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O QUE TENS DE SABER
Kiran Desai venceu o Booker Prize em 2006, com A Herança do Vazio, tornando-se, aos 35 anos, a mulher mais jovem a receber o prémio, à data.
A Solidão de Sonia e Sunny é o seu terceiro romance e foi finalista do Booker Prize e do prémio Kirkus, tendo sido considerado um dos melhores livros do ano por publicações como o The New York Times, o Financial Times e a Time.
O romance demorou quase 20 anos a ganhar forma. A autora explica como foi construindo a narrativa a partir dos ecos entre três gerações, as viagens entre a Índia e o Ocidente e as diferentes formas de compreender o amor e a solidão.
A história de amor é também uma reflexão sobre a sociedade. Na entrevista, Kiran Desai aborda as tensões entre o indivíduo e a família, o impacto da política nas relações pessoais e a responsabilidade de representar a Índia para lá dos estereótipos.

Passaste quase 20 anos a escrever A Solidão de Sonia e Sunny. Como mudou a tua relação com o romance ao longo desse tempo? E o que passaste a compreender sobre as personagens que talvez não conseguisses ver no início?
Julgo que uma das grandes vantagens em se ser uma escritora de meia-idade, e em escrever um romance ao longo de 20 anos, é que começas a ver ecos, notas, repetições, tanto histórica ou politicamente mas também dentro de uma família. E isso é um assunto real para um romancista: traçar estas correntes, estas temáticas, construir um livro de acordo com esses mesmos ecos.
Na verdade, foi assim que o livro foi construído, através das viagens entre a Índia e o Ocidente, ao longo de três gerações. Avôs que teriam nascido na Índia Britânica ou, dado que estou em Lisboa, na Índia Portuguesa, em Goa. A acompanhar os pais, a acompanhar a minha geração de indianos muito cosmopolitas, do tipo que vejo aqui em Lisboa, a fazerem férias juntos, casais a encontrarem-se em Lisboa, de forma a perceber o quão gostam um do outro. No coração do meu romance está a maneira como três gerações pensam no amor, na solidão, através das geografias e da história.
Venceste o Booker Prize em 2006, tornando-te, na altura, a mais jovem escritora a receber este prémio. Como mudou a relação com a escrita depois desse reconhecimento?
Sucederam-se algumas coisas. Uma, adotei uma vida muito privada, porque é maravilhoso, enquanto artista, escrever sem teres olhos em cima de ti, escrever sem te sentires autoconsciente. Creio que todos os escritores e todos os artistas querem desaparecer no mundo da sua arte. Querem viver completamente dentro de um livro. E isso também é válido para um leitor, claro, mas é difícil de se fazer se se for demasiado autoconsciente. Pelo que me resguardei, e acho até que desapareci a um nível que não esperava.
Até que ponto o olhar dos leitores e as expetativas que criam em torno de uma obra podem interferir na liberdade de escrever o livro seguinte?
Ter tornado a minha vida mais privada também me deu coisas maravilhosas. Ganhei uma geografia maior, onde escrever. Levou-me a sítios e permitiu-me estar em sítios nos quais nunca estaria de outra forma. Pude passar tempo em Itália. Já ia ao México em trabalho, mas se quisesse passar algum tempo em Goa, podia fazê-lo.
Dado que a Europa é mais difícil de alcançar quando se é uma escritora indiana, considero-me uma sortuda. Pude entrar em salas de estar nas quais, antes, nunca entraria. Pude conhecer pessoas que nunca conheceria. Ou seja: tive uma maior paisagem social, um mundo maior a partir do qual escrever.
Partindo de um país como a Índia, vislumbramos duas partes muito distintas do mundo, no que toca a questões de classe, de estruturas de poder. Essas coisas tornam-se muito importantes, para um escritor. O que também me deu, e que foi muito interessante, foi a confiança e a coragem de não escrever um livro muito politizado sobre a migração. Pude escrever sobre o amor, numa esfera muito mais privada. E isso é muito mais difícil, porque te faz sentir extremamente vulnerável. Escrever sobre uma história de amor não resolvida é bastante duro.
Descreveste o livro como algo que começou com uma ideia de uma história de amor contemporânea, que não era necessariamente romântica. O que te despontou o interesse por essa premissa, e o que te permitiu explorar além do romance em si?
Um romance é normalmente uma história de amor que supera todas as divisões. De raça, de religião, de classe. Mas o que me interessava era olhar para o outro lado, na forma como estas divisões afetam as histórias de amor e as destroem — porque o fazem constantemente. São divisões demasiado profundas para que apenas dois humanos ou duas almas as superem, e muitos de nós passam por elas. Foi isso que quis dizer quando disse que esta história de amor não era necessariamente romântica.
No entanto, achei que esta história de amor cosmopolita, esta versão indiana dessa história de amor, ainda não tinha sido escrita com foco numa pessoa que navega por aquilo a que chamamos de modernidade, e com foco na forma como a modernidade nos afeta, no que ao amor e à solidão diz respeito. Com foco na primeira geração a fazê-lo. Na primeira geração que, não estando casada, passa férias na Europa.
Penso muito nisso enquanto mulher. Esta é a primeira geração de mulheres, de todo o mundo, que passam férias sozinhas. Encontro-me muitas vezes com algumas dessas mulheres. E penso em como ir de férias sozinha seria extremamente difícil para uma mulher de uma outra geração. É uma ação extraordinária. Também pensei no casal que o faz, mas que tem um pensamento sobre o amor e a solidão, sobre a pertença e o indivíduo, ainda muito tradicional e antiquado, que é afetado pelas histórias das suas famílias.
Estamos habituados a histórias de amor em que duas pessoas conseguem ultrapassar as diferenças que as separam. Tu quiseste olhar para aquilo que acontece quando essas diferenças se revelam mais profundas do que o amor.
Creio que, em algumas culturas, o sentimento de pertença é mais importante, ao passo que noutras é o indivíduo o mais importante. Não se trata, necessariamente, de um choque civilizacional entre o mundo Oriental e o Ocidental; é algo o qual negociamos todos connosco, de forma bastante profunda. Numa cultura onde a pertença é mais importante, nunca se está, fisicamente, sozinho. Pode-se estar fortemente enraizado numa comunidade, numa família, num tecido social. Muitas vezes, há um sentimento de identidade, uma compreensão do que se é, que é imposto a partir de fora. Não se é permitido ser o que se quer ser ou experimentar versões diferentes de nós próprios. Sabes quem és, porque a tua família e o teu país assim to ditam.
Há uma grande liberdade em poder experimentar e verificar se, na verdade, se é uma pessoa completamente distinta daquela que cresceu de certa maneira. Em compreender que talvez possas não ser a pessoa que dizem que és. Quando visitei os Estados Unidos, o que mais me impressionou foi a experiência de me encontrar fisicamente sozinha pela primeira vez. Não sabia como fazer as refeições. Ia ao cinema, acordava, adormecia sozinha. Fazia tudo sozinha. Foi de uma liberdade extrema.
Ao mesmo tempo, conhecia-me de uma forma que não seria possível estando rodeada de gente. Passei de uma solidão dolorosa para uma solidão artística. Foi aí que comecei a escrever. Estar sozinha deu-me tudo isso. Mas também nos devemos questionar sobre a solidão que surge desta ideia Ocidental de se ser um indivíduo.
A Sonia preocupa-se com a forma como a Índia é representada aos olhos do Ocidente e com o risco de reproduzir estereótipos, mesmo quando procura questioná-los. Como lidaste com essa tensão ao escrever o romance?
Exato. Ela preocupa-se em cair nesses estereótipos especialmente enquanto jovem escritora. Acho que é verdade dizer-se que há uma preocupação em relação à forma como a Índia é representada na esfera internacional porque, historicamente, tem sido sub-representada. O que sai nos jornais é uma história entre muitas, e não a totalidade da experiência humana.
Creio que há um certo apetite por uma Índia exótica, que é saciada por uma economia básica de oferta e procura, no que toca aos livros que têm sido publicados: as épocas das monções, os pavões, os condimentos, os casamentos combinados. Mas e as histórias comuns, a corrupção dos militares, da polícia, do governo? E as lutas diárias da população, que nada têm de exotismo? Aliás, "exótico" para quem? A comida indiana sempre foi condimentada, sempre houve monções, sempre houve pavões, a maioria dos casamentos é combinada. Então, como escrever sobre um país como a Índia?
No romance, as mudanças políticas da Índia cruzam-se com as histórias familiares e as vidas privadas das personagens. Como procuraste mostrar a forma como a História e a política transformam as relações pessoais e a própria ideia de pertença?
Hoje em dia, leio muitos romances que não mencionam política de todo. Isso surpreende-me. Compreendo essa vontade porque, de certa forma, torna-os intemporais. No entanto, as nossas vidas são profunda, inteira e dramaticamente alteradas por aquilo que, politicamente, se passa no mundo. Abro a minha janela no meu bairro em Nova Iorque e o que quer que esteja nos jornais está diante dos meus olhos.
O que se passa na Índia tem traumatizado as minorias. Afeta também a minha vida, porque tenho amigos que pertencem a minorias; as amizades mudam. Isso provoca uma enorme tristeza. O meu irmão converteu-se ao Cristianismo. Que significado terá isso para a família, numa altura em que os cristãos são perseguidos na Índia? Sinto que tanto ele como a esposa são corajosos na forma como praticam a sua fé, mas preocupo-me.
Parte deste livro é sobre voltar atrás no tempo, para falar da forma como as nossas famílias foram moldadas pelo que aconteceu histórica e politicamente no mundo. O meu avô abandonou a sua aldeia na costa oeste da Índia, aprendeu o dicionário inglês na sua totalidade e viajou para Inglaterra. Mais tarde, tornou-se juiz numa Índia independente. Teve de dissolver a sua noção de si mesmo de forma a poder pertencer a estes dois mundos, completamente distintos. Creio que é esse o cerne do meu trabalho: a forma como a política nos influencia, como a história nos influencia e altera radicalmente a forma como vivemos.
A ficção pode chegar a lugares onde nem o jornalismo consegue entrar, como as conversas privadas e os preconceitos que se manifestam longe do olhar dos outros. O que permite a literatura revelar sobre a discriminação que de outra forma permaneceria escondida?
Acredito que é esse o trabalho de um escritor, porque nenhum jornalista poderá chegar ao nível de vergonha e de medo que as pessoas sentem, nem o melhor dos jornalistas. No que toca à discriminação, quem é que te vai contar aquilo que é dito por uma família, à mesa, quando não estão na presença de estranhos? Não sei o que é que um republicano no Midwest diz sobre mim, as palavras exatas que ele usa; nesse aspeto, é necessário um romancista.
Falamos muito de literatura woke, da ansiedade que existe por não se querer ofender certos grupos devido ao que se escreve, editores e editorias preocupadas por poderem gerar controvérsia. Mas, de outro modo, como saberemos... Claro que acho que é uma linha muito ténue — é algo no qual se tem que pensar. Mas também é verdade. De que outra forma se vai escrever sobre o que as pessoas dizem?
Foi por isso que incluí uma personagem chamada Babita, a mãe do Sunny, que é incrivelmente racista. Falamos muito do racismo de brancos contra negros e mulatos. Mas e o racismo de mulatos contra negros ou outros mulatos? Todas as nacionalidades e grupos raciais são racistas, e têm palavras e linguagem que descrevem esse racismo. Não falamos muito sobre isso e sobre hierarquias, sobre as pessoas que são colocadas na dianteira da raça e da classe.
O romance atravessa a Índia e os Estados Unidos, dois lugares que conheces de formas diferentes. Como é que viver entre estes dois mundos moldou a tua compreensão do que significa pertencer a um lugar?
Durante muito tempo, quando era uma jovem escritora, fiquei muito preocupada por poder perder a Índia, o meu melhor tema. Digo que o é porque, independentemente de onde eu esteja, das histórias que me sejam disponibilizadas, a Índia será sempre aquele lugar onde eu tenho um conhecimento da política e da profundidade das histórias familiares que nunca poderei ter nos Estados Unidos.
