que sou contra, não é isso que está em causa; o que está em causa é pensarem sobre estas coisas. 


Eu penso porque não sou egoísta. Penso sempre na sociedade. 

 

Voltamos ao coletivo. 


Para mim, viver num regime liberal é maravilhoso. Posso viajar, posso, felizmente, trabalhar muito para ter o que tenho. Não sou rico, mas estou bem na vida e, portanto, posso ser livre à minha maneira. Mas há muita gente em Portugal que queria ser livre e não pode. Há quem "possa" viajar, mas não tenha dinheiro para comprar os bilhetes. Há quem "possa" falar, mas ninguém a ouve. Temos de perceber bem o conceito de que a liberdade, às vezes, é muito estranha e muito difícil de entender. 

 

Tu trabalhas muito, sobretudo na época de verão. 

 

Trabalho imenso, dizer "muito" é pouco. Hoje é terça-feira: tive um concerto na sexta, no sábado fui para os Açores dar outro concerto, voltei domingo de manhã e tive concerto à noite, em São Bartolomeu de Messines. Ontem tive de tratar das coisas todas e pôr o carro na oficina; aquelas coisas do dia-a-dia que nós temos de fazer, e que eu tenho um dia por mês para fazer, foram ontem. E ainda fui jogar à bola, que também é aquilo que me dá algum alento para dar continuidade à minha forma física. 

 

Hoje, tenho concerto às 21h30 em Belém, tenho concerto à meia-noite em Campolide, amanhã de manhã vou apanhar o avião outra vez para os Açores, canto à noite nos Açores, depois volto porque tenho concerto em Sacavém. Noutro dia tenho dois concertos, noutro três concertos... 

 

Como é que há voz para isso tudo? 

 

Não beber álcool, ter muito cuidado com a alimentação, não exceder, enfim... Por exemplo, não ir ao futebol, para não dar gritos nem chamar nomes ao árbitro [risos]. Tenho de me controlar, beber muita água, hidratar-me. As cordas vocais precisam de estar hidratadas. 

 

Este livro não fala só de concertos. Há uma secção de fotografias com amigos, em criança, com a tua família. Achei engraçado que o Taskmaster ocupasse uma grande parte dessa secção. 

 

Taskmaster é aquele programa que tem tudo a ver comigo. Porque tu ali só podes ser autêntico, não podes fingir. As provas são apresentadas e tens de as fazer ali; não há fingimentos, não há aquela coisa de "vamos gravar, se não correr bem, gravamos outra vez". Esquece! Aquilo tem de ser, e o que saiu, saiu. Tens de ter um raciocínio rápido, que é uma coisa que, felizmente, eu ainda tenho, não sei até quando... 

 

E as crianças adoram aquele programa. As crianças, com aquelas maluqueiras que eu faço, ficam doidas. Tenho agora muitos fãs de 4, 5, 6, 7 anos de idade, que, curiosamente, já gostavam das músicas; há qualquer coisa nas minhas canções que chega às crianças. E isso, para mim, é tão bom. É a melhor coisa que pode acontecer. Porque as crianças são honestas: não têm ainda o tique da inveja, o tique do preconceito. Uma pessoa é o que é. E eu sou o que sou. Acho que sou uma criança, nesse aspecto, por isso é que elas gostam de mim. 

 

Por falar em concertos, em 2027 há dois concertos especiais já agendados, para celebrar os 50 anos de carreira. Primeiro no Campo Pequeno, em Lisboa, a 24 de abril, seguindo-se a Super Bock Arena, no Porto, a 30 de abril. O que é que estás a preparar? 

 

Vai ser um ano importantíssimo. Quem ler o livro saberá que subi ao palco bastante miúdo. Não são 50 anos de carreira, até são mais, para aí 52, mas pronto, arredondámos o número. Subi ao palco pela primeira vez a sério com 11 anos e tenho 63... 

 

Antigamente, dizia que a minha carreira só contava a partir do momento em que comecei a viver exclusivamente da música. Mas a verdade é que comecei a ter público aos 11 anos, quando fiz teatro. As pessoas adoravam, porque tinha uma voz muito aguda, muito forte. Fiz teatro dos 11 aos 15 anos, e essa época é marcante na minha vida. Aprendi imenso. Então, tenho de considerar que foi a partir daí que a minha carreira começou. 

