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No festival literário Correntes d’Escritas, que todos os anos reúne escritores e leitores na Póvoa de Varzim, cada mesa nasce de um tema.
Aqui não há mesa nem palco. Há apenas uma pergunta. E cinco escritores que passaram pela 27.ª edição do festival aceitaram respondê-la. Porque um livro nasce onde menos se espera.

Eu acho que o livro nasce de muitas maneiras.
Ele nasce de uma imagem que a gente observa, de algo inusitado, algo que às vezes ninguém percebeu — e quem está ali, o autor, vê. Aquilo vira um gatilho para a sua imaginação. Mas um livro pode nascer de uma palavra, de uma canção, de qualquer coisa que está à nossa volta.
Só que o mais interessante não é como ele nasce. Eu acho que é como ele cresce. Nós cultivamos em nós. Antes da história ser escrita, ela já está sendo vivida, experimentada aqui, nesse mundo interior — rico, vasto, cheio de imaginação. E ela é cultivada.
O importante é isso: que a gente saiba capturar algo — um sentimento, uma visão — e cultivar aqui dentro, para que se torne uma história. O escritor se debruça sobre a história, compõe a história, escreve. Ele vive tudo aquilo. E depois isso se torna num livro.
O livro é um objeto. Está sujeito ao tempo, às intempéries. Se o fogo chegar, vai destruir, vai acabar. Mas ele deixa de ser objeto quando é lido. O leitor revive aquela história e guarda algo dela em si. Então cada leitor vai reviver aquela história.
E mesmo que destruam este livro, o leitor vai guardar o que leu consigo. Algo vai permanecer. E isso é bonito.
Vencedor dos Prémios LeYa, Oceanos e Jabuti, Itamar Vieira Junior foi o primeiro autor brasileiro a chegar à final do International Booker Prize e do Dublin Literary Award. Na Póvoa de Varzim, o autor apresentou Coração Sem Medo, romance que fecha a A Trilogia da Terra, iniciada com o multipremiado Torto Arado e continuada com Salvar o Fogo.

Onde nasce um livro? É um mistério. Nasce em vários lugares ao mesmo tempo.
Mas há duas coisas que estão sempre lá: imaginação e experiência. Combinadas. Não se pode saltar nenhuma delas.
Berta Dávila é uma das principais vozes da literatura galega contemporânea. Autora de poesia e prosa, foi distinguida por duas vezes com o Prémio da Crítica Espanhola. A sua escrita, marcada por uma linguagem depurada, explora a intimidade, a memória e as relações entre literatura e vida. É autora de Esse Lugar (Prémio Xerais) e de A Ferida Imaxinaria (2024), dedicando-se também à edição literária.
Se falarmos do plano físico, nasce no caderno — no meu caderno. Mas, às vezes, surge nos lugares mais inesperados. Aconteceu, por exemplo, com o A Educação Física.
A ideia de transformar coisas que tinha escritas, numa tentativa de recordar o passado, nasceu porque gosto muito de jogos de telemóvel. Havia um, de um verme, de que eu gostava particularmente. Mas, nos anúncios que me apareciam, surgiam constantemente coisas de raparigas: raparigas expulsas de casa pelos maridos, raparigas que tinham de se arranjar para determinadas situações. Sobretudo, apareciam-me jogos em que raparigas tinham de se compor e vestir consoante o contexto.
E, de repente, pensei: que nojo de jogos. Jogos que me aparecem por eu ser mulher. Como se o algoritmo decidisse que o mais importante para mim é vestir uma boneca.
Descarreguei o jogo. Fiquei a observar as propostas que surgiam, a lógica do jogo, o seu funcionamento. E foi assim que nasceu este livro. Aí havia claramente uma confrontação. Pensei: é um jogo que a minha sobrinha joga. Pareceu-me perigoso.
Um livro pode nascer em qualquer lugar. Há um momento em que algo se acende e, a partir daí, o livro já continua noutra direção. Tenho sempre muitos caminhos abertos. Muitas coisas começadas. Mas há sempre uma que se impõe, que diz: é por aqui.
Formada em Belas-Artes, Rosario Villajos trabalhou nas áreas musical, cinematográfica e cultural. Estreou-se com a novela gráfica Face (2017), seguida dos romances Ramona (2019) e La muela (2021). Em 2023, publicou A Educação Física, distinguido com o Prémio Biblioteca Breve e finalista do Prémio Strega Europeu.
Para mim um livro nasce de alguma pergunta que ainda não consigo responder. Junto dos personagens, passo todo o percurso do romance tentando chegar a alguma espécie de solução. Não sei qual será até chegar ao fim. Mas quando chego lá, é tão
surpreendente quanto inevitável. Não sabia que essa era a resposta, mas é claro que desde o começo é a única que poderia ser.
Bruna Dantas Lobato nasceu em Natal, no Brasil, e vive nos Estados Unidos desde 2011. Publicou ficção em revistas como The New Yorker, Guernica e The Common. É tradutora de autores como Caio Fernando Abreu, Jeferson Tenório e Giovana Madalosso, tendo recebido o National Book Award em 2023 pela tradução de A palavra que resta, de Stênio Gardel — tornando-se a primeira tradutora de língua portuguesa distinguida com o prémio. Horas azuis é o seu primeiro romance.

Nasce de um lugar muito concreto.
Orquestra nasceu nas festas — não na da minha terra, mas na da minha mulher. É uma aldeia muito pequena.
Primeiro foi algo físico. Quando a Orquestra estava a fazer o ensaio de som, parecia que a aldeia inteira retumbava. E tive aquela sensação física... Senti o peito a vibrar por dentro, como se o bombo da bateria fosse o meu próprio coração. Pensei: seria incrível que a música pudesse contar uma história.
Nessa mesma noite houve um jantar. As mesas típicas de madeira, com cavaletes, alinhadas na rua, e todos os vizinhos a comer sardinhas.
E, a certa altura, já na sobremesa, quando tínhamos acabado de comer, um homem de cerca de 70 anos desceu a rua vestido de mulher, com lantejoulas, de braço dado com a esposa. E eu percebi claramente que não era apenas uma brincadeira de Carnaval. Vi-o emocionado. Vi que ali estava a acontecer qualquer coisa.
Recordo-o quase em câmara lenta: a descer a rua, as crianças a falarem com ele, a cumprimentar as pessoas da sua geração. Continuava a descer. A filha olhava para ele — a maneira como o olhava. E eu sentia que ali tinha acontecido algo importante.
Passaram-se meses — talvez quase um ano — e perguntei à minha mulher, por curiosidade: como está o avô do Edu? Era aquele homem.
Ela disse-me que tinha morrido. Estava doente. Ninguém sabia, mas já estava doente naquele verão.
E pensei: terá ele estado a despedir-se, fazendo aquilo que verdadeiramente quis fazer durante toda a vida e nunca pôde? Isso levou-me a pensar na aldeia como lugar de encontro, mas também de claustrofobia e de impossibilidade de te manifestares.
Miqui Otero é romancista e jornalista, figura destacada da cultura underground de Barcelona. Leciona Literatura e Jornalismo Criativo e colabora com diversos meios de comunicação. É autor de Hilo musical (Prémio Novo Talento FNAC), La cápsula del tiempo, Rayos — considerado pela crítica um dos grandes romances sobre Barcelona — e Simón, vencedor do Prémio Ojo Crítico de Narrativa e finalista do Prémio Dulce Chacón. O seu mais recente livro, Orquestra, foi recentemente editado em Portugal.
Por Rita Sousa Vieira
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