Porém, depois de trabalhar desta forma em dois romances, comecei a compreender que estar entre dois lugares é uma sensação fantástica, impele a criatividade. Apesar de não se conhecer a história por inteiro; nunca mais situarei uma história num lugar, nunca mais conhecerei um lugar. Sinto como se já não conhecesse a Índia e todas as suas estações. Há intervalos que não preencho, pelo que a minha experiência está sempre em pedaços. Entendi que o meu trabalho passa por colar várias peças diferentes, e o intervalo é um lugar fascinante porque é onde as pessoas mudam de facto e se tornam criaturas distintas. É onde novas histórias tomam forma. As histórias que começam de uma forma tornam-se em algo completamente diferente.
Foi aí que coloquei a Sonia e o Sunny: entre países, entre nações, entre raças, entre géneros. E então comecei a pensar em como escrever um livro sobre estas divisões, como escrever sobre personagens que sentem que já não há uma única história que descreva toda a sua experiência, que já não há um rumo para as suas vidas. Essas foram as questões que me interessaram enquanto artista, encarar esses espaços como lugares criativos. A ideia de não pertencer, que implica solidão, é a temática em torno da Sonia e do Sunny. Falo dela de muitas formas, mas sobretudo da sua escolha, num mundo onde nos dizem constantemente a quem pertencer, num mundo de nacionalismos, patriotismos. Dizer que não se quer pertencer é, a meu ver e por vezes, uma escolha ética; aceitar essa não-pertença pode ser uma escolha ética, perder um sentimento de pertença pode ser uma escolha ética.

O romance decorre nos anos 90 e no início do novo milénio, quando comunicar à distância exigia tempo e paciência. De que forma esse contexto te permitiu explorar a intimidade e a solidão das personagens de maneira diferente daquela que seria possível hoje?
Permitiu-me escrever sobre um período — o dos meus avôs — em que havia muito pouca conexão assim que se saía de casa, até ao meu tempo de estudante nos Estados Unidos, nos anos 90. Ainda tínhamos de escrever cartas; não era fácil fazer telefonemas a partir da Índia. Quando os teus pais te diziam que iam ligar, tinhas de esperar, e o telefonema só podia durar dois minutos porque era muito caro. Não podias ir a casa todos os anos.
A história do Sunny e da Sonia também se situa logo nos primórdios da Internet, em que era possível ir a um cibercafé e enviar mensagens, mas a conexão não era instantânea. Isso é muito interessante. Por vezes penso ter escolhido este período para que não tivesse de abordar o mundo da conexão instantânea, que alteraria radicalmente o romance. Assim que se tem um telemóvel e mensagens a serem enviadas de parte a parte, o livro torna-se muito diferente. Mas, estar sempre em contacto não nos torna menos sós.
Pode uma história de amor revelar algo sobre a sociedade que um romance centrado explicitamente na política não consegue? O que te permite explorar, através das relações e dos gestos quotidianos, a forma como a política transforma a vida das pessoas?
Este livro não se focou primeiramente na política, mas no amor e na solidão. Focar-me na forma como as pessoas falam umas com as outras, como comem umas com as outras, como regressam a casa e veem os pais depois de terem vivido no estrangeiro... Essas coisas muito ternas e dolorosas dizem-nos mais sobre o mundo que ler um jornal ou discutir política. Como é que as pessoas nos Estados Unidos começaram a viver de forma diferente com a presidência de Donald Trump? Que forma tem o medo de uma minoria? O que andam as pessoas a dizer aos seus vizinhos, aos amigos, dos seus cônjuges? Tudo isto expõe o mundo político.
O que aconteceu nos Estados Unidos pós-11 de Setembro, por todo o mundo, foi algo que achei interessante de ser discutido. Hoj vemos no que resultou, em como as grandes guerras pervertem o mais pequeno dos lugares. Como é que esta guerra gigantesca afetou a Índia? Porque sabes que afetou. O 11 de Setembro promoveu uma alteração na política indiana.
O que está a acontecer em Israel e na Palestina está a alterar tudo na vida dos indianos, na política do país. Hoje, a Índia fabrica drones que serão usados por Israel. Há indianos a serem enviados para Israel em trabalho. Falamos da importância da política, mas de que forma afeta ela uma história de amor? De que forma afeta quem sai de sua casa?