 

Vão ser dois grandes concertos, um no Campo Pequeno, outro na Super Bock Arena, Pavilhão Rosa Mota. Tenho de dizer sempre o nome da minha querida Rosinha, com a qual tenho uma fotografia no livro. Provavelmente, a seguir iremos fazer algumas capitais de distrito, porque acho que as pessoas merecem. A seguir a Lisboa e ao Porto, irei fazer, provavelmente, em Setúbal, mas não posso dizer nada sobre isso. 

 

O concerto em Lisboa será a 24 de abril. Não é uma data aleatória... 

 

Não. Pensou-se, inicialmente, em abril porque é o mês da liberdade, e nós ainda temos a liberdade de fazer o concerto dos 50 anos; não sabemos até quando esta liberdade pode durar... 

 

Mas é uma data muito importante. Em 1974, na madrugada de 24 para 25 de abril, eu estava com o meu pai a ouvir rádio. Nós, basicamente, não dormimos. E eu perguntava ao meu pai o que é que se estava a passar, e ele ia explicando: "A partir de hoje podemos falar." Portanto, se podemos falar, também podemos cantar. 

 

As pessoas não fazem ideia da importância do 25 de Abril. Eu hoje falo para pessoas que nunca viveram antes de 25 de Abril de 1974. As pessoas não fazem ideia da importância que teve: a emancipação da mulher, os mesmos direitos, o divórcio... O meu pai era casado com uma senhora, a mãe do meu irmão, há não sei quantos anos, e conseguiu divorciar-se para poder casar com a minha mãe. A Guerra Colonial: as mães deixarem os filhos ir para a guerra e estes voltarem sem uma perna ou com problemas psicológicos. 

Claro que houve ali muita coisa mal feita. Quer dizer, tu tiras um pássaro da jaula e, de repente, libertas o pássaro; e ele, coitado, não sabe o que é que há de fazer e comete muitas asneiras. Direi que a democracia começou a partir de 1977, 1978, quando as pessoas começam a perceber, a diferenciar a liberdade da libertinagem, a diferenciar que tu tens liberdade para fazer tudo e não para poderes passar por cima dos outros. Tens de ter algum respeito e criar regras, e em 1975 houve poucas regras. Foi muito complicado. 

 

Mas as pessoas têm de perceber que, antes do 25 de Abril, quando se diz que não havia corrupção, dá-me uma vontade de rir enorme. Porque era só para meia dúzia. É verem o Ballet Rose e perceberem, por exemplo; é uma série muito boa, do Francisco Moita Flores [e Felícia Cabrita, de 1997]. Nós podemos ler muito sobre o passado. Percebemos que não havia água nem luz na grande maioria das aldeias, que havia muita iliteracia, que as pessoas eram analfabetas, que não tinham escola, que a escola não era obrigatória. Trabalho infantil, pedofilia a montes... 

 

Não podia cantar o que canto, nem sequer podia cantar a palavra "liberdade". Não era cantável. E era muito triste. Cada vez que havia uma canção, iam lá os senhores da censura dizer: "Isto não passa", e a canção ia para o lado. A Simone conseguiu dizer "quem faz um filho, fá-lo por gosto", com palavras do Ary dos Santos; até admira como é que o lápis azul deixou passar. Tal como Tourada, também do Ary dos Santos, uma letra fantástica, que descrevia exatamente o que era a nossa sociedade, como se fosse uma tourada. 

 

O que é que andas a ouvir? 

 

Costumo ouvir aquilo que me leva à minha juventude. Pink FloydQueen... Gosto muito da voz do Michael Bolton, por exemplo, e da do Joe Cocker. De vez em quando, ouço Frank Sinatra, até para relaxar. Ou, então, a Antena 2, porque também se ouvem coisas muito interessantes, que nos levam a outras dimensões musicais. 

 

Quanto à música portuguesa, ouço muita coisa nova que me vão enviando e acho muita piada. Nós temos muito talento em Portugal ao nível da música pop, leia-se "popular". Não quer dizer que tenha de ser um sol-e-dó ou que tenha de ser um malhão; envolve tudo aquilo que as pessoas ouvem e a que acham piada, dos Xutos & Pontapés à Rosinha

 

Gosto muito, muito mesmo, da música latino-americana romântica, nomeadamente de um cantor chamado Luís Miguel, de quem sou fã porque canta muito bem, desde coisas mais antigas, com arranjos fantásticos, orquestrais, até coisas originais. 

 

Por Rita Sousa Vieira 

 

*A versão vídeo desta entrevista pode ser vista no YouTube da FNAC. 

 

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