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Há vinte anos que os Novos Talentos FNAC fazem uma coisa simples e, por isso mesmo, difícil: parar o tempo. A cada edição, uma seleção de músicos, compositores e projetos emergentes fica registada num disco que acaba por ser mais do que uma coleção de canções. É um retrato de um momento, com as suas linguagens, inquietações e descobertas.
Henrique Amaro escreve, no texto que acompanha este 20.º volume, que a coleção nasceu e cresceu no meio de profundas transformações na forma de produzir e ouvir música. Em duas décadas, foram centenas os músicos cartografados. O resultado é um arquivo em movimento da música feita em Portugal, onde convivem modelos tradicionais e sonoridades que, à data, ainda não tinham nome. O novo volume prolonga esse gesto: fixa o que está a acontecer agora, antes que o presente se torne memória.
E o presente é difícil de arrumar. Há rap, rock, eletrónica, jazz, folk, reggae, música urbana e composição contemporânea. Há artistas que vêm do teatro, do cinema ou das artes visuais. Há quem procure a tradição e quem a transforme. Mais do que uma tendência, o que atravessa estas 31 faixas é a vontade de descobrir uma linguagem própria.

Há geografias que se repetem. Barcelos é uma delas. Não por existir uma sonoridade comum, mas porque vários projetos desta edição partem dali para lugares bastante diferentes. Nos PLAKA, a operação acontece através de outras geografias. “Ode Ye Owu” passa da psicadelia ao afrobeat, juntando ritmos de diferentes latitudes à herança do rock e do jazz. Já os Criatura-dança transformam o desconforto de estar “fora do lugar” numa mistura de pop, rock e eletrónica em “Monstro”. Também dali vem Jorge Miranda Lucas, o Fauxquaker, que encontrou na animação 3D e na ilustração uma forma de juntar imagem e som.
Ainda a Norte, os Glass Glass partem das paisagens e memórias de duas aldeias onde Joana Brito e Tiago Sampaio cresceram para construir “3 Summers Ago”, uma faixa que cruza rock, psicadelismo, pop e eletrónica num formato reduzido ao diálogo entre guitarra elétrica e drum machine.
Dos Açores chega Espama Trincana, que leva o sotaque micaelense e referências culturais de São Miguel para a música urbana. “Não Entendo” faz parte de um percurso que mistura rap, R&B e influências latinas sem deixar para trás a identidade açoriana.
O mapa alarga-se com Neil Fernandes, nascido em Goa e a viver em Portugal, que junta inglês, português e concani em “The Nerve”. A canção reflete a experiência de imigração e a procura de uma identidade que não cabe numa só língua.
Também há histórias que atravessam continentes. Nascido em São Paulo e residente em Lisboa, Dionys aproxima a música brasileira de sintetizadores e ritmos contemporâneos em “Anjo Moreno”. Rislene, que divide a vida entre Cabo Verde e Paris, regressa à memória familiar em “Nha Kubiku”, recuperando um refrão transmitido entre gerações e cruzando elementos tradicionais cabo-verdianos com drill. E devlloz leva para “I Wanted More” uma linguagem construída entre trap, rock alternativo e eletrónica, com o imaginário gótico de Vampyre’s Romance a funcionar como metáfora para a experiência de ser outsider.
A tradição é uma das linhas fortes desta compilação, mas raramente aparece como coisa intocável. Os Baby Suicida fazem disso uma espécie de princípio. Francisco Castro, Francisco Fernandes e João Sanches procuram recuperar o folclore português para o aproximar do quotidiano, com adufes e cavaquinhos ao lado de referências como Vitorino, Isabel Silvestre, Maria Reis ou Hinds.
Jahmar Stone parte do reggae para chegar ao dancehall, à afromusic e ao R&B em “Love is Law”. E Humberto cruza indie-folk, pop, música tradicional e fado em “Creme”, usando o absurdo do quotidiano para falar tanto de relações como de política.
A tradição também pode ser familiar. “Nha Kubiku” nasceu de uma história contada pelo avô de Rislene à sua mãe, que chegou à artista através de um refrão de infância. A casa do título é simultaneamente lugar físico, memória e espaço de resistência.
Nem todos estes projetos começaram na música. Alguns trazem para ela outras linguagens. Sarah Negra é talvez o exemplo mais evidente: depois de mais de uma década ligada às artes performativas, Sara Ribeiro transporta para a canção uma relação física com a palavra, o corpo e o palco. “Eu Só Quero a Paz” integra a nova fase que culmina em Amor e Magia, onde música, poesia, ritual, política e espiritualidade se cruzam.
Também a imagem ocupa um lugar central no trabalho de Fauxquaker. Depois de estudar cinema, Jorge Miranda Lucas encontrou na animação 3D e na ilustração uma forma de construir universos onde imagem e som partilham a mesma origem.
Inês Condeço chega de um percurso entre o piano clássico e a arte sonora. Em The Space Between Birds, a faixa “the space between” coloca voz, piano e sintetizadores num território ambient e experimental, a partir de uma reflexão sobre a esperança num mundo cada vez mais veloz e desumanizado. O disco prolonga o caminho iniciado em Lacuna, distinguido pela Blitz/Expresso como um dos 50 melhores álbuns nacionais de 2024.
Muitas das faixas desta edição partem de lugares interiores. A solidão, a memória, o desejo, a vulnerabilidade e as relações aparecem repetidamente, mas em linguagens muito diferentes. “Postal em Branco”, de Marta Lima, transforma a dificuldade de dizer o que se sente na imagem de uma carta que nunca chega a ser enviada. “A Noite”, de Ricardo Reis Soares, encontra a solidão no silêncio da noite. E “Bright Eyes”, de Rachel Bangs, aproxima pós-punk e shoegaze para falar da dificuldade de escapar ao passado.