Já disseste que, enquanto escrevias A Solidão de Sonia e Sunny, encontravas em livros como O Castelo, de Franz Kafka, e Terra de Neve, de Yasunari Kawabata, ecos inesperados do teu próprio romance. O que reconheceste nessas obras que te ajudou a compreender melhor as tuas personagens e os temas que estavas a explorar?
Foi muito estranho. Cada livro que retirava da minha estante parecia ter algo a dizer sobre o meu... E eu não sabia se era o universo quem mos colocava nas mãos, ou se isso faz parte do trabalho de escrever um romance: por instinto, retiras algo da estante que te diz algo, vindo de outra cultura, de outro país.
No caso de Kafka, creio que foi a primeira frase. Há um viajante que é anónimo, cujo nome nunca sabemos, que se encontra numa ponte. Ele olha para cima e vê um redemoinho de neve e um castelo invisível, que ele sabe ou pensa que ali está, mas o qual não consegue ver verdadeiramente. É uma boa metáfora para o ato de escrever um romance. Em primeira instância, pensas em ti como um viajante, como um artista, como um escritor. Um escritor é um viajante. Embarcas numa viagem, e sentes que há algo ali, mas não sabes se lá chegarás. Não tens a certeza do seu formato, só consegues vislumbrar o redemoinho.
Mas também é um livro em que a personagem não tem nome. É um romance sobre alienação profunda e amor não correspondido, sobre um viajante que não pertence ao castelo ou à aldeia. E que não compreende o porquê de não pertencer, de não o admitirem. O livro ficou inacabado; creio que o que Kafka nos diz é que ele só seria admitido após a morte.
Kafka escreveu antes do Holocausto e morreu depois dele. Mas sinto que esse é um livro sobre essa alienação de não pertencer. É um livro muito interessante de se ler se se for um emigrante ou imigrante. Não compreendes o porquê de não pertenceres, não compreendes o que as pessoas dizem sobre ti, sobre quem és. Continuas a tentar, navegas pelo burocrático mundo da pertença.
Terra de Neve é um livro onde o mistério central nunca é revelado. Não sabes que relações têm as personagens umas com as outras. Existe um homem que chega à Terra de Neve, novamente, como Kafka. Chega vindo de um túnel, o que a torna, imediatamente, num lugar mágico, longe da sua paisagem citadina. Viaja até ao Japão rural, como se estivesse noutro período temporal, enterrado em neve, e conhece uma jovem geisha da aldeia. Mas há outra mulher que lhe desperta o interesse, e não conhecemos a relação entre os três. No entanto, estão ligados.
Quando Kawabata discutiu o seu trabalho, afirmou ser fortemente influenciado pelo Budismo Zen e pelos princípios do haiku. Captar as ironias, as divisões, as contradições, trazer à baila as contradições entre as coisas que não deveriam poder existir juntas, coisas que se cancelam uma à outra, coisas que são dissonantes mas que criam uma conexão através do mundo natural. O Budismo e o Hinduísmo, como filosofias, estão interligados. Estas filosofias do ser, da identidade, são algo que me interessou quando estava a escrever sobre a Sonia e o Sunny, por serem filosofias não-Ocidentais de identidade, fluxo, movimento. A ideia de o movimento e a fugacidade serem uma parte profunda da existência humana... Essas ideias Orientais do vazio, e as ideias Ocidentais do vazio niilista, estarem ligadas à compreensão da solidão, tornaram-se importantes para mim.
Que estás a ler?
Leio muito os poemas do Fernando Pessoa. Julgo que há um museu a ele dedicado aqui em Lisboa, tenho de lá ir. Tenho lido alguns livros antigos: A Gente de July, de Nadine Gordimer, que é um livro fabuloso. É sobre o apartheid, mas ainda soa muito relevante no que toca às relações entre raças. Na viagem para Lisboa, li uma coleção da obra de Joseph Conrad, que inclui Coração das Trevas ou Juventude. É um escritor que, numa época distinta, escreveu sobre todo um globo. A sua é uma literatura global. Creio que ainda não a li suficientemente.
Por Rita Sousa Vieira