Em “Para Ti”, MAFALDA continua a narrativa iniciada com “Não Há Nada”, explorando vulnerabilidade, relações afetivas e confronto com o passado. ICARO escolhe outro caminho para falar de desilusão: “Não Disseste Nada” cruza romantismo, humor, jogos de palavras e referências à cultura popular.
Há ainda quem transforme a inquietação numa imagem mais estranha. “Monstro”, dos Criatura-dança, é um monólogo fragmentado sobre erro e imperfeição. Em “Baby Me”, Carolina Cury parte de um sonho em que percebe que o bebé que segura é ela própria, transformando essa imagem numa reflexão sobre liberdade, juventude e cuidado.
O percurso de Tomé Silva já vinha sendo construído nos terrenos underground, entre a produção e o trabalho com outros músicos. Produziu Suspiro, de Maria Reis, escolhido pela BLITZ como um dos melhores álbuns portugueses de 2024, e integra a banda que acompanha Panda Bear ao vivo, tendo participado na sua atuação no Tiny Desk Concert. Foi precisamente durante uma digressão com o músico norte-americano que começou a ganhar forma a ideia de fazer o seu próprio disco de canções. “Cosmos” abre Na Sobreda, a sua estreia a solo na Cafetra, onde pop, folk, eletrónica e experimentalismo convivem.
O percurso de TOTA parte de outro lugar. Em “A Dor Que Pensar”, trabalha a voz, a repetição e o silêncio a partir de uma formação em composição musical e de uma prática situada entre a canção e a música contemporânea. O díptico completa-se com “Zé Ninguém”, onde a abordagem se torna mais rítmica e cruza elementos acústicos e digitais.
MELOHMY inscreve esse processo de aprendizagem em Euphoria, um EP construído ao longo de quatro anos, à medida que desenvolvia novas ferramentas de composição e produção. “At The Backdoor” pertence a esse percurso e junta diferentes momentos da sua evolução enquanto artista.
Parte da vitalidade desta edição está na forma como os artistas trabalham uns com os outros. “Ressaca”, de Bapcat & XTINTO, nasceu nas Bapcave Sessions, onde cada episódio transforma o encontro entre artistas num processo de criação. A canção fala de excesso, memórias difusas e das consequências do dia seguinte.
“Sucesso” junta Tonya Nina & Fausto Lobo, dois artistas ligados à eletrónica, ao sound design e à experimentação sonora. Em “Under The City Lights”, Santi Cunha & YnIza cruzam voz, produção e performance. Leonor Arnaut constrói “Avé, Raposa” com Miguel Nicolau, enquanto o trabalho de Tomé Silva em Na Sobreda se desenvolve em diálogo com Maria Reis.
A colaboração também aparece no percurso de Soma Please. O duo luso-britânico, formado por Nuno Bracourt e Rob Williamson, chamou Julien Barbagallo, conhecido pelo trabalho com os Tame Impala, para “I’m A Fan”, uma canção sobre a fronteira entre admiração e obsessão.
E nem sempre é preciso haver dois nomes no título para a música resultar de um encontro. Em “Morning Routine”, os Nite Chimp transformam um projeto inicialmente solitário de Csaba Simon numa banda luso-húngara, depois de a viagem do artista até Lisboa alterar a própria forma do projeto. Rival Clubs, por seu lado, juntaram músicos com percursos ligados a bandas como Gypos e Cave Story para construir uma linguagem entre pós-punk, new wave e eletrónica em “Shame As It Ever Was”.
HeyRicoo acrescenta outra camada ao mapa urbano com “Passo a Passo”, onde o trap alternativo e o novo kuduro servem para falar de trauma, ambição e alienação social.
É difícil ouvir estas 31 faixas e encontrar uma única definição para a música portuguesa de 2026. Talvez porque não seja essa a função desta compilação. Como escreve Henrique Amaro: “O melhor de tudo é que ainda não acabou. E todos os anos a folha em branco volta a encher-se de vontades e ideias que desafiam a distopia reinante num magnifico movimento perpétuo.”
ALINHAMENTO:
CD1
1. Espama Trincana, “Não Entendo”
2. ICARO, “Não Disseste Nada”
3. Marta Lima, “Postal em Branco”
4. MELOHMY, “At The Backdoor”
5. Leonor Arnaut, “Avé, Raposa”
6. Tomé Silva, “Cosmos”
7. Glass Glass, “3 Summers Ago”
8. Dionys, “Anjo Moreno”
9. Neil Fernandes, “The Nerve”
10. PLAKA, “Ode Ye Owu”
11. Nite Chimp, “Morning Routine”
12. Santi Cunha & YnIza, “Under The City Lights”
13. Rival Clubs, “Shame As It Ever Was”
14. Rachel Bangs, “Bright Eyes”
15. devlloz, “I Wanted More”
CD2
16. Rislene, “Nha Kubiku”
17. Carolina Cury, “Baby Me”
18. Bapcat & XTINTO, “Ressaca”
19. HeyRicoo, “Passo a Passo”
20. Jahmar Stone, “Love is Law”
21. Soma Please, “I’m A Fan”
22. Criatura-dança, “Monstro”
23. Humberto, “Creme”
24. TOTA, “A Dor Que Pensar”
25. Baby Suicida, “Mães de Bragança”
26. Sarah Negra, “Eu Só Quero a Paz”
27. Inês Condeço, “the space between”
28. Ricardo Reis Soares, “A Noite”
29. MAFALDA, “Para Ti”
30. Fauxquaker, “The Needle Around Your Wrist”
31. Tonya Nina & Fausto Lobo, “Sucesso”